Luiz Inácio Lula da Silva

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Luiz Inácio Lula da Silva
Lula em janeiro de 2023
39.º Presidente do Brasil
Período 1.º de janeiro de 2023
até a atualidade
Vice-presidente Geraldo Alckmin
Antecessor(a) Jair Bolsonaro
35.º Presidente do Brasil
Período 1.º de janeiro de 2003
a 1.º de janeiro de 2011
Vice-presidente José Alencar
Antecessor(a) Fernando Henrique Cardoso
Sucessor(a) Dilma Rousseff
Ministro-chefe da Casa Civil do Brasil
Período 17 de março de 2016
a 18 de março de 2016
Presidente Dilma Rousseff
Antecessor(a) Jaques Wagner
Sucessor(a) Eva Chiavon (interina)
Presidente do Partido dos Trabalhadores
Período 15 de julho de 1990
a 24 de janeiro de 1994
Antecessor(a) Luiz Gushiken
Sucessor(a) Rui Falcão
Período 9 de agosto de 1980
a 17 de janeiro de 1988
Antecessor(a) cargo criado
Sucessor(a) Olívio Dutra
Deputado Federal por São Paulo
Período 27 de março de 1989
a 1.º de fevereiro de 1991
Período 1.º de fevereiro de 1987
a 25 de fevereiro de 1989
Dados pessoais
Nascimento 27 de outubro de 1945 (77 anos)
Garanhuns, Pernambuco, Brasil
Nacionalidade brasileiro
Progenitores Mãe: Eurídice Ferreira de Melo
Pai: Aristides Inácio da Silva
Prêmio(s) ver lista
Cônjuge Maria de Lourdes (c. 1969; v. 1971)
Marisa Letícia (c. 1974; v. 2017)
Rosângela Silva (c. 2022)
Filhos Marcos Cláudio (n. 1971)
Lurian da Silva (n. 1974)
Fábio Luís (n. 1975)
Sandro Luís (n. 1979)
Luís Cláudio (n. 1985)
Partido PT (1980–presente)
Profissão
Residência Palácio da Alvorada
Assinatura Assinatura de Luiz Inácio Lula da Silva
Website lula.com.br

Luiz Inácio Lula da Silva GCTEGColL (nascido Luiz Inácio da Silva; Garanhuns,[nota 1] 27 de outubro de 1945), mais conhecido como Lula, é um ex-metalúrgico, ex-sindicalista e político brasileiro. Filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT), é o 39.º presidente do Brasil desde 1.º de janeiro de 2023. Foi também o 35.º presidente da República, de 2003 a 2011.

De origem pobre, migrou ainda criança de Pernambuco para São Paulo com sua família. Foi metalúrgico e sindicalista, época em que recebeu a alcunha "Lula", forma hipocorística de "Luís". Durante a ditadura militar, liderou grandes greves de operários no ABC Paulista e ajudou a fundar o PT em 1980, durante o processo de abertura política. Lula foi uma das principais lideranças do movimento Diretas Já, no período da redemocratização, quando iniciou sua carreira política. Elegeu-se em 1986 deputado federal pelo estado de São Paulo com votação recorde. Em 1989 concorreu pela primeira vez à presidência da República, perdendo no segundo turno para Fernando Collor de Mello. Foi candidato a presidente por outras duas vezes, em 1994 e em 1998, perdendo ambas as eleições no primeiro turno para Fernando Henrique Cardoso. Venceu a eleição presidencial de 2002, derrotando José Serra no segundo turno. Na eleição de 2006, foi reeleito ao superar Geraldo Alckmin no segundo turno.

O governo Lula teve como marco a consolidação de programas sociais, como o Bolsa Família e o Fome Zero, ambos reconhecidos pela Organização das Nações Unidas como iniciativas que possibilitaram a saída do país do mapa da fome. Durante seus dois mandatos, empreendeu reformas e mudanças radicais que produziram transformações sociais e econômicas no Brasil, que acumulou substanciais reservas internacionais, triplicou seu PIB per capita e alcançou o grau de investimento. Os índices de pobreza, desigualdade, analfabetismo, desemprego, mortalidade infantil e trabalho infantil caíram significativamente, enquanto o salário mínimo e a renda média do trabalhador tiveram ganhos reais e o acesso à escola, à universidade e ao atendimento de saúde se expandiram. Na política externa, desempenhou um papel de destaque, incluindo atividades relacionadas ao programa nuclear do Irã, ao aquecimento global, ao Mercosul e aos BRICS. Lula foi considerado um dos políticos mais populares da história do Brasil e, enquanto presidente, foi um dos mais populares do mundo. Foi sucedido no cargo pela chefe da Casa Civil no seu governo, Dilma Rousseff, eleita em 2010 e reeleita em 2014.

Após a presidência, Lula manteve-se ativo no cenário político e passou a ministrar palestras no Brasil e no exterior. Em 2016, foi nomeado por Dilma como seu ministro-chefe da Casa Civil, mas a indicação foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal. Em 2017, foi condenado em primeira instância, no âmbito da Operação Lava Jato, pelo juiz federal Sergio Moro, a nove anos e seis meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro, sendo preso em abril de 2018, após a confirmação da sentença em segunda instância. Como consequência, teve indeferida a sua candidatura à presidência da República nas eleições de 2018. Em novembro de 2019, foi libertado com base em decisão do STF definindo que a execução das penas devem ocorrer somente com o trânsito em julgado da sentença. Nos anos seguintes, diferentes decisões da Suprema Corte anularam suas condenações na Lava Jato e restauraram seus direitos políticos, com Moro sendo declarado incompetente e suspeito. Nas eleições de 2022, Lula candidatou-se à presidência da República pela sexta vez e, ao vencer Jair Bolsonaro, se tornou a primeira pessoa a derrotar um presidente brasileiro candidato à reeleição.

Primeiros anos, trabalho e vida sindical

Origens e infância

Lula em seu primeiro retrato, tirado em 1949 ao lado da irmã Maria
Memorial aos retirantes no Parque Dona Lindu, em Recife, representando Dona Lindu e seus oito filhos

Luiz Inácio Lula da Silva nasceu em 27 de outubro de 1945[nota 2] na localidade de Caetés,[nota 1] em Garanhuns, interior de Pernambuco.[3] É o sétimo dos oito filhos de Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Melo, conhecida como Dona Lindu, um casal de lavradores iletrados que vivenciaram a fome e a miséria na zona mais pobre de Pernambuco.[4] Faltando poucos dias para sua mãe dar à luz, Aristides decidiu tentar a vida como estivador em Santos, levando consigo Valdomira Ferreira de Góis, uma prima de Dona Lindu, com quem formaria uma segunda família.[5] Aristides e Valdomira tiveram dez filhos juntos.[6]

A casa em que Lula nasceu era uma meia-água construída com estuque, sendo que seu chão era de terra. Possuía um quarto e uma sala. Não havia banheiro, de modo que os banhos ocorriam em açudes que se localizavam de seis a oito quilômetros de distância. Os filhos dormiam juntos em redes. Havia dificuldade em acessar água potável; a água que a família bebia era transportada de açudes ou de barreiros, precisando ser coada diante da quantidade de sujeira.[7]

Em dezembro de 1952, Dona Lindu migrou para o litoral do estado de São Paulo com seus filhos para se reencontrar com Aristides. Ela acreditava que seu marido havia feito esse pedido, quando na verdade foi seu filho Jaime, que já morava com o pai, quem escreveu dizendo que esse era o desejo de Aristides. Após treze dias de viagem em um "pau-de-arara",[8] chegaram a Guarujá, onde tiveram que dividir a convivência de Aristides com sua segunda família; ele já os havia visitado no Nordeste em 1950, quando inclusive apresentou seus novos filhos para sua primeira família.[9]

A convivência difícil com Aristides, que era obsessivamente controlador, violento e arbitrário,[10][11] levou Dona Lindu a sair de casa com os filhos, morando inicialmente em um barraco próximo de Aristides e, em 1955, se mudando para a Vila Carioca, um bairro de São Paulo.[12] Lula e seu irmão José Ferreira de Melo — o Frei Chico — moraram algum tempo ainda com o pai, junto com sua segunda família, mudando-se para a capital em 1956.[13] Após a separação, Lula quase não se reencontrou mais com seu pai, que morreu em 1978 e foi enterrado como indigente. Lula e seus irmãos só souberam da morte de Aristides vários dias após o enterro.[14][15]

Educação e trabalho

Durante o período em que as duas famílias de seu pai conviveram, Lula foi alfabetizado no Grupo Escolar Marcílio Dias, apesar da falta de incentivo do pai, analfabeto, que entendia que seus filhos não deveriam ir à escola, mas apenas trabalhar.[16][17] Ainda quando morava em Guarujá, aos oito anos, trabalhou como vendedor no cais.[18] Tinha que ir ao mangue para retirar lenha, marisco e caranguejo, além de buscar água e trabalhar eventualmente como vendedor nas ruas.[19][20]

Lula durante a juventude

Aos doze anos, já em São Paulo, começou a trabalhar como entregador de roupas de uma tinturaria a fim de contribuir na renda familiar.[21] Durante o mesmo período também trabalhou como engraxate e auxiliar de escritório. Em 1960, conseguiu seu primeiro emprego com carteira assinada, como office boy nos Armazéns Gerais Colúmbia.[22][23] Após, passou a trabalhar como aprendiz de torneiro mecânico na metalúrgica Parafusos Marte. Em 1961, foi aprovado em um curso de tornearia mecânica que era mantido por um convênio entre o SENAI e a Parafusos Marte.[24] Nos próximos dois anos, trabalhava por meio período na Parafusos Marte e no outro meio período estudava no SENAI.[25] Em 1963, recebeu seu diploma de meio-oficial de torneiro-mecânico no SENAI.[26]

