Différance

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Différance é um termo francês cunhado por Jacques Derrida e homófono à palavra "différence". Différance faz um jogo com o fato de que a palavra francesa différer pode significar tanto "diferir"("postergar" / "adiar", em termos diacrónicos, o que nos remete para uma temporalização, para actividade, para a fala, para o uso, para génese) quanto diferenciar (em termos Saussureanos, onde os termos se determinam reciprocamente, não detendo um significado "em si" mas na relação diferencial que estabelecem com os demais, sincronicamente, o que nos remete para um espaçamento,para passividade, para língua, para esquema, para a estrutura). Derrida usa pela primeira vez o termo différance no seu texto de 1963 "Cogito et histoire de la folie"[1] Schultz e Fried na sua vasta bibliografia do trabalho de Derrida citam esta sentença como sendo onde o termo é apresentado pela primeira vez.[2] . O termo différance exerceu mais tarde um papel-chave nas incursões derridianas na filosofia de Edmund Husserl em La Voix et le phénomène: Introduction au problème du signe dans la phénoménologie de Husserl. O termo foi elaborado em vários outros trabalhos, notadamente no seu ensaio "Différance" e em várias outras entrevistas reunidas em Positions.[3]

Em seu ensaio "Différance" Derrida indica que a différance acontece em um número de características heterogêneas que governam a produção de significado textual. A primeira (relativa ao adiamento) é a noção de que palavras e signos não podem nunca evocar exatamente o que eles significam, mas podem apenas ser definidos através de um apelo a palavras adicionais, das quais diferem. Assim, o significado é sempre adiado ou postergado, através de uma cadeia sem fim de significados. A segunda (relativa à diferença, algumas vezes referida como espacement ou "espaçamento") diz respeito à força que diferencia elementos um do outro, e, ao fazer isto, engendra oposições binárias e hierarquias que sustentam o próprio significado.

Ilustração de différance[editar | editar código-fonte]

Por exemplo, a palavra "casa" deriva seu significado mais como uma função de como se diferencia de "cabana", "mansão", "hotel", "construção", etc. do que como a palavra casa possa estar amarrada a uma certa imagem de uma casa tradicional (ex. a relação entre significante e significado). Não apenas as diferenças entre as palavras são importantes aqui, mas os diferenciais entre as imagens significadas são também cobertas pela différance. O adiamento vem à tona, a partir do momento em que palavras que acompanham "casa" em qualquer expressão irão transformar o significado da palavra, algumas vezes dramaticamente.

Assim, o completo significado é sempre postergado numa linguagem; nunca há um momento em que o significado é completo e total. Um simples exemplo consistiria em procurar uma palavra dada em um dicionário, e depois prosseguir procurando as palavras encontrar naquela definição de palavras, num processo sem fim.

Roland Barthes descreve no seu ensaio "A morte do autor" que a linguagem é um relacionamento contido em si mesmo entre vários significantes. Um símbolo é definido pela sua relação com outros símbolos e estes outros símbolos serão diferentes do primeiro e entre si o quanto eles tiverem uma relação diferente uns com os outros. Mas então, o que são eles neles próprios? Onde está o significado elucidativo no qual eles estão supostos a terminar?

O erro de escrita[editar | editar código-fonte]

O 'a' de différance é um erro de escrita deliberado, embora soe idêntico quando enunciado oralmente. Isto ressalta o fato de que sua forma escrita não é ouvida, e serve para subverter o tradicional privilégio do discurso sobre a escrita, assim como a distinção entre o sensível e o inteligível. A diferença articulada pelo a na differánce não é perceptível aos sentidos sonoros "mas também não pode pertencer à inteligibilidade, à idealidade que não é fortuitamente associada com a objetividade ou com o entendimento."[4] Isto é porque a linguagem do entendimento já é apanhada em sensíveis metáforas ("teoria", por exemplo, em Grego, significa "ver").

Derrida apresentou esta palavra no curso de um argumento contra a fenomenologia de Husserl, que procurou uma análise rigorosa do papel da memória e percepção em nosso entendimento de itens sequenciais como música ou linguagem. A différance de Derrida sugere que por causa do estado mental do observador estar constantemente em um estado de fluxo, e diferir de uma releitura para a próxima, uma teoria geral que descreva este fenômeno é inatingível.

Referências[editar | editar código-fonte]

  • "Speech and Phenomena” and other essays on Husserl’s Theory of Signs, trans. David B. Allison (Evanston: Northwestern University Press, 1973).
  • Of Grammatology (Baltimore: Johns Hopkins University Press, 1998, corrected edition).

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. "The economy of this writing is a regulated relationship between that which exceeds and the exceeded totality: the différance of the absolute excess."(Derrida, J., 1978. Cogito and the History of Madness. From Writing and Difference. Trans. A. Bass. London & New York: Routledge. p. 75.)
  2. (Schultz, W.R. & Fried, L.B., 1992. Jacques Derrida Bibliography. London & New York: Garland. p. 12.)
  3. Speech and Phenomena and other essays on Husserl’s Theory of Signs, trad. David B. Allison (Evanston: Northwestern University Press, 1973), "Différance." Margins of Philosophy, trad. Alan Bass (Chicago & London: Chicago University Press, 1982) and Positions, trans. Alan Bass (Chicago, University of Chicago Press, 1971).
  4. "Différance," Margins of Philosophy, p. 5.

Veja também[editar | editar código-fonte]