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Ibne Batuta

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Ibne Batuta
ابن بطوطة
Dois homens de turbante observam ruínas do Egito, o homem à direita é Ibne Batuta
Interpretação visual de Ibne Batuta numa gravura europeia de 1878, de Léon Benett
Outros nomes"Marco Polo islâmico"[1]
Conhecido(a) porRihla
Nascimento
Morte
1368 ou 1369, aos 64 ou 65 anos[2]

Ocupaçãoviajante, geógrafo, explorador, estudioso e cádi

Ibne Batuta, nascido em Tânger, no Marrocos, em 24 de fevereiro de 1304, e morto em 1368 ou 1369, foi um viajante muçulmano marroquino com formação jurídica. Estudou o direito maliquita, deixou sua cidade aos 21 anos e passou quase três décadas em viagem. Entre 1325 e 1354, atravessou grande parte da África e da Ásia, além da Península Ibérica, num itinerário tradicionalmente calculado em cerca de 120.000 quilômetros.[2][3][4]

A viagem nasceu de uma peregrinação a Meca, mas Ibne Batuta não voltou para casa quando o rito terminou. Seguiu pelas rotas terrestres e marítimas do Norte da África, do Oriente Médio, da África Oriental e da Ásia. A narrativa também o leva até a China, numa das etapas mais discutidas de seu percurso. Depois de voltar ao Marrocos, visitou o reino muçulmano de Granada e cruzou o Saara até o Império do Mali.[5]

Como jurista maliquita, Ibne Batuta trabalhou como cádi no Sultanato de Deli e nas Maldivas, onde circulou entre estudiosos e governantes. O sultão de Deli também lhe confiou uma missão diplomática para a China. Fora das cortes, enfrentou roubos, naufrágios, guerras e a Peste Negra. Ao escrever sobre os povos que encontrou, alternou curiosidade e admiração com julgamentos ligados à sua formação religiosa e à sua posição social.[6]

Depois de regressar ao Marrocos em 1354, ditou o relato de suas viagens a Ibne Juzai, que organizou e redigiu a narrativa por pedido do sultão merínida. O livro, conhecido como Rihla, acompanha peregrinações, cidades, cortes, portos e caminhos comerciais pelo olhar pessoal de um jurista muçulmano.[7]

A Rihla foi ditada de memória e incorpora passagens de obras anteriores, por isso nem todos os trajetos podem ser aceitos como experiências pessoais.[8] Há dúvidas sobre viagens a lugares como Bolgar e a China, enquanto documentos independentes confirmam partes de sua cronologia.[9][10] Copiada em manuscritos e publicada em línguas europeias a partir do século XIX, a obra é lida como narrativa de aventura e como fonte histórica que precisa ser comparada com outros documentos.[7] Ibne Batuta também se tornou personagem de livros e filmes, e seu nome foi dado a um museu, a espaços públicos e a uma cratera da Lua.

Grupo de peregrinos medievais com roupas coloridas, alguns montados em camelos
Uma miniatura das Macamas de Hariri mostra o ambiente das peregrinações medievais. A formação religiosa e a intenção de cumprir a haje deram início às viagens de Ibne Batuta

"Ibne Batuta"[nota 1] é um patronímico[nota 2] que significa literalmente "filho da patinha".[11] A forma mais comum de seu nome completo é Abu Abedalá Maomé ibne Batuta.[2] O nome completo usado na Rihla[nota 3] é "Xameçadim Abu Abedalá Maomé ibne Abedalá ibne Maomé ibne Ibraim ibne Maomé ibne Iúçufe Aluati Atanji ibne Batuta".[12][13][2]

Primeiros anos

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Em Tânger,[nota 4] no dia 24 de fevereiro de 1304, Ibne Batuta nasceu sob o governo da dinastia merínida, em uma família de estudiosos do direito islâmico,[nota 5] conhecidos como cádis na tradição muçulmana marroquina.[14] De origem berbere arabizada,[nota 6][4][15] sua família pertencia a um clã da tribo dos leuatas.[16] Quando jovem, teria estudado em uma escola de jurisprudência sunita maliquita,[nota 7] a vertente de ensino predominante no norte da África naquela época.[17] Comunidades muçulmanas maliquitas lhe pediram que atuasse como juiz religioso por ele vir de uma região em que essa escola jurídica era praticada.[18] As poucas informações sobre seus primeiros anos vêm das passagens autobiográficas da Rihla.[12]

O itinerário tradicional reconstruído a partir da Rihla soma cerca de 120.000 quilômetros,[nota 8] uma estimativa que reúne até mesmo os percursos cuja realização é contestada. A extensão calculada é cerca de três vezes a atribuída às viagens de Marco Polo e supera os aproximadamente 50.000 quilômetros das expedições de Zheng He.[19][20][21][4][22]

Itinerário, 1325–1332

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Primeira peregrinação

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Em 2 de rajabe de 725 da Hégira[nota 9] (14 de junho de 1325), Ibne Batuta deixou sua cidade natal aos 21 anos para realizar a haje, a peregrinação a Meca, num percurso que lhe tomaria cerca de dezesseis meses. Ansioso para conhecer terras distantes e em busca de aventura, só voltaria ao Marrocos 24 anos depois.[23]

“ Parti sozinho, sem companheiro de viagem cuja presença me alegrasse nem caravana à qual pudesse me juntar, movido por um impulso irresistível e por um desejo havia muito acalentado de visitar esses ilustres santuários. Decidi então deixar meus entes queridos, mulheres e homens, e abandonei meu lar como os pássaros abandonam os ninhos. Meus pais ainda estavam vivos. Separar-me deles pesou muito sobre mim, e tanto eles como eu sofremos com essa separação.[24] ”

Seguiu por terra até Meca, acompanhando a costa norte-africana através dos sultanatos abedaluádida e hafécida. A rota passou por Tremecém, Bugia e Tunes, onde permaneceu por dois meses.[25] Por segurança, costumava integrar uma caravana[nota 10] para diminuir o risco de assalto. Casou-se em Esfax, mas logo deixou a esposa após uma desavença com o pai dela. Foi o primeiro casamento de uma longa sequência ao longo de suas viagens.[26]

Azulejo azul e branco com a Caaba ao centro da Grande Mesquita de Meca
A Caaba, representada neste azulejo otomano do século XVII, era o destino da peregrinação com que Ibne Batuta iniciou sua viagem. Depois da primeira haje, ele decidiu não regressar imediatamente ao Marrocos

No início da primavera de 1326, depois de percorrer mais de 3.500 km, Ibne Batuta chegou ao porto de Alexandria, então parte do império mameluco da dinastia bárida.[nota 11] Ali conheceu dois ascetas piedosos.[nota 12] Um deles, o xeque Burhanuddin,[nota 13] teria previsto seu destino como viajante do mundo e lhe dito: "Parece-me que você gosta de viajar por terras estrangeiras. Visite meu irmão Fariduddin na Índia, Rukonuddin em Sinde e Burhanuddin na China, e leve-lhes minhas saudações". Outro religioso, o xeque Murshidi, interpretou um sonho de Ibne Batuta como sinal de que ele estava destinado a viajar pelo mundo.[27][28]

Após passar semanas visitando lugares da região, rumou para o interior, até o Cairo, capital do Sultanato Mameluco do Cairo. Depois de cerca de um mês na cidade,[29] iniciou o primeiro de muitos desvios em território mameluco, onde havia relativa segurança. Das três rotas habituais para Meca, escolheu a menos percorrida: subir o vale do rio Nilo e então seguir para leste, até Aidabe, porto situado na costa ocidental do mar Vermelho, em 22° 19′ 51″ N, 36° 29′ 25″ L.[30] Ao se aproximar da cidade, porém, uma rebelião local o obrigou a retornar.[31]

Ibne Batuta voltou ao Cairo e tomou uma segunda rota indireta, desta vez rumo a Damasco, então sob domínio mameluco. Em sua primeira viagem, encontrara um homem santo que profetizara que ele só chegaria a Meca se passasse pela Síria.[32] O desvio tinha outra vantagem: como a rota atravessava lugares sagrados, entre eles Hebrom, Jerusalém e Belém, as autoridades mamelucas a mantinham segura para os peregrinos. Sem essa proteção, muitos viajantes seriam assaltados e mortos.[33][nota 14]

Depois de passar em Damasco o mês muçulmano do Ramadã, que naquele ano caiu em agosto, juntou-se a uma caravana que seguiria 1.300 km para o sul até Medina, onde fica a mesquita do profeta islâmico Maomé. Permaneceu quatro dias na cidade e então continuou até Meca, visitando lugares sagrados pelo caminho. Ao chegar, em novembro, concluiu sua primeira peregrinação e recebeu o tratamento honorífico de haji.[nota 15] Em vez de voltar para casa, resolveu continuar a viagem e escolheu como destino seguinte o Ilcanato, um canato mongol a nordeste.[nota 16][34][35]

Iraque e Irã

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Santuário iluminado à noite, com cúpula e dois minaretes dourados, diante de uma praça com visitantes
O Santuário do Imã Ali, em Najafe, marcou uma das primeiras grandes paradas de Ibne Batuta depois de sua primeira peregrinação a Meca

Em 17 de novembro de 1326, depois de passar um mês em Meca, Ibne Batuta juntou-se a uma grande caravana de peregrinos que voltavam ao Iraque pela Península Arábica.[36] O grupo seguiu para o norte até Medina e depois, viajando à noite, virou para nordeste, atravessou o planalto do Négede e chegou a Najafe após cerca de duas semanas. Ali, Ibne Batuta visitou o mausoléu de Ali,[nota 17] o quarto califa ortodoxo.[37]

Em vez de continuar até Bagdá com a caravana, fez um desvio de seis meses pelo Irã. De Najafe, viajou a Uacite e seguiu o rio Tigre para o sul, até Baçorá. Seu destino seguinte foi Ispaã, depois de cruzar a cordilheira de Zagros. Dali rumou para Xiraz, cidade grande e próspera que escapara da destruição causada pelos invasores mongóis em muitas localidades mais ao norte. Atravessou novamente as montanhas e chegou a Bagdá em junho de 1327.[38] Partes da cidade ainda estavam em ruínas devido aos danos provocados pelo exército invasor de Hulagu Cã, em 1258.[39]

