Esquerda caviar

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Esquerda caviar (em francês: Gauche caviar) é um termo pejorativo originário da língua francesa, utilizado para descrever alguém que diz ser um socialista mas que leva uma vida de luxos e glamour. O termo indica que os membros da esquerda caviar não são sinceros em suas crenças, uma vez que prega algo (uma sociedade socialista) e, de maneira hipócrita, faz outro completamente diferente (se beneficia do sistema capitalista). Um termo análogo seria champagne socialist, em inglês, ou esquerda festiva, em português.

História[editar | editar código-fonte]

O dicionário Petit Larousse define esquerda caviar como uma expressão pejorativa para se referir ao "progressivismo combinado com um gosto pela alta sociedade e situações adquiridas".[1] O jornalista brasileiro Mino Carta define gauche caviar como "representantes do chique radical".[2]

A expressão surgiu como um neologismo político na década de 1980, sendo empregada pelos detratores do governo de François Mitterrand.[3] [4] De acordo com o historiador e diplomata aposentado Sérgio Romano, que não considera Mitterand integrante da gauche caviar, este grupo é sempre cortejado pelos governantes.[5]

No governo de Miterrand, ela protegeu os membros da luta armada italiana dos anos de chumbo.[5] De acordo com Romano, a gauche caviar arrancou de Mitterand, pois sabia de sua maior fraqueza, a chamada "doutrina Mitterand": os que participaram de luta armada, desde que dela renunciassem, podiam residir na França, sem risco de extradição.[5] A maior fraqueza de Mitterand decorria do fato ter sido, no curso da Segunda Guerra Mundial, colaborador condecorado do governo da França de Vichy, de caráter fascista.[5]

Ségolène Royal foi descrita como gauche caviar quando foi revelado em 2007 pela imprensa francesa que ela não estava pagaando o imposto de renda. A utilização do termo foi muito prejudicial para sua campanha à presidência da República. Da mesma forma, Bernard Kouchner e sua esposa Christine Ockrent, figuras importantes do Partido Socialista foram rotulados com o termo.[6] Isto não prejudicou, entretanto, a nomeação dele ao cargo de Ministro de Assuntos Externos por Nicolas Sarkozy, não foi prejudicada pela utilização do termo (ele foi expulso do PS por participar da coalizão da UMP).

O governo do presidente Sarkozy, aproximou-se da gauche caviar e muitos deste grupo (como o já citado Kouchner) assumiram cargos no governo.[5] A própria primeira-dama francesa, Carla Bruni, é considerada musa da gauche caviar por alguns.[7] [8] [9]

A revista semanal Le Nouvel Observateur, é descrita por muitos como "órgão semi-oficial dos gauche caviar franceses".[10] [11]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

O jurista Wálter Fanganiello Maierovitch, comentando sobre o caso de extradição do ex-terrorista italiano Cesare Battisti no seu blog Sem Fronteiras, se referiu a Fred Vargas, Bernard-Henry Lévy, Daniel Pennac e demais intelectuais do Partido Verde da França que defendem Battisti, como membros da gauche caviar.[5] [12] Ele defende que a gauche caviar se opunha ao eurocomunismo: "a gauche caviar gostava, sempre sem sair dos salões, dos revolucionários que, pela força das armas, tinham por meta conquistar o poder".[5]

Fazendo uma analogia à esquerda brasileira, Maierovitch diz que a gauche caviar seria, no Brasil, "a nossa esquerda festiva, que freqüenta a coluna social, só voa em jatinhos particulares, pede vinho com base na fama do rótulo, escolhe restaurantes cinco estrelas e divide a mesa com reacionários como o falecido Antonio Carlos Magalhães".[5] Em entrevista a Kennedy Alencar da Rede TV, o ministro da Defesa Nelson Jobim afirmou que o episódio conhecido como falsificação da Constituição de 1988 não passou de "uma saída política" construída pela "gauche caviar paulista".[13] Ele, entretanto, não define o que seria esta "gauche caviar paulista".

O termo também é utilizado pelo economista Rodrigo Constantino em seu livro, Esquerda Caviar (Editora Record), onde atualiza o termo "esquerda festiva" em uma análise da ideologia e prática de artistas e intelectuais do Brasil e do mundo.O título do livro visa explanar a hipocrisia dos que defendem causas nobres muito mais para parecer "legal" que por causa dos resultados concretos daquilo que prega.[14]

Em Portugal[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, o epíteto "esquerda caviar" é frequentemente atribuído ao Bloco de Esquerda[15] (o partido que se senta nos lugares mais à esquerda do parlamento português), com a implicação que grande parte dos seus dirigentes e apoiantes viriam das classes sociais mais favorecidas.

Referências

  1. (em francês) Site do dicionário. Pesquisa para "Caviar": Gauche caviar, gauche dont le progressisme s'allie au goût des mondanités et des situations acquises.
  2. CARTA, Mino (30 de janeiro de 2009). E que esperava o ministro Tarso? CartaCapital. Cópia arquivada em 31 de janeiro de 2009.
  3. (em inglês) BOULÉ, Jean-Pierre (2002). HIV Stories: The Archaeology of AIDS Writing in France, 1985-1988. Universidade de Liverpool. p. 20. ISBN 0853235686.
  4. (em inglês) RAPHAEL-HERNANDEZ, Heike; GILROY, Paul (2004). Blackening Europe: The African American Presence. Routledge. p. 158. ISBN 041594399X.
  5. a b c d e f g h MAIEROVITCH, Wálter Fanganiello. "Battisti e a gauche-caviar". Sem Fronteiras. 31 de janeiro de 2009
  6. (em inglês) SCIOLINO, Elaine. "A Surprising Choice for France’s Foreign Minister". The New York Times. 18 de maio de 2007.
  7. The Guardian. "Aos pés de madame Bruni". Zero Hora. 6 de abril de 2008.
  8. "Damas de primeira". Veja. 31 de dezembro de 2008.
  9. "Sarkozy e Carla Bruni: quem traiu primeiro? Pergunta irrita o presidente na véspera das eleições regionais". Cada Minuto. 13 de março de 2010.
  10. VINOCUR, John. "Chirac's Potential Heirs Keeping Change Hidden". International Herald Tribune (republicado por The New York Times). 20 de junho de 2006.
  11. DUARTE-PLON, Leneide. "Questões éticas sobre assuntos privados". Observatório da Imprensa. 19 de fevereiro de 2008.
  12. MAIEROVITCH, Wálter Fanganiello. "Battisti: sua folha-corrida antes do terror. Os novos capítulos". Sem Fronteiras. 27 de janeiro de 2009.
  13. "PARTE III - Programa É Notícia, da Rede TV, entrevista o ministro Nelson Jobim". Ministério da Defesa.
  14. http://diariocatarinense.clicrbs.com.br/sc/variedades/noticia/2013/11/rodrigo-constantino-lanca-esquerda-caviar-livro-polemico-que-critica-ideologia-de-artistas-e-intelectuais-4344545.html Visitada em 28/02/2014
  15. Tempos de antena: quem os viu e quem os vê TVI24. Visitado em 5 de maio de 2012.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Joffrin, Laurent. Histoire de la gauche caviar. Éditions Robert Laffont. Paris: 2006.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]