Posteriormente, refletindo sobre o impacto de sua formação como torneiro mecânico, Lula afirmou: "O SENAI foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Por quê? Porque aí, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ter uma profissão, eu fui o primeiro filho da minha mãe a ganhar mais que o salário mínimo, eu fui o primeiro a ter uma casa, eu fui o primeiro a ter um carro, eu fui o primeiro a ter uma televisão, eu fui o primeiro a ter uma geladeira. Tudo por conta dessa profissão, de torneiro mecânico, por causa do SENAI."[27]

Na Parafusos Marte, Lula participou de movimentos grevistas pela primeira vez.[28] Quando sua reivindicação por aumento salarial não logrou êxito, deixou a Parafusos Marte pela Metalúrgica Independência. Foi ali que, em 1964, esmagou seu dedo em um torno mecânico,[29][nota 3] tendo que esperar horas até que o dono da fábrica chegasse e o levasse ao médico, que optou por cortar o resto do dedo mínimo da mão esquerda.[31] Nos meses iniciais, sentia muita vergonha da mutilação, buscando esconder a mão no bolso.[32][33]

De 1964 a 1965, trabalhou na Fris-moldu-car como meio oficial torneiro.[34][35] Após não ir trabalhar em um sábado, foi demitido.[36] No ano de 1965, ficou muito tempo desempregado, assim como seus irmãos, época em que passaram por privações, sobrevivendo de trabalhos eventuais, os chamados "bicos."[37] Em 1966, foi admitido nas Indústrias Villares, uma grande empresa metalúrgica de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.[38][39] Lula ali trabalhou como torneiro mecânico, recebendo um salário muito mais alto que o dos seus empregos anteriores.[40] Igualmente, as Indústrias Villares era maior e mais organizada se comparada com as metalúrgicas em que havia trabalhado.[41] Lula se manteve ligado à empresa até 1980.[42]

Sindicalismo

Quando o golpe de Estado de 1964 foi deflagrado, Lula não se insurgiu; naquele momento, não possuía interesse em temas que envolviam a política e, como descreveu mais tarde, "eu não tinha a menor noção do significado daquilo."[43][nota 4] Em 1968, filiou-se ao Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.[45] Lula relutou em filiar-se e candidatar-se a um cargo sindical pois à época tinha uma visão negativa do sindicato e seu grande lazer era jogar futebol.[46] Apesar de não ter qualquer experiência sindical, já era apontado como pessoa carismática, que se destacava e dizia o que os trabalhadores queriam escutar.[47] Convencido a integrar a chapa, sob influência de seu irmão Frei Chico, militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB)[48] e do Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano do Sul,[49] elegeu-se no 19.º lugar na lista dos 25 diretores e suplentes,[50] continuando a exercer suas atividades de operário.[51]

Lula discursando para metalúrgicos em 1979

Empossado suplente no Sindicato de Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema, Lula passou a gostar das atividades sindicais e,[52] segundo narrou, foi quando obteve "um mínimo de consciência de classe."[53] Tornou-se uma presença ativa na vida sindical, procurando acompanhar o atendimento jurídico conferido aos filiados.[54] Tinha uma abordagem conciliadora com seus adversários durante as negociações, o que lhe garantiu destaque entre as lideranças sindicais da região, mas não era considerado um orador notável. Conforme recordou, "eu era tão inibido que, quando citavam meu nome numa assembleia, eu já ficava vermelho."[55] No decorrer de seu período como sindicalista, participou de inúmeros cursos que abordavam relações entre empresas e trabalhadores, a legislação sobre o tema e estudou ainda oratória.[56]

Nas eleições sindicais de 1972, seu trabalho na suplência lhe rendeu a indicação unânime para a primeira secretaria, que na hierarquia era superada apenas pela presidência.[57] Após a vitória de sua chapa, que era liderada por Paulo Vidal, foi dispensado das atividades como operário, recebendo seu salário integral.[58] Foi criada a Diretoria de Previdência Social e FGTS, que lhe foi atribuída.[59] Também viajou pelo Brasil buscando representar o sindicato e defendendo a visão que a entidade possuía sobre o "novo sindicalismo brasileiro."[60] Na época, o líder comunista Emílio Bonfante Demaria tentou convencê-lo a filiar-se ao partido, mas Lula não se interessou nem pelo PCB, nem por "nenhuma outra organização clandestina."[61]

Em 1975, Lula foi eleito presidente do sindicato, em um pleito que não contou com chapas opositoras. Nos bastidores do movimento sindical, acreditava-se que Vidal, agora primeiro secretário, continuaria liderando a categoria, enquanto Lula, como uma estrela em ascensão do "novo sindicalismo", exerceria um papel decorativo. A posse da nova diretoria contou com a presença do governador Paulo Egydio Martins; anos depois, Paulo Egydio revelou que decidiu ir na solenidade pois acreditava que Lula era um desafeto dos comunistas.[62][nota 5] Lula eventualmente afastou a influência de Vidal no sindicato.[64]

Foto da ficha de Lula no DOPS de São Paulo, registrada em 1980

Na presidência, ganhou projeção nacional ao liderar reivindicações pela reposição dos salários.[65] Lula tentou estabelecer sua imagem como um agente independente, "sem o rabo preso", ao mesmo tempo em que cultivava relações com autoridades da ditadura militar, da indústria e da mídia.[66] Quando o presidente da República, Ernesto Geisel, esteve em São Bernardo do Campo, Paulo Egydio apresentou-lhe Lula, que buscava entregar uma carta com as reivindicações. O governador descreveu Lula como "o mais importante dirigente sindical do país."[67] Nas suas viagens para Brasília, Lula considerou que a representatividade de trabalhadores no Congresso era baixa e, apesar de reiterar que não gostava de política, começou a se aproximar da política convencional; neste período, foi-lhe atribuído um bordão que afirmava que, se alguém quisesse criar um "partido dos trabalhadores", teria que "usar macacão."[68]

Lula foi reeleito presidente em 1978, novamente sem oposição.[69] No segundo mandato, com a inflação crescente diminuindo o poder de compra, a campanha pela reposição salarial ganhou força.[70] Lula e o sindicato adotaram uma postura mais assertiva, organizando greves de metalúrgicos da Região do ABC no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.[71] A primeira iniciou em 12 de maio de 1978, reivindicando aumento salarial e melhores condições de trabalho.[72] Nos quatro meses seguintes, as paralisações abrangeram 235 mil trabalhadores.[73] Em março de 1979, uma greve geral envolveu 600 fábricas da região.[72] No Estádio 1.º de Maio, o sindicato organizou manifestações que reuniram entre 55 mil e 105 mil grevistas, familiares e espectadores.[74] Ao término do movimento, o governo concedeu aumentos salariais superiores ao previsto.[75]

O Poder Judiciário declarou ilegais as greves dos metalúrgicos.[72] Por seu papel de liderança, Lula foi detido por 31 dias nas instalações do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) paulista, sob a acusação de violar a Lei de Segurança Nacional.[76] O sindicato sofreu intervenção, aprovada pelo ministro Murilo Macedo, e Lula teve seu mandato cassado. Em 1981, foi condenado pela Justiça Militar a três anos e meio de detenção por incitação à desordem coletiva, tendo porém recorrido e sido absolvido no ano seguinte.[77] Por outro lado, as greves no ABC fizeram com que ganhasse proeminência nacional e internacional. O The New York Times escreveu em 1981 que "Luiz Inácio da Silva é para o Brasil o que Lech Wałęsa é para a Polônia."[78] Além disso, tais eventos levaram-no a ser conhecido por seu "comando carismático." Em 2010, a historiadora Lilia Schwarcz ressaltou, juntamente com o carisma, sua retórica "sedutora" e "linguagem populista."[79]

Início da carreira política

Fundação do PT e primeiras eleições

Em 1982, Lula participou das eleições para o governo de São Paulo e perdeu. No mesmo ano, alterou judicialmente seu nome de Luiz Inácio da Silva para Luiz Inácio Lula da Silva visando usá-lo em pleitos eleitorais futuros, pois a legislação vigente proibia o uso de apelidos pelos candidatos.[80][81] Em 1984, participou, ao lado de Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Suplicy, Tancredo Neves, entre outros, da campanha Diretas Já, que clamava pela volta de eleições presidenciais diretas no país.[82]

Após o fracasso da campanha Diretas Já e a realização das eleições presidenciais de forma indireta, Lula e o PT abstiveram-se de participar do pleito. Com a morte do presidente Tancredo Neves e a posse de José Sarney, Lula e o PT decidem firmar uma posição independente, mas logo se encontram no campo da oposição ao novo governo.[77][83]

Deputado federal

Lula, rodeado por outros membros da Assembleia Nacional Constituinte de 1987, entre eles José Serra

Em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo com a maior votação para a Câmara Federal até aquele momento, tendo participado da Assembleia Nacional Constituinte de 1987, que elaborou a Constituição Federal de 1988.[77] Durante a constituinte, Lula votou a favor do direito de greve, do aviso prévio proporcional, da reforma agrária, da estabilidade do dirigente sindical, do turno de seis horas de trabalho e do salário mínimo real, da licença-paternidade, da nacionalização do petróleo, da redução de 44h para 40h da jornada de trabalho e da manutenção do presidencialismo como sistema de governo.[84]

Entre 1987 e 1990, Lula encaminhou seis projetos de leis, além de dois pedidos de informação ao governo federal, além de ter feito 69 discursos na tribuna da Câmara.[84] Durante seu mandato como deputado, Lula também foi favorável à limitação do direito de propriedade privada, ao aborto, à jornada semanal de 40 horas, à soberania popular, ao voto aos 16 anos, à estatização do sistema financeiro, à criação de um fundo de apoio à reforma agrária e ao rompimento de relações diplomáticas com países que adotassem políticas de discriminação racial.[83]