Em Bagdá, encontrou Abuçaíde Baadur Cã, o último governante mongol do Ilcanato unificado, quando ele deixava a cidade rumo ao norte com uma grande comitiva.[40] Ibne Batuta acompanhou a caravana real por algum tempo e depois tomou a Rota da Seda para o norte, até Tabriz. Essa fora a primeira grande cidade da região a abrir os portões aos mongóis e se tornara um centro comercial movimentado depois que a maioria das cidades rivais próximas foi arrasada pelos invasores.[41]

Provavelmente em julho, partiu de volta para Bagdá, mas antes fez uma excursão para o norte ao longo do Tigre. Visitou Mossul, onde foi hóspede do governador do Ilcanato,[42] e depois as cidades de Cizre (Jazirat ibne Omar) e Mardim, na atual Turquia. Em um eremitério[nota 18] numa montanha perto de Sinjar, conheceu um místico curdo que lhe deu algumas moedas de prata.[nota 19][43] De volta a Mossul, integrou uma caravana secundária de peregrinos que seguia ao sul para Bagdá, onde o grupo encontraria a caravana principal que cruzava o deserto da Arábia até Meca. Com diarreia, chegou à cidade fraco e exausto para sua segunda haje.[44]

Casas-torre de tijolos e ornamentos brancos erguem-se densamente na Cidade Velha de Saná
A Cidade Velha de Saná integra o itinerário narrado na Rihla, embora a visita seja contestada.[45]

A permanência de Ibne Batuta em Meca teria se estendido de setembro de 1327 ao outono de 1330, cerca de três anos, mas as contradições internas da cronologia tornam possível uma partida depois da haje de 1328.[nota 20]

Depois da haje, em 1328 ou 1330, dirigiu-se a Gidá, porto da costa do mar Vermelho. Dali seguiu o litoral em uma série de pequenas embarcações chamadas jalbah,[nota 21] feitas de tábuas de madeira costuradas, avançando lentamente contra os ventos predominantes de sudeste. Já no Iêmen dos raçúlidas, visitou Zabide e depois a cidade montanhosa de Taiz, onde conheceu o rei da dinastia, o maleque[nota 22] Mujaíde Noradim Ali. Ibne Batuta também afirma ter visitado Saná, mas há dúvidas de que isso tenha ocorrido.[45] É mais provável que tenha seguido diretamente de Taiz para o movimentado porto comercial de Adem, onde chegou no início de 1329 ou de 1331.[46]

Pequenas embarcações repousam na água diante da orla baixa e árida de Zeilá
O porto de Zeilá foi a entrada de Ibne Batuta na região que os geógrafos árabes medievais chamavam de "Terra dos Berberes"

De Adem, Ibne Batuta embarcou para Zeilá, na costa da Somália. Depois seguiu até o Cabo Guardafui, mais ao sul no litoral somali, permanecendo cerca de uma semana em cada lugar. Visitou então Mogadíscio, a principal cidade da "Terra dos Berberes" (بلد البربر, Balad al-Barbar), nome árabe medieval das regiões habitadas por somalis.[47][48][49]

Quando Ibne Batuta chegou, por volta de 1331, Mogadíscio vivia o auge de sua prosperidade e lhe pareceu "uma cidade imensamente grande", com muitos mercadores ricos e um tecido de alta qualidade exportado para outros países, entre eles o Egito.[50] A cidade era governada pelo sultão somali Abu Becre ibne Xeique Omar.[51][52] Na Rihla, o sultão tem pele escura, fala somali como língua materna e também é fluente em árabe.[53][52][54] O governante mantinha uma comitiva de vizires,[nota 23] juristas, comandantes, eunucos reais e outros funcionários à sua disposição.[52]

Costa suaíli

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Ruínas de arcos e paredes de pedra coralina da Grande Mesquita de Quiloa
A Grande Mesquita de Quiloa foi ampliada no início do século XIV, quando a cidade recebia mercadores do oceano Índico

Ibne Batuta continuou de navio para o sul, até a costa suaíli,[nota 24] região então conhecida em árabe como Bilad al-Zanj ("Terra dos Zanje").[nota 25][55] Fez uma parada de uma noite na cidade insular de Mombaça.[56] Embora relativamente pequena na época, Mombaça ganharia projeção no século seguinte.[57] Depois de seguir pela costa, chegou à cidade insular de Quiloa, na atual Tanzânia,[58] que se tornara um entreposto do comércio de ouro.[59] Quiloa lhe pareceu "uma das cidades mais belas e bem construídas. Todos os edifícios são de madeira, e as casas têm telhados de junco dīs".[60]

Ibne Batuta esteve no Sultanato de Quiloa em 1331, ou no início de 1332, e elogiou a humildade e a devoção de seu governante, o sultão Alhaçane ibne Solimão, descendente do lendário Ali ibne Alhaçane Xirazi.[61] Na Rihla, a autoridade do sultão alcançava Melinde, ao norte, e Inhambane, ao sul. A construção do palácio de Husuni Kubwa e a grande ampliação da Grande Mesquita de Quiloa, feita de pedra coralina, datam do início do século XIV e coincidem com o reinado de Alhaçane.[nota 26][62] Quando os ventos da monção[nota 27] mudaram, retornou de navio à Arábia, passando primeiro por Omã e pelo estreito de Ormuz e depois seguindo a Meca para a haje de 1330 ou 1332.[63]

Itinerário, 1332–1347

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Mapa centrado na Ásia, com linhas vermelhas e verdes ligando pontos pretos entre a Anatólia, o mar Negro, a Ásia Central, a Índia, o Sudeste Asiático e a China
Itinerário de Ibne Batuta entre 1332 e 1346. As linhas mostram os trechos de ida e retorno, e os pontos assinalam as paradas mencionadas no mapa

Anatólia

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Depois de sua terceira peregrinação a Meca, Ibne Batuta decidiu procurar emprego junto a Maomé ibne Tugluque, sultão de Deli. No outono de 1330, ou de 1332, partiu para a Anatólia, onde a autoridade seljúcida havia se fragmentado entre principados turcos,[nota 28] a fim de seguir por terra até a Índia.[64] Atravessou o mar Vermelho e o Deserto Oriental até o vale do rio Nilo e então rumou para o norte, em direção ao Cairo. Dali cruzou a Península do Sinai até a Palestina e voltou a viajar para o norte, passando por algumas das cidades que visitara em 1326. No porto sírio de Lataquia, ele e seus companheiros embarcaram em um navio genovês[nota 29] que os levou a Alânia, na costa sul da atual Turquia.[65][66]

Em seguida, viajou para oeste ao longo da costa, até o porto de Antália.[67] Na cidade, conheceu membros de uma das associações semirreligiosas de jovens artesãos chamadas fityan,[nota 30] comuns nas cidades anatólias dos séculos XIII e XIV. Cada grupo era chefiado por um líder que recebia o título de akhi[nota 31] e se especializava em acolher viajantes.[68] Ibne Batuta ficou muito impressionado com a hospitalidade recebida e depois se hospedaria nos albergues dessas associações em mais de 25 cidades da Anatólia.[69] De Antália, seguiu para o interior até Eğirdir, capital dos hamídidas, onde passou o Ramadã de junho de 1331 ou maio de 1333.[70]

Retrato medieval de Andrónico III com coroa e manto, segurando um documento
O possível encontro com Andrónico III Paleólogo, no fim de 1332, marcou a primeira viagem para além das fronteiras do mundo islâmico

O itinerário da Rihla leva Ibne Batuta de Eğirdir para oeste, até Milas, e depois 420 km para leste, novamente por Eğirdir, até Cônia. Daí, ele teria seguido para leste até Erzurum e recuado 1.160 km até Birgi, ao norte de Milas.[71] As distâncias e os recuos tornam improvável a ordem apresentada, embora as cidades da Anatólia central possam ter sido visitadas.[72][nota 32]

Quando Ibne Batuta chegou a Isnique, a cidade acabara de ser conquistada por Orhan, sultão do Beilhique Otomano. Orhan estava ausente, e sua esposa comandava os soldados estacionados nas proximidades. Ela lhe pareceu "uma mulher piedosa e excelente" e o tratou com honra, hospedou-o e lhe enviou presentes.[73]

Sobre Orhan, Ibne Batuta escreveu:[74]

“ O maior dos reis dos turcomanos e o mais rico em bens, terras e forças militares. Possui quase cem fortalezas e passa a maior parte do tempo percorrendo-as, permanecendo alguns dias em cada uma para pô-la em ordem e examinar seu estado. Diz-se que jamais permaneceu um mês inteiro em uma só cidade. Também combate continuamente os infiéis e os mantém sob cerco. ”
 
— Ibne Batuta.

Bursa, então capital do beilhique otomano, pareceu-lhe uma cidade grande, com belos bazares, ruas largas, jardins e fontes correntes.[75]

No Beilhique de Aidim,[nota 33] o governante lhe deu um dos vinte escravos gregos mantidos à entrada do palácio.[73] Foi a primeira vez, durante as viagens, que recebeu uma pessoa escravizada para seu serviço. Depois, comprou uma jovem grega por quarenta dinares em Éfeso, recebeu outra escrava do sultão em Esmirna e comprou uma segunda jovem em Balequessir. As compras e os presentes aumentaram os sinais externos de riqueza e prestígio que levava consigo.[76]

Ásia Central

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Camelo-bactriano de duas corcovas diante de um grande mausoléu revestido de azulejos
Os camelos-bactrianos sustentavam as caravanas pelas rotas terrestres da Ásia Central, como as que levaram Ibne Batuta entre as cortes da Horda Dourada e do Canato de Chagatai

De Sinope, tomou uma rota marítima até a Crimeia, dentro dos domínios da Horda Dourada. Seguiu para a cidade portuária de Azove, onde se encontrou com o emir do cã,[nota 34] e depois para a rica cidade de Majar. Dali partiu ao encontro da corte itinerante de Usbeque Cã, a orda,[nota 35] que se encontrava nas proximidades do monte Bestau. O itinerário da Rihla segue então até Bolgar, seu ponto mais setentrional, onde as noites de verão seriam extraordinariamente curtas em comparação com as regiões subtropicais. Depois, Ibne Batuta teria retornado à corte do cã e acompanhado-a até Astracã. Essa etapa é uma das mais contestadas do relato, pois o tempo disponível e a descrição geográfica dificultam a reconstrução do percurso.[77][78][79]

