Anarquismo verde

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Bandeira do eco-anarquismo

O Anarquismo Verde ou eco-anarquismo ou, ainda, ecologia libertária [1] [2] é uma corrente anarquista nascida nos anos 1970, no bojo do movimento antinuclear. [3] Além de se opor à autoridade e à hierarquia, critica a tecnologia, como forma de dominação da natureza pelo homem.

Propõe a auto-organização, a autogestão das coletividades, o mutualismo e, além disso, [4] segundo os anarquistas verdes, o movimento libertário, para evoluir, deve rejeitar o antropocentrismo e realizar uma mudança radical nas relações entre homem e natureza.

O eco-anarquismo baseia-se nos trabalhos teóricos do geógrafo Élisée Reclus e de Piotr Kropotkin e é próximo da ecologia social, elaborada pelo americano Murray Bookchin.

Perspectiva histórica[editar | editar código-fonte]

Vários textos anarco-primitivistas, inseridos numa perspectiva de pensamento eco-anarquista, começam por apresentar o argumento histórico segundo o qual o homem é naturalmente anarquista dada a sua evolução, o que permite compreender o mundo primitivo como correspondendo a uma economia verdadeiramente sustentável, em que o homem vive em equilíbrio com o seu ecossistema. Nos presumidos 10.000 anos de civilização, há uma progressiva alienação, numa economia baeada na exploração ilimitada da natureza.

Os anarco-primitivistas não defendem verdadeiramente um retorno ao passado. Esse olhar para o mundo primitivo visa muito mais repensar os modos de existência e o lugar do homem na natureza do que recriar um mundo passado. Procura-se, assim, apontar os aspectos patológicos da civilização e suas consequências para mostrar a necessidade de reconectar o homem com a natureza, da qual é parte.

Conceito do "bom selvagem"[editar | editar código-fonte]

Um tema algo controverso relacionado com o eco-anarquismo diz respeito à ideia do "bom selvagem". Este surgiu em meados do século XVIII em vários autores, sobretudo Rousseau. O debate atravessa o mundo académico em discussões de diversas disciplinas, com implicações das mais diversas ordens. Alguns daqueles que criticam o eco-anarquismo se utilizam desse conceito para atacá-lo. Os autores eco-anarquistas rebatem a crítica, fazendo referência a relatos de antropólogos contemporâneos acerca de culturas que ainda não foram absorvidas pela sociedade industrial. Tais relatos apresentam o "selvagem" como basicamente pacífico, e o mundo primitivo caracteriza-se por esse modo de vida pacífico. Ted Kaczynski procura explicar, no seu manifesto, as várias fontes de disfuncionalidades das sociedades modernas e como as sociedades primitivas apresentavam-se mais saudáveis. Por outro lado, John Zerzan procura distinguir entre sociedades puramente selvagens e aquelas que, por praticarem a agricultura, tinham já presente algum modo de domesticação. Na entrevista de Derrick Jensen a John Zerzan, "Enemy of the State", pode ler-se a seguinte passagem:

"Tendo em conta que a nossa cultura inventou o napalm e as armas nucleares, eu não estou certo se estamos em posição de julgar a violência de pequena escala de outras culturas. Mas é importante notar que nenhum dos grupos canibais ou caçadores de cabeças eram verdadeiros caçadores-colectores. Hoje é geralmente aceito que a agricultura quase sempre conduz a um aumento do trabalho, um decréscimo na partilha, aumento da violência e mais baixa expectativa de vida. Isto não quer dizer que todas as sociedades agrícolas sejam violentas, mas antes que a violência não é largamente uma característica de verdadeiros caçadores-colectores."