Campanhas presidenciais

Malsucedidas: 1989, 1994 e 1998

Lula e Ciro Gomes no Palácio do Cambeba, em Fortaleza, Ceará, no final dos anos 1980

Em 1989, realizou-se a primeira eleição direta para presidente desde o golpe militar de 1964. Lula se candidatou a presidente e ficou em segundo lugar. No segundo turno, Fernando Collor de Mello, candidato do Partido da Renovação Nacional (PRN), primeiro colocado no turno inicial das eleições, foi eleito presidente após receber o apoio dos meios de comunicação e empresários, uma vez que estes se sentiam intimidados ante a perspectiva do ex-sindicalista, radical e alinhado às teses de esquerda chegar à presidência.[77]

A campanha de Collor no segundo turno foi fértil em práticas tidas, na época, por moralmente duvidosas, e que combinavam preconceitos políticos e sociais: Lula foi identificado como um trânsfuga do comunismo, a quem a queda do Muro de Berlim havia transformado em anacronismo, e seus atos político-eleitorais (comícios, passeatas) foram descritos com conotações desmoralizantes (segundo o acadêmico Bernardo Kucinski tal teria sido facilitado pela infiltração de agentes provocadores de Collor nos comícios do PT).[85] Collor acusou ainda Lula de desejar sequestrar ativos financeiros de particulares, o que a equipe econômica de seu futuro governo faria após sua eleição.[86]

Lula, então deputado federal, falando no plenário da Câmara dos Deputados em 1989

Articulistas da grande imprensa pronunciaram-se de forma indecorosa sobre Lula: o comentarista Paulo Francis o chamou de "ralé", "besta quadrada" e disse que se ele chegasse ao poder, o país viraria uma "grande bosta". Além disso, uma antiga namorada de Lula, Míriam Cordeiro, com a qual ele teve uma filha, surgiu na propaganda televisiva de Collor durante o segundo turno das eleições para acusar seu ex-namorado de "racista" e de ter lhe proposto abortar a filha que tiveram.[87] O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), posteriormente o maior rival eleitoral do PT, na época declarou apoio oficial a Lula no segundo turno. O candidato Mário Covas, que havia ficado em quarto lugar naquela eleição, subiu em palanques ao lado de Lula em defesa da candidatura petista.[88]

Às vésperas da eleição, a TV Globo promoveu um debate final entre ambos os candidatos e, no dia seguinte, levou ao ar uma versão editada do programa em sua exibição no Jornal Nacional. O diretor do Gallup Carlos Eduardo Matheus, entre outros, sustentou que a edição foi favorável a Collor e teria influenciado o eleitorado[86] (fato este admitido mais tarde por várias memórias de participantes do evento, mostrado no documentário Beyond Citizen Kane). A eleição propriamente dita comportou ainda a alegada manipulação política do sequestro do empresário do setor de supermercados Abilio Diniz, que, libertado do cativeiro no dia da eleição, seus sequestradores foram apresentados pela polícia vestindo camisetas do PT; aberto inquérito para apurar se coube à polícia vestir os criminosos, foi dois anos depois arquivado por falta de provas.[87][89][90] Foi nessa campanha presidencial o "L", de Lula, feito com o dedo indicador e o polegar exibidos em ângulo de 90°, foi criado por Mario Milani.[91] Mais tarde, o gestual do "L" viralizou em um grande fenômeno da mídia.[92]

Apesar da sua derrota em 1989, Lula manteve sólida liderança no PT, bem como prestígio internacional, como no destaque obtido quando da fundação do Foro de São Paulo, em São Bernardo do Campo, em 1990.[93][94][95] Tratava-se de um encontro periódico de lideranças partidárias que visava congregar e reorganizar as esquerdas latino americanas, que estavam politicamente desorganizadas com a expansão do neoliberalismo após a queda do muro de Berlim. Décadas mais tarde, o político viria a se tornar um dos fundadores do Grupo de Puebla, apontado como o sucessor do Foro de São Paulo, cuja criação deu-se no México em 12 de julho de 2019.[96][97][98]

Em setembro de 1993 estava percorrendo os Estados da Amazônia em campanha para a eleição presidencial de 1994. Em Ariquemes, Rondônia, Lula disse: "Há no congresso uma minoria que se preocupa e trabalha pelo país, mas há uma maioria de uns trezentos picaretas que defendem apenas seus próprios interesses".[99][100]

Caminhada do candidato ao governo paulista Mário Covas no centro de Santo André durante a campanha eleitoral das eleições estaduais em São Paulo em 1994. Da esquerda para a direita Luíza Erundina, Mário Covas, Celso Daniel, Lula e José Dirceu.

Luiz Inácio Lula da Silva voltou a candidatar-se à presidência em 1994 e foi novamente derrotado, ainda no primeiro turno, pelo candidato do PSDB, Fernando Henrique Cardoso. Em 1998, Lula saiu pela terceira vez derrotado como candidato à presidência da República, em uma eleição novamente decidida no primeiro turno. No entanto, manteve papel de destaque na esquerda brasileira ao apresentar-se numa chapa que tinha como candidato à vice-presidência o seu antigo rival Leonel Brizola, que havia disputado arduamente com Lula sua ida ao segundo turno das eleições de 1989 como adversário de Collor. Lula tornou-se um dos principais opositores da política econômica do governo eleito, sobretudo da política de privatização de empresas estatais realizadas nesse período.[101]

A desvalorização do real em janeiro de 1999, logo após a eleição de 1998, as crises internacionais, deficiências administrativas como as que permitiram o apagão de 2001, e principalmente o pequeno crescimento econômico no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso fortaleceram a posição eleitoral de Lula nos quatro anos seguintes.[102]

Vitória em 2002

Abdicando dos "erros" cometidos em campanhas anteriores, como a manifestação de posições tidas por radicais, Lula escolheu para candidato à vice-presidência o senador mineiro e empresário têxtil José Alencar, do Partido Liberal (PL), partido ao qual o PT se aliou. A campanha eleitoral de Lula optou em 2002 por um discurso moderado, prometendo a ortodoxia econômica, respeito aos contratos e reconhecimento da dívida externa do país, conquistando a confiança de parte da classe média e do empresariado.[102]

Em 27 de outubro de 2002, Lula foi eleito presidente do Brasil, derrotando o candidato apoiado pela situação, o ex-ministro da Saúde e senador paulista José Serra, do PSDB. No seu discurso de diplomação, Lula afirmou: "E eu, que durante tantas vezes fui acusado de não ter um diploma superior, ganho o meu primeiro diploma, o diploma de presidente da República do meu país".[103]

Presidência da República

Ver artigo principal: Governo Lula (2003–2011)

Primeiro mandato

Foto oficial do primeiro mandato de Lula

Lula foi empossado como o 35º presidente da República em 1º de janeiro de 2003, convertendo-se no primeiro filiado ao Partido dos Trabalhadores e o primeiro ex-operário a ocupar o cargo.[104] Em seu discurso de posse, classificou a data como o "dia do reencontro do Brasil consigo mesmo", prometendo combater a fome, gerar empregos, implementar políticas de proteção social, valorizar o comércio exterior e as relações internacionais, tendo a América do Sul como uma prioridade.[105] Lula proclamou a chegada de uma "nova era" e convocou "todos os homens e mulheres brasileiros, de empresários, sindicalistas e intelectuais, a construir uma sociedade mais justa, fraterna e solidária."[106] Desejando estabelecer um governo de coalizão, a composição ministerial contava com 34 pastas, das quais 18 foram destinadas a petistas, englobando ainda membros do PL, PCdoB, PPS, PSB, PDT, PTB e PV.[107] Foram nomeados políticos como Dilma Rousseff (Minas e Energia), José Dirceu (Casa Civil), Aloízio Mercadante (Fazenda), Ciro Gomes (Integração Nacional), Celso Amorim (Relações Exteriores), Marina Silva (Meio Ambiente), Gilberto Gil (Cultura) e Cristóvam Buarque (Educação).[108]

Na presidência, Lula desejava atingir rapidamente seus objetivos relacionados com a justiça social. No entanto, a equação para concretizá-los era "extraordinariamente complicada." Havia a necessidade de que o novo presidente acalmasse o mercado financeiro e ajustasse as contas públicas. A austeridade fiscal era uma exigência do Fundo Monetário Internacional para que o Brasil recebesse ajuda. Por outro lado, eram altas as expectativas entre seus apoiadores, os quais "estavam convencidos de que presenciavam uma alternância histórica comandada por um líder que, pela primeira vez, não era filho de uma família rica, mas vinha das camadas mais humildes da sociedade."[107]

A política econômica descartou uma transição para um modelo de Estado intervencionista ou mesmo ao socialismo, assim como rejeitou tendências populistas e atitudes radicais.[107] O governo Lula foi o primeiro desde a redemocratização a não criar um plano econômico próprio. O Plano Real foi mantido[109] e a autonomia do Banco Central, apesar de não garantida por lei, foi respeitada como forma de buscar ativamente as metas de inflação.[110] As reformas consideradas necessárias pela nova gestão foram executadas de modo programático e gradual.[107] A consolidação da estabilidade econômica ocorreu com o respeito à política macroeconômica, baseada no tripé composto por flutuação cambial, metas de inflação e austeridade fiscal, bem como conciliando políticas de transferência de renda e aquecimento da economia, com vistas a aumentar o poder de compra da classe baixa.[111] A moderação de Lula na economia decepcionou determinadas correntes de seu partido e personalidades mais à esquerda,[112][nota 6] ao mesmo tempo em que recebeu elogios dos meios de comunicação liberais e financeiros.[nota 7]