Em Bolgar, Ibne Batuta quis seguir ainda mais ao norte, até a chamada "terra da escuridão".[nota 36] Identificada com o norte da Sibéria, essa região ficaria coberta de neve durante todo o ano, e o único meio de transporte seriam trenós puxados por cães. Ali viveria um povo misterioso, que evitava mostrar-se e comerciava com os povos do sul de uma maneira peculiar. À noite, mercadores meridionais deixavam mercadorias em uma área aberta sobre a neve e regressavam às tendas. Na manhã seguinte, encontravam os produtos recolhidos e, em troca, peles usadas na confecção de casacos e outras roupas de inverno valiosas. Como não era mercador e não via vantagem na viagem, Ibne Batuta desistiu de visitar a região.[80]

Estandarte azul com um crescente e um símbolo negro de três pontas
Reconstituição do estandarte associado à Horda Dourada no mapa de Angelino Dulcert de 1339, feito no período das viagens de Ibne Batuta pela região

Ao chegarem a Astracã, Usbeque Cã acabara de permitir que uma de suas esposas grávidas, a princesa Bayalun, filha do imperador bizantino Andrónico III Paleólogo, regressasse a Constantinopla para dar à luz. Ibne Batuta conseguiu integrar a comitiva, naquela que seria sua primeira viagem para além dos limites do mundo islâmico.[81]

Chegando a Constantinopla no fim de 1332, ou de 1334, afirmou ter conhecido o imperador bizantino Andrónico III. Visitou a grande igreja de Santa Sofia e conversou com um sacerdote ortodoxo sobre suas viagens a Jerusalém. Depois de um mês na cidade, voltou a Astracã e seguiu para Sarai al-Jadid, capital da Horda, onde relatou suas viagens a Usbeque Cã. Prosseguiu então pelos mares Cáspio e de Aral até Bucara e Samarcanda, que elogiou como "uma das maiores e mais belas cidades, e a mais perfeita delas". Ali visitou a corte de outro cã mongol, Tarmashirin, do Canato de Chagatai.[82] Também observou o estado arruinado das muralhas de Samarcanda, resultado do ataque mongol de 1220 e das lutas internas posteriores.[83] Dali viajou para o sul, até o Afeganistão, e entrou na Índia pelas passagens montanhosas do Indocuche.[nota 37] Na Rihla, menciona essas montanhas e a história da região no comércio de escravos.[84][85] Escreveu:

“ Depois disso, prossegui para a cidade de Barwan. No caminho há uma montanha elevada, coberta de neve e extremamente fria. Chamam-na Hindu Kush, isto é, "matadora de hindus", porque a maioria dos escravos levados da Índia até lá morre devido à intensidade do frio. ”
 
— Ibne Batuta, capítulo XIII da Rihla, Corassão[85][86].

Ibne Batuta e seu grupo chegaram ao rio Indo em 12 de setembro de 1333.[87] Dali, seguiu para Deli e conheceu o sultão Maomé ibne Tugluque.

Sul da Ásia

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Edifício funerário de pedra clara e cúpula baixa, ligado às ruínas de uma madraça em Deli
O conjunto funerário de Firuz Xá Tugluque segue a arquitetura da elite do Sultanato de Deli, em cuja corte Ibne Batuta serviu por seis anos como cádi

Maomé ibne Tugluque era um dos soberanos mais ricos do mundo muçulmano de seu tempo. Para consolidar o governo, patrocinava estudiosos, sufis, cádis, vizires e outros funcionários. Graças à formação jurídica maliquita e ao prestígio adquirido durante as viagens, Ibne Batuta foi nomeado cádi pelo sultão.[88] No entanto, teve dificuldade para aplicar as normas da lei islâmica[nota 38] fora da corte de Deli, numa sociedade majoritariamente não muçulmana e também regida por costumes locais.[89]

Devotos reúnem-se diante da entrada ornamentada do santuário de Baba Farid
A visita ao santuário de Baba Farid, em Pakpattan, em 1334, mostra como os centros sufis orientavam as redes de hospitalidade percorridas por Ibne Batuta.[90]

Não se sabe ao certo por qual rota Ibne Batuta entrou no subcontinente indiano. Pode ter passado pelo passo Khyber e por Pexauar, ou seguido uma rota mais meridional.[91] Atravessou o rio Sutle perto de Pakpattan,[92] no atual Paquistão, onde prestou homenagem no santuário de Baba Farid,[90] antes de seguir para sudoeste, em direção às terras rajaputes.[nota 39] No reino rajapute de Sarsatti, visitou Hansi, que descreveu como "uma das cidades mais belas, mais bem construídas e mais povoadas. É cercada por uma muralha sólida, e diz-se que seu fundador foi um dos grandes reis não muçulmanos, chamado Tara".[93] Ao chegar a Sinde, registrou a presença de rinocerontes-indianos nas margens do Indo.[94] Durante sua permanência no Sultanato de Deli, presenciou uma cerimônia de sati,[nota 40] a imolação ritual de uma viúva na pira funerária do marido, e registrou na Rihla uma descrição detalhada da prática.[95]

Durante seis anos, Ibne Batuta viveu sob um sultão imprevisível até mesmo para os padrões da época, alternando entre o luxo reservado a um subordinado de confiança e a suspeita de traição por diferentes acusações. Seu plano de partir sob o pretexto de realizar outra haje foi impedido pelo soberano. A oportunidade de deixar Deli surgiu em 1341, quando uma embaixada da dinastia Iuã[nota 41] da China pediu autorização para reconstruir um templo budista no Himalaia, frequentado por peregrinos chineses.[nota 42][96]

Torre alta de arenito avermelhado ergue-se acima das ruínas do complexo de Qutb
O Qutb Minar e os edifícios ao redor antecedem a passagem de Ibne Batuta pela corte de Deli.[97]

Ibne Batuta foi encarregado da embaixada, mas, no início da jornada para a China, a caminho da costa, ele e sua numerosa comitiva foram atacados por um grupo de salteadores.[98] Separado dos companheiros, foi roubado, sequestrado e quase perdeu a vida.[99] Apesar disso, reencontrou o grupo em dez dias e seguiu até Cambaia, no atual estado indiano de Guzerate. Dali navegaram para Calecute, a atual Kozhikode, onde o explorador português Vasco da Gama desembarcaria dois séculos depois. Em Calecute, Ibne Batuta foi hóspede do samorim[nota 43] local.[88] Enquanto visitava uma mesquita em terra, uma tempestade afundou um dos navios da expedição.[100] A outra embarcação partiu sem ele e, alguns meses depois, foi tomada por um rei de Sumatra.

Temendo voltar a Deli e ser considerado um fracassado, permaneceu algum tempo no sul da Índia sob a proteção de Jamaladim, governante do pequeno, mas poderoso, Sultanato de Nawayath, às margens do rio Sharavathi, perto do mar Arábico. A região é conhecida como Hosapattana e pertence ao taluc[nota 44] de Honavar, no Concão meridional. Depois da queda do sultanato, Ibne Batuta não teve alternativa senão deixar a Índia. Embora decidido a prosseguir até a China, primeiro fez um desvio para visitar as Maldivas, onde trabalhou como juiz.[101]

Ao chegar à capital das Maldivas, Malé, Ibne Batuta esperava partir logo, mas a estadia prolongou-se por nove meses. Os dirigentes do arquipélago, cuja monarquia se convertera do budismo ao islamismo em meados do século XII, procuravam um juiz supremo que soubesse árabe e conhecesse o Alcorão. Embora o poder sultânico já se identificasse com o Islã havia quase dois séculos, práticas locais continuavam a coexistir com a religião oficial.[102] Para convencê-lo a permanecer, ofereceram-lhe pérolas, joias de ouro e escravos e, ao mesmo tempo, impediram que deixasse o arquipélago de navio. Forçado a ficar, tornou-se juiz supremo e casou-se com uma integrante da família real de Omar I.[103]

Ibne Batuta assumiu suas funções com empenho e procurou adequar os costumes locais a uma aplicação mais rigorosa da lei islâmica. Determinou que os homens que faltassem à oração de sexta-feira fossem açoitados em público e que ladrões tivessem a mão direita amputada. Também proibiu as mulheres de manter o torso descoberto em público, como era costume até então.[104] Essas e outras decisões rigorosas, porém, começaram a hostilizar os governantes do arquipélago e o envolveram em disputas de poder e intrigas políticas. Ibne Batuta renunciou ao cargo de cádi supremo, embora provavelmente acabasse sendo destituído de qualquer modo.[105]

Ibne Batuta costumava casar-se quando permanecia por algum tempo em um lugar e divorciar-se ao retomar a viagem. Nas Maldivas, teve quatro esposas e atribuiu a frequência desses casamentos aos dotes pequenos[nota 45] e à impossibilidade de as mulheres deixarem o arquipélago, condições que tornavam a união um arranjo temporário conveniente para marinheiros e viajantes estrangeiros.[106]

Pico cônico coberto de vegetação eleva-se acima das montanhas do Sri Lanca
No Sri Lanca, Ibne Batuta subiu ao Sri Pada, montanha que figura no relato de sua passagem pela ilha.[107]

Das Maldivas, seguiu para o Sri Lanca, onde visitou Sri Pada[nota 46] e o Templo de Tenavaram. Seu navio quase afundou ao deixar a ilha, e a embarcação que o resgatou foi atacada por piratas. Retido em terra, conseguiu voltar ao reino de Madurai, na Índia. Passou algum tempo na corte do efêmero Sultanato de Madurai, governado por Ghiyasuddin Muhammad Damghani,[107] e dali regressou às Maldivas. Embarcou então em um junco chinês,[nota 47] ainda decidido a chegar à China e assumir seu posto de embaixador.[108]

Chegou ao porto de Chatigão, no atual Bangladesh, com a intenção de viajar a Silete para encontrar o xeque Shah Jalal. A fama do religioso era tamanha que Ibne Batuta fez uma viagem de um mês pelas montanhas de Kamaru, perto de Silete, para conhecê-lo. No caminho, foi recebido por discípulos de Shah Jalal, enviados para auxiliá-lo dias antes de sua chegada. No encontro, em 1345, observou que o xeque era alto, magro e de pele clara. Vivia em uma caverna junto à mesquita e seu único bem de valor era uma cabra, criada para fornecer leite, manteiga e iogurte. Ibne Batuta considerou os companheiros de Shah Jalal estrangeiros fortes e valentes e escreveu que muitas pessoas procuravam o mestre em busca de orientação. Depois, seguiu mais ao norte, até Assão, e retornou para dar continuidade ao plano original.[109]

