Linguística histórica

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Linguística histórica (ou linguística diacrônica) é a disciplina linguística que estuda o desenvolvimento histórico de uma língua - como ela surgiu, quais línguas influenciaram sua estrutura e uso, as mudanças que sofreu ao longo do tempo e o porquê dessas mudanças, etc. Como tal, a linguística histórica ocupa um lugar destacado no estudo da evolução diacrônica das línguas e a sua relação ou parentesco genético. Ao mesmo tempo, a Linguística Histórica se preocupa com a reconstrução de línguas antigas, mortas ou extintas. Nesse aspecto, ela pode se confundir com a Filologia.[1]

Os resultados da linguística histórica podem ser comparados frequentemente aos de outras disciplinas como a história, a arqueologia ou a genética. Nos estudos interdisciplinares deste tipo pretende-se reconstruir a cronologia relativa a contatos entre povos, rotas de expansão e influências culturais mútuas.

O nome linguística comparada, ou gramática comparada, refere-se especificamente a uma das técnicas principais da antiga linguística histórica sincrônica.

Definição do termo[editar | editar código-fonte]

Saussure indica os dois eixos que "todas as ciências deveriam ter interesse em assinalar":

  • 1º O eixo das simultaneidades, concernente às relações entre coisas coexistentes, de onde toda intervenção do tempo se exclui, e
  • 2º O eixo das sucessões, sobre os quais não se pode considerar mais do que uma coisa por vez, mas onde estão situadas todas as coisas do primeiro eixo com suas respectivas transformações." [2]

Segundo o autor, é sincrônico "tudo quanto se relacione com o aspecto estático da nossa ciência; diacrônico tudo que diz respeito às evoluções. Sincronia designa, portanto, "um estado da língua". Diacronia designa "uma fase de evolução".[3] Portanto, "a lingüística diacrônica estuda, não mais as relações entre os termos coexistentes de um estado de língua, mas entre termos sucessivos que se substituem uns aos outros no tempo".[4]

Outra definição parecida para os estudos diacrônicos é a de Carlos Alberto Faraco, que define diacronia como “o estudo da história das línguas”: "Se estudamos as mudanças da língua no tempo (comparando, por exemplo, o português do século XIII com o do século XVI e com o do século XX), estamos fazendo um estudo diacrônico”.[5]

Apesar de ambas as definições serem semelhantes, as pesquisas na área da lingüística diacrônica não possuem a homogeneidade que teoricamente deveriam ter. Há, por exemplo, aspectos conflitantes em duas análises sobre o problema da relação entre os termos pecu e pecúnia. Esses termos aparecem em três grandes dialetos: no indo-iraniano, no germânico e no itálico, e são alvos de dois estudos (Vocabulário das Instituições Indo-Européias (capítulos 3 e 4) de Émile Benveniste, e Ensaio de Semântica, de Michel Bréal) cujas conclusões não são convergentes .

Análise[editar | editar código-fonte]

Émile Benveniste critica o raciocínio utilizado pelos comparatistas, do qual compartilha Michel Bréal. O método comparatista, segundo Faraco [6], tem como ponto de partida a publicação, em 1808, de um texto de autoria de Friedrich Schlegel sobre a língua e a sabedoria dos hindus. Nele, o autor estabelece a tese de parentesco (principalmente entre as estruturas gramaticais) entre o sânscrito, o latim, o grego, o germânico e o persa. Mas foi somente com Franz Bopp que esse parentesco foi empiricamente revelado, e o método comparatista efetivamente criado.[7] Foi ainda através deste mesmo método que os linguistas ditos comparatistas, gramáticos e neogramáticos fizeram a reconstituição hipotética de várias línguas, entre elas o indo-europeu.

Essa abordagem comparatista propõe que o termo pecúnia, no latim, designava então a riqueza em gado; pecu designava gado e peculium, a parte do gado deixada aos escravos. Num processo entendido pelos etimologistas como "ampliação de sentido", o termo pecúnia passou então a designar toda espécie de riqueza. Michel Bréal diz que esse processo é um lento deslocamento de sentido, sendo necessária para sua observação uma profunda análise histórica, e, apesar de julgá-lo como um fenômeno de ocorrência "normal", deveria ocorrer entre povos cuja vida e pensamento são "intensos e ativos".

