Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros

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Serras de Aire e Candeeiros
Categoria V da IUCN (Paisagem/Costa Protegida)
Foto do Polje de Mira-Minde inundado.
Localização Região Centro
Dados
Área 389 km²
Criação 4 de Maio de 1979
Coordenadas 39° 30' 42" N 8° 47' 58" O
Serras de Aire e Candeeiros está localizado em: Portugal Continental
Serras de Aire e Candeeiros

O Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros é uma área protegida criada em 4 de Maio de 1979 pelo Decreto-Lei Nº 118/79[1] e tem por objectivo a protecção dos aspectos naturais assim como a defesa do património arquitectónico existente nas serras de Aire e Candeeiros; possui uma área de 38 900 hectares. Marcando a fronteira entre o Ribatejo e o Oeste abrange os municípios de Alcobaça e Porto de Mós no Distrito de Leiria e Alcanena, Rio Maior, Santarém, Torres Novas e Ourém no Distrito de Santarém.

Geografia[editar | editar código-fonte]

O parque está enquadrado no Maciço Calcário Estremenho, abrangendo as duas serras que lhe dão o nome e ainda o planalto de Santo António e o planalto de São Mamede. Pode dizer-se que o parque abrange 4 unidades morfológicas de altitude:

  1. Planalto de Santo António (a sul e centro)
  2. Serra dos Candeeiros (a oeste)
  3. Planalto de São Mamede (a norte)
  4. Serra de Aire (a leste)

Derivado das movimentações tectónicas e da modelação do terreno, estas unidades encontram-se delimitadas por unidades geológicas resultantes da formação de falhas: depressão de Alvados, polje de Mira-Minde e depressão da Mendiga.

Clima[editar | editar código-fonte]

A área abrangida pelo parque encontra-se numa situação de transição entre influências mediterrâneas e atlânticas. Por ano, o número de horas de sol descoberto é de cerca de 2350 horas. O valor mensal de insolação poderá ser três vezes maior no Verão, em relação aos meses de Inverno.

No que diz respeito à ocorrência de precipitação anual, esta varia entre 900 mm e 1300 mm. Durante cerca de dois a três meses do ano, poderão ocorrer geadas, normalmente entre o fim do Outono e o fim do Inverno.

Geologia[editar | editar código-fonte]

Grutas de Mira D'Aire.

A rocha é um elemento sempre presente na paisagem do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros que ocupa mais de dois terços do Maciço Calcário Estremenho (no Maciço Calcário Mesozóico) que é a mais importante zona calcária de Portugal.

Ao longo do tempo, através de processos geomorfológicos, os elementos naturais foram modelando a rocha, sobretudo de origem calcária, dando origem a mais de mil e quinhentas grutas. À superfície, outros elementos geológicos de relevo são os algares, os campos de lapiás, as dolinas, as uvalas e os poljes. O Maciço, como qualquer formação montanhosa, teve origem nos movimentos tectónicos da crosta terrestre que, após milhares de anos de movimentações das placas continentais e oceânicas, emergiu da superfície.

  • Poljes:
  • Dolinas:
    • Dolinas de Arrimal

Uma grande parte das estruturas geológicas existentes teve a sua origem no Jurássico Médio. Outras, de génese mais recente, são constituídas por materiais detríticos e sedimentares. É de referir ainda a presença de terra rossa, sobretudo em zonas de depressão.

Possui ainda das poucas salinas de origem não marinha existentes em Portugal. De especial relevo as salinas da Fonte da Bica, localizadas em Rio Maior.

Centro Ciência Viva do Alviela - CARSOSCÓPIO.

Recursos hídricos[editar | editar código-fonte]

A água, pouco visível à superfície, abunda no subsolo, fazendo desta zona um dos maiores, ou mesmo o maior reservatório subterrâneo de água doce do país; este reservatório que vai de Rio Maior até Porto de Mós e conta com cerca de sessenta e cinco mil hectares, é alimentado principalmente pela chuva que, infiltrando-se rapidamente no subsolo, forma ribeiras subterrâneas, restituindo depois o excedente à superfície, formando uma nascente cársica como é o caso das nascente dos Olhos de Água do Alviela, a mais importante de todas e alvo de captação por parte da EPAL para fornecimento de água a Lisboa desde 1880.