Lula e líderes da UNASUL durante encontro em 2006

Para combater a insegurança alimentar, Lula anunciou em 2003 a criação do Fome Zero. O programa se tornou a principal vitrine do governo, sendo o Bolsa Família seu carro-chefe. O Bolsa Família era um programa de transferência de renda mensal, variável de acordo com a composição da família; a título de exemplo, famílias que possuíam gestantes ou crianças com até 15 anos de idade recebiam mais. Como contrapartida, era necessário que as crianças frequentassem a escola e fossem vacinadas. Para as gestantes, era preciso que continuassem recebendo acompanhamento médico.[115][116] Em seu primeiro ano, o Bolsa Família abrangia 3,6 milhões de famílias, atingindo 12,5 milhões em 2010.[117] Os gastos com esta política social também se multiplicou, de 0,03% do Produto Interno Bruto em 2003 (R$ 570 milhões) para 0,38% em 2010 (R$ 14,37 bilhões).[118]

Nas relações internacionais, Lula defendeu um sistema em que os países desenvolvidos do norte dialogassem de modo mais democrático com os em desenvolvimento do sul.[107] Foi contrário à Guerra do Iraque,[119] clamou por uma reforma do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas que incluísse não apenas o Brasil como membro permanente, mas também outros países como a Alemanha,[120] e seguiu a "diplomacia Sul-Sul", priorizando a interação do Brasil com países em desenvolvimento.[121] Lula engajou-se em negociações comerciais multilaterais, reforçou a integração sul-americana, sendo o Mercosul a prioridade mais importante da diplomacia brasileira,[122] e intensificou as relações com países africanos.[123] De 2003 a 2006, Lula realizou 102 visitas a 52 países, mais do que qualquer outro presidente brasileiro. Destas, 40 viagens foram para países da América do Sul e 20 para da África.[nota 8]

Eleito presidente com uma bancada minoritária no Congresso Nacional, Lula buscou formar alianças com diversos partidos, inclusive com alguns situados mais à direita no espectro político brasileiro. Conseguiu apoio do PP, PTB e parcela do PMDB, às custas de dividir com estes o poder. Após dois anos de governo mantendo maioria no Congresso, o que facilitava a aprovação de projetos de interesse do executivo, uma disputa interna de poder entre os partidos aliados resultou no escândalo do mensalão, irrompido em 2005, o qual consistia em um esquema de pagamento de propina a parlamentares para que votassem a favor de projetos do governo.[125] Lula negou conhecimento do mensalão e se comprometeu a ajudar com as investigações, bem como a combater a corrupção.[107] Mais tarde, 25 réus foram condenados por crimes como corrupção passiva, lavagem de dinheiro e peculato.[126] Lula não foi denunciado criminalmente no âmbito do mensalão.[127]

Reeleição em 2006

Lula celebra sua reeleição em 29 de outubro de 2006

Em julho de 2006, Lula oficializou sua candidatura à reeleição, mantendo José de Alencar como companheiro de chapa. Sua coligação A Força do Povo contou com o apoio formal de PT, PRB e PCdoB. Na mesma época, pesquisa do Datafolha apontou sua vantagem como superior a dois dígitos em relação ao oponente mais forte, o tucano Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo.[128] No primeiro turno, Lula recebeu 48,61% dos votos válidos, enquanto Alckmin somou 41,64%. A necessidade de um segundo turno não estava nos planos do presidente. Até a véspera da votação, as pesquisas de opinião indicavam que seria reeleito em primeiro turno. O escândalo do dossiê, em que petistas foram acusados de encomendar um dossiê contra tucanos, e a ausência de Lula no debate da TV Globo foram considerados fatores que enfraqueceram sua candidatura.[129]

Em 29 de outubro, Lula foi reeleito com 58,2 milhões de votos, ou 60,83% dos votos válidos.[130] A atuação do governo na área social foi classificada como fundamental para o êxito de sua candidatura, que destacou como sua grande bandeira o discurso de continuidade de um "governo para os mais necessitados."[131] Discursando na Avenida Paulista após a confirmação de sua reeleição, Lula prometeu que o Brasil cresceria mais rápido, que "não gastaria mais do que ganha" e daria mais atenção aos pobres. Referiu que não detinha mais o "direito moral, ético e político de cometer erros daqui para frente."[132]

Segundo mandato

Foto oficial do segundo mandato de Lula

Empossado para seu segundo mandato presidencial em 1º de janeiro de 2007, Lula reiterou como prioridade avançar nos interesses dos mais pobres.[133] O governo rebateu as acusações de que sua política social era um gasto populista, estabelecido para "comprar os pobres",[nota 9] afirmando que se tratava de uma reparação histórica.[107] O salário mínimo cresceu 23,69% em termos reais no primeiro mandato e 20,94% no segundo.[135] Em paralelo, buscava vigorar o crescimento econômico, com taxas mais altas de crescimento anual do PIB.[107] O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foi uma das medidas definidas para este fim. O PAC fixou ações na infraestrutura, estímulo ao crédito e financiamento, desoneração tributária e metas fiscais de longo prazo.[136][137]

Para seu segundo mandato, Lula contou com apoio de uma coalizão formada pelo PT e pela maior parte do PMDB, além de PDT, PSB, PC do B, PR, PP, PTB,[138] PHS, PTC, PV, PRB e PSC.[139] Os líderes de tais partidos possuíam assento no Conselho Político e reuniam-se com o presidente e os ministros de Estado.[140] Dentre os parlamentares aliados, Lula elogiou Fernando Collor, Renan Calheiros[141] e José Sarney, defendendo este último quando fora acusado de corrupção.[142] A base aliada ajudou o governo durante os processos de confirmação de seus indicados para o Supremo Tribunal Federal.[nota 10] De 2003 a 2010, Lula designou oito ministros para a corte, sendo todos aprovados pelo Senado.[145] Dentre eles, Joaquim Barbosa foi o terceiro negro a integrar o STF e Cármen Lúcia a segunda mulher a tornar-se ministra.[146]

Sob o governo Lula, o Brasil ampliou ou fortaleceu suas relações com países que não faziam parte do Mundo ocidental. O presidente buscava diversificar as relações exteriores, atuando como um "garoto-propaganda" como meio de vender os produtos brasileiros em novos mercados. A ampliação dos parceiros comerciais incluiu países como Irã, Venezuela, Sudão, Líbia, Cuba e Guiné Equatorial, os quais eram acusados de práticas atentatórias aos direitos humanos.[147] Em 2009, Lula defendeu o direito do Irã de possuir um programa nuclear para fins pacíficos[148] e, no ano seguinte, ajudou a negociar um acordo sobre o tema.[149] Também em seu mandato, o Brasil enviou tropas para o Haiti, inicialmente por conta do contexto social naquele país[150] e, após, para reconstruí-lo em decorrência de um terremoto.[151]

Em 2010, o governo criou o Sistema de Seleção Unificada no contexto de uma política que buscava facilitar o acesso ao ensino superior. Para este propósito, o Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior foi aprimorado, permitindo que mais jovens de baixa renda chegassem às universidades,[152] e foram construídas 18 universidades federais e 173 campus universitários.[153] O Programa Universidade para Todos foi o principal responsável pela inserção de afrodescendentes no ensino superior; de 2003 a 2010, mais jovens negros ingressaram nas universidades do que nos vinte anos anteriores.[154]

O segundo mandato de Lula foi muito mais calmo. O presidente não apenas era objeto indiscutível da afeição popular, como foi o primeiro presidente a trazer um modesto bem-estar a muitas pessoas e agora estava no controle total de seu próprio governo. Quando a crise financeira de 2007–2008 provocou consequências significativas nos Estados Unidos e na Europa, Lula declarou que o Brasil sentiria apenas "uma marolinha."[155] Em 2008, a economia do Brasil estava em bom estado para combater a crise financeira global; a expansão da economia brasileira durou pelo menos até 2014.[156]

Impacto e legado

Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff

Em 2002, o Brasil ocupava a 14.ª posição no ranking global de economias, segundo dados do FMI, chegando a subir para a 7.ª posição em 2011.[157] Geralmente se coloca entre as maiores conquistas dos seus governos as que ocorreram na área social, em particular a redução da pobreza e da fome.[158] O índice Gini de desigualdade social caiu de 57,6 em 2002 para 52,9 em 2011.[159] De 2003 a 2014, a quantidade de pessoas abaixo da linha da pobreza caiu de 42 milhões para 14 milhões; no mesmo período, o número de brasileiros na extrema pobreza passou de 13 milhões para 5 milhões.[160] Em 2000, 10,9% da população encontrava-se em estado de desnutrição, reduzindo para 5,6% em 2007 e para 2,5% em 2014.[161] Em 2010, Lula recebeu o título de "Campeão Mundial na Luta Contra a Fome", concedido pela Organização das Nações Unidas.[162]

A ênfase nas políticas sociais e a boa repercussão delas foram fatores essenciais para garantir a manutenção da sua popularidade em meio às crises.[163] Ao fim do seu segundo mandato indicadores de diversas áreas registravam desempenho positivo. Além da queda da desigualdade e a redução de pessoas passando fome e vivendo na pobreza, o analfabetismo entre pessoas com mais de 15 anos de idade caiu de 11,6% em 2003 para 8,6% em 2011,[164] as reservas internacionais passaram de 49,3 bilhões de dólares em 2003 para 288,5 bilhões em 2010,[165] o salário mínimo continuava tendo ganho real,[163] o desemprego caiu de 10% em 2003 para 6,9% em 2011,[166] a inflação diminuiu de 14,7% em 2003 para 6,6% em 2011[167] e a Taxa SELIC, inicialmente em 25,36% em 2003, estava em 11,17% em 2011.[168]