Benveniste não chega a citar a análise elaborada por Bréal (para contrapor um exemplo, ele prefere o nome de Antoine Meillet), nem mesmo duvida da relação formal entre os três termos em discussão (pecu, pecúnia e peculium); ele apenas aponta um outro viés na forma de entendê-la. A análise proposta por Emile Benveniste situa-se dentro do paradigma estruturalista. O Estruturalismo, segundo Faraco, pode ser definido como:

"Um conjunto de diferentes elaborações teóricas, que compartilham uma concepção imanentista da linguagem verbal (isto é, a linguagem assumida como um objeto autônomo, definido por relações puramente linguísticas, internas), concepção essa cujas coordenadas básicas encontram suas origens próximas no trabalho de Saussure, no início do século XX" (Faraco op. cit., p. 98).

O estruturalismo foi permeando várias outras ciências e seu método foi dando vários frutos. Um dos maiores expoentes do estruturalismo foi, sem dúvida, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss. O método estruturalista consiste em se desmontar o objeto recortado e remontá-lo, visando entender suas relação internas, as leis ou regras que regem a sua constituição e o seu funcionamento. Assim sendo, temos na lingüística as grandes dicotomias saussurianas, que servem, antes de tudo, para delimitar corretamente o objeto e abordá-lo sob essa perspectiva, desmontando-o entre essas dicotomias e posteriormente montando-o mais uma vez. Fazendo uso desse cabedal conceitual, Émile Benveniste analisa separadamente os termos que derivaram de pecu, apresentando primeiramente o termo pecunia, e em seguida uma análise do termo peculium:

  1. Pecunia: Benveniste afirma que se o derivado pecunia significa exclusivamente fortuna, dinheiro, é porque o termo de base pecu se remete somente a um valor econômico, e significa "posse móvel". Somente desta forma é que pecúnia adquire um sentido constante na história. O autor diz ainda que a errônea interpretação desses termos deve-se às noções inexatas que foram transpostas pelos primeiros latinos e, posteriormente, à "ingênua tradução" de pecunia como "riqueza em gado", feita pelos modernos.
  1. Peculium: A análise de Benveniste para o termo peculium é análoga à anterior, contudo, este termo encontra-se mais distante de pecu do que o termo pecunia. Sabe-se que peculium designa a posse concedida aos escravos. Porém, a noção de posse está restrita a bens móveis(geralmente dinheiro e carneiros). Benveniste diz ainda, que "não nos cabe [aos lingüistas] indagar por que 'peculium' se remete às economias do escravo e 'pecúnia' à fortuna do senhor; este é um problema da história das instituições, e não da forma lingüística. O autor deixa bem claro aqui o seu recorte do objeto, retirando de seus estudos o que se refere à história das instituições e restringindo-se aos estudos lingüísticos.

Enquanto Michel Bréal aponta a profunda importância da história das instituições para os estudos da lingüística diacrônica, Benveniste indica o caminho contrário. A posição de Bréal já é explicitada logo na introdução do capítulo XI de seu Ensaio de Semântica, quando ele diz:

"Causas da ampliação de sentido. Os fatos de ampliação de sentido são igualmente informações para história. Eles são uma conseqüência do progresso do pensamento".

Sua forma de análise diacrônica já se distingue em relação a Benveniste quando conclui que pecu significa "posse móvel pessoal", e que o fato de tal posse ser "representada pelo gado, seria um outro dado, que diz respeito à estrutura social e às formas de produção. Desta forma 'pecu' designaria inicialmente a posse móvel. Esse, por razões que não cabem à lingüística serem estudadas, é freqüentemente aplicado à posse de gado; e posteriormente à espécie de gado predominante, o carneiro".


Referências

  1. Linguística Histórica - O passado das línguas e as línguas do passado, por Francisco Edmar Cialdine Arruda. Revista Língua Portuguesa, ed. 24.
  2. SAUSSURE, op.cit. p. 95.
  3. SAUSSURE, op.cit., p. 96
  4. "Diacronia". In SAUSSURE, op.cit.
  5. FARACO, Carlos A. Lingüística Histórica, uma introdução ao estudo da história das línguas. São Paulo: Editora Ática., 1998, p. 129.
  6. FARACO op. cit., pp. 84-85
  7. Contribuição do Método Comparativo para a Determinação da Existência do Indo-Europeu, por João Bittencourt de Oliveira.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


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