O caso "Unabomber"[editar | editar código-fonte]

Um dos textos que mais impacto mediático originou em torno desta corrente foi o de Theodore Kaczynski, o manifesto do Unabomber, denominado "Industrial society and Its Future", onde o autor defende que a liberdade humana está ameaçada pelo desenvolvimento da sociedade industrial. O Unabomber ficou conhecido por ter cometido vários atentados a bomba através do correio contra aqueles que ele percebia como sendo os "arquitectos da nova ordem mundial". Ainda que as suas acções sejam totalmente ou parcialmente condenadas por alguns anarquistas, Ted Kaczynski é em grande medida apoiado como um "prisioneiro político" no meio anarquista insurreccionário verde, e o seu manifesto tem um enorme relevo na corrente política eco-anarquista. Nele podemos ler a seguinte passagem:

Se for permitido às máquinas tomar suas próprias decisões, nós não podemos fazer qualquer conjectura quanto aos resultados, porque é impossível adivinhar como tais máquinas poderão se comportar. Apenas assinalamos que o destino da raça humana estaria à mercê das máquinas. Pode ser argumentado que a raça humana nunca seria tola o suficiente para passar todo o poder para as máquinas. Mas nós não estamos nem a sugerir que a raça humana voluntariamente abdicaria do poder para as máquinas nem que as máquinas obteriam o poder por vontade. O que nós sugerimos é que a raça humana pode facilmente permitir-se a deslizar para uma posição de dependência tal das máquinas que não teria escolha viável senão a de aceitar todas as decisões das máquinas. Enquanto a sociedade e os problemas que enfrenta se tornam mais e mais complexos e as máquinas se tornam mais e mais inteligentes, as pessoas deixam que as máquinas tomem mais decisões por elas, simplesmente porque decisões feitas por máquinas trazem melhores resultados do que as feitas por homens. Eventualmente um estágio poderá ser atingido no qual as decisões necessárias para manter o sistema em funcionamento serão tão complexas que os seres humanos serão incapazes de as tomar inteligivelmente. Nesse estádio as máquinas estarão em controlo efectivo. As pessoas não poderão desligar as máquinas, porque elas estarão tão dependentes destas que desligá-las traduzir-se-ia em suicídio.

Por outro lado, é possível que o controlo humano sobre as máquinas seja retido. Nesse caso o homem médio poderá ter controlo sobre certas máquinas privadas dele, tal como o seu carro e o seu computador pessoal, mas o controlo sobre o amplo sistema de máquinas estará nas mãos de uma pequena elite. – tal como está hoje, mas com duas diferenças. Devido a técnicas aperfeiçoadas a elite terá maior controlo sobre as massas; e visto que o trabalho humano não será necessário, as massas serão supérfluas, um inútil fardo para o sistema.[...] Eles certificar-se-ao que as necessidades físicas de todas as pessoas são satisfeitas, que todas as crianças são criadas sob condições psicologicamente higiénicas, que todas as pessoas têm um hobby recompensador que os mantenha ocupados, e que todas as pessoas que poderão se tornar insatisfeitas sejam sujeitas a “tratamento” para curar o seu “problema”. Claro que, a vida será tão vazia de sentido que as pessoas terão de ser biológicamente ou psicologicamente engendradas [...] Estes seres humanos artificialmente projetados poderão ser felizes nesta sociedade, mas eles certamente não serão livres. Eles serão reduzidos ao status de animais domésticos."

Alguns sinais do argumento do Unabomber na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Desde os primordios da construção da maquina industrial que tem havido homens que se opuseram a ela, seja esta por uma tomada de posição consciente que marcou as ideias dos homens, seja por acção directa contra os seus elementos materiais, ou seja através do produto da nossa cultura expressa na arte.

Desde o início do último século que vários livros de ficção procuram explorar a força das novas tecnologias, trazidas pela idustrialização, e de como estas se tornaram o guião para abosulta alienação e o esvaziar da liberdade humana. De entre os livros que descrevem distopias industriais contam-se os clássicos literários "Admirável Mundo Novo" e "1984", entre outros.

No cinema também têm surgido muitas manifestações de desalento pelo modo de vida da sociedade industrial e de como esta nos conduz a um abismo marcado pelo controlo da vida na depedência da tecnologia. Os filmes "Fight Club", "Matrix", "V for Vendetta"," Metrópolis", "Blade Runner", "THX 1138", "1984" e "Brazil, o filme" são exemplos.

Entre vários autores e académicos conhecidos que exploram estes temas podemos encontrar, Jacques Ellul, Neil Postman, Herbert Marcuse, Lewis Mumford, John Zerzan e Derrick Jensen.

