Jansenismo

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O Jansenismo foi uma teologia cristã que surgiu na França e Bélgica, no século XVII e se desenvolveu no século XVIII.

Tem esse nome porque tem origem nas idéias do bispo de Yprès, Cornelius Jansen. O Jansenismo era uma versão modificada do calvinismo, que por sua vez se baseia na teologia de Agostinho de Hipona.

Podemos distinguir no jansenismo três diferentes aspectos:

  • o dogmático, de que o Augustinus é o fundamental representante
  • o moral, que tem Antoine Arnauld como principal promotor
  • o disciplinar, no qual encontramos Saint-Cyran como modelo

Claro que cada uma destas dimensões do jansenismo não se reduz a estes nomes. Mas cada um deles, à sua maneira, foi o iniciador ou principal promotor de cada um destes princípios.


Índice

[editar] Jansenismo dogmático

A doutrina dogmática do jansenismo tem uma grande importância, na medida em que dá origem e sustento às outras dimensões. Muitas das prescrições morais e disciplinares do jansenismo são consequência das suas posições dogmáticas.

A doutrina jansenista filia-se num agostinianismo pouco crítico e lido com os olhos de Baio, apresentando neste aspecto um nítido parentesco com as doutrinas protestantes, sobretudo as calvinistas, sobre a graça, a natureza humana e a predestinação. O ponto central e essencial é uma antropologia pessimista, que vê no pecado original a corrupção da natureza humana, doravante incapaz de qualquer obra boa e fatalmente inclinada para o mal.

Intrinsecamente corrompido pelo pecado, o homem torna-se um joguete de duas forças antagónicas: a concupiscência e a graça. Cada uma delas exerce sobre o homem uma determinação interna a que ele não pode resistir. Ou seja, assim como o homem que recebe a graça age forçosamente segundo essa graça, assim também aquele a quem a graça não é dada segue fatalmente a concupiscência. A liberdade do homem salvaguardar-se-ia pelo facto de tanto a graça como a concupiscência apenas determinarem o homem internamente, deixando-o livre da coacção externa. Nisto consiste a diferença em relação ao protestantismo.

A graça, portanto, é de tal modo determinante que, uma vez recebida, o homem não pode resistir-lhe. Daí que toda a graça é eficaz, pelo que não existe a graça suficiente, a graça que seria concedida sempre e a todos, mas que poderia não ser seguida pelo homem.

Diversas são as implicações desta doutrina. Por um lado, o pecado pessoal significa necessariamente uma privação da graça: quem peca, é porque não tem graça, pois se a tivesse agiria segundo ela. Por outro lado, o homem não tem mérito nas boas obras, pois elas são fruto da graça que interiormente o determina, e não da sua liberdade. Além disso, o homem privado da graça (e uma vez que não há graça suficiente, ela é sempre ocasional) peca infalivelmente e é incapaz de qualquer boa obra, pois segue sempre a concupiscência. Daí que as obras dos infiéis sejam sempre pecado, pois estão privados da graça eficaz proveniente da redenção de Cristo. Uma outra implicação mais grave brota de toda esta doutrina. O homem só realiza boas obras por virtude da graça eficaz. Ora, tal graça não é sempre concedida, mas é Deus que com absoluta liberdade determina a quem a concede. Logo, é Deus que determina quem são os que realizam boas obras e, consequentemente, aqueles que se salvam e aqueles que se condenam. A consequência lógica do jansenismo é a doutrina da predestinação. Aqui temos mais um forte ponto de contacto com o calvinismo.

Por conseguinte, Cristo não morreu por todos os homens, mas somente por aqueles que se salvam, os eleitos, e só esses recebem a graça. No fundo, com o jansenismo assistimos mais uma vez à tentativa, tão presente nas heresias dos primeiros séculos, de admitir na Igreja apenas as pessoas puras e perfeitas, e não todos os homens que estejam dispostos ao arrependimento. Todas estas doutrinas, duma forma ou doutra estão presentes no Augustinus, e foram condenadas por diversas vezes pela Igreja Católica.