Sudeste Asiático

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Contexto histórico: Quersoneso Dourado
Torres de tijolos avermelhados do templo de Po Klong Garai erguem-se sob o céu azul
O templo de Po Klong Garai, no antigo território de Champa, fica numa das regiões propostas para a controversa Kaylukari da Rihla. A localização permanece incerta

Em 1345, depois de quarenta dias de viagem desde Sunur Kawan, Ibne Batuta chegou ao Sultanato de Samudera Pasai, chamado por ele de "al-Jawa",[nota 48] no atual Achém, norte de Sumatra.[110][111] Na Rihla, o governante de Samudera Pasai é o muçulmano devoto Almáleque Azair Jamaladim, que cumpria os deveres religiosos com extremo zelo e frequentemente conduzia campanhas contra os animistas da região.[nota 49] Sumatra lhe pareceu rica em cânfora, noz de areca, cravo-da-índia e estanho.[112]

A escola jurídica, ou madhhab,[nota 50] que encontrou era a do imã Alxafi, cujos costumes se assemelhavam aos que vira no litoral da Índia, sobretudo entre os muçulmanos Mappila, também seguidores desse imã. Na perspectiva da Rihla, Samudera Pasai marcava então o limite oriental do Dar al-Islam,[nota 51] pois o viajante não conhecia território mais a leste governado por muçulmanos. Ibne Batuta permaneceu cerca de duas semanas na cidade murada de madeira como hóspede do sultão. O soberano forneceu-lhe provisões e o enviou à China em um de seus próprios juncos.[112]

Ibne Batuta navegou primeiro durante 21 dias até um lugar chamado "Mul Jawa", a ilha de Java ou a Java de Majapait, centro de um império hindu organizado segundo o modelo de mandala.[nota 52] O território levaria dois meses para ser atravessado e abrangeria as regiões de Qaqula e Qamara. O viajante chegou à cidade murada de Qaqula, ou Kakula, onde observou juncos de guerra usados em ataques de piratas e na cobrança de tributos, além de elefantes empregados em tarefas de todo tipo. Conheceu o governante de Mul Jawa e foi seu hóspede por três dias.[113][114][115]

Em seguida, navegou até um Estado chamado Kaylukari, na terra de Tawalisi, onde conheceu Urduja, uma princesa local e guerreira valente, cujo povo se opunha à dinastia Iuã. Embora descrita como "idólatra", Urduja sabia escrever a fórmula Bismillah em caligrafia islâmica. A localização de Kaylukari e Tawalisi é controversa. Kaylukari talvez corresponda a Po Klong Garai, em Champa, no atual sul do Vietnã, e Urduja pode ter sido uma aristocrata de Champa ou de Đại Việt. Nas Filipinas, a hipótese de que Kaylukari ficava na atual província de Pangasinan entrou em livros escolares e filmes, mas William Henry Scott a rejeitou por falta de prova. A oposição aos mongóis também permitiria situar a cidade no Japão ou em Java, sob Majapait.[116] Outras localizações foram propostas, de Java à província chinesa de Cantão, mas Henry Yule e Scott consideram Tawalisi e Urduja inteiramente fictícias.[117] De Kaylukari, Ibne Batuta chegou então a Chincheu, na província chinesa de Fuquiém.[116]

Portal de pedra da Mesquita Qingjing diante de um pátio arborizado
A Mesquita Qingjing, em Quanzhou, pertence ao porto onde a Rihla situa a chegada de Ibne Batuta à China

Na cronologia da Rihla, Ibne Batuta chegou a Chincheu, em Fuquiém, em 1345, quando a região estava sob o governo da dinastia Iuã, de origem mongol. Os muçulmanos chamavam a cidade de "Zaitun", palavra que significa azeitona, embora ele não tenha encontrado oliveiras em parte alguma. Mencionou os artistas locais e a habilidade com que retratavam estrangeiros recém-chegados, para fins de segurança. Elogiou os artesãos, a seda, a porcelana, frutas como ameixas e melancias e as vantagens do papel-moeda.[nota 53][118]

Os grandes navios da cidade eram construídos por um processo detalhado na Rihla.[119] Ao tratar da culinária chinesa, Ibne Batuta mencionou o consumo de animais como rãs, porcos e até cães, vendidos nos mercados, e observou que as galinhas eram maiores do que as do Ocidente. O trecho sobre a China contém erros, como a confusão do rio Amarelo com o Grande Canal[nota 54] e outros cursos d'água, além da crença de que a porcelana era feita de carvão.[120]

Em Chincheu, Ibne Batuta teria sido recebido pelo chefe dos mercadores muçulmanos locais, talvez um fānzhǎng, "chefe dos estrangeiros" (em chinês: 番長),[nota 55] e pelo xeque al-Islam, ou imã, que foram encontrá-lo com bandeiras, tambores, trombetas e músicos.[121] A população muçulmana viveria em um bairro separado, com mesquitas, bazares e hospitais próprios. Na cidade, conheceu dois iranianos de alta posição, Burhan al-Din, de Kazerun, e Sharif al-Din, de Tabriz.[122] Os dois constam na História de Iuã como "A-mi-li-ding" e "Sai-fu-ding".[123] Também teria subido o monte Qingyuan, chamado por ele de "monte do Eremita", e visitado brevemente um conhecido monge taoista que vivia em uma caverna.

O itinerário narrado prossegue para o sul, ao longo da costa, até Cantão, onde teria passado duas semanas hospedado na casa de um dos mercadores ricos da cidade.[124]

No itinerário da Rihla, de Cantão Ibne Batuta voltou para Chincheu e então seguiu até Fucheu, onde se hospedou com Zahir al-Din e encontrou Kawam al-Din e Al-Bushri, conterrâneo seu de Ceuta que enriquecera como mercador na China. Al-Bushri o teria acompanhado para o norte, até Hancheu, e pagado os presentes que Ibne Batuta levaria ao imperador Toghon Temür.[125]

Árvores e colinas verdes contornam as águas calmas do Lago do Oeste
O lago do Oeste, em Hangzhou, corresponde ao lago cercado por colinas que Ibne Batuta incluiu em sua descrição da cidade

Ibne Batuta afirmou que Hancheu era uma das maiores cidades que já vira e observou seu encanto, descrevendo-a junto a um belo lago cercado por suaves colinas verdes.[126][127] Mencionou o bairro muçulmano e disse ter permanecido como hóspede de uma família de origem egípcia.[125] Impressionou-se particularmente com o grande número de navios chineses de madeira, bem construídos e pintados, com velas coloridas e toldos de seda, reunidos nos canais. Depois, teria participado de um banquete oferecido por Qurtai, administrador iuã da cidade, que, segundo ele, apreciava muito a habilidade dos ilusionistas chineses.[128] Também mencionou habitantes locais que cultuavam uma divindade solar.[129]

Numa viagem de barco pelo Grande Canal, Ibne Batuta teria visto plantações, orquídeas, mercadores vestidos de seda preta e mulheres e sacerdotes também trajados de seda.[130] Na parte mais contestada do itinerário, afirmou ter chegado a Pequim, apresentado-se como o embaixador desaparecido do Sultanato de Deli e sido convidado à corte de Toghon Temür, que, segundo o viajante, era adorado por algumas pessoas na China. Ibne Batuta escreveu que o palácio de Cambalique era feito de madeira e que a principal esposa do soberano, a Imperatriz Gi, participava de procissões em sua homenagem. A descrição do palácio não coincide com as fontes chinesas nem com outros relatos do período, e parte da terminologia administrativa empregada é persa e lembra a corte de Deli. Essa incompatibilidade torna forte a possibilidade de que ele nunca tenha entrado no palácio e talvez nem sequer tenha visto Pequim.[131][132]

Ibne Batuta afirmou ainda ter ouvido falar da "muralha de Yajuj e Majuj", situada a sessenta dias de viagem de Zaitun.[133] Na leitura de Hamilton Alexander Rosskeen Gibb, ele associou a muralha à construção atribuída a Dhul-Qarnayn para conter Gogue e Magogue, como narrado no Alcorão.[133] Ao perguntar sobre ela na China, porém, não encontrou ninguém que a tivesse visto ou conhecesse alguém que a tivesse visto.[134]

Muralha de pedra acompanha uma cadeia de montanhas até o horizonte
A notícia sobre a Muralha da China chegou a Ibne Batuta por relatos de terceiros. Ele a mencionou na Rihla, mas não a viu pessoalmente

O itinerário prossegue de Pequim a Hancheu, depois a Fucheu e, no regresso a Chincheu, leva Ibne Batuta a um junco chinês pertencente ao sultão de Samudera Pasai e dirigido ao Sudeste Asiático. A tripulação teria cobrado uma soma que ele considerou injusta, e ele perdeu grande parte do que reunira durante a estadia na China.[135]

A Rihla afirma ainda que o cã que governava a China teria sido morto ao combater um primo rebelde e sepultado com quatro jovens escravizadas, seis mamelucos, armas e objetos preciosos. O episódio não pode referir-se a Toghon Temür: nenhum imperador iuã morreu nessa revolta, e Toghon Temür deixou a China em 1368 e morreu na Mongólia em 1370, anos depois da redação da obra. Essa incongruência é um dos principais argumentos contra a confiabilidade do trecho sobre Pequim.[136]

Grande pátio pavimentado da Mesquita Omíada, cercado por arcadas e minaretes
Ao refazer o caminho de sua primeira peregrinação, Ibne Batuta voltou a Damasco quando a Peste Negra já se alastrava pela região

Depois de voltar a Chincheu, em 1346, Ibne Batuta iniciou a viagem de regresso ao Marrocos.[137] Em Calecute, voltou a considerar a possibilidade de se entregar à clemência de Maomé ibne Tugluque, em Deli, mas desistiu e decidiu continuar até Meca. A caminho de Baçorá, passou pelo estreito de Ormuz, onde soube que Abuçaíde Baadur Cã, último governante do Ilcanato, havia morrido no Irã. Em seguida, seus domínios desmoronaram durante uma violenta guerra civil entre iranianos e mongóis.[138]