Relação com outras correntes e ideias[editar | editar código-fonte]

Ecologia social[editar | editar código-fonte]

Ecologia social um conceito criado pelo geógrafo anarquista Elisée Reclus em fins do século XIX e reapropriado pelo filósofo Murray Bookchin nos anos de 1960.

Sustenta a idéia que os problemas ecológicos atuais estão arraigados e profundamente assentados em problemas sociais, particularmente no domínio dos sistemas políticos e sociais hierarquizados. Estes resultaram de uma aceitação não-crítica de uma filosofia hipercompetitiva do crescer ou morrer. Sugere também que não é possível fazer frente a tais problemas através de ações individuais como o consumismo ético, mas precisa estar relacionado a formas de pensamento éticos mais profundas e atividades coletivas fundamentadas em ideais democráticos radicais (libertários). A complexidade das relações entre pessoas e a natureza é enfatizada, junto com a importância de se estabelecer estruturas sociais que possam levar em conta tais relações.

Anarcoprimitivismo[editar | editar código-fonte]

O anarcoprimitivismo não é propriamente uma outra vertente, independente em relaçao ao eco-anarquismo. É importante notar, porém, que este termo também não representa um sinônimo. Se por um lado, todos os anarco-primitivistas são eco-anarquistas, nem todos os eco-anarquistas são anarco-primitivistas, ainda que esta, seja, talvez, a vertente mais representante desta corrente.

Tendo identificado o industrialismo como expressão da injustiça social que decorre da divisão do trabalho e da repressão hierarquizada que daí advém para manter o sistema em funcionamento, comum a qualquer anarquista verde, o desenvolvimento da análise dos seus fundamentos, divide, como seria de esperar, os diferentes autores. Assim, o anarcoprimitivismo, pode ser identificado, acima de tudo, pela sua crítica à cultura simbólica, que poderá não ser partilhada, a diferentes níveis, por todos os eco-anarquistas.

Regularmente é apontado como exemplo, Kaczynski como sendo um autor meramente critico da sociedade industrial, não correspondendo exactamente à mesma linha de John Zerzan, um anarco-primitivista. Esta critica é, por vezes, algo exagerada, já que não nos podemos esquecer que, em todo o caso, também o Unabomber, no seu manifesto, nos aponta para a vida selvagem como alternativa ao modo de vida da sociedade tecno-industrial. Ainda assim, este poderá representar um bom ponto de discussão nesta matéria. O ponto que realmente divide estes autores, e que pode ser uma boa base para a compreensão da extensão e aprofundamento do anarcoprimitivismo em relaçao ao anarquismo verde de um modo geral, é explorado no texto do colectivo Green Anarchy "Place the Blame Where It Belongs", que surgiu como resposta crítica ao texto de Kaczynski, "Hit Where Hit hurts". Nele podemos ler:

[...]Racismo, sexismo, homofobia e pobreza não são "questões não-essenciais" para nós, como parecem ser para Ted; heterossexualidade compulsória, conformidade sexual socialmente imposta, racismo, misoginia, e divisão de classes são tudo produtos de uma estrutura de poder hieraquica, patriarcal, e nenhum destes problemas poderá alguma vez ser resolvido dentro do contexto da civilização. Não é a "tecnologia, acima de tudo, que é responsável pela corrente condição do mundo", como o Ted alega - é a civilização/patriarquia - e se nós queremos desmantelar a megamáquina tecnológica que está agora a devorar a nossa biosfera, então nós precisamos de compreender como a megamáquina surgiu, o que conduziu à sua criação, e de como serve os interesses dos governantes da civilização.

[...] Nós sentimo-nos compelidos a dizer que a análise do Ted da patriaquia e civilização é seriamente faltosa. [...] Simplesmente e somente removendo a tecnologia como a resposta total libertária é uma limitada aproximação mecanicista. Nós enfrentamos uma totalidade de dominação que oprime toda a vida e nós precisamos de tentar ver a grande figura. Para a transformação antiautoritária, muitas lutas são necessárias e precisam de ser respeitadas, acompanhadas com uma consciência da subjacente conectividade.