Na eleição presidencial de 2010, Dilma Rousseff foi eleita presidente da República. O apoio de Lula foi fundamental para o êxito de sua candidatura. O Wilson Center pontou que "pesquisas de opinião pública revelam que o brasileiro médio quer a continuação das políticas de Lula, mais especificamente, sustentando o crescimento econômico, gerenciando os investimentos em infraestrutura e aprofundando a política social."[169] Lula deixou o cargo com aprovação pessoal superior a 80%, a melhor avaliação popular da história do país.[nota 11]

Pós-segundo mandato (2011–2022)

Palestrante e colunista

Apresentação de Lula no Teatro Nacional da Casa da Cultura Equatoriana em junho de 2013

Após deixar seu cargo de presidente, Lula iniciou carreira de palestrante. Sua primeira palestra foi em março de 2011, para executivos da LG. As estimativas dos valores de suas palestras rondam a casa dos 200 mil reais no Brasil e 332 mil reais no exterior.[172] Entre outubro de 2011 e março de 2012, Lula visitou mais de 30 países.[173]

Em abril de 2013, o ex-presidente assinou um contrato com o jornal norte-americano The New York Times para escrever uma coluna mensal no jornal sobre política e economia internacionais.[174]

Operação Lava Jato

Ver artigo principal: Operação Lava Jato

A partir de 17 de março de 2014 teve início a Operação Lava Jato, um conjunto de investigações, algumas controversas,[175][176][177] realizadas pela Polícia Federal do Brasil, que cumpriu mais de mil mandados de busca e apreensão, de prisão temporária, de prisão preventiva e de condução coercitiva, visando apurar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou bilhões de reais em propina, denominado "Petrolão". A operação contou com 80 fases operacionais autorizadas, entre outros, pelo então juiz Sergio Moro, durante as quais prenderam-se e condenaram-se mais de cem pessoas. Ela investigou crimes de corrupção ativa e passiva, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, organização criminosa, obstrução da justiça, operação fraudulenta de câmbio e recebimento de vantagem indevida.

De acordo com investigações e delações premiadas, estavam envolvidos em corrupção membros administrativos da empresa estatal Petrobras, políticos dos maiores partidos do Brasil, incluindo presidentes da República, incluindo Luiz Inácio Lula da Silva, presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal e governadores de estados, além de empresários de grandes empresas brasileiras. A Polícia Federal considera-a a maior investigação de corrupção da história do país.[178][179] Novas investigações surgiram no exterior a partir destes depoimentos em dezenas de países, dentre eles Cuba, El Salvador, Equador e Panamá. Em fevereiro de 2021, a operação de combate à corrupção terminou, após quase sete anos de ação.[180]

Crise político-econômica de 2014

Dilma Rousseff defendendo-se no julgamento de seu processo de impeachment, em 30 de agosto de 2016.

A Lava Jato teve um grande impacto no Brasil e foi apontada como uma das causas da crise político-econômica de 2014 e pela perda de 4,4 milhões de empregos no país.[181][182] A crise econômica foi acompanhada e intensificada por uma crise política que começou em 2013 com as Jornadas de Junho. A crise se agravou em março do ano seguinte com os escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato. Alguns meses depois, na eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff se reelegeu para seu segundo mandato, derrotando o candidato Aécio Neves por uma margem estreita, o que gerou insatisfação em parte da sociedade e entre os oposicionistas. Esses fatores, somados ao início da crise econômica, contribuíram para o aumento generalizado da insatisfação popular em relação à política, resultando em protestos contra o governo por todo o país.[183][184]

Em 2016, Dilma foi afastada do cargo por um processo de impeachment, tendo assumido seu vice, Michel Temer, que também foi alvo de protestos. Entre as causas apontadas para a crise econômica está, além da já mencionada crise política, o fim do ciclo de alta dos preços das commodities no mercado externo, que afetou as exportações brasileiras e diminuiu a entrada de capital estrangeiro no país. Entretanto, a principal causa foi interna e está associada a medidas econômicas conhecidas como nova matriz econômica que não surtiram os efeitos desejados.[185]

Acusações de corrupção

Manifestantes inflando boneco conhecido como "Pixuleco" em várias cidades brasileiras, caricaturando Lula com vestimentas de presidiário, em 2016[186][187][188]

A partir do início de 2016, a vida do político passou a mostrar-se bem conturbada, com investigações contra si por acusações dos crimes de lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e ocultação de patrimônio.[189] Lula foi réu em dez ações penais, algumas das quais estão no âmbito da Operação Lava Jato.[190] Em janeiro de 2016, o Ministério Público de São Paulo considerou ter obtido indícios suficientes para denunciar o ex-presidente Lula pelo crime de lavagem de dinheiro. Segundo a investigação, a construtora OAS, investigada na Operação Lava Jato, teria reservado para a família do petista um apartamento triplex em Guarujá, e pagado, ainda segundo a investigação, por uma reforma estrutural no imóvel no valor de 777 mil reais. Os promotores apuram também se a construtora usou outros apartamentos no mesmo prédio para lavar dinheiro ou beneficiar outras pessoas indevidamente.[191][192][193] Em fevereiro do mesmo ano, Sergio Moro autorizou a abertura de inquérito para que a Polícia Federal investigasse o Sítio Santa Bárbara, em Atibaia, usado pelo ex-presidente. A família de Lula usa frequentemente o sítio, que foi reformado em 2011. Segundo a revista Época, entre 2012 e 2015 Lula e a família viajaram 111 vezes ao sítio, que tem 173 mil metros quadrados, lago, piscina e uma ampla residência.[194][195][196]

O MPF suspeita que as empreiteiras OAS e Odebrecht tenham realizado obras na propriedade rural como compensação por contratos com o governo. Segundo a investigação, a reforma teria custado aproximadamente 500 mil reais. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, a empreiteira OAS pagou em dinheiro vivo os móveis e eletrodomésticos da cozinha e da área de serviço do sítio, e ainda segundo o jornal o total comprado para o sítio foi de 180 mil reais.[197][198] Entretanto, os arquivos da Odebrecht que incriminam Lula, para sustentar a tese de que a construtora doou 12 milhões de reais ao petista como forma de suborno,[199] têm data posterior à apreensão na Suíça.[200][201]

Manifestante com uma representação de Lula preso durante um protesto na Avenida Paulista, em São Paulo, em 13 de março de 2016

Sobre o sítio em Atibaia, o Instituto Lula afirmou, em nota, que o ex-presidente Lula nunca escondeu que frequenta em dias de descanso o sítio Santa Bárbara, que pertence a amigos dele e de sua família. O instituto afirma que não há nada ilegal nestes fatos, que só eles não servem para vincular Lula a qualquer espécie de suspeita ou investigação.[202]

De acordo com a revista IstoÉ, em depoimentos na delação premiada, o senador do PT, Delcídio do Amaral, afirmou que o ex-presidente Lula e a presidente Dilma tentaram interferir na Operação Lava Jato com nomeação de ministros nos tribunais superiores favoráveis às defesas dos acusados.[203][204][205] Ainda segundo a IstoÉ, o senador Delcídio afirmou na delação premiada que Lula tinha pleno conhecimento do propinoduto instalado na Petrobras e agiu direta e pessoalmente para barrar as investigações. Ainda segundo a delação, Lula teria sido o mandante do pagamento de dinheiro para tentar comprar o silêncio de testemunhas, entre elas Nestor Cerveró, a quem Lula ordenou o pagamento de 250 mil reais. Lula não queria que o ex-diretor da Petrobras mencionasse o esquema do pecuarista José Carlos Bumlai na compra de sondas superfaturadas feitas pela estatal.[206][207][208]

Nomeação para a Casa Civil e quebra de sigilo telefônico

Dilma Rousseff empossando Lula como Ministro Chefe da Casa Civil, em 17 de março de 2016

Em 16 de março de 2016, Lula foi nomeado pela presidente Dilma Rousseff para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, substituindo Jaques Wagner. A cerimônia de posse foi realizada no dia seguinte no Palácio do Planalto.[209] A partir de gravações telefônicas que tiveram seu sigilo levantado pelo juiz Sergio Moro, e do andamento de processos em que Lula era investigado alguns juristas criticaram a nomeação por verem o objetivo de movimentar o foro dos processos através do foro privilegiado.[210][211][212][213][214] Houve protestos em 18 estados e no Distrito Federal para se manifestar contra a nomeação.[215][216]

A nomeação foi alvo de disputas na Justiça Federal. Nas horas seguintes após sua oficialização, três juízes federais concederam liminares barrando a nomeação, mas foram revertidos por instâncias superiores.[217][218][219][220] Em decisão monocrática, o ministro Gilmar Mendes, do STF, suspendeu a nomeação.[221] A decisão foi proferida em ação apresentada pelos partidos PSDB e PPS. Na decisão, o ministro afirmou ter visto intenção de Lula em fraudar as investigações sobre ele na Operação Lava Jato.[222] Após o impeachment da presidente Dilma, Gilmar Mendes extinguiu o processo por perda de objeto, mas Lula recorreu solicitando que o STF julgue o processo e "corrija o possível erro histórico".[223][224][225]

No mesmo dia da nomeação de Lula para a Casa Civil, Sergio Moro, responsável pelos processos da Operação Lava Jato na primeira instância, retirou o sigilo de interceptações telefônicas de Lula. Contudo, Moro declarou que Lula já tinha pelo menos a suspeita das gravações, o que comprometeria a espontaneidade e a credibilidade de diversos momentos dos diálogos. O advogado de Luiz Inácio Lula da Silva, Cristiano Zanin Martins, disse que a divulgação do áudio da conversa entre a presidente Dilma Rousseff com Lula é uma "arbitrariedade" e estimula uma "convulsão social".[226][227]

Lula em entrevista no Diretório Nacional do PT em São Paulo, em março de 2016, após condução coercitiva e depoimento prestado à Polícia Federal