Em 1348, chegou a Damasco com a intenção de refazer o itinerário de sua primeira haje. Soube então que o pai morrera quinze anos antes,[139] e a morte se tornou o tema dominante do ano seguinte. A Peste Negra já se alastrava. Ibne Batuta fez uma parada em Hómece enquanto a doença se propagava pela Síria, pela Palestina e pela Arábia. Ouviu relatos de uma mortalidade terrível em Gaza, mas voltou a Damasco em julho, quando o número de mortos teria alcançado 2.400 por dia.[nota 56][140] Ao passar por Gaza, encontrou a cidade despovoada. No Egito, hospedou-se em Abusir. Na contagem da Rihla, as mortes no Cairo chegavam a 1.100 por dia.[141] Fez a peregrinação a Meca e então decidiu retornar ao Marrocos, quase um quarto de século depois de sair de casa.[142] No caminho, realizou um último desvio até a Sardenha. Em 1349, regressou a Tânger por Fez, apenas para descobrir que sua mãe também morrera alguns meses antes.[143]

Itinerário, 1349–1354

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Itinerário de Ibne Batuta entre 1349 e 1354, pelo Norte da África, Península Ibérica e África Ocidental

Espanha e Norte da África

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Depois de alguns dias em Tânger, Ibne Batuta partiu para o território muçulmano de Alandalus,[nota 57] na Península Ibérica. O rei Afonso XI de Castela ameaçava atacar Gibraltar e, em 1350, o viajante juntou-se a um grupo de muçulmanos que deixou Tânger com a intenção de defender o porto.[144] Quando chegou, porém, Afonso já havia morrido de Peste Negra e a ameaça de invasão desaparecera. Ibne Batuta transformou então a expedição em uma viagem de visitação que terminou em Granada.[145]

Ao deixar Alandalus, decidiu viajar pelo Marrocos e, no caminho de volta para casa, permaneceu algum tempo em Marraquexe, que se tornara quase uma cidade fantasma por causa da peste recente e da transferência da capital para Fez.[146]

Mali e Tombuctu

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Fachada de terra crua da Madraça de Sancoré, com vigas de madeira projetadas das paredes
A Madraça de Sancoré pertence a uma época posterior da vida intelectual de Tombuctu. Quando Ibne Batuta passou pela cidade, ela ainda era pequena e tinha pouca projeção regional

No outono de 1351, Ibne Batuta deixou Fez e seguiu para Segelmeça, na margem setentrional do Saara, no atual Marrocos.[147] Comprou camelos e permaneceu quatro meses na cidade. Em fevereiro de 1352, partiu novamente com uma caravana e, depois de 25 dias, chegou ao leito seco do lago salgado de Tagaza, onde havia minas de sal.[nota 58] Todos os edifícios locais eram feitos de placas de sal por escravos da tribo Massufa,[nota 59] que também cortavam o mineral em grandes blocos para transportá-lo em camelos. Tagaza era um centro comercial onde circulava muito ouro do Mali, mas desagradou a Ibne Batuta pela presença constante de moscas e pela água salobra.[nota 60][148]

Após dez dias em Tagaza, a caravana partiu para o oásis de Tasarahla, provavelmente Bir al-Ksaib,[149] onde permaneceu três dias para se preparar para a última e mais difícil etapa através do vasto deserto.[nota 61] Um guia massufa partiu na frente até Ualata, onde providenciou o transporte de água a um ponto distante quatro dias de viagem para abastecer a caravana sedenta. Ualata era o extremo sul da rota comercial transaariana[nota 62] e havia sido incorporada recentemente ao Império do Mali. Ao todo, foram necessários dois meses para atravessar os 1.600 km de deserto desde Segelmeça.[150]

Longa fileira de camelos carregados atravessa uma planície arenosa
As caravanas de sal do Azalai exemplificam as redes transaarianas por terra que permitiram a Ibne Batuta viajar entre o Império do Mali e o Magrebe

Dali, Ibne Batuta viajou para sudoeste ao longo de um rio que julgava ser o Nilo, mas que na verdade era o rio Níger, até chegar à capital do Império do Mali.[nota 63] Ali conheceu o mansa Solimão Queita, rei desde 1341.[nota 64] Ibne Batuta desaprovou o fato de escravas, criadas e até filhas do sultão deixarem expostas partes do corpo que, em sua concepção, deveriam ser cobertas por muçulmanos.[151] Na Rihla, usou as expressões "maus costumes" e "desprezo pelos homens brancos" ao escrever sobre os africanos negros e afirmou ter se espantado por muito tempo com o que considerava "fraqueza de intelecto" e respeito por "coisas vis".[152] A menção mais antiga ao xilofone mandinga chamado bala[nota 65] vem dessa viagem. O instrumento, escreveu Ibne Batuta, era "feito de juncos e cabaças, que são percutidos com varetas e produzem um som agradável".[153]

Em fevereiro, deixou a capital acompanhado por um comerciante maliano e viajou por terra, em camelo, até Tombuctu.[154] Embora se tornasse o principal centro comercial da região nos dois séculos seguintes, na época era pequena e tinha pouca projeção regional.[155] Foi durante esse percurso que encontrou pela primeira vez hipopótamos. Os barqueiros locais temiam os animais e os caçavam com lanças amarradas a cordas resistentes.[156] Depois de uma breve estada em Tombuctu, desceu o Níger até Gao em uma canoa escavada em um único tronco. Gao era então um centro comercial ativo.[157]

Após um mês em Gao, Ibne Batuta partiu com uma grande caravana para o oásis de Takedda. Durante a travessia do deserto, recebeu uma mensagem do sultão marroquino Abu Inane Faris, que ordenava seu retorno. Em setembro de 1353, tomou o caminho de Segelmeça acompanhando uma grande caravana que transportava seiscentas mulheres escravizadas e chegou ao Marrocos no início de 1354.[158]

O itinerário de Ibne Batuta contém indícios de quando o islamismo começou a se difundir pelo interior da África Ocidental.[159]

Página manuscrita com texto árabe em tinta preta, títulos em vermelho e moldura decorativa
Uma cópia de trechos produzida no Cairo em 1836 mostra que a Rihla ainda circulava em manuscritos pouco antes das principais edições europeias

Depois de regressar de suas viagens, em 1354, Ibne Batuta ditou em árabe um relato de seu percurso a Ibne Juzai, estudioso que conhecera em Granada, por sugestão do soberano merínida do Marrocos, Abu Inane Faris.[nota 66] A obra é a única fonte sobre as aventuras do viajante. O título completo pode ser traduzido como Um presente para aqueles que contemplam as maravilhas das cidades e as maravilhas da viagem (em árabe: تحفة النظار في غرائب الأمصار وعجائب الأسفار, Tuḥfat an-Nuẓẓār fī Gharāʾib al-Amṣār wa ʿAjāʾib al-Asfār).[160][nota 67] Em geral, porém, o texto é chamado simplesmente As viagens (em árabe: الرحلة; romaniz.: al-Riḥla),[161] em referência à rihla, forma tradicional da literatura árabe de viagem.

Não se conhece nenhum diário mantido por Ibne Batuta durante os 29 anos de viagem, embora a própria Rihla mencione que algumas de suas anotações foram roubadas.[162] Ao preparar a narrativa, Ibne Batuta e Ibne Juzai recorreram ao que o viajante recordava, às anotações disponíveis e a manuscritos produzidos por autores anteriores. A redação não nomeou todos esses textos e apresentou algumas passagens antigas como observações do viajante. Ao tratar de Damasco, Meca, Medina e outros lugares do Oriente Médio, incorporou claramente trechos do relato do andalusino Ibne Jubair, escrito mais de 150 anos antes.[163] Do mesmo modo, a maior parte das descrições de lugares da Palestina foi incorporada de um relato do viajante do século XIII Maomé Alabedari Alhihi.[164]

Ibne Batuta provavelmente não visitou todos os lugares incluídos na Rihla, que recorre a informações de terceiros e a relatos anteriores para cobrir grande parte do mundo muçulmano. É muito improvável, por exemplo, que ele tenha subido o rio Volga desde Nova Sarai para visitar Bolgar.[165] Também há sérias dúvidas sobre a ida a Saná, no Iêmen,[166] o percurso de Bactro até Bistam, no Coração,[167] e o itinerário pela Anatólia.[168][169]

Janelas emolduradas por arabescos de estuque no interior da Alhambra
A ornamentação da Alhambra preserva o ambiente cortesão do Emirado de Granada, último Estado muçulmano de Alandalus e destino da viagem ibérica de Ibne Batuta

A história de que um magrebino chamado Abu al-Barakat al-Barbari converteu as Maldivas ao islamismo entra em conflito com o Tarikh, história oficial do arquipélago, que atribui a conversão das Maldivas a milagres realizados por Maulana Xeique Iúçufe Xameçadim, natural de Tabriz.[170]

A passagem pela China também é contestada, e a redação da obra incorporou, sem indicação explícita, trechos de outros autores.[171] Entre eles estão Masālik al-abṣār fī mamālik al-amṣār, de Shihab al-Din al-Umari, textos de Solimão al-Tajir, Ata Maleque Juveini e Raxidadim de Hamadã, além de uma possível passagem de um Romance de Alexandre. Não é possível separar com segurança a contribuição do viajante da intervenção de Ibne Juzai nessas incorporações. O relato e os escritos de Marco Polo têm passagens e temas muito semelhantes, às vezes com os mesmos comentários. Entre os trechos improváveis está a afirmação de que o terceiro califa, Otomão, teria conhecido alguém na China com um nome idêntico ao de uma pessoa mencionada por Ibne Batuta.[172]

Mesmo que a Rihla não se baseie por inteiro na experiência pessoal do autor, ela reúne uma descrição extensa de muitas regiões do século XIV. Ibne Batuta manteve concubinas, inclusive em Deli.[nota 68][173][174] Casou-se com mulheres em diferentes lugares, divorciou-se de pelo menos algumas delas e teve filhos com esposas ou concubinas em Damasco, Malabar, Deli, Bucara e nas Maldivas.[175] Chamou os gregos de "inimigos de Alá", "bêbados" e "comedores de porco", mas ao mesmo tempo comprou em Éfeso uma jovem grega, uma das mulheres escravizadas que manteve em seu "harém" ao longo de Bizâncio, Coração, África e Palestina.[176] Duas décadas se passaram antes que voltasse a Damasco para saber o que acontecera a uma de suas esposas e ao filho do casal.[177]

Ibne Batuta vivenciou com frequência choque cultural nas regiões que visitou, sobretudo quando os costumes de povos recém-convertidos divergiam de sua formação muçulmana ortodoxa. Entre turcos e mongóis, observou que alguém, ao ver um casal turco em um bazar, poderia supor que o homem era criado da mulher, quando na realidade era seu marido.[178] Também considerou reveladores demais os costumes de vestuário das Maldivas e de algumas regiões da África subsaariana.[179]

