Retornados

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Disambig grey.svg Nota: Para os afro-brasileiros retornados a Gana, veja tabom. Para os que retornaram ao Benim, Togo e Nigéria, veja agudás.
Antigas províncias ultramarinas portuguesas.

Retornados é a designação dada aos cidadãos portugueses que, entre 1974 e 1976, após a independência das colónias em África (Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e, em especial, Angola e Moçambique) tiveram de refugiar-se em Portugal.[1][2] Apesar de a designação retornados evocar regresso, deve ser notado que muitos retornados nasceram ou viviam desde tenra idade nas antigas colónias portuguesas.

O regresso deste número elevado de pessoas transformou a sociedade portuguesa de uma forma profunda. Desta forma, contribuiu para a modernização de aldeias e cidades de todo o país, o fornecimento de peritos nas áreas da Saúde e Educação, o lançamento de novos negócios, transformação da rádio e televisão e a liberalização de costumes[3].

Conceito[editar | editar código-fonte]

No período colonial os habitantes não-indígenas eram designados por colonos, brancos, comunidade branca ou população de origem europeia. Após a Revolução passaram a ser descritos por desalojados ou deslocados e, posteriormente, de repatriados e ‘retornados’. Esta última categorização perdurou até hoje, apesar de ser mal recebida por conter uma conotação pejorativa e estigmatizante. Em alternativa ao termo que se tornaria um estereótipo negativo, muitos reclamaram a condição de apátridas, deslocados ou desalojados de guerra[4].

História[editar | editar código-fonte]

Entre maio de 1974 e novembro de 1975 terão saído de Angola para Portugal mais de 300 mil pessoas e 160 mil de Moçambique para Portugal. Muitos portugueses migraram para outros destinos, como a África do Sul, Rodésia, Índia, Brasil, Paquistão, Venezuela, etc. Cerca de 100 500 militares regressaram, em cerca de um ano, a Portugal[5].

Muitos portugueses regressaram de barco, trazendo milhares de caixotes que ficavam espalhados pela cidade de Lisboa, no Porto de Alcântara. As pessoas ficavam albergadas em pensões e hotéis pagos pelo Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, no Inatel da Costa da Caparica ou na cadeia do Forte de Peniche[6].

A maioria dirigiu-se às zonas de origem familiar, beneficiando do amparo familiar e comunitário. Os que não tinham rede de apoio ficaram instalados em edifícios estatais (INATEL, instalações militares, parques de campismo municipais, etc.) e em pensões e hotéis, a expensas do Estado, incluindo os de 4 e 5 estrelas, especialmente em Lisboa e no Porto.

As pontes aéreas permitiram o regresso de um número elevado de pessoas, quase 174 000 ultramarinos[7], nomeadamente entre Lisboa e Luanda e Luanda e Porto.

Instalados em Portugal, muitos retornados viveram situações dramáticas, ao nível da falta de assistência médica, emprego, habitação e muita burocracia para obtenção de documentos de identificação, cartas de condução, etc. Por exemplo, os retornados de Angola tiveram problemas associados às dificuldades de conversão da moeda angolana para portuguesa, chegando mesmo a ocupar o Banco de Angola. Existiu ainda dificuldade no pagamento de pensões de aposentação dos funcionários das colónias.

Muitas entidades estrangeiras procuraram prestar auxílio aos retornados, nomeadamente a Cruz Vermelha Internacional, a ONU, embaixada dos EUA em Lisboa (Frank Carlucci), governo do Canadá, etc[8].

Outros usos[editar | editar código-fonte]

Também são chamados retornados os tabom, que são os escravos libertos no Brasil (afro-brasileiros) retornados ao Gana, em África em 1835-36. Da mesma forma, o termo se aplica aos amarôs ou agudás, que são os afro-brasileiros que retornaram ao Benim, Togo e Nigéria.[9]

Foi uma palavra muitas vezes utilizada com sentido pejorativo.[10]

Influência[editar | editar código-fonte]

Cinema[editar | editar código-fonte]

Os retornados das colónias portuguesas africanas foram objeto de um tratamento nos seguintes filmes:

e nos documentários:

  • Adeus, até ao Meu Regresso (1974);
  • O Fim do Colonialismo (1976);
  • Retornados - Instrumentos e Vítimas (1981);
  • Retornados ou os Restos do Império (2002).

Televisão[editar | editar código-fonte]

Literatura[editar | editar código-fonte]

Apesar de prevalecer a ideia do vazio editorial sobre a questão dos retornados, existem diversos livros relevantes:

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. «Quem eram os "retornados"?». Ensina RTP. Rádio e Televisão de Portugal. Consultado em 4 de outubro de 2016 
  2. Matos, Helena (20 de agosto de 2014). «Os retornados começaram a chegar há 40 anos». Observador 
  3. Revista Sábado (31 de Janeiro de 2019). O impacto que os retornados tiveram no País.
  4. Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto
  5. Meneses, Maria Paula, Gomes, Catarina (2013). Regressos? Os retornados na (des)colonização portuguesa, Universidade de Coimbra.
  6. «"As histórias de crimes do colonialismo neste século estão largamente por contar", entrevista a Fernando Rosas | BUALA». www.buala.org. Consultado em 29 de maio de 2018 
  7. Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto .
  8. Lourenço, Isabel (2018). Retornados – Representações Sociais na Integração (1974-79), Faculdade de Letras da Universidade do Porto .
  9. «Os Retornados». Cartas d'África. Ministério das Relações Exteriores. Consultado em 4 de outubro de 2016. Arquivado do original em 4 de janeiro de 2011 
  10. Caetano, Maria João (4 de novembro de 2015). «Retornar, ou seja, tornar vivas as memórias que temos de África». Diário de Notícias. A antropóloga Elsa Peralta, comissária da exposição, explica que "a palavra retornado foi usada como alcunha, como ofensa, era um termo pejorativo. 
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