[editar] Jansenismo moral

Mas não foi o aspecto dogmático do jansenismo que originou a sua grande difusão e popularidade. Foi antes a sua doutrina moral. Como dissemos, podemos encontrar um eloquente exemplo da moral jansenista em Arnauld e no seu livro De la fréquente communion. Mas devemos buscar a doutrina moral do jansenismo também nas fontes anteriores, a começar pelo Augustinus.

Nesta obra, no tomo II, encontramos os fundamentos da moral jansenista. Segundo o autor, a ignorância, ainda que invencível, não escusa do pecado, porque tal ignorância é precisamente a consequência do pecado original. Além disso, como vimos, o homem, sem a graça, peca necessariamente, a sua natureza arrasta-o sempre irresistivelmente para o pecado, de tal modo que, se o homem, por suas forças, pretender escapar a um pecado, cai fatalmente noutro. Ou seja, o pecado é inevitável na vida humana. Daí todo o pessimismo jansenista em relação à natureza humana, que tanto leva ao desprezo por todas as obras, ainda que aparentemente meritórias, dos pecadores e dos infiéis, como conduz a um extremo rigorismo no que diz respeito a qualquer possível “cedência à natureza”.

Saint-Cyran foi o iniciador da prática moral jansenista. A penitência, para ele, era tratada com um imenso rigorismo. Assim, dizia ele que a absolvição não perdoava propriamente os pecados, mas declarava sim que eles haviam sido perdoados por Deus. Deste modo, era necessária uma contrição perfeita para que a absolvição fosse válida, pois a simples atrição era insuficiente. A consequência prática disto era a recusa da absolvição aos pecadores reincidentes e àqueles em que não fosse certa uma perfeita contrição. As religiosas de Port-Royal tinham por hábito não se atreverem a receber a absolvição, por não se julgarem preparadas…

Em relação à comunhão, as condições exigidas também eram bastante rigoristas. Exigia-se a perfeição, de modo que acabava por ser considerada mais meritório o desejo de comungar, ou a “comunhão espiritual”, do que a própria comunhão eucarística. Daí que um dos efeitos do jansenismo, através dos tempos, tenha sido precisamente o afastamento dos sacramentos.

Esta atitude relativamente à recepção dos sacramentos é facilmente compreensível se tivermos em conta que Deus, para o jansenismo, aparece como o terrível juiz que decide arbitrariamente da nossa sorte, de modo que a relação com Ele, como dissemos, é baseada no temor e não no amor. Todo este rigorismo aparecia como contraposição ao laxismo que os jansenistas personificavam nos jesuítas. E, de facto, um dos méritos do jansenismo foi precisamente a denúncia desse laxismo que imperava na vida cristã de muitos. O erro, porém, foi condenar, junto com o laxismo, todo o probabilismo e a preocupação pastoral, a favor dum rigorismo teórico e desencarnado.

[editar] Jansenismo disciplinar

A nível disciplinar, o jansenismo advoga uma reforma da Igreja que elimine as perniciosas novidades introduzidas desde o tempo dos antigos padres e os desvios operados por escolásticos e jesuítas. Isto baseado na concepção da Igreja como sociedade imutável, de origem divina, e como tal isenta de qualquer mudança.

O que vem a acontecer, fruto das sucessivas condenações de que o jansenismo foi vítima, é que se advoga um aumento da autoridade da hierarquia local, em detrimento da do Papa. Com o tempo, ainda, face às perseguições, o jansenismo procura fazer alianças com as autoridades civis, a fim de melhor resistir, e nesse aspecto assume um significado político. Sobretudo a partir do séc. XVIII, o jansenismo relaciona-se com a pretensão de independência face à Igreja de Roma e confunde-se com a criação de Igrejas nacionais.