Pequeno mausoléu branco com porta verde numa rua estreita de Tânger
Em Tânger, este mausoléu é atribuído a Ibne Batuta. A escassez de documentos sobre seus últimos anos também torna incertas a data e as circunstâncias de sua morte

Depois da conclusão da Rihla, em 1355, Ibne Batuta volta a ser mencionado numa carta escrita por Ibne Alcátibe no início da década de 1360, quando já idoso exercia o cargo de juiz em Tamesna, região próxima da atual Casablanca.[180] A data de sua morte é incerta e costuma ser situada em 1368 ou 1369, embora 1377 também seja mencionada.[181][2]

A obra permaneceu desconhecida fora do mundo muçulmano até o início do século XIX, quando o explorador alemão Ulrich Jasper Seetzen adquiriu no Oriente Médio uma coleção de manuscritos que incluía um volume de 94 páginas com uma versão abreviada do texto de Ibne Juzai. Três trechos foram publicados em 1818 pelo orientalista alemão Johann Gottfried Ludwig Kosegarten.[182][nota 69] Um quarto trecho saiu no ano seguinte.[183] A publicação chamou a atenção de estudiosos franceses por meio de uma longa resenha do orientalista Antoine-Isaac Silvestre de Sacy no Journal des savants.[184]

Três cópias de outro manuscrito abreviado foram adquiridas pelo viajante suíço Johann Ludwig Burckhardt e legadas à Universidade de Cambridge. Ele apresentou um breve resumo de seu conteúdo em um livro publicado postumamente em 1819.[185] O texto árabe foi traduzido para o inglês pelo orientalista Samuel Lee e publicado em Londres em 1829.[186]

Na década de 1830, no contexto da expansão colonial francesa no Norte da África, a Biblioteca Nacional da França (BNF), em Paris, recebeu cinco manuscritos das viagens de Ibne Batuta, dois deles completos. A origem individual de cada exemplar, porém, nem sempre pode ser estabelecida com segurança.[nota 70] Um manuscrito que contém apenas a segunda parte da obra é datado de 1356 e considerado um autógrafo de Ibne Juzai.[nota 71][187] Em 1843, o orientalista franco-irlandês barão de Slane usou os manuscritos da BNF para preparar uma tradução francesa da visita de Ibne Batuta ao Sudão.[188] Eles também foram estudados pelos franceses Charles Defrémery e Beniamino Sanguinetti, que, a partir de 1853, publicaram quatro volumes com uma edição crítica[nota 72] do texto árabe e uma tradução para o francês.[189] Na introdução, os dois elogiaram as anotações de Lee, mas criticaram sua tradução, que consideraram imprecisa até em passagens simples.[nota 73]

Em 1929, exatamente um século depois da tradução de Lee, o historiador e orientalista Hamilton Gibb publicou em inglês uma seleção de trechos do texto árabe de Defrémery e Sanguinetti.[190] Em 1922, Gibb já propusera à Hakluyt Society preparar uma tradução anotada e integral da Rihla para o inglês.[191] Pretendia dividi-la em quatro volumes, correspondentes aos quatro tomos de Defrémery e Sanguinetti. O primeiro só foi publicado em 1958.[192] Gibb morreu em 1971, depois de concluir os três primeiros volumes. O quarto foi preparado por Charles Beckingham e publicado em 1994.[193] A edição impressa de Defrémery e Sanguinetti foi depois traduzida para outros idiomas.[194]

Trecho de manuscrito em árabe, escrito com tinta escura sobre papel claro
O manuscrito árabe 2291 registra a forma extensa do nome de Ibne Batuta. Datado de 1356, é considerado uma possível cópia autógrafa do redator Ibne Juzai.[195]

Edição em língua portuguesa

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O arabista português José de Santo António Moura começou a traduzir a Rihla a partir de um manuscrito que adquirira em Fez em 1797 ou 1798.[nota 74] O primeiro tomo de Viagens extensas e dilatadas do célebre árabe Abu-Abdallah, mais conhecido pelo nome de Ben-Batuta foi publicado em Lisboa pela Tipografia da Academia em 1840.[196] O segundo saiu em 1855.[197] A versão não é integral, e Defrémery e Sanguinetti calcularam que, somente nos capítulos do Egito e da Síria, Moura suprimiu mais de um quarto do texto, além de grafar de modo incorreto muitos nomes próprios e topônimos.[198] Iniciada antes da versão crítica francesa de 1853–1858, a tradução portuguesa foi uma das primeiras da obra publicadas na Europa, mas circulou em forma abreviada.

Historicidade

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Duas páginas de manuscrito em árabe, com o texto mais nítido na página da direita
A historicidade da Rihla é avaliada a partir dos manuscritos de um texto ditado por Ibne Batuta e redigido por Ibne Juzai, não de um diário escrito durante cada viagem

O pesquisador alemão de estudos islâmicos Ralf Elger lê o relato de Ibne Batuta como uma obra literária, mas questiona a historicidade[nota 75] de grande parte do conteúdo, que suspeita ser ficção compilada e inspirada em outros relatos de viagem do mesmo período.[199] Roxanne Euben examina dúvidas semelhantes.[200]

O historiador e arqueólogo François-Xavier Fauvelle considera possivelmente apócrifa[nota 76] a estada de Ibne Batuta no Império do Mali. Ressalva, porém, que a narrativa permanece valiosa pelas descrições do cerimonial da corte, do funcionamento político do império e de sua estrutura dinástica.[201]

Em 1987, Ross E. Dunn duvidou que se encontrassem provas capazes de corroborar a narrativa da Rihla. Em 2010, porém, Tim Mackintosh-Smith concluiu um estudo de campo dividido em volumes e dedicado a dezenas de lugares citados na obra. Mackintosh-Smith apresentou dois manuscritos de direito islâmico até então desconhecidos, conservados nos arquivos da Universidade de Alazar, no Cairo, cujos colofões[nota 77] identificam Ibne Batuta como copista em Damasco em 1326. Esses documentos corroboram a data indicada na Rihla para sua passagem pela Síria.[9]

A cronologia da Rihla tem lacunas e incongruências, pois o relato foi ditado de memória e por vezes mescla acontecimentos de viagens diferentes. Em 2026, Pietro Enrico Menegatti de Chiara avaliou esses desencontros em conjunto com os silêncios do texto, a intervenção de Ibne Juzai e o patrocínio merínida. Para ele, as irregularidades não tornam fictício o percurso inteiro, mas impedem que a obra seja lida como biografia contínua e plenamente recuperável.[10] Serafín Fanjul e Federico Arbós aceitam a presença de Ibne Batuta na China, porém duvidam que tenha chegado tão ao norte quanto Pequim.[10]

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Pequena cratera circular projeta uma sombra sobre a superfície acidentada da Lua
O nome Ibn Battuta foi dado a uma cratera da Lua, em referência ao viajante que percorreu três continentes

Em 1976, a União Astronómica Internacional aprovou o nome Ibn Battuta para uma cratera lunar de 11,51 quilômetros de diâmetro.[202]

Em Tânger, a torre histórica Borj en-Naam, na casbá da cidade, foi restaurada e reabilitada em 2021 para abrigar o Museu Ibne Batuta. A exposição apresenta o contexto político do Marrocos no século XIV, a biografia e os itinerários do viajante, manuscritos e traduções da Rihla, além dos meios de transporte e instrumentos de navegação associados às viagens.[203]

Torre histórica de pedra clara, com ameias e uma pequena bandeira marroquina no alto
O Borj en-Naam, torre da casbá de Tânger, passou a abrigar um espaço dedicado à vida e aos itinerários de Ibne Batuta

O Centro Ibne Batuta para Exploração e Atividades de Campo foi criado em 2006 pela Escola Internacional de Pesquisa em Ciências Planetárias, de Pescara, e pela Faculdade de Ciências da Universidade Cádi Ayyad, de Marraquexe. A instituição testa veículos de exploração, sistemas de aterrissagem, instrumentos e operações destinados à exploração de Marte e da Lua.[204]

Em Tânger, o Aeroporto de Tânger-Ibn Batouta leva o nome do viajante.[205] O Estádio Ibn Batouta, inaugurado em 2011, também recebeu seu nome em homenagem ao tangerino.[206] Em Dubai, seu nome identifica uma estação da Linha Vermelha do Metrô de Dubai.[207]

Recepção em língua portuguesa

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Em Portugal, os dois volumes traduzidos por José de Santo António Moura, publicados em Lisboa em 1840 e 1855, deram aos leitores uma edição abreviada da Rihla antes que a edição crítica francesa estivesse completa.[208][209] A Rádio e Televisão de Portugal incluiu sua biografia no programa infantil Conta-me História, exibido no espaço Zig Zag da RTP2.[210]

Em 2016, Luiz Eduardo Panisset Travassos e Oswaldo Bueno Amorim Filho examinaram os lugares sagrados subterrâneos da Rihla na revista brasileira Mercator.[211] Em 2025, Rodrigo Corrêa Teixeira, Travassos e Joelton Carneiro de Lima acompanharam as rotas terrestres e marítimas da Rota da Seda descritas pelo viajante.[212] Um livro infantil escrito por Fátima Sharafeddine, ilustrado por Hassan Amekan e traduzido por Pedro Martins Criado chegou às livrarias brasileiras em 2024 pela Editora Tabla.[213]

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Interior de centro comercial decorado com arcos e mosaicos azuis inspirados na arquitetura persa
A "Corte Persa" do Ibn Battuta Mall converte uma das regiões percorridas pelo viajante em arquitetura temática

O Ibn Battuta Mall, em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, é o maior centro comercial temático da cidade e recebeu o nome do viajante. O edifício tem áreas concebidas para recriar as terras que ele percorreu, além de conjuntos de estátuas com cenas de sua vida.[214][215]

Uma representação gigantesca de Ibne Batuta, ao lado do geógrafo e historiador Albacri e do navegador e cartógrafo Amade ibne Majide, foi exibida no Pavilhão da Mobilidade da Expo 2020, em Dubai. A instalação foi projetada pela Wētā Workshop.[216]

O docudrama[nota 78] em formato IMAX Journey to Mecca: In the Footsteps of Ibn Battuta dramatiza a primeira peregrinação do viajante, de Tânger a Meca, em 1325–1326, e a contrapõe a imagens documentais da haje filmadas no século XXI.[217]

O Google celebrou o 708.º aniversário de Ibne Batuta em 25 de fevereiro de 2012 com um doodle dedicado a suas viagens.[218] O viajante também aparece na animação infantil Xavier Riddle and the Secret Museum, no episódio I Am Ibn Battuta; I Am Beulah Louise Henry, em que ajuda o personagem Brad a terminar uma história em quadrinhos.[219]

Ibne Batuta aparece como líder em Civilization VII e pode comandar qualquer civilização, entre elas os abássidas e o Songai na Era da Exploração.[220]

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O Wikiquote tem citações relacionadas a Ibne Batuta.

