Iúçufe I de Granada

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Iúçufe I
Emir ou rei de Granada
COA of Nasrid dynasty kingdom of Grenade (1013-1492).svg
Brasão do Reino de Granada
Reinado 13331354
Antecessor(a) Maomé IV
Sucessor(a) Maomé V
Dinastia Nasridas
Nascimento 29 de junho de 1318
Morte 19 de outubro de 1354 (36 anos)
  Granada
Filho(s) Maomé V, Ismail II
Pai Ismail I
Porta da Justiça da Alhambra, Granada, construída durante o reinado de Iúçufe I

Abu Alhajaje Niar Almuíde Bilá Iúçufe ibne Ismail (Abu al-Hajjaj an-Nyyar al-mu'wid bi-llah Yusuf I ben Isma`il), ou simplesmente Iúçufe I[1] e cognominado Niar ["o deslumbrante"] (29 de junho de 131819 de outubro de 1354) foi o sétimo rei nasrida Granada, que reinou desde 1332 ou 1333 até à sua morte em 1354.

Era filho de Ismail I e irmão mais novo de Maomé IV, a quem sucedeu depois deste ser assassinado.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Quando Iúçufe ascende ao trono em 1333, o sultão merínida de Fez era, desde 1331, Abu Haçane Ali, que tendo estabilizado a situação interna no seu reino, tinha planos de expansão. O rei Afonso XI de Castela, tendo alcançado a maioridade em 1327, empreende a retoma da Reconquista. Sentindo-se ameaçados pelos Merínidas, os Castelhanos aliam-se ao Reino de Aragão para os combaterem.

O Reino nasrida de Granada estava então no seu apogeu no comércio e nas artes. A aliança com os Merínidas e as boas relações com a República de Génova e com Aragão tinham impulsionado o comércio. Não obstante a ameaça permanente, a independência em relação aos Castelhanos estava firme.

Iúçufe tinha apenas quinze anos quando tomou o poder. Segundo o retrato descrito pelo seu vizir ibne Alcatibe, o jovem monarca impunha-se pela sua dignidade e pelo seu porte principesco, pela sua inteligência e perspicácia, que lhe permitiam resolver os problemas mais difíceis.

Durante o seu reinado, Granada raramente esteve em paz com os vizinhos cristãos. Depois dum período de paz de quatro anos negociado com Afonso XI de Castela, em 1337, este e os Merínidas preparam-se para a guerra pelo controlo de Gibraltar. Iúçufe apela ao apoio dos Merínidas para deter os Castelhanos. O sultão Abu Haçane não se mostra inclinado a deixar-se manipular pelos Nasridas, que tinham invertido as suas alianças várias vezes no passado. Apesar disso, atravessa o estreito de Gibraltar para se apoderar de Algeciras. Uma batalha naval precedeu os combates em terra. A esquadra merínida foi reforçada por 16 navios enviados pelo Reino Haféssida da Ifríquia. A 5 de abril de 1340, Abu Haçane entra na baía de Algeciras e vence a frota castelhana do almirante Alonso Jofre Tenorio, que morre em combate.

Guerras[editar | editar código-fonte]

Derrota no rio Salado e cerco de Algeciras[editar | editar código-fonte]

Juntamente com tropas nasridas, Abu Haçane Ali montou cerco a Tarifa. A cidade está bem defendida, contando com o reforços dum exército de 35 000 homens formado por tropas castelhanas, aragonesas e portuguesas (o rei Afonso IV de Portugal era cunhado de Afonso XI de Castela). Por sua vez, uma frota catalã desbloqueia a cidade pelo lado marítimo. A batalha do Salado tem lugar nas margens do rio Salado a 30 de outubro de 1340 e salda-se na maior vitória dos reis cristãos ibéricos desde a batalha de Navas de Tolosa travada em 1212. Os Merínidas retiram-se com dificuldade para Marrocos.