Neste ponto, é interessante notar um paradoxo que acompanhou o jansenismo desde o seu início: os seus defensores sempre declararam a sua pertença à Igreja e a sua vontade de se submeterem aos seus juízos. Jansen, à hora da morte, declarou submeter-se de antemão ao juízo da Igreja. O Augustinus, aliás, tinha uma dedicatória ao papa Urbano VIII, que não chegou porém a ser impressa, devido à proibição que esse mesmo papa fizera da publicação. Mas assim como se declaravam dispostos a obedecer, os jansenistas também procuraram sempre todos os subterfúgios para continuarem a defender as suas ideias, apesar das condenações.

[editar] História do Jansenismo

[editar] Cornelius Jansen

A primeira grande figura do jansenismo, de tal modo que deu o nome ao movimento, foi o holandês Cornelius Jansen. Descrito como um homem de estudo, com uma grande memória, perseverança e tenacidade, mas também como tendo um espírito duro, seco, gelado, ambicioso e tímido, Jansen, nasceu em 1585, em Acquoy, no sul da Holanda. Estudou nas universidades de Utrecht e de Lovaina, onde, ouvindo as lições do mestre Janson, toma contacto com as doutrinas de Baio e se orienta para o agostinianismo. Mais tarde prosseguiu os seus estudos em Paris. Foi nesta cidade que conheceu o seu grande amigo Jean Du Vergier de Hauranne, mais conhecido por Saint-Cyran.

De 1611 a 1617 permaneceram ambos em Bayonne, onde Du Vergier possuía uma casa, para se dedicarem ao estudo da antiguidade cristã. Foi por essa altura que Jansen terá lido dez vezes as obras de Santo Agostinho e trinta vezes os escritos deste santo sobre a graça e o pelagianismo, segundo ele mesmo mais tarde se gabava.

Em 1617, ao entrar um novo bispo em Bayonne, os dois amigos separaram-se, indo Saint-Cyran para Poitiers e Jansen de novo para Lovaina, onde assumiu uma cátedra de Escritura em 1630, após ser presidente do seminário de Sta. Pulquéria e deputado da universidade junto do rei de Espanha.

Em 1638, graças a uma obra escrita contra os franceses, o Mars Gallicus, foi promovido a bispo de Ypres, onde veio a falecer dois anos depois, não sem ter completado, corrigido e entregue aos seus amigos para publicação a grande obra da sua vida e a matriz do jansenismo: o Augustinus.

[editar] O Augustinus

Desde que tomou contacto com Santo Agostinho, com a sua polémica contra os pelagianos e com a sua doutrina sobre a graça (muito marcada, como vimos, por essa polémica), Jansen pensou em escrever uma obra onde expusesse e defendesse com clareza a doutrina do grande Doutor. Durante anos ocupou-se da composição desta obra, que nunca cessou de rever e corrigir, ao longo dos anos, inclusive enquanto bispo de Ypres. Esta obra, intensamente burilada, foi entregue, após a morte do seu autor, pelos seus amigos, para ser publicada.

Apesar da oposição dos jesuítas, que invocaram a proibição do Papa Paulo V de que se publicasse algum escrito sobre o assunto sem aprovação do Santo Ofício, e que conseguiram mesmo que o Papa Urbano VIII proibisse a publicação, a obra foi efectivamente publicada na Holanda, em 1640, propagando-se com rapidez para a Alemanha e para outros países. Alcançou bastante sucesso e foi louvada inclusivamente pelos calvinistas, de tal modo que alguns chegaram a ver nesta obra a base duma união entre calvinismo e catolicismo. A sua ampla difusão levou a que fosse reimpressa no ano seguinte, em Paris, e em 1643, em Rouen.

A obra de Cornelius Jansen tinha por título completo Augustinus, seu doctrina Sancti Augustini de humanae naturae, sanitate, aegritudine, medicina adversus Pelagianos et Massilienses, e dividia-se em três tomos. Apresentava um total de cerca de 1300 páginas, em duas colunas de letra pequena. No primeiro tomo, constituído por oito livros, expunha-se a história do pelagianismo e do semipelagianismo, refutando cuidadosamente, com minúcia, todos os seus pontos (e fazendo sub-repticiamente um paralelo entre os semipelagianos e os jesuítas…).