Biodiversidade[editar | editar código-fonte]

Fauna[editar | editar código-fonte]

Mamíferos[editar | editar código-fonte]

Devido à existência de grande quantidade de grutas e outro tipo de cavidades rochosas, não é de estranhar que existam no parque algumas espécies de morcegos. Cabe salientar a presença das seguintes:

As espécies de morcego permitem a subsistência de uma fauna específica nas cavidades rochosas em que se refugiam. São eles que fornecem alimento (em forma de matéria orgânica: fezes e outros) a esta fauna cavernícola (crustáceos, aracnídeos e vários tipos de vermes).

Em termos da presença de mamíferos cabe ainda salientar a presença da geneta (Genetta genetta), raposa (vulpes Vulpes), javali (sus srofa), texugo (meles meles), sacarrabos (herpestes ichneumon), gato bravo (felis silvestris) e o coelho bravo (oryctolagus cuniculus). Também cabe salientar a presença do Corço (capreolus capreolus) em algumas áreas do parque.

Aves[editar | editar código-fonte]

Derivado da heterogeneidade dos habitats existentes no parque, não é de estranhar a existência de uma diversidade de aves que se encontram adaptadas a condições particulares.

  • Gralha-de-bico-vermelho (Pyrrhocorax pyrrhocorax) que nidifica somente nas inúmeras cavidades rochosas existentes no parque. Esta espécie também está dependente da existência de sistemas agro-pastoris, cada vez mais raros devido ao abandono progressivo das práticas agrícolas.
  • Bufo-real (Bubo bubo)
  • Águia de asa redonda (buteo buteo)
  • Águia de Bonelli (hieraaetus fasciatus)
  • Águia cobreira (Circaetus gallicus)
  • Corvo (corvus corax)
  • Gavião (accipiter nisus)
  • Peneireiro (Falco tinnunculus)
  • Coruja das torres (tyto alba)
  • Águia Calçada (Hieraaetus Pennatus)
  • Ógea (falco subteo)
  • Coruja do mato (strix aluco)
  • Mocho galego (Athene noctua )

Répteis[editar | editar código-fonte]

Nos ambientes aquáticos ocorrem ainda duas espécies de cobras-de-água:

Anfíbios[editar | editar código-fonte]

O parque alberga uma quantidade apreciável de espécies de anfíbios (cerca de treze), que dependem da existência de charcos temporários e de lagoas (ex.: Lagoa de Alvados) para a sua reprodução. Algumas das espécies de anfíbios existentes no parque são:

A grande diversidade biológica é sustentada pela existência de uma heterogeneidade de habitats. Os principais são os habitats aquáticos, rochosos e os arrelvados calcícolas.

Insectos e outros invertebrados[editar | editar código-fonte]

Este parque constitui um dos melhores locais em Portugal onde se podem observar muitas espécies de insectos associados a zonas calcárias e habitats calcícolas pela sua extensão e diversidade de locais. Assim, estão reconhecidas mais de 300 espécies de borboletas (Lepidoptera) entre as quais a rara Branca-Portuguesa (Euchloe tagis) cuja população aqui é a mais a Norte em Portugal; a Cupido lorquinii e a Crocallis auberti.

Fauna cavernícola[editar | editar código-fonte]

A grande particularidade deste Parque Natural, prende-se com o facto de albergar espécies endémicas de vida subterrânea. Estes animais denominados troglóbios, vivem exclusivamente no ecossistema subterrâneo, composto pelas grutas e fissuras ao longo dos calcários. Conhecem-se três espécies de escaravelhos cavernícolas do género Trechus: Trechus machadoi, Trechus gamae e Trechus lunai, endémicas da zona calcária incluída no Parque Natural das Serras d'Aire e Candeeiros. É também de salientar, que este é o único local do mundo habitado pela aranha cavernícola Nesticus lusitanicus.[2]

Flora[editar | editar código-fonte]

Mais de seiscentas espécies vegetais podem ser encontradas no parque — o que representa cerca de um quinto do total das espécies em Portugal — e muitas delas não se encontram em mais nenhum local (são endemismos). Para além de 25 espécies diferentes de orquídeas, podem encontrar-se o narciso, o alecrim, a pimenteira, o carvalho ou a azinheira, entre muitas outras. A maior parte da superfície do Parque é ocupado por matagais, muitos deles considerados na Rede Natura 2000 como um tipo de habitat prioritário e exemplos únicos no mundo. Ao longo dos tempos, o coberto florestal original foi sendo substituído por outros tipos de vegetação. Actualmente ainda existem relíquias do coberto vegetal primitivo, sobretudo sob a forma de carvalhais constituídos por carvalho-cerquinho (Quercus faginea).