No final de 1340, Afonso X montou cerco a Calate ibne Saíde (Alcalá la Real), que fazia de escudo defensivo de Granada com o Reino de Xaém e de porto seco de controlo duma importante rota comercial. Nem Iúçufe nem o seu grão-vizir, o cristão renegado Ridwan, nem tão-pouco Ozmín, o general dos "defensores da fé" africanos, conseguiram fazer cair as tropas cristãs nas várias armadilhas que lhes montaram na Veiga de Granada, na Serra Elvira e nos arredores de Hins al-Muklín (Moclín). Alcalá la Real acabou por capitular a 15 de agosto de 1341, tendo os seus habitantes sido transladados para Moclín para prevenir o seus desejos de vingança.

Em 1342, os Castelhanos iniciam um cerco a Algeciras, com o apoio de cavaleiros ingleses e franceses. O cerco durará 20 meses e termina com a tomada da cidade a 26 de março de 1344.

A peste negra salva Gibraltar[editar | editar código-fonte]

Em agosto de 1349, Afonso XI de Castela cerca Gibraltar, mas a epidemia de peste negra que tinha chegado a Espanha em 1348 devasta as tropas cristãs e provoca a morte do rei castelhano em março de 1350, o que leva os Castelhanos a levantar o cerco. Gibraltar irá continuar em mãos muçulmanas durante mais 112 anos. Apesar de não ter logrado conquistar Gibraltar, Afonso XI conseguiu rechaçar definitivamente os Merínidas, deixando para os seus sucessores a tarefa de acabarem com os Nasridas. Iúçufe I negocia com Castela uma trégua de dez anos.

Outros aspetos do seu reinado[editar | editar código-fonte]

Interior da Madraça de Granada (Yusufiyya), mandada construir por Iúçufe I

Iúçufe viu fracassar as suas tentativas de apelo à solidariedade muçulmana para obter apoio na sua luta contras os vizinhos cristãos. Por exemplo, quando se dirige ao sultão mameluco barita do Egito Sale Imade Adim Ismail para pedir ajuda na luta contra os Castelhanos, o sultão egípcio recusa-se enviar uma expedição militar a pretexto de precisar de defender as suas próprias fronteiras ameaçadas pelos cristãos, apesar de não haver quaisquer evidências de tais ameaças e limita-se a manifestar votos a favor da vitória de Granada.

Iúçufe recebia os seus súbditos publicamente todas as segundas-feiras e quintas-feiras, para ouvir os seus problemas. Em ocasiões solenes, presidia às atividades da corte sentado numa poltrona desdobrável que atualmente se encontra no Museu da Alhambra e que ostentam as armas dos Nasridas nas costas.

Na primavera de 1347, Iúçufe levou a cabo uma inspeção das fronteiras orientais do seu reino. Ibne Alcatibe, que o acompanhou, descreveu as cidades visitadas de Guadix, Baza, Purchena e Vera. Seguidamente, o cortejo dirigiu-se a Almeria, e volta a Granada passando por Pechina, Marchena, Fiñana.

Iúçufe I foi assassinado quando rezava na Grande Mesquita de Granada no dia do fim do jejum do Ramadão (Eid ul-Fitr), sendo sucedido pelo seu filho Maomé V, então com 16 anos. Segundo algumas fontes, o assassino era um membro da sua guarda pessoal, outras fontes relatam que um louco apareceu subitamente pelas costas e cravou-lhe uma adaga no peito. Os guardas e cortesãos foram alertados pelos gritos do rei e acorreram a assisti-lo. Encontraram-no banhado em sangue. Fez alguns sinais como se quisesse falar, mas as suas palavras foram ininteligíveis. Levaram-no para os aposentos reais, onde morreu quase imediatamente.

Família[editar | editar código-fonte]

O Palácio de Comares, no interior da Alhambra, cuja construção foi iniciada no reinado de Iúçufe I
O pavilhão do Portal, na Alhambra

Iúçufe teve duas esposas. A primeira, Butaina, era uma antiga escrava que foi a mãe do seu herdeiro Maomé V quando Iúçufe tinha vinte anos e uma filha chamada Aixa. A segunda esposa, Maryem, era também uma escrava e foi mãe de sete filhos: Ismail II, que nasceu nove meses depois de Maomé, Cais e cinco filhas chamadas Fátima, Mumina, Cadija, Xamece e Zainabe. A mais velha casou com um primo que viria a reinar como Maomé VI. Diz-se que Maryem era mais influente que Butaina e que Iúçufe favoreceu o seu filho Ismail em relação aos outros filhos, o que viria a ter consequências anos mais tarde.