Anarquismo Clássico[editar | editar código-fonte]

Os eco-anarquistas procuram apontar para a necessidade de compreender para lá da visão, que eles consideram superficial, de analisar as questões meramente em termos de poder político na tradição clássica do anarquismo, e defender aquilo que eles consideram ser a visão mais global do domínio da vida a todos os níveis, que a natureza do homem hoje enfrenta. Daí a necessidade da defesa do homem no ecossistema, passando sempre pela consideração da sua sustentabilidade no mundo natural e a reclamação do mundo selvagem.

Ambientalismo[editar | editar código-fonte]

O eco-anarquismo não é, simplesmente, anarquismo com preocupações ecológicas. Desde sempre que em toda a tradição anarquista houve, de alguma forma, uma crítica em defesa do ambiente. É a ideia de que a luta contra a exploração capitalista nos atinge nos mais diversos modos, e que as pessoas ao não se organizarem em beneficio proprio, enfretam a degradação, e o ambiente é uma dimensão desse assalto, que existe apenas para o beneficio materialista de alguns.

O anarquismo verde vai um pouco mais longe do que isto, e considera esta análise, em relação ao ambiente, tão mecanicista como a análise do poder político por parte dos anarcossindicalistas. O anarquismo verde, mais do que defender um mundo aparentemente mais "verde", ou certas expressões superficiais de uma natureza intacta, defende uma integração absoluta e necessaria no ecossistema, abandonando por completo os valores de comodidades liberais da sociedade autoritária.

Pacifismo[editar | editar código-fonte]

Certos sectores anarquistas defendem que o pacifismo é uma expressão natural desta doutrina visto que a violência acarreta uma resposta ainda mais repressiva do sistema. Para os eco-anarquistas, o problema é que as condições para um aumento de controlo e uma resposta natural das pessoas, independentemente de serem anarquistas ou não, já estão criadas. Assim passamos de sucessivos niveis de controlo que uma vez atingidos muito dificilmente podem retroceder. Kaczynski, no seu manifesto, descreve numa passagem, entre várias, um retrato que dá conta desta realidade:

Imagine uma sociedade que sujeita as pessoas a condições que as torna terrivelmente infelizes, depois dá-lhes drogas para lhes tirar a sua infelicidade. Ficção científica? Já está a acontecer em alguma extensão na nossa sociedade. É bem conhecido que o nível de depressão clinica tem estado a aumentar em recentes décadas. Nós acreditamos que isto se deve à perturbação do processo de poder [...] Mas mesmo que nós estejamos errados, o progressivo aumento do nivel de depressao certamente resulta de ALGUMA condição que existe na sociedade de hoje. Em vez de remover as condições que tornam as pessoas deprimidas, a sociedade moderna dá-lhes drogas antidepressivas. Em efeito, os antidepressivos são um modo de modificação do estado interno do indivíduo de forma a que lhe permite tolerar condições sociais que em outro caso ele acharia intolerável. (Sim, nós sabemos que a depressao é muitas vezes de origem puramente genética. Nós estamos a referirmo-nos aqui aqueles casos em relaçao aos quais o ambiente tem o papel predominante.)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Against His-Story, Against Leviathan, de Fredy Perlman
  • Stone Age Economics, de Marsall Sahlins
  • Against the Future, de Kirkpatrick Sale
  • Future Primitive, de John Zerzan
  • The Technological Society, de Jacques Ellul
  • Industrial Society and Its Future, de Theodore Kaczynski
  • Technics and Human Development: The Myth Of The Machine, de Lewis Mumford
  • Technics and Civilization, de Lewis Mumford
  • My Name is Chellis, and I'm in Recovery From Western Civilization', de Chellis Glendinning
  • A Language Older Than Words, de Derrick Jensen

Alguns Autores[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Anarchisme et Écologie : le vert et le noir, L'En Dehors, 21 de dezembro de 2004.
  2. Anarchisme vert et anarchisme classique, L'En Dehors, 21 de novembro de 2004.
  3. Quelle est la couleur de l'écologie politique ?, Le Banquet, 1999. Por Robert Redeker.
  4. Noël Nel, Pour un nouveau socialisme. L'Harmattan, 2010, ISBN 978-2-296-13282-5, p. 277.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]