A conversa telefônica se refere especialmente à oferta do cargo de ministro a Lula. Em entrevista posterior ele justificou que talvez aceitasse o cargo para ser útil ao governo, não para se proteger politicamente. Moro afirmou que havia indícios de uma tentativa de influenciar ou de obter auxílio de autoridades do Ministério Público ou da Magistratura em favor do ex-presidente, mas sem provas da participação das pessoas mencionadas. Houve ainda uma referência à ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), "provavelmente para obtenção de decisão favorável ao ex-presidente na ACO 2822". Ela negou um pedido apresentado pela defesa do ex-presidente para suspender duas investigações sobre um triplex em Guarujá (SP) e um sítio em Atibaia (SP) ligados a ele, no que recebeu elogios de Moro no seu relatório.[228]

Lula vai além e, numa conversa com o Ministro Chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, solicita que ele converse com Dilma a respeito "de negócio da Rosa Weber". Ricardo Lewandowski também aparece nos diálogos: "Há diálogo que sugere tentativa de se obter alguma intervenção do Exmo. Ministro Ricardo Lewandowski contra imaginária prisão do ex-presidente, mas sequer o interlocutor logrou obter do referido Magistrado qualquer acesso nesse sentido", disse o juiz. E ainda se fala do Ministro da Justiça Eugênio Aragão, que Lula reputa como amigo, embora "ainda não tivesse prestado qualquer auxílio". O juiz Moro enfatizou que "Houve tentativa pelos interlocutores em obter auxílio ou influenciar membro do Ministério Público ou da Magistratura não significa que esses últimos tenham qualquer participação nos ilícitos". Para Moro, porém, isso "não torna menos reprovável a intenção ou as tentativas de solicitação".[229][230]

Denúncias do Ministério Público Federal e condenação

Em 21 de julho de 2016, Lula foi denunciado pelo Ministério Público Federal em Brasília por obstrução à justiça na Lava Jato.[231] Em 29 de julho a Justiça Federal de Brasília aceitou a denúncia do MPF e Lula se tornou réu da ação.[232][233][234] Em 9 de dezembro de 2016, o MPF denunciou à Justiça o ex-presidente Lula e o filho dele, Luiz Cláudio Lula da Silva, pelos crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e organização criminosa no âmbito da Operação Zelotes. De acordo com a acusação, Lula "integrou um esquema que vendia a promessa" de interferências no governo federal para beneficiar empresas.[235]

Em 12 de julho de 2017, o juiz Sergio Moro sentenciou Lula a "nove anos e seis meses de prisão" por corrupção passiva e lavagem de dinheiro[236]

Em 12 de julho de 2017, o juiz Sergio Moro sentenciou Lula a "nove anos e seis meses de prisão",[236] por crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, incluindo o recebimento de propina da OAS Empreendimentos no valor de 2 252 472 reais.[237] Foi o primeiro presidente do Brasil condenado criminalmente desde a promulgação da Constituição de 1988.[238][239][240][241] Políticos petistas e aliados condenaram a decisão, incluindo Gleisi Hoffmann e Dilma Rousseff.[242] Os autores do processo de impeachment de Dilma Rousseff, entre eles Miguel Reale Júnior, elogiaram a decisão de Moro.[243] Houve manifestações a favor e contra a condenação de Lula na cidade de São Paulo.[244]

Em 20 de julho de 2017, a BrasilPrev, a pedido da Justiça, bloqueou cerca de nove milhões de reais de dois planos de previdência. Os planos estavam em nome da LILS Palestras e Eventos, empresa pertencente ao ex-presidente.[245] Houve reações de apoio e também indignação no meio político, onde membros da antiga oposição aos governos petistas elogiaram a sentença, incluindo Ronaldo Caiado e Jair Bolsonaro.[242]

Em 24 de janeiro de 2018,[246][247] em um julgamento que recebeu atenção internacional,[248] Lula foi condenado em segunda instância, com sentença unânime entre os três desembargadores da Oitava Turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), em favor de manter a condenação anterior e ainda ampliar a pena de prisão do ex-presidente para doze anos e um mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex em Guarujá (SP).[236] Os desembargadores decidiram ampliar a pena para doze anos e um mês de prisão, com início em regime fechado. As conclusões foram que ele recebeu propina de um esquema de corrupção na Petrobras, sendo pago na forma de um apartamento. O cumprimento da pena se iniciaria após o fim dos recursos que fossem apenas possíveis no âmbito do TRF-4. Mesmo condenado, Lula não perdeu imediatamente o direito de se candidatar nas eleições de 2018.[249] A defesa de Lula requisitou habeas corpus preventivo no STJ, onde foi rejeitado por unanimidade, e ao STF, onde também foi rejeitado por 6 votos contra e 5 a favor.[250][251]

Em 6 de fevereiro de 2019, a juíza Gabriela Hardt condenou Lula a 12 anos e 11 meses de reclusão pelos mesmos crimes imputados em 2017, no processo que trata sobre o recebimento de vantagens indevidas através de reformas feitas no seu sítio em Atibaia e pagas pelas empreiteiras Odebrecht, OAS e Schahin, como contrapartida por celebrarem contratos superfaturados com a Petrobras.[252] Em abril do mesmo ano a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a decisão das instâncias inferiores, também de modo unânime.[236]

Prisão

Manifestação em frente a sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, em 22 de março de 2018 pedindo pelo habeas corpus de Lula

No dia 5 de abril de 2018, após rejeição do habeas corpus preventivo pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o juiz federal Sergio Moro decretou a prisão de Lula, condenado a 12 anos e um mês de reclusão. O juiz também definiu condições especiais para a prisão devido à dignidade do cargo.[253] A defesa do ex-presidente impetrou um novo pedido de habeas corpus no Superior Tribunal de Justiça para evitar sua prisão, que novamente foi negado.[254] Lula foi o primeiro ex-presidente brasileiro a ser preso em virtude de uma condenação penal por crime comum.[255] A prisão de Lula criou o Movimento Lula Livre.[256][257][258][259]

No dia 6 de abril de 2018, após o encerramento do prazo dado por Moro para que o ex-presidente se entregasse espontaneamente, Lula decidiu não se apresentar à sede da Polícia Federal em Curitiba,[260] além de se negar a sair do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A PF planejou o transporte de Lula caso ele quisesse se entregar tanto na central da Polícia Federal em São Paulo ou em Curitiba.[261] Antes de sair, Lula declarou, em um discurso no local, que pretendia se entregar para provar a sua inocência e para não ser dado como foragido. Disse também que não tinha medo de Moro e que a razão verdadeira de sua prisão era a sua política social, e finalizou afirmando que haveria continuidade de seu legado após a prisão.[262] No dia seguinte, 7 de abril, Lula entregou-se à Polícia Federal, que o aguardava do lado de fora do Sindicato, após tentar sair e ser impedido por militantes algumas vezes,[263][264] sendo levado a sua cela em Curitiba.[265][266]

A prisão despertou reações internacionais, com matérias publicadas no The New York Times, Washington Post, El País, El Clarín, e Le Monde, além de reportagens na TV, como BBC e Al Jazeera. De modo geral, a mídia estrangeira enfatizou a relevância do evento na eleição presidencial de 2018 e a convicção de Lula a respeito da sua inocência e da presença de razões políticas para sua prisão. Citou-se ainda o discurso do ex-presidente logo antes de se entregar à policia. As manifestações contrárias e favoráveis ao ato da prisão, assim como o tumulto gerado pelo conflito entre os ativistas, também foram lembradas pelos correspondentes internacionais.[267][268]

Tentativa de candidatura presidencial em 2018

Em 2017, Lula anunciou publicamente que seria novamente o candidato do PT à presidência da República. Em setembro daquele ano, saiu em caravana pelos estados do Brasil, começando por Minas Gerais, estado governado pelo seu aliado Fernando Pimentel.[269] No ano seguinte, ao atravessar a região Sul do país, a caravana petista foi recebida com protestos. No Paraná, o ônibus da comitiva foi atingido por tiros, e no Rio Grande do Sul, militantes pró-Lula foram atingidos por pedras.[270]

Manuela d'Ávila e Fernando Haddad lançando a candidatura de Lula à eleição presidencial de 2018

Mesmo após a prisão em abril de 2018, o PT insistiu e manteve Lula como candidato do partido à presidência. Na pesquisa Ibope realizada em junho, Lula liderava com 33% das intenções de voto, mais que o dobro do segundo colocado, o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que pontuava 15%.[271] De dentro da cadeia, o ex-presidente articulou uma aliança nacional com o PCdoB e alianças regionais com o PSB, contribuindo para isolar a candidatura de seu maior adversário no campo da esquerda, o ex-governador do Ceará Ciro Gomes.[272]

O PT oficializou a candidatura de Lula em 5 de agosto, em São Paulo. Na impossibilidade da presença física de Lula no local, uma carta sua foi lida para a plateia pelo ator Sérgio Mamberti. O vice indicado na chapa presidencial foi o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que representará Lula em eventos e debates. Na provável inelegibilidade de Lula, Haddad assumiria a cabeça da chapa, tendo como vice a deputada Manuela d'Ávila.[273] Em 16 de agosto, depois que a maioria dos ministros do TSE declarou que a "inelegibilidade [de Lula como candidato] é incontroversa",[274] a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, enviou uma impugnação contra a candidatura tendo como base a Lei da Ficha Limpa, que considera inelegíveis candidatos condenados em segunda instância.[275]

O comitê de Direitos Humanos da ONU recomendou, em 17 de agosto, que fosse assegurado a Lula o "acesso apropriado à imprensa e a integrantes de seu partido político". Segundo o texto, também foi solicitado que Lula não fosse impedido de "concorrer às eleições presidenciais de 2018 até que todos os recursos pendentes de revisão contra sua condenação [fossem] completos em um procedimento justo" em que "a condenação [fosse] final".[276] No entanto, em primeiro de setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu por 6 votos a 1, que o ex-presidente não pode concorrer a um terceiro mandato com base na Lei da Ficha Limpa.[277][278] A defesa entrou com recurso, negado em 6 de setembro pelo relator Edson Fachin, o único que votou a favor de deferir a candidatura outrora.[279][280]

O Comitê da ONU fez nova manifestação[281] em 10 de setembro reafirmando a obrigação do governo brasileiro de cumprir a recomendação para garantir a candidatura de Lula.[282] No dia seguinte, o PT anunciou oficialmente que Haddad seria o novo candidato do partido nas eleições presidenciais de 2018.[283][284][285]

Anulação das condenações da Lava Jato

Sergio Moro durante audiência pública da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado para esclarecimentos a respeito das notícias sobre os vazamentos das conversas da Operação Lava Jato.