Herança[editar | editar código-fonte]

O reinado de Iúçufe I foi uma das épocas de maior esplendor do Reino de Granada. Nos monumentos da sua capital ainda hoje perduram os vestígios do esplendor desse tempo, principalmente nos interiores. Foi durante o reinado de Iúçufe I que foi construído o palácio de Comares, na Alhambra, uma das obras-primas da arquitetura andalusina.[nt 1] Em 1349 é inaugurada La Madraza ("a madraça"), também chamada Casa da Ciência ou Yusufiyya, considerada a primeira universidade de Granada. Outros edifícios erigidos durante o reinado de Iúçufe I são as torres do Cádi, da Cativa, de Comares, Quebrada, as portas da Justiça (1348), da Alberca (ou dos sete chãos) e o oratório do Partal, todas na Alhambra, onde também foram reformados os balneários real e do Mexuar.[2] Na zona urbana também foram levadas a cabo várias obras.

Testemunho de ibne Batutae[editar | editar código-fonte]

Em 1351, quando morre o sultão merínida Abu Haçane Ali, o viajante marroquino ibne Batuta empreende uma das suas últimas viagens, cruzando o estreito de Gibraltar para visitar o Alandalus. Deixa apenas algumas notas dessa viagem:

Saí de Gibraltar para ir até Ronda , uma das cidadelas muçulmanas melhor fortificadas e situadas. […] Aí fiquei cinco dias, seguindo depois para Marbella tomando uma estrada difícil e muito escarpada; Marbella é uma pequena cidade, bela e rica.

Na sua viagem ibne Batuta escapa a um rapto. Quatro navios cristãos abordam a costa perto de Sohail (próximo a Fuengirola) e os marinheiros raptam vários cavaleiros que deviam viajar com ibne Batuta, que se refugia em Sohail. No dia seguinte parte para Málaga escoltado pelo comandante da fortaleza de Sohail.

Fabricam-se em Málaga cerâmicas douradas soberbas, que são exportadas para os países mais distantes. A mesquita é muito ampla e é famosa pela sua bênção. Tem um pátio cuja beleza não tem par e onde crescem laranjeiras-azedas muito altas. […] Saí de Málaga para Ballîsh, a uma distância de 24 milhas. É uma bela cidade com uma mesquita soberba. Produz uva, frutas e figos como Málaga. Dirigimo-nos para Alhama uma cidadezinha cuja mesquita está bem situada e magnificamente construída. Ali se encontra uma fonte quente na margem do rio, à distância duma milha da cidade onde se erguem dois estabelecimentos de termas, um para os homens e outro para as mulheres.

Parti depois para Granada, capital da Andaluzia e a sua cidade mais bela. Os seus arredores não têm paralelo no mundo. […] A cidade é rodeada de jardins, pomares, prados, palácios e vinhas. Uma das localidades mais bonitas é a Fonte das Lágrimas, uma montanha com hortas e pomares que não se vêm em mais nenhuma parte.
[…]
Quando cheguei a Granada, ali exercia o poder o sultão Abu Alhajaje Iúçufe, filho do sultão Ualide Ismail ibne Farje ibne Ismail ibne Iúçufe ibne Nácer. Não consegui encontrar-me com ele porque ele estava doente. A sua mãe, nobre, piedosa e virtuosa, enviou-me alguns dinares que me foram muito úteis.

Notas[editar | editar código-fonte]

  1. O gentílico andalusino designa aquilo que é relativo ao Alandalus, ou seja, ao período de domínio muçulmano da Península Ibérica, enquanto que o termo "andaluz" se aplica ao que se relaciona com a região atualmente chamada Andaluzia.

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. Alves, Adalberto (2013), «Iúçufe», Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa, ISBN 9789722721790, Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Instituto Camões, p. 571, consultado em 31 de maio de 2014 
  2. Díez Jorge, María Elena, La Alhambra y el Generalife, guía histórico-artística, ISBN 84-338-3951-9 (em espanhol), Universidade de Granada e Consejería de Innovación, ciencia y empresa 
Precedido por
Maomé IV
Rei de Granada
1332-1354
Sucedido por
Maomé V