Ver também

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  • Marco Polo, viajante veneziano que percorreu a Ásia nos séculos XIII e XIV
  • Zheng He, almirante chinês responsável por grandes expedições marítimas no século XV
  • Ibne Jubair, viajante andalusino cujo relato foi usado na composição da obra de Ibne Batuta
  • Amade ibne Fadlane, viajante e diplomata árabe do século X
  • Benjamim de Tudela, viajante judeu medieval que percorreu Europa, Ásia e África
  • Xuanzang, monge e peregrino chinês que viajou pela Ásia no século VII
  • Almaçudi, historiador e geógrafo árabe conhecido por seus relatos de viagem
  • Idade de ouro islâmica, contexto intelectual e cultural em que se desenvolveu a literatura árabe de viagem
  • Literatura de viagem, gênero ao qual pertencem a rihla e outros relatos de viajantes
  • Rota da Seda, rede de caminhos terrestres e marítimos que atravessava parte das regiões percorridas por Ibne Batuta

Notas

  1. ↑ Em árabe, em árabe: ابن بطوطة, transliterado como Ibn Baṭṭūṭa. Seu nome completo era Xameçadim Abu Abedalá Maomé ibne Abedalá ibne Ibraim ibne Maomé ibne Ibraim ibne Iúçufe Alauati Atanji (em árabe: شمس الدين أبو عبد الله محمد بن عبد الله بن محمد بن إبراهيم بن محمد بن إبراهيم بن يوسف اللواتي الطنجي; romaniz.: Shams al-Dīn Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn Muḥammad ibn Ibrāhīm ibn Muḥammad ibn Ibrāhīm ibn Yūsuf al-Lawātī al-Ṭanjī).
  2. ↑ Em árabe, ibn significa "filho de". A sequência de nomes informa a filiação e a origem, por isso não funciona exatamente como um sobrenome moderno.
  3. ↑ Em árabe, rihla significa "viagem". A palavra também dá nome a um gênero de relatos que combina itinerário, descrições de lugares, encontros com estudiosos e observações sobre costumes.
  4. ↑ Tânger fica no Magrebe, a porção noroeste da África, e pertencia ao domínio merínida no começo do século XIV. Dunn 2005, pp. 18–20
  5. ↑ Naquele contexto, o direito islâmico abrangia muito mais do que julgamentos criminais. Também orientava contratos, heranças, casamentos, práticas religiosas e outros aspectos da rotina.
  6. ↑ Isso quer dizer que sua família tinha origem berbere, mas havia adotado o árabe como língua e incorporado costumes da cultura árabe. Uma identidade não apagava necessariamente a outra.
  7. ↑ O maliquismo é uma das quatro escolas jurídicas do sunismo. Sua formação usa o Alcorão, os ditos atribuídos a Maomé e a prática jurídica de Medina. Dunn 2005, p. 22
  8. ↑ O total resulta da soma moderna dos trechos narrados. Não é uma medição feita pelo viajante e muda quando se excluem etapas contestadas. Dunn 2005, p. 20
  9. ↑ O calendário da Hégira é lunar. Cada ano tem cerca de onze dias a menos que o calendário solar, e a conversão de datas medievais pode variar por um dia. Dunn 2005, pp. 30–31
  10. ↑ Viajar em grupo facilitava a contratação de guias, a obtenção de água e a defesa contra assaltos nos trechos sem autoridade urbana. Dunn 2005, pp. 37–39
  11. ↑ Os mamelucos báridas formavam a elite militar que governava o Egito e a Síria. Dunn 2005, pp. 42–54
  12. ↑ Ascetas são pessoas que renunciam a confortos e prazeres para se dedicar à disciplina espiritual. No Islã medieval, alguns eram procurados como mestres, conselheiros ou intérpretes de sonhos.
  13. ↑ Aqui, xeque é um tratamento de respeito dado a um mestre religioso ou homem mais velho e reconhecido pela comunidade. Isso não implica necessariamente um cargo político ou um título hereditário.
  14. ↑ Ibne Batuta deixou o Cairo por volta de 16 de julho de 1326 e chegou a Damasco três semanas depois, em 9 de agosto (Gibb 1958, pp. 71, 118). Ele narrou um trajeto longo e sinuoso pela Palestina, no qual teria visitado mais de vinte cidades. Seria impossível realizar essa viagem no tempo disponível. Gibb (1958) e Hrbek (1962) sustentam que Ibne Batuta reuniu nesse relato percursos posteriores pela região (Gibb 1958, p. 81, nota 48; Hrbek 1962, pp. 421–425). Elad (1987) demonstrou que as passagens sobre grande parte dos lugares da Palestina não eram originais, mas foram copiadas, sem crédito, de uma rihla anterior, escrita pelo viajante Maomé Alabedari Alhihi. Por essas dificuldades, não é possível estabelecer uma cronologia precisa das viagens de Ibne Batuta na região (Elad 1987).
  15. ↑ Haji é o título dado a quem completou a peregrinação a Meca. Além do sentido religioso, o título podia trazer prestígio social e facilitar a acolhida em outras comunidades muçulmanas.
  16. ↑ Um canato era um território governado por um cã. Depois da expansão mongol, diferentes canatos passaram a ser administrados por ramos distintos da família de Gêngis Cã.
  17. ↑ Ali era primo e genro de Maomé. Seu túmulo em Najafe é um destino de peregrinação xiita, embora Ibne Batuta tivesse formação sunita. Dunn 2005, pp. 89–90
  18. ↑ Um eremitério é um lugar isolado onde alguém vive em retiro religioso, longe da vida urbana e de suas distrações.
  19. ↑ A maior parte das descrições que Ibne Batuta fez das cidades ao longo do Tigre foi copiada da Rihla de Ibne Jubair, de 1184 (Mattock 1981; Dunn 2005, p. 102).
  20. ↑ A Rihla situa Ibne Batuta em Meca nas peregrinações de 1327, 1328, 1329 e 1330, mas traz poucas informações sobre essas estadias. Depois da haje de 1330, ele teria partido para a África Oriental e retornado a Meca antes da peregrinação de 1332. O mesmo texto o leva em seguida à Índia e data sua chegada ao rio Indo em 12 de setembro de 1333. Embora as datas intermediárias não sejam exatas, o itinerário e suas indicações cronológicas exigiriam cerca de três anos de viagem. A sequência só se ajusta se ele tiver deixado Meca dois anos antes do que declarou ou chegado à Índia dois anos depois (Gibb 1962, pp. 528–537, vol. 2; Hrbek 1962; Dunn 2005, pp. 132–133).
  21. ↑ A jalbah era uma embarcação costeira de madeira. Suas tábuas eram unidas por costuras de corda ou fibra vegetal, em vez de pregos, uma técnica antiga muito usada no oceano Índico.
  22. ↑ Maleque significa "rei" em árabe. Na narrativa, o título distingue o soberano raçúlida de governadores locais e chefes religiosos. Gibb 1962, p. 373, vol. 2
  23. ↑ Vizir era um cargo de alta administração e aconselhamento junto ao governante. Suas atribuições mudavam de uma corte para outra. Laitin & Samatar 1987, p. 15
  24. ↑ A costa suaíli não formava um único reino. Portos insulares e costeiros participavam das rotas comerciais do oceano Índico. Chittick 1977, pp. 183–231
  25. ↑ Zanje era um nome coletivo usado por autores árabes medievais para diferentes povos negros da costa oriental africana. Não correspondia a uma única etnia, nação ou fronteira atual.
  26. ↑ Pedra coralina é uma rocha calcária formada por restos de corais e outros organismos marinhos. Nas cidades costeiras, ela podia ser cortada em blocos e usada como material de construção.
  27. ↑ A mudança sazonal dos ventos definia quando os navios podiam cruzar o oceano Índico em cada direção. A espera por uma monção favorável fazia parte do calendário das viagens marítimas. Dunn 2005, pp. 126–127
  28. ↑ Esses principados eram chamados beilhiques. Ibne Batuta atravessou cortes locais, entre elas as de Hamid e Aidim. Dunn 2005, pp. 149–157
  29. ↑ A embarcação fazia a rota entre o porto sírio e o sul da Anatólia e levou Ibne Batuta e seus companheiros muçulmanos. Gibb 1962, pp. 413–416, vol. 2
  30. ↑ A palavra fityan significa literalmente "jovens". Essas associações reuniam trabalho artesanal, devoção religiosa, ajuda entre os membros e hospitalidade a visitantes.
  31. ↑ Akhi pode ser entendido como "meu irmão". Nas associações da Anatólia, era o título do responsável pelo grupo e pela casa que recebia os viajantes.
  32. ↑ O texto interrompe aqui a viagem principal, narra um percurso lateral e depois retorna à rota anterior por meio de um salto. Esses desvios são chamados de "digressões" (Gibb 1962, pp. 533–535, vol. 2). O percurso pela Anatólia é plausível porque Ibne Batuta relata experiências pessoais e havia tempo suficiente entre sua partida de Meca, em meados de novembro de 1330, e sua chegada a Eğirdir, no caminho de volta de Erzurum, no início do Ramadã, em 8 de junho de 1331 (Dunn 2005, pp. 149–150, 157, nota 13). Gibb, porém, considerou difícil acreditar que ele tivesse viajado tão a leste quanto Erzurum (Gibb 1962, p. 535, vol. 2).
  33. ↑ Um beilhique era um principado governado por um bei. A Anatólia do período reunia muitos desses domínios, com fronteiras e alianças instáveis. Dunn 2005, pp. 149–157
  34. ↑ Emir era um título dado a dirigentes ou comandantes de alta posição. Cã era o título do soberano. O emir do cã era um auxiliar poderoso, não outro rei.
  35. ↑ Nesse trecho, "horda" é a corte móvel do cã, composta por tendas, familiares, servidores, soldados e animais. A palavra não nomeia apenas um exército. Dunn 2005, pp. 163–169
  36. ↑ Esse era um nome geográfico impreciso usado em relatos medievais para o extremo norte. Aludia aos invernos muito escuros e não designava um Estado com fronteiras definidas.
  37. ↑ A etimologia dada pela Rihla faz parte do próprio relato. O trecho relaciona o nome à morte de pessoas escravizadas levadas da Índia através das montanhas. Lee 1829, p. 191