Em conversas em grupo entre membros da equipe de promotores dias antes de apresentar a acusação, Deltan Martinazzo Dallagnol expressou suas crescentes dúvidas sobre dois elementos-chaves do caso da promotoria: se o tríplex era de fato de Lula e se tinha ligação com a Petrobras.[286]

Em agosto de 2019, a Câmara dos Representantes dos Estados Unidos e o Subcomitê de Tribunais, Propriedade Intelectual e Internet pediram ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ) que explicasse o alcance de seu envolvimento no caso contaminado e politizado contra o ex-presidente e a investigação de corrupção de Lava Jato. Os membros observaram que as acusações contra Lula são "baseadas em evidências fracas que os próprios promotores acreditam serem insuficientes para uma condenação".[287][288] O deputado Ro Khanna observou que o juiz Moro foi recompensado por Bolsonaro, que deixou até mesmo os apoiadores da Lava Jato desconfortáveis, devido à percepção óbvia de um quid pro quo e suborno.[289][290]

Após 580 dias preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, Lula foi solto no dia 8 de novembro de 2019, um dia após o Supremo Tribunal Federal ter considerado a prisão em segunda instância inconstitucional. A decisão de soltura imediata foi tomada pelo juiz Danilo Pereira Júnior, da 12.ª Vara Federal de Curitiba.[291] No seu pronunciamento após a soltura, Lula agradeceu seu advogado Cristiano Zanin e sua esposa, aos membros do PT e seus militantes, aos partidos políticos que o apoiaram (PCO, PSOL e PCdoB) e atacou os coordenadores da Lava-Jato: "Eu quero dizer para vocês que, se pegar o [Deltan] Dallagnol, se pegar o [Sergio] Moro, se pegar alguns delegados que fizeram inquérito, enfiar um dentro do outro e bater no liquidificador, o que sobrar não é 10% da honestidade que eu represento nesse país."[292]

O ministro Edson Fachin considerou a Justiça Federal do Paraná incompetente para julgar as ações relacionadas a Lula, decisão posteriormente confirmada pelo Supremo Tribunal Federal

Em 8 de março de 2021, o ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, anulou todas as condenações contra o ex-presidente Lula em relação à operação Lava Jato, feitas pela Justiça Federal do Paraná, vinculada ao Tribunal Regional Federal da Quarta Região. Com esta decisão, o político não está mais inelegível. Agora, os processos judiciais contra o ex-presidente estarão na Justiça Federal do Distrito Federal, vinculada ao Tribunal Regional Federal da Primeira Região.[293] Em 15 de abril, o plenário do Supremo Tribunal Federal, em sua maioria, anulou as condenações do ex-presidente feitas pelo então juiz Sergio Moro no âmbito da Lava Jato.[294]

Em 15 de abril de 2022, a maioria (oito votos a três) do Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou que os quatro processos criminais da Operação Lava Jato que tramitaram contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na 13ª Vara Federal de Curitiba terão que ser refeitos. Com isso, duas condenações contra Lula, nos casos Triplex de Guarujá e Sítio de Atibaia, foram anuladas. O STF confirmou a decisão individual do ministro Edson Fachin que, no início de março, havia considerado a Justiça Federal do Paraná incompetente para julgar as ações.[295][296][297]

Lula atualmente não possui condenação com trânsito em julgado (conforme Artigo 5º da Constituição Federal),[298] condenações anuladas pelo STF por erros processuais, como: incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar os casos (pois não eram relacionados à Lava Jato), somada à suspeição do ex-juiz Sergio Moro.[298] Mas segue com 5 processos trancados e/ou suspensos, sendo considerado juridicamente inocente em três dos onze processos mais conhecidos,[299] devido a absolvição, anulação, ou prescrição.[298]

Segunda Presidência do Brasil (2023–presente)

Ver artigo principal: Governo Lula (2023–presente)
Lula formalizando a chapa para presidente com Alckmin como vice

Com os direitos políticos readquiridos, Lula pavimentou sua campanha pelo retorno à Presidência da República na eleição de 2022,[300] buscando uma vitória contra o candidato à reeleição Jair Bolsonaro, que filiou-se ao Partido Liberal, cujo governo encontrava-se desgastado, principalmente, por medidas negacionistas tomadas durante a pandemia de COVID-19 e políticas econômicas, ambientais e culturais "desastrosas".[301] Para tornar a eleição possível, o PT reuniu em sua coligação nove partidos,[302] entre os quais o PSB, que integrou a chapa lançando o candidato a vice-presidente Geraldo Alckmin, antigo adversário político de Lula na eleição presidencial de 2006 pelo PSDB, do qual havia se desfiliado, em uma aliança até então considerada "improvável".[303] Estiveram na coalisão também partidos como o PSOL, que deixou de lançar candidatura própria em contraponto ao programa do PT para apoiar Lula em uma frente de esquerda, afirmando ser um "processo de superação da extrema-direita" para "derrotar Bolsonaro".[304][305] Durante a campanha, Lula firmou uma frente ampla com o apoio de diversas figuras políticas como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e José Sarney, além de Simone Tebet, terceira colocada no pleito presidencial, que engajou-se em sua campanha.[306]

Lula subindo a rampa do Palácio do Planalto durante sua posse em 2023

Lula terminou o primeiro turno da eleição com 57,2 milhões de votos válidos, ou 48,43%, contra 51 milhões, ou 43,20%, de Bolsonaro, avançando para o segundo turno e angariando 60,3 milhões de eleitores (50,9%) frente aos 58,2 milhões do adversário (49,1%), resultados que tornaram a disputa presidencial a mais acirrada da história.[307] Durante os últimos meses daquele ano, apoiadores ferrenhos de Bolsonaro realizaram manifestações em todo o Brasil contra a vitória do petista e, inflamados pela desconfiança do então presidente no sistema eleitoral e nas urnas eletrônicas, pediram intervenção militar.[308] Lula foi empossado sem receber a faixa presidencial de Bolsonaro, que não aceitou o resultado da eleição, e sua equipe de campanha encontrou como alternativa a transferência simbólica por pessoas que representavam diferentes setores da sociedade brasileira.[309]

Sob o slogan "União e reconstrução", o governo foi composto inicialmente por 37 ministérios, quinze a mais que o governo anterior[310][311] e o segundo maior número de pastas desde a redemocratização, sendo menor do que no segundo governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que teve 39 pastas.[312]

Vida pessoal

Casamentos e filhos

Lula e a segunda esposa, Marisa Letícia, no Palácio da Alvorada, 2007
Lula e a terceira esposa, Rosângela da Silva, 2022

Em 24 de maio de 1969, Lula casou-se com a operária mineira Maria de Lourdes da Silva, irmã de seu melhor amigo, Jacinto Ribeiro dos Santos, o "Lambari". Lourdes contraiu hepatite no oitavo mês de gravidez, em junho de 1971, vindo a falecer quando os médicos decidiram fazer uma cesariana para tentar salvar mãe e filho, que também não sobreviveu.[313]

Em 1974, teve uma filha chamada Lurian com a enfermeira Miriam Cordeiro, sua namorada na época. Mais tarde no mesmo ano, casou-se com a então viúva Marisa Letícia Casa dos Santos, vindo anos depois a adotar o filho dela, Marcos Cláudio, que nem chegara a conhecer o pai biológico. O casamento de mais de trinta anos com Marisa gerou três filhos: Fábio Luís (1975), Sandro Luís (1979), e Luís Cláudio (1985).[314] Marisa faleceu em 2017, em decorrência de um acidente vascular cerebral (AVC).[315][316]

Ainda em 2017 Lula iniciou um relacionamento com a socióloga Rosângela da Silva, conhecida como Janja, que só se tornou público em 2019, quando o ex-presidente estava preso em Curitiba.[317] Casaram-se em 18 de maio de 2022, em São Paulo.[318]

Saúde

Lula em tratamento de câncer e Dilma Rousseff em São Bernardo do Campo, em dezembro de 2011

Em 29 de outubro de 2011, foi diagnosticado com câncer de laringe pela equipe do médico Paulo Hoff do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Fumante durante quarenta anos, após começar a apresentar rouquidão por um tempo prolongado, foi identificado um tumor maligno de tamanho médio (dois a três centímetros) na laringe do ex-presidente. A assessoria de imprensa do Instituto Lula, sua organização não governamental, informou que o tratamento iria iniciar com sessão de quimioterapia em 31 de outubro,[319] mas, a pedido de Lula, não foi divulgado o número de sessões que foram realizadas. No entanto, foi divulgada a duração aproximada do tratamento, que estimava-se de três meses segundo o oncologista Artur Katz, responsável pelo tratamento do ex-presidente. Lula realizou o tratamento no Hospital Sírio-Libanês.[320]

