José Arthur Giannotti

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José Arthur Giannotti
Nascimento 25 de fevereiro de 1930 (90 anos)
São Carlos
Cidadania Brasil
Alma mater Universidade de São Paulo
Ocupação filósofo, professor universitário
Prêmios Prêmio Anísio Teixeira
Empregador Universidade de São Paulo

José Arthur Giannotti (São Carlos, 25 de fevereiro de 1930) é um filósofo, ensaísta e professor universitário brasileiro. É professor titular e emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.[1][2][3]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Nasceu em São Carlos, no interior do estado de São Paulo. Seu pai se mudou para a capital do estado porque queria que todos os quatro filhos tivessem educação superior; e, de fato, todos os quatro estudaram na USP. Adolescente, fez amizade com Rudá de Andrade, filho de Oswald de Andrade. Passou a frequentar a casa, e lá conheceu Antonio Cândido e Vicente Ferreira da Silva, cujos cursos começaria a frequentar, antes de ingressar na USP, por sugestão de Oswald de Andrade.[4]

Ingressou na Universidade de São Paulo em 1950. Foi iniciado nos estudos de lógica por Gilles-Gaston Granger e nos estudos de política por Claude Lefort. Esteve na França (Rennes e Paris) entre 1956 e 1958, onde frequentou os cursos de Victor Goldschmidt, Martial Guéroult, Maurice Merleau-Ponty e Jules Vuillemin. Doutorou-se em 1960 com a tese "John Stuart Mill: o psicologismo e a fundamentação da lógica", orientada por Granger. Obteve o título de livre-docente pela USP em 1965 com a tese "Alienação do trabalho objetivo", orientada por João Cruz Costa. Junto com Oswaldo Porchat Pereira e Bento Prado Júnior, foi sucessor de Cruz Costa e Lívio Teixeira no departamento de Filosofia da USP, que lideraram na segunda metade da década de 1960. Esteve nos Estados Unidos (New Haven e New York) para estágios de pesquisa na Universidade Yale (1972-3) e Universidade Columbia (1980-2).[1][2][5]

Com o endurecimento do regime militar, Giannotti e Bento Prado foram aposentados compulsoriamente da Universidade em abril de 1969. Enquanto Bento partia para estudar na França, onde residiria por vários anos, Giannotti permaneceu no Brasil e ajudou a fundar o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, centro de estudos sociais e de formulação de políticas de oposição ao regime, de que foi presidente entre 1984-1990 e 1995-2001. No CEBRAP se encontravam, dentre outros, Roberto Schwarz, Boris Fausto, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso. Com o abrandamento do regime militar, depois de lecionar por alguns anos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, reassumiu seu cargo na USP em 1979 e lecionou na Universidade Estadual de Campinas, aposentando-se em meados da década de 1980. Em 1986 fundou dentro do CEBRAP o "Programa de Formação de Quadros Profissionais", programa interdisciplinar na área de humanidades que reunia estudantes de universidades de todo o país, e que coordenou até seu encerramento em 2007 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. Fundou e foi o primeiro presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia.[2][5][6]

Destacou-se como estudioso de Karl Marx, tendo fundando o grupo "Seminários Marx", que ocorreu entre 1958 e 1964 junto de Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni e Fernando Novais. O Seminário, que reunia jovens historiadores, economistas, cientistas sociais, críticos literários e filósofos, teria ainda uma segunda geração com Paul Singer, Ruth Cardoso, Roberto Schwarz, Bentro Prado Jr., Michel Löwy, João Quartim de Moraes, Ruy Fausto, entre outros. No debate e engajamento político, Giannotti ainda ajudaria a fundar o Partido dos Trabalhadores em 1980, do qual participariam outros intelectuais marxistas como Marilena Chauí, Francisco de Oliveira e Paul Singer, mas acabou por afastar-se intelectual e politicamente do partido, engajando-se e apoiando nas entre os anos 1990 e 2000 o Partido da Social Democracia Brasileira. No entanto, tem posicionado-se criticamente tanto em relação ao PSDB quanto ao PT desde 2014, declarando até mesmo a morte do primeiro diante de uma crise de representação política, que também teria abalado o Partido dos Trabalhadores.[7][8][9][10]