Nos nove livros do tomo II, após analisar as relações entre a filosofia e a teologia e criticar com dureza os escolásticos e a filosofia aristotélica (para ele a fonte do pelagianismo), exaltando a autoridade de Santo Agostinho, peça fundamental do seu método teológico, o autor descreve o estado de graça e a liberdade do homem original, assim como a essência do pecado original e as suas consequências, nomeadamente a concupiscência e a diminuição do livre arbítrio. De seguida, nega a possibilidade do estado de natureza pura e declara a impossibilidade de o homem poder amar a Deus naturalmente.

O tomo III, nos seus dez livros, contém a parte principal da obra. Jansen reflecte agora sobre o modo de sanar a natureza humana e de ela recuperar a liberdade através da redenção de Cristo. A este propósito, a tese de Jansen é a de que a graça é activa e eficaz de modo infalível, sem que isso destrua, porém, a liberdade do homem. Nele, distinguem-se as diferentes espécies de graça, a graça actual, a graça habitual, a graça suficiente (que é negada), entre outras. Nega ainda a vontade salvífica universal e a possibilidade de observar certos mandamentos. Ocupa-se também do livre arbítrio, da conciliação entre liberdade e graça, da predestinação e das diferenças entre a doutrina de Santo Agostinho e a de Calvino. Termina com uma síntese dos erros de vários teólogos modernos, particularmente jesuítas, estabelecendo um paralelo entre estes e os hereges massilienses.

[editar] Saint-Cyran

Jean Du Vergier de Hauranne tornou-se amigo de Jansen, em Paris, e passaram ambos alguns anos em Bayonne. Quando Jansen voltou a Lovaina, em 1617, Du Vergier tornou-se vigário geral de Poitiers e, em 1620, abade comendatário de Saint-Cyran, donde provém o nome por que se tornou conhecido.

As opiniões acerca da sua personalidade são díspares. No fundo, revelam uma personagem complexa e pouco linear. Por um lado, era fiel e generoso para com os seus amigos, cordial e simples. Aparecia como um grande director cristão, imbuído duma forte autoridade moral, que não poderia provir senão duma sólida espiritualidade. Era dotado de grande austeridade, que sublinhava ainda mais a sua autoridade. Contudo, outros que dalgum modo o conheceram qualificaram-no também como neurótico e megalómano, perturbado, com certa imprudência, desequilibrado, e cujo principal talento era o de apropriar-se das almas dos que o escutavam, escravizando-as.

Em 1621, Saint-Cyran passou algum tempo em casa de Jansen, em Lovaina, e lá ambos decidiram prosseguir com uma obra de promoção do agostinianismo, contra os jesuítas (que culminou com a já referida publicação do Augustinus). Saint-Cyran, de facto, seguiu a redacção do Augustinus até à segunda parte. Quanto à terceira parte da obra, a mais importante, não teve oportunidade de a rever, e quando a leu, na prisão, surpreendeu-se com algumas coisas, nomeadamente a condenação do atricionismo, mas reconheceu que, apesar de seca e dura, a obra expunha com fidelidade o pensamento de Santo Agostinho.

Segundo o historiador Giacomo Martina, as personalidades dos dois amigos eram complementares, pois enquanto Jansen era o teórico, Saint-Cyran orientava-se para a acção, para a realização. Deste modo, se Jansen foi o primeiro grande teórico do jansenismo, o seu primeiro fundador, Saint-Cyran foi o verdadeiro fundador do jansenismo francês e o grande impulsionador da nova doutrina.

Apesar da recomendação de Jansen de que não se dedicasse à direcção espiritual de religiosas, o que poderia distraí-lo da sua grande tarefa, Saint-Cyran compreendeu que a intervenção das religiosas poderia, pelo contrário, ser bastante útil. Deste modo, tornou-se director espiritual do mosteiro de Port-Royal, que tinha como superiora a madre Angélica Arnauld. Esta, durante alguns anos, deixou, com outras monjas, o convento de Port-Royal e dirigiu o convento das Filhas do Santíssimo Sacramento, filial daquele, sobre a orientação de Saint-Cyran, e onde se difundiam as ideias jansenistas. Contudo, este convento foi suprimido pelo arcebispo de Paris, desconfiado das novas ideias, o que deu um golpe à irradiação do jansenismo.

