Caso Flordelis

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Caso Flordelis
Anderson do Carmo (cropped).jpg
Local do crime Niterói, Rio de Janeiro
Data 16 de junho de 2019
Tipo de crime Homicídio triplamente qualificado
Tentativa de homicídio
Falsidade ideológica
Uso de documento falso
Organização criminosa majorada.
Vítimas Anderson do Carmo de Souza
Réu(s) Flordelis (mandante)
Flávio dos Santos Rodrigues
Lucas César dos Santos
Marzy Teixeira da Silva
Simone dos Santos Rodrigues
André Luiz de Oliveira
Carlos Ubiraci Francisco da Silva
Rayane dos Santos Oliveira
Adriano dos Santos Rodrigues
Marcos Siqueira Costa
Andrea Santos Maia
Situação Todos os réus presos, exceto a mandante possuidora de imunidade parlamentar

O Caso Flordelis refere-se ao assassinato do pastor Anderson do Carmo de Souza em 16 de junho de 2019 em Niterói, no Rio de Janeiro.[1] Nesse dia, Anderson foi morto a tiros ao chegar em casa após ter ido caminhar com Flordelis, que disse aos policiais que o crime havia sido um latrocínio. Os criminosos usaram toucas ninja para evitar a identificação.

Segundo investigação da Polícia Civil, Anderson foi morto a mando da esposa, a deputada federal Flordelis, com participação de sete filhos do casal e uma neta, além de outras duas pessoas. O Ministério Público Estadual ofereceu denúncia contra Flordelis por homicídio triplamente qualificado e outros quatro crimes.[2]

Antecedentes: a dinâmica familiar[editar | editar código-fonte]

Anderson e Flordelis se conheceram durante um culto evangélico em 1991 e se casaram em 1994.[1] Flordelis tinha três filhos biológicos: Adriano, Flávio e Simone. Anderson chegou a namorar Simone antes de se casar com Flordelis, que era dezesseis anos mais velha. Além dos três filhos de Flordelis e outros cinco filhos adotivos que constituíam a chamada "primeira geração" da família, o casal adotou outras 47 crianças, em geral encontradas nas ruas. A dinâmica familiar, no entanto, incluía um tratamento diferenciado entre os filhos: enquanto os da "primeira geração" tinham acesso a comida de melhor qualidade, geladeira e viviam no segundo andar da casa, numa área restrita, os demais 47 viviam numa área coletiva no primeiro andar da casa, comendo apenas pão sem manteiga no café da manhã e arroz, massa e salsicha no almoço e jantar. "O cenário surpreendeu investigadores e é bem diferente do que era relatado por Flordelis nas últimas décadas, de que era uma casa de amor e solidariedade", escreveu o G1 em 24 de agosto de 2020.[3][1]

Anderson exercia todo poder familiar, inclusive controlando todo dinheiro, até mesmo o do Ministério Flordelis, depois rebatizado de Comunidade Evangélica Cidade do Fogo.[1]

Os filhos revelaram que Flordelis e Anderson negociavam programa de suas filhas com pastores estrangeiros. Um dos filhos adotivos revelou que a família de amor e caridade que a religiosa pregava na mídia era apenas uma seita que envolvia magia negra e prostituição. Todos os homens que eram adotados por Flordelis precisavam passar por um ritual de purificação, ficando de branco e se alimentado de arroz e legumes num quarto fechado. Também revelou que Flordelis terminava o ritual mantendo relações sexuais com os iniciados, e pedia para eles cortarem a própria mão após o ato, onde estes escreviam num papel, com o próprio sangue, algumas passagens dos salmos, e que Anderson aceitava tudo naturalmente, onde o mesmo também mantinha relações sexuais com as meninas que eram adotadas e iniciadas na Comunidade Evangélica Cidade do Fogo. [4] [5] Flordelis também desviava dinheiro de sua igreja para usá-lo em benefícios pessoais, como plano de saúde, e também em lazer. [6] Uma das fiéis da igreja do casal afirmou que Flordelis e Anderson frequentavam uma casa de swing na Barra da Tijuca, onde Flordelis tinha um quarto exclusivo, e constantemente saía de lá completamente bêbada. Flordelis defendeu-se nas redes sociais, aos gritos, dizendo que processaria a fiel por danos morais e que sua mãe, já idosa, não merecia sofrer com manchetes jornalísticas mentirosas. [7]

Investigações[editar | editar código-fonte]

A polícia começou as investigações e já no dia 17 de agosto acreditava que o crime pudesse estar ligado a uma desavença familiar.[1] Nos dias que se seguiram, com o depoimento de um dos filhos (cujo nome não foi revelado), a polícia desvendou uma "trama familiar" que envolvia a possibilidade de outras tentativas de assassinato desde 2018, e o oferecimento de dinheiro para a prática do crime. Segundo o G1, a testemunha teria dito que a Flordelis e três filhas do casal colocavam arsênico na comida do pai, e que uma das irmãs teria oferecido R$ 10 mil ao irmão Lucas dos Santos para matar o pastor, que antes de falecer havia dado entrada no hospital por mais de oito vezes, com dores estomacais, mas o veneno não era encontrado. [8][9]