Teve participação na política científica nacional, tendo participado do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2003) como membro da Comissão Nacional de Educação. Foi agraciado em 2001 com o Prêmio Anísio Teixeira e é membro da Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico e da Academia Brasileira de Ciências. Após os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, com a vitória de Lula em 2002, embora mantivesse presença no debate público, sua influência diminuiu em comparação com a que teve durante o governo anterior (1994-2001). Parte de seus artigos publicados na Folha de S.Paulo entre 2000 e 2010 foi reunida na coletânea "Notícias no espelho" (2011).[1][11][5]

Obra[editar | editar código-fonte]

Escreveu uma série de livros sobre marxismo, como "Origens da dialética do trabalho" (1966), traduzido para o francês (Paris: Aubier, 1971) e para o espanhol (Madrid: Comunicación, 1973). Publicou no México uma seleção de textos sob o título "Ensayos antisociológicos" (Grijalbo, 1978). Um de seus artigos mais conhecidos sobre o marxismo é "Contra Althusser" (1968), republicado no livro "Exercícios de filosofia" (1975). Seus estudos na área incluem ainda o livro "Trabalho e reflexão" (1983), talvez seu trabalho de maior fôlego, e "Certa herança marxista" (2000) e "Marx: além do marxismo" (2000, 2010). Dedicou-se ainda por vários anos ao estudo de Wittgenstein, pesquisa que resultou nos livros "Apresentação do mundo" (1995) e "O jogo do belo e do feio" (2005). Em 2011 publicou uma introdução à filosofia, intitulado "Lições de filosofia primeira".[12][13]

Livros publicados[editar | editar código-fonte]

  • John Stuart Mill: o psicologismo e a fundamentação lógica. São Paulo: USP, 1964.
  • Origens da dialética do trabalho. 2ª ed. Porto Alegre: L&PM, 1966.
  • Exercícios de filosofia. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1977.
  • Trabalho e reflexão. São Paulo: Brasiliense, 1983.
  • Universidade em ritmo de barbárie. São Paulo: Brasiliense, 1986.
  • Apresentação do mundo: Considerações sobre o pensamento de Ludwig Wittgenstein. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
  • Certa herança marxista. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
  • Marx vida & obra. Porto Alegre: L&PM Editores, 2000.
  • O jogo do belo e do feio. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
  • Notícias no Espelho. São Paulo: Publifolha, 2011.
  • Lições de Filosofia Primeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
  • O capital: crítica da economia politica. Livro I. 2ª ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2013.
  • A política no limite do pensar. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. (eBook)
  • Os limites da política: Uma divergência. São Paulo: Cia das Letras, 2017. (Em coautoria com Luiz Damon)
  • Heidegger/Wittgenstein: Confrontos. São Paulo: Cia das Letras, 2020.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c «Professor foi fundador do PT em 80». Folha de S.Paulo 
  2. a b c «José Arthur Giannotti». CEBRAP. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  3. «José Arthur Giannotti». Departamento de Filosofia - USP. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  4. José Arthur Giannotti entre bordados e insultos, Época, 21/2/1010. Acesso em 9/6/2020
  5. a b c «José Arthur Giannotti». Plataforma Lattes. 8 de fevereiro de 2018. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  6. «Histórico - ANPOF». ANPOF. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  7. SCHWARZ [et al.], Roberto (2017). Nós que amávamos tanto O Capital. São Paulo: Boitempo. pp. 7–16. ISBN 9788575595503 
  8. Venceslau, Pedro (14 de setembro de 2014). «PSDB não soube atuar na oposição, afirma Giannotti». Jornal O Estado de São Paulo. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  9. Castro, José Roberto (6 de maio de 2016). «Filósofo diz que PSDB acabou e que fracasso de políticas do PT trará guinada à direita». Nexo Jornal. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  10. Haddad, Naief (4 de setembro de 2017). «O PSDB morreu, não é mais um partido, diz Giannotti». Folha de São Paulo. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  11. «Agraciados». Prêmio Anísio Teixeira 
  12. «José Arthur Giannotti». Google Scholar. Consultado em 27 de janeiro de 2020 
  13. Schwartsman, Hélio (17 de setembro de 2011). «Filósofo José Arthur Giannotti repensa questões contemporâneas». Folha de São Paulo. Consultado em 27 de janeiro de 2020