Entretanto, o cardeal Richelieu, ministro do rei Luís XIII, preocupado com a expansão das mesmas novas ideias, intuindo que poderia formar-se um grupo tão temível e difícil de controlar como o dos calvinistas franceses (os chamados huguenotes), ordenou a prisão de Saint-Cyran no castelo de Vincennes, em Maio de 1638. Sobre a ordem de prisão pesavam também a irritação do cardeal pela tendência anti-francesa do novo movimento (expressa no Mars Gallicus de Jansen, que lhe valeu a mitra) e por uma obra de Saint-Cyran em que se defendia a absoluta necessidade da contrição para a absolvição, o que era contrário a um livro anteriormente publicado pelo cardeal. A prisão de Saint-Cyran, todavia, ao invés de sufocar o novo movimento, acabou antes por lhe dar maior vigor, ao granjear para o seu difusor a fama de mártir, vítima da prepotência eclesiástica e dos espíritos contrários à necessária reforma da Igreja.

O cardeal Richelieu morreu em 1642. Pouco tempo depois, Saint-Cyran era libertado, mas havia de sobreviver pouco mais tempo, vindo a falecer em Outubro de 1643, três anos depois da publicação do Augustinus. Mas, apesar dessa morte precoce na história do jansenismo, o seu contributo foi determinante na difusão dessa nova doutrina.

Atribui-se a Saint-Cyran uma afirmação que bem expressa a atitude do jansenismo perante a Igreja: “Deus deu-me a sua luz para conhecer que há cinco ou seis séculos que a Igreja já não existe. Outrora, ela era um rio de águas limpas e transparentes. Mas hoje o que existe na Igreja é um pântano. O leito do rio é o mesmo, mas as águas são outras.” Acerca do Concílio de Trento terá dito que “foi antes de mais uma assembleia de escolásticos, onde não havia senão intrigas, maquinações e parcialidades”. E acerca de Calvino terá afirmado “Calvinus bene sensit, male locutus est”. Ouvindo estas coisas, São Vicente de Paulo, que foi seu amigo, decidiu afastar-se dele e recomendou o mesmo aos que o cercavam.

[editar] Antoine Arnauld

Antoine Arnauld (1612-1694) foi discípulo de Saint-Cyran e o seu grande continuador. Em 1635, nas provas do bacharelato em Teologia, na Sorbonne, defendeu teses agostinianas, que antecipavam já alguns elementos do Augustinus, recebendo grande aplauso. Mais tarde, em 1641, alcançou o grau de doutor.

Durante mais de cinquenta anos defendeu o jansenismo através dos seus escritos, cheios de grande erudição e de bastante habilidade dialéctica. Na verdade, foi o chefe indiscutível do jansenismo durante esse período. Era perito na arte da dissimulação, conseguindo difundir as suas ideias sem se comprometer verdadeiramente. Teve a inteligência de propagar as ideias que eram novas sempre com a aparência de não serem mais do que as antigas ideias recuperadas. Na verdade, tal como os outros defensores do movimento, Arnauld pretendia ser fiel intérprete e difusor das ideias de Santo Agostinho, distorcidas e olvidadas sobretudo por acção dos escolásticos e mais recentemente dos jesuítas.

Com uma grande tenacidade e uma incansável obstinação, dedicou-se a responder a todos os ataques, intervindo em todas as polémicas causadas pelo jansenismo. Contudo, afirmam alguns que não possuía uma verdadeira alma jansenista: defendia a sua doutrina, mas não tinha vida interior.

Dissimulado, mas ao mesmo tempo sagaz, Arnauld teve a arte de conseguir que fossem os seus adversários a serem considerados mestres na dissimulação.

Contudo, apesar de todos estes defeitos, há que lembrar a boa-fé de que Arnauld era dotado, a sua convicção de prestar um bom serviço à Igreja, contra os seus inimigos. O seu amor à Igreja e a sua dedicação granjearam-lhe o respeito de várias pessoas, incluindo Papas.