No dia 20 de junho, o filho biológico de Flordelis, Flávio dos Santos, admitiu ter dado seis tiros em Anderson (a perícia constatou mais de trinta perfurações). Ele também disse que Lucas havia comprado a arma. Ambos foram presos preventivamente por homicídio qualificado e porque já tinham as prisões pendentes por outros crimes.[10]

A motivação do crime foi financeira, pois Flordelis estava insatisfeita que seu marido tivesse o controle financeiro e patrimonial de toda a família. Segundo as investigações da polícia, a pastora não queria desmoralizar-se perante os fiéis de sua igreja com um divórcio, sendo mais aceitável ficar viúva. Segundo as próprias palavras de Flordelis, encontrada em troca de mensagens de seu celular: Fazer mais o quê? Se separar eu não posso, porque não posso escandalizar o nome de Deus. Isso não! [11]

Ao final do inquérito, em agosto de 2020, a polícia havia confirmado que:

  • além de Flordelis, sete filhos do casal e uma neta estavam envolvidos no crime;
  • o grupo familiar tentava assassinar Anderson desde meados de 2018, com o uso de veneno. A filha biológica de Flordelis, Simone, teria chegado a fazer pesquisas sobre cianeto na Internet. Segundo as investigações, teria havido ao menos seis tentativas de assassinato por envenenamento e uma outra por emboscada, quando Anderson deveria ser morto a tiros por um assassino de aluguel. O crime só não aconteceu porque a vítima, na ocasião, havia trocado de carro, o que teria confundido o atirador;
  • que Flordelis havia oferecido dinheiro em troca do silêncio de alguns dos filhos e para que Lucas, o adotivo preso por ter comprado a arma, assumisse o assassinato;[12]
  • o motivo do assassinato seria o descontentamento de Flordelis e alguns dos filhos com o poder exercido por Anderson dentro do núcleo familiar, incluindo o controle econômico de tudo.

O delegado Allan Duarte, responsável pelo caso, chegou a afirmar que "não se tratava de uma família, mas de uma organização criminosa".[9]

Nota: o filho que foi testemunha chave chama-se Alexander Felipe, conhecido como Luan. A operação ganhou o nome Lucas 12, numa referência ao capítulo bíblico Lucas 12, que trata sobre a mentira e a hipocrisia.[12]

Indiciamentos, julgamentos e penas[editar | editar código-fonte]

Flordelis e seu marido Anderson do Carmo em 2014

No dia 24 de agosto de 2020, após o fim do inquérito feito pela polícia, o Ministério Público aceitou a denúncia contra Flordelis e outras dez pessoas. Dos onze indiciados, nove são da família. Eles responderão por crimes diversos: homicídio triplamente qualificado, tentativa de homicídio, falsidade ideológica, uso de documento falso e organização criminosa majorada.[9][13]

Três deles já estavam na cadeia desde 2019: os filhos Flávio e Lucas e o ex-PM Marcos Siqueira da Costa; outros cinco filhos, uma neta e a esposa do PM foram presos no dia 24 de agosto, enquanto Flordelis não foi presa por ter imunidade parlamentar.[9]

O também político e pastor Magno Malta usou o Twitter para escrever:

Flordelis tentou 6 vezes matar o marido, tramou a morte do marido Anderson do Carmo de forma covarde! protegida pela [sic] famigerado imunidade parlamentar enquanto os filhos estão pesos [sic]! A câmara não pode contemporiza [sic] com isso, deve casar [sic] imediatamente! Covarde!
— Magno Malta no Twitter em 25 de agosto de 2020.[14]

Indiciados[editar | editar código-fonte]

  • Flordelis: mandante do assassinato;
  • Flávio dos Santos Rodrigues (filho biológico de Flordelis): executor, preso desde 2019;
  • Lucas César dos Santos (adotivo): comprou a arma, preso desde 2019;
  • Marzy Teixeira da Silva (adotiva): presa no dia 24 de agosto de 2020;
  • Simone dos Santos Rodrigues (filha biológica de Flordelis): presa no dia 24 de agosto de 2020;
  • André Luiz de Oliveira (adotivo, ex-marido de Simone): preso no dia 24 de agosto de 2020;
  • Carlos Ubiraci Francisco da Silva (adotivo, pastor): preso no dia 24 de agosto de 2020;
  • Rayane dos Santos Oliveira (neta): presa no dia 24 de agosto de 2020;
  • Adriano dos Santos Rodrigues (filho biológico de Flordelis): preso no dia 24 de agosto de 2020;
  • Marcos Siqueira Costa (ex-PM): preso desde 2019;
  • Andrea Santos Maia (mulher do ex-PM Marcos): presa no dia 24 de agosto de 2020.

Referências