  38. ↑ A xaria não era um código único promulgado pelo sultão. Os cádis aplicavam interpretações jurídicas formadas por escolas e juristas, além de lidar com costumes locais. Bentley 1993, p. 121
  39. ↑ "Rajapute" reunia linhagens guerreiras e domínios distintos. A palavra não nomeava um Estado único nem uma população politicamente unificada. Wink 2002, p. 229
  40. ↑ O termo sati designa a morte de uma viúva na pira do marido. Ibne Batuta narrou uma cerimônia que afirmou ter presenciado, sem afirmar que a prática fosse uniforme em todo o subcontinente. Ibn Batuta 1929, pp. 190–193
  41. ↑ A dinastia Iuã foi fundada pelos mongóis e governou a China entre 1271 e 1368. Toghon Temür era o imperador no período atribuído à visita. Dunn 2005, pp. 253–261
  42. ↑ Na Rihla, a partida de Ibne Batuta de Deli é datada de 17 de safar de 743 AH, ou 22 de julho de 1342 (Gibb & Beckingham 1994, p. 775, vol. 4; Defrémery & Sanguinetti 1858, p. 4, vol. 4). Dunn argumenta que isso provavelmente é um erro e que, para comportar as viagens posteriores e as visitas às Maldivas, o mais provável é que ele tenha deixado Deli em 1341 (Dunn 2005, p. 238, nota 4).
  43. ↑ Samorim era o título do governante de Calecute, não um nome pessoal. O porto recebia embarcações de muitos pontos do oceano Índico. Aiya 1906, p. 328
  44. ↑ Taluc é uma divisão administrativa do sul da Ásia, parecida com um distrito ou subdistrito. O tamanho e as funções dessa unidade variam conforme o país e a época.
  45. ↑ Dote é o patrimônio ligado a um casamento. Nas sociedades muçulmanas mencionadas aqui, normalmente se refere ao valor ou aos bens que o noivo se comprometia a entregar à noiva.
  46. ↑ Sri Pada significa "pegada sagrada". A marca no cume recebeu interpretações budistas, hindus, muçulmanas e cristãs, e Ibne Batuta a relacionou a Adão. Dunn 2005, p. 245
  47. ↑ "Junco" é um nome amplo para navios asiáticos de vela. A Rihla distingue embarcações de tamanhos diferentes e dedica um trecho à construção dos grandes navios chineses. Gibb & Beckingham 1994, pp. 888–890, vol. 4
  48. ↑ Os nomes geográficos dos relatos medievais nem sempre coincidem com os atuais. Nesse caso, "al-Jawa" indicava Samudera Pasai, no norte de Sumatra, e não necessariamente a ilha de Java.
  49. ↑ Animistas é um rótulo genérico usado para religiões que reconhecem ação espiritual em seres, objetos ou elementos da natureza. Ele não identifica uma única religião organizada.
  50. ↑ Madhhab é uma escola de interpretação jurídica. Escolas diferentes podem pertencer ao sunismo e não formam religiões separadas.
  51. ↑ Dar al-Islam era uma categoria jurídica e geográfica, não um país de fronteiras fixas. Abrangia territórios sob governo muçulmano e mudava conforme a situação política. Gonçalves, Patrik Madruga (2024). «"Tu és o viajante dos árabes e dos não-árabes": os limites do Dar al-Islam e suas zonas de contato em Ibn Battuta (703–770 H./1304–1369 d.C.)» (Dissertação de mestrado). Universidade Federal de Santa Maria. Consultado em 2 de outubro de 2026
  52. ↑ No modelo mandala, o poder irradiava de centros cortesãos e podia sobrepor-se ao de outros governantes. A autoridade não dependia de fronteiras lineares como as dos Estados modernos. Waines 2010, p. 61
  53. ↑ O uso de cédulas emitidas pelo governo chamou a atenção de viajantes acostumados a moedas metálicas. A Rihla afirma que pagamentos em ouro e prata eram convertidos em papel. Dunn 2005, p. 258
  54. ↑ O Grande Canal conectava sistemas fluviais, mas o relato combina seus trechos com o rio Amarelo. Essa confusão pesa na avaliação do itinerário chinês. Haw 2006, p. 67
  55. ↑ O título designava alguém que representava ou supervisionava comerciantes estrangeiros. Não se sabe com certeza se Ibne Batuta apresentou um cargo oficial da administração iuã ou uma liderança interna da comunidade mercantil.
  56. ↑ Os números da peste pertencem à contagem narrada na Rihla. Eles não resultam de registros demográficos completos e devem ser lidos como estimativas do texto. Gibb & Beckingham 1994, pp. 918–919, vol. 4
  57. ↑ Alandalus era o nome árabe dos territórios muçulmanos da Península Ibérica. Em 1350, o domínio nacérida de Granada era o principal Estado muçulmano remanescente na península. Dunn 2005, pp. 282–284
  58. ↑ O sal de Tagaza era cortado em placas e transportado para o sul. No Sahel, podia ser trocado por ouro e outros produtos. Levtzion & Hopkins 2000, pp. 282–284
  59. ↑ Os Massufa eram um grupo berbere do Saara. Seu conhecimento dos poços, oásis e caminhos do deserto era essencial para guiar caravanas e manter o comércio transaariano.
  60. ↑ Água salobra contém mais sal que a água doce e menos que a água do mar. Pode ter gosto desagradável e, dependendo da concentração, não é adequada para beber.
  61. ↑ Bir al-Ksaib, também chamado Bir Ounane ou El Gçaib, fica no norte do Mali, em 21° 17′ 33″ N, 5° 37′ 30″ O. O oásis está 265 km ao sul de Tagaza e 470 km ao norte de Ualata.
  62. ↑ As caravanas dependiam de poços e oásis conhecidos pelos guias. Mensageiros seguiam à frente para levar água ao encontro do grupo antes da chegada a Ualata. Dunn 2005, pp. 297–298
  63. ↑ A localização da capital do Mali é tema de longo debate acadêmico, sem consenso. O historiador John Hunwick examinou os tempos de viagem indicados por Ibne Batuta para cada etapa e propôs que a capital provavelmente ficava na margem esquerda do rio Níger, em algum ponto entre Bamaco e Nyamina (Hunwick 1973).
  64. ↑ Mansa era o título do soberano do Império do Mali. Por isso, expressões como "mansa Solimão" equivalem a "rei Solimão", embora o cargo tivesse características próprias daquele império.
  65. ↑ O instrumento é aparentado ao balafom, com lâminas percutidas e ressonadores de cabaça. A grafia bala é a usada na tradução do relato. Gibb & Beckingham 1994, p. 959, vol. 4
  66. ↑ "Ditar" não significa que Ibne Juzai apenas copiou cada palavra. Como redator, ele organizou e poliu a narrativa e incorporou materiais de outras obras, prática comum na escrita medieval.
  67. ↑ Dunn oferece a tradução mais literal Um presente aos observadores sobre as curiosidades das cidades e as maravilhas encontradas nas viagens (Dunn 2005, p. 310).
  68. ↑ No contexto descrito, uma concubina era uma mulher escravizada mantida numa relação sexual e doméstica com um homem. A palavra não significa que essa relação fosse livre ou consentida.
  69. ↑ Orientalista era o nome dado na Europa a estudiosos das línguas, histórias e culturas da Ásia e do norte da África. O termo costuma ser usado com cuidado, sobretudo para essa corrente acadêmica dos séculos XVIII e XIX.
  70. ↑ O MS Arabe 2291 foi depositado em 1835 e vinha da coleção de Jacques-Denis Delaporte, mas não há prova de que ele o tenha adquirido na Argélia. Outro manuscrito parcial foi obtido pelo duque de Nemours durante as campanhas francesas na Argélia e doado à BNF em 1838. A origem argelina não pode, por isso, ser atribuída aos cinco manuscritos. Ahmed, Sumayya; Dumothier, Theo; McGinn, Kai Miyabayashi (fevereiro de 2024). «The Colonial Adventures of Confiscated Arabic Texts: Ibn Battuta's Rihla Manuscript from North Africa to the French National Library»Subscrição paga é requerida. Library Trends (em inglês). 72 (3): 463–477. ISSN 1559-0682. doi:10.1353/lib.2024.a944675
  71. ↑ "Autógrafo" significa aqui que o manuscrito pode ter sido escrito pelo próprio Ibne Juzai. Não significa que tenha sido escrito por Ibne Batuta. Ahmed, Dumothier & McGinn 2024, pp. 463–477
  72. ↑ Uma edição crítica compara manuscritos, registra variantes e procura estabelecer um texto confiável. Defrémery e Sanguinetti imprimiram o árabe junto da tradução francesa. Defrémery & Sanguinetti 1853
  73. ↑ Em francês: "La version de M. Lee manque quelquefois d'exactitude, même dans des passage fort simples et très-faciles" (Defrémery & Sanguinetti 1853, vol. 1, p. xvii).
  74. ↑ Um arabista é um pesquisador especializado na língua árabe e nas culturas e literaturas que a utilizam. O termo define uma área de estudo, não a origem étnica ou nacional da pessoa.
  75. ↑ Historicidade é a questão de saber se pessoas, viagens e acontecimentos ocorreram como o texto afirma. Questionar a historicidade de um trecho não significa negar seu valor literário ou cultural.
  76. ↑ Nesse uso, apócrifa quer dizer que a história pode ter sido acrescentada, adaptada ou atribuída ao viajante sem prova suficiente. Não é o mesmo que demonstrar que todo o episódio é falso.
  77. ↑ Colofão é a anotação final de um manuscrito. Pode trazer o nome do copista, a data e o lugar em que a cópia foi concluída. Dunn 2012, p. xii
  78. ↑ Um docudrama mistura recursos de documentário com cenas encenadas por atores. Ele procura explicar fatos reais, mas a dramatização pode preencher lacunas ou simplificar acontecimentos.

Referências

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Bibliografia

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Leitura adicional

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Em português

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Em outros idiomas

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Ligações externas

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