Pela sua persistência e pela sua arte, Arnauld veio a ser uma das incontornáveis figuras do jansenismo, com um contributo determinante na sua história. Escreveu 43 obras, das quais a mais célebre é De la fréquente communion que, pela influência que teve no crescimento do jansenismo, merece uma breve análise.

[editar] De la fréquente communion

A propósito duma discussão entre duas damas, acerca da conveniência ou não de comungar frequentemente, Saint-Cyran enunciou as suas ideias num manuscrito. Contudo, um jesuíta respondeu-lhe, alegando que não se requerem disposições extraordinárias, e que a isenção de todo o pecado venial não é necessária. Saint-Cyran indignou-se com tal ensinamento, e foi então que Antoine Arnauld decidiu entrar em cena com um livro sobre esta temática destinado ao grande público. Foi a sua primeira obra, publicada em 1643, e tinha por título De la fréquente communion, où les sentiments des Pères, des Papes et des Conciles, touchant l’usage des sacrements de Pénitence et d’Eucharistie, sont fidèlement exposés.

Na primeira parte da obra, o autor explica a prática da Igreja primitiva. Segundo ele, os primeiros cristãos só comungavam diariamente enquanto conservavam intacta a graça baptismal. Pelo contrário, os penitentes saíam da celebração eucarística e os que cometiam pecado mortal afastavam-se da comunhão durante muitos dias ou mesmo anos. Antes de comungar, portanto, era necessário afastar-se durante algum tempo e purificar-se pela oração e pela penitência. A comunhão semanal requeria condições pouco comuns, pelo que o melhor era manter-se afastado da Eucaristia, com grande desejo de ser digno de recebê-la.

Na segunda parte, expõe-se a forma da penitência anterior à comunhão. Enquanto os jesuítas defendiam que bastava a confissão, com comunhão logo de seguida, sem mais penitências e purificações, Arnauld defendia o contrário, recordando que, embora a Igreja tivesse tolerado uma prática diferente, a regra dos Santos Padres se mantinha, o que devia ser tido em conta por todos os directores espirituais e pastores de almas. Aos penitentes devia ser exigida uma verdadeira contrição prévia à comunhão. A consequência lógica de tudo isto é que a Igreja estava errada na sua prática actual da penitência. A terceira parte da obra fala dos frutos da comunhão. Receber a Eucaristia deve resultar sempre numa união mais perfeita com Deus. Assim Arnauld afirma que “é preciso estar possuído por uma estranha cegueira, para não sentir pela própria experiência, e não cair pelo menos nalgum temor, de que todas as nossas comunhões não sejam outros tantos sacrilégios, quando vemos sensivelmente que elas nunca produziram emenda alguma na nossa vida”. A comunhão não é o remédio dos fracos e pecadores, alimento para conservar a vida da alma, mas sim um prémio para uma vida santa. A comunhão frequente, portanto, é fonte de grandes males, dos quais os grandes responsáveis são os jesuítas.

Esta obra teve um grande sucesso, sendo louvada inclusivamente por teólogos e bispos. Tinha o mérito de apresentar numa linguagem despojada de artifícios escolásticos um tema de grande actualidade, permitindo a todos tomar conhecimento duma matéria que até então estava reservada quase somente aos teólogos. Contudo, muitos consideram-na uma obra desprovida de talento, exterior e vazia, imbuída de piedosa retórica.

[editar] Port-Royal

Como vimos, este mosteiro de beneditinas, a dado momento, ficou sob a orientação espiritual de Saint-Cyran. A madre era a irmã de Antoine Arnauld, Jacqueline (1591-1661), que tomou o nome de madre Angélica. Esta, aos oito anos, foi nomeada coadjutora da abadessa de Port-Royal des Champs, com direito de sucessão, e por morte da antecessora tornou-se abadessa, com a idade de onze anos. Claro está que a jovem Jacqueline não tinha a mínima vocação religiosa, obrigada que fora a seguir esse caminho, de tal modo que, após uma estadia de algum tempo em casa da família, por questões de saúde, só à força voltou para o mosteiro. Uma vez que em Port-Royal entraram seis irmãs da família Arnauld, com seis sobrinhas, o mosteiro era praticamente uma espécie de casa de campo da família. A vida religiosa não tinha ali qualquer significado: não se observava a clausura nem a modéstia no vestir.