A zona do parque está sujeita, com menor ou maior intensidade, a fogos florestais. Muitas das espécies botânicas existentes estão dotadas de características que lhes permitem sobreviver mais adequadamente ao fogos. Algumas delas, como é o caso das orquídeas, têm a sua floração estimulada quando ocorre este tipo de evento.

Alguma da flora característica do parque

Património[editar | editar código-fonte]

Pegadas de dinossáurios[editar | editar código-fonte]

Vista da pedreira

O Monumento Natural das Pegadas de Dinossáurios da Serra de Aire, mais conhecido apenas por Pegadas da Serra de Aire foi criado em 1996. Situa-se na Serra de Aire, no concelho de Ourém e ocupa uma área de cerca de 20 hectares.

Antes de terem sido descobertas as pegadas, em 4 de Julho de 1994, funcionava aí uma pedreira (Pedreira do Galinha). Realizaram-se depois alguns estudos que culminaram na classificação como Monumento Natural.

Possui 20 trilhos de saurópodes, com uma idade de 175 milhões de anos. São os trilhos de saurópodes maiores, mais antigos e dos mais nítidos que se conhecem.

Polje de Mira-Minde[editar | editar código-fonte]

O Polje de Minde foi incluído, em 2 de dezembro de 2005, na Lista das Terras Húmidas de Importância Internacional no âmbito da Convenção de Ramsar.[3] Trata-se de uma depressão cársica que, nos anos de maior pluviosidade, fica inundada durante vários meses.

Cavidades cársicas[editar | editar código-fonte]

Na área do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros estão inventariadas mais de 1500 cavidades,[4] resultantes da infiltração da água através de falhas e diaclases e consequente acção de meteorização química sobre a rocha calcária. Deste processo resulta uma vasta e complexa rede de cursos de água subterrâneos que vai abrindo galerias de desenvolvimento horizontal (grutas) e de desenvolvimento vertical (algares). A água que circula nestas galerias, acaba por depositar o calcário que precipita, originando uma variedade de espeleotemas que se traduzem em formas de grande beleza como estalactites, estalagmites, colunas e mantos calcíticos.

Cisternas[editar | editar código-fonte]

Devido à natureza calcária do solo, os poços não eram uma opção; essa dificuldade obrigou as populações a inventar outras formas de reter as águas pluviais. As cisternas eram construídas nas reentrâncias das rochas ou em pequenos algares, dada a sua impermeabilidade; nas habitações, a chuva era recolhida dos telhados e transportada para as cisternas através de caleiras.

Estruturas de apoio[editar | editar código-fonte]

Centros de interpretação[editar | editar código-fonte]

Tendo em vista o estudo científico e a constituição de pólos de lazer, o Parque instituiu a figura do "Centro de Interpretação":

  • Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta do Almonda: localiza-se no Cabeço das Pias (Torres Novas)
  • Centro de Interpretação Subterrâneo da Gruta Algar do Pena: o Algar do Pena foi acidentalmente descoberto aquando de actividades de extracção de pedra; tem actualmente a maior cavidade sala conhecida no país.
  • Antigo Centro de Interpretação das Nascentes do Alviela, agora Centro Ciência Viva do Alviela - Carsoscópio.

Cronologia[editar | editar código-fonte]

Segue-se uma cronologia relativa a alguns enquadramentos legais que afectam o parque:

  • Criação do parque a 4 de Maio de 1979 pelo Decreto-Lei Nº 118/79 [1]
  • Aprovação do Plano de Ordenamento e do Regulamento do PNSAC a 12 de Janeiro de 1988 pela Portaria Nº 21/88 [2]
  • Regulamento de Construções, aprovado no Conselho Geral do Parque a 20 de Junho de 1990: tem como objectivo a gestão e controlo do espaço construído.
  • Resolução do Conselho de Ministros nº 76/00, de 5 de Julho: criação do Sítio "Serras de Aire e Candeeiros" (para integração como Sítio de Interesse Comunitário na rede Natura 2000) [3].

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Diário da República electrónico
  2. The subterranean fauna of a biodiversity hotspot - Portugal: and overview and its conservation. Visitado em =09 de Julho de 2011.|autor= Reboleira et al.|citação= International Journal of Speleology}}
  3. The List of Wetlands of International Importance (em English). Visitado em 2008-12-19.
  4. 25 anos - Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, ICN - Parque Natural das Serras de Aires e Candeeiros ISBN 972-775-136-9

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Guia das áreas protegidas próximas de Lisboa, Instituto de Conservação da Natureza ISBN 972-8402-54-0
  • 25 anos - Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, ICN - Parque Natural das Serras de Aires e Candeeiros ISBN 972-775-136-9

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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