Mas tudo mudou quando, em 1608, um capuchinho fez uma pregação no mosteiro, após a qual a madre Angélica se sentiu convertida e interiormente transformada. Nos anos seguintes, dedicou-se a reformar a comunidade por completo: o hábito rude e modesto, longos tempos de oração, incluindo as matinas às 2h00, silêncio e clausura rigorosos e toda a austeridade da antiga regra beneditina. Com o seu exemplo e a sua persistência, conseguiu uma efectiva reforma do mosteiro, e começaram a aparecer novas vocações, sedentas duma autêntica vida religiosa. Tal sucesso obteve que foi chamada a reformar outros mosteiros da zona. Num deles, Maubuisson, onde permaneceu de 1618 a 1622, recebeu direcção espiritual de São Francisco de Sales (um santo de índole oposta ao jansenismo), que procurou infundir-lhe as virtudes da humildade e da doçura, de que tanto carecia. Contudo, após a morte do santo, em 1622, deixou de receber os seus prudentes conselhos e reapareceu o seu orgulho. Consta mesmo que se teria sentido algo ofendida por o santo a tratar por “minha filha”, em vez de por “Reverenda Madre”.

Com um grande coração e um espírito persistente, faltou-lhe contudo a humildade e um verdadeiro equilíbrio.

Em 1626, madre Angélica, com o resto da comunidade, umas setenta irmãs, mudou-se para Paris, para outro convento dependente de Port-Royal. Durante algum tempo, desde 1633 foi superiora do já referido convento do Santíssimo Sacramento, e voltou depois a Port-Royal de Paris, como simples religiosa, sendo abadessa a sua irmã Inês.

Sob a direcção de Saint-Cyran, Port-Royal tornou-se o grande centro do jansenismo. A vida espiritual daquelas religiosas passou a ser dominada por angústias e escrúpulos. Algumas aproximavam-se do sacramento da penitência com terror, receosas de não estarem preparadas, e não se atreviam a receber a absolvição. Os mesmos temores rodeavam a comunhão. O receio da severidade do Divino Juiz foi-as habituando a aproximarem-se cada vez mais raramente da comunhão. Madre Angélica, nos anos 1636-1637 nem sequer pela Páscoa se atreveu a comungar.

Da autoria de Madre Inês é um opúsculo destinado à adoração eucarística e intitulado Le chapelet secret du Saint-Sacrement. Esta obra propunha à meditação 16 atributos do Santíssimo Sacramento, entre os quais a santidade, a eminência, a inacessibilidade, a incompreensibilidade, a incomunicabilidade, o reinado: nenhum deles refere, na verdade, o amor, a bondade ou a misericórdia. Esta obra, ainda que não possa considerar-se rigorosamente jansenista (foi escrita em 1633) e não seja propriamente um documento essencial deste movimento, reflecte bem o espírito que reinava em Port-Royal: a relação com Deus baseada no temor, e não no amor.

Associados a Port-Royal estiveram também os chamados “solitários”. Tratava-se de um grupo de homens que decidiram viver solitariamente, junto do mosteiro, praticando uma vida de estudo e oração, sem votos religiosos, com liberdade para entrar e sair e para deixar aquele modo de vida quando quisessem. Foram grandes apoiantes de Saint-Cyran e de Madre Angélica. O primeiro deles foi Antoine Lemaistre, sobrinho dos Arnauld, que se associou em 1638. Em 1647 eram dez e em 1652 vinte e cinco. Entre eles estiveram Antoine Arnauld e, durante algum tempo, Blaise Pascal, cuja intervenção foi importante na história do jansenismo.

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