Em nota à imprensa, no mesmo dia do anúncio do câncer, Dilma demonstrou solidariedade a Luiz Inácio e disse que "junta-se à torcida do povo brasileiro" pela melhora do ex-presidente, também se disse preocupada com ele e que acredita na recuperação rápida da sua saúde.[321] José Sarney, presidente do Senado, também divulgou em nota oficial à imprensa que espera a recuperação de Lula e disse: "Lula é um lutador, já venceu muitas batalhas e vencerá mais esta."[322]

Antecipando-se aos efeitos adversos da quimioterapia, que incluem a alopecia, cortou a barba e os cabelos, deixando apenas o bigode.[323] Em 28 de março de 2012, o Hospital Sírio-Libanês informou que os exames de Lula mostravam "ausência de tumor visível", demonstrando boa resposta ao tratamento.[324] Em vídeo, Lula disse que sentia intensa náusea, o que o impedia de se alimentar e o fez emagrecer cerca de 16 quilos rapidamente, além de manter uma dieta ausente de sólidos.[173] Em sua primeira aparição após a descoberta da doença num programa de televisão, Lula esteve presente no Programa do Ratinho em 31 de maio. Na ocasião, disse que a única possibilidade de ser candidato presidencial em 2014 era se Dilma não quisesse se reeleger. Informou também que estava fazendo duas horas por dia de fisioterapia.[325]

Imagem pública

Prêmios e honrarias

Homenagem filatélica comum aos presidentes após conclusão do mandato

Desde 2003, quando assumiu a presidência pela primeira vez, Lula acumulou aproximadamente 300 condecorações. Segundo a revista norte-americana Newsweek, Lula era, no final de 2008, a 18.ª pessoa mais poderosa do mundo, ocupando a liderança do ranking na América Latina.[326] Em lista divulgada pela revista Forbes em novembro de 2009, Lula foi considerado a 33.ª pessoa mais poderosa do mundo.[327] Em 2009 foi considerado o "homem do ano" pelos jornais Le Monde e El País.[328] De acordo com o jornal britânico Financial Times, Lula foi uma das 50 pessoas que moldaram a década de 2000 devido a seu "charme e habilidade política" e também por ser "o líder mais popular da história do país".[329] Uma publicação do jornal Haaretz, com sede em Israel, feita em 12 de março de 2010, afirmou que Lula é o "profeta do diálogo", por suas intermediações em busca da paz no Oriente Médio.[330][331] Em abril do mesmo ano, a revista Time listou Lula como um dos 25 líderes mais influentes do mundo.[332][333]

Em 2008, a UNESCO concedeu a Lula o Prêmio pela paz Félix Houphouët-Boigny.[334] Em pesquisa publicada no primeiro dia do ano de 2010 pelo Instituto Datafolha, Lula era a personalidade mais confiável dos brasileiros dentre uma lista de 27.[335] No Fórum Econômico Mundial de 2010, realizado em Davos, na Suíça, recebeu a premiação inédita de Estadista Global, pela sua atuação no meio ambiente, na erradicação da pobreza e na redistribuição de renda e nas ações em outros setores com a finalidade de melhorar a condição mundial.[336] No mesmo ano, foi condecorado pela Organização das Nações Unidas como o Campeão Mundial na Luta Contra a Fome e a Desnutrição Infantil.[337][338] Em 2011, após deixar a presidência, Lula recebeu o prêmio Norte-Sul do Conselho da Europa.[339] No dia 17 de março de 2013, o ex-presidente recebeu a Ordem Nacional da República do Benim, a mais alta condecoração beninense, na cidade de Cotonou.[340]

Lula recebendo o Título de Cidadão Paulistano e a Medalha Anchieta da Câmara Municipal de São Paulo em 2012

Antes mesmo de ter iniciado seu mandato, Lula foi condecorado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso com o último grau da Ordem do Mérito Militar em dezembro de 2002.[341] No Brasil, também recebeu medalhas da Ordem do Mérito Naval, da Ordem do Mérito Aeronáutico,[342][343] da Ordem do Cruzeiro do Sul, da Ordem do Rio Branco,[344][345] da Ordem Nacional do Mérito e da Ordem do Mérito Judiciário Militar.[346][347] Em âmbito internacional, foi condecorado com as medalhas da Ordem da Águia Asteca (México),[348] da Ordem Amílcar Cabral (Cabo Verde),[349] da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito (Portugal),[350][351] da Ordem da Estrela Equatorial (Gabão),[352] da Ordem do Banho (Reino Unido),[353] da Ordem de Omar Torrijos (Panamá),[354] da Ordem Nacional do Mérito (Argélia),[355] da Ordem da Liberdade (Portugal),[351][356] da Ordem de Boyacá (Colômbia),[357] e da Ordem Marechal Francisco Solano López (Paraguai).[358] Recebeu também o Prêmio Internacional Don Quixote de la Mancha (Espanha) por ter instituído o ensino obrigatório da língua espanhola na rede pública de ensino.[359]

Lula, até 2020, foi condecorado como doutor honoris causa 36 vezes.[360] Ele recebeu o título honoris causa pela Universidade Federal de Viçosa,[361] pela Universidade de Coimbra (Portugal),[362] pela Universidade Federal de Pernambuco, pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, pela Universidade de Pernambuco,[363] pela Universidade Federal da Bahia,[364] e pela Universidade Federal do ABC.[365] Embora outras universidades nacionais e internacionais tenham feito diversos convites para que o então presidente recebesse a honraria, Lula recusou todos os títulos honoris causa enquanto ocupou a cadeira de chefe do estado brasileiro, passando a aceitá-los apenas após deixar o cargo.[361] Em outubro de 2011, Lula recebeu o título de doutor honoris causa da prestigiada Fundação Sciences-Po da França. Foi o primeiro latino-americano a receber este título. A Sciences Po foi fundada em 1871 e apenas 16 personalidades no mundo possuíam esta premiação até então.[366] Em 2020, Lula recebeu o título de cidadão honorário da cidade de Paris, entregue pela prefeita da capital francesa, Anne Hidalgo.[367]

Luiz Inácio Lula da Silva foi indicado, com outros 300 aspirantes de todo o mundo, ao Prêmio Nobel da Paz de 2019. Ele recebeu apoio de mais de 650 mil pessoas[368] responsáveis por uma petição que partiu de um detentor do Nobel, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do prêmio em 1980.[369]

Controvérsias

Após sair da prisão em 2019, Lula passou a acumular declarações falsas ou distorcidas à imprensa do Brasil. Em novembro de 2019, o Aos Fatos checou o discurso político no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, foram 6 declarações falsas, 4 verdadeiras e 1 imprecisa.[370] A Folha de S.Paulo compilou algumas delas e publicou em um artigo em fevereiro de 2020.[371] Uma declaração em particular gerou críticas de associações que defendem os jornalistas. Em janeiro de 2020, Lula citou o nazismo para atacar a TV Globo e acabou em parte, defendendo os ataques de Bolsonaro direcionados a jornalistas. Lula declarou: "Acho que tem crítica que ele [Bolsonaro] faz que é correta. Dê a ele o mesmo direito que dá aos outros, direito de falar, abra para ele falar. Na greve dos jornalistas de 1979, os donos de jornais descobriram que não precisavam tanto de jornalistas, que poderiam fazer jornalismo sem precisar do jornalista. Agora, o Bolsonaro está provando que é possível fazer notícia sem precisar dos jornais, da televisão. Ele faz por ele mesmo. Aliás, o Trump já fez escola (...) Eu ainda respeito, marco toda semana uma entrevista. Não acho que é correto um presidente da República se comunicar pelo seu Twitter, um presidente da República tem a obrigação de prestar contas à democracia, atendendo a imprensa. Não aquele cafezinho formal, em que tem um general como porta-voz, que é tudo quase militarizado. Mais do que no tempo dos militares. Marca uma entrevista livre com a imprensa e deixa a imprensa perguntar!"[372]

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) criticou a fala do presidente, citando que "Bolsonaro vem hostilizando, assediando e incitando a perseguição a repórteres — trabalhadores no desempenho de suas funções — desde os primeiros dias de seu mandato." E concluí que "é lamentável que um antigo ocupante do cargo coadune com essas práticas." Questionada pela Folha, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) chamou de "infelizes" as declarações de Lula: "Críticas são legítimas, mas agressões genéricas e generalizadas não. O ex-presidente Lula também se equivoca ao equiparar o discurso direto praticado nas redes sociais com jornalismo. A mediação do jornalismo é, atualmente, ainda mais necessária. A profusão de informações que há nas redes sociais mais desinforma que informa".[373]

De acordo com um levantamento da revista Veja, Lula é uma das maiores vítimas de notícias falsas no Brasil, sendo a grande maioria delas de viés negativo. Dentre as de maior repercussão, está a de que o ex-presidente saiu na capa da revista Forbes como um dos homens mais ricos do Brasil, a de ser o dono da empresa JBS, de ter um luxuoso avião a jato avaliado em 50 milhões de dólares, de ser dono uma grande mansão no Uruguai (que na verdade é o prédio da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ESALQ-USP, em Piracicaba), de receber aposentadoria por invalidez, de ter saído na capa da revista The Economist como um dos maiores corruptos do mundo e também de ter enviado 30 bilhões de reais para o exterior, além da que o acusa de ter recebido 317 milhões de reais em uma delação premiada. Todas as notícias, que são falsas, foram divulgadas por sites ou políticos ligados a partidos de direita e circularam em aplicativos de celular como o WhatsApp, em canais do YouTube e por e-mails.[374][375][376][377][378]

Três dias antes de Lula deixar a presidência, o Ministério das Relações Exteriores concedeu um passaporte diplomático a seu filho Luís Cláudio. O passaporte diplomático destina-se a autoridades, diplomatas ou pessoas que representem o país no exterior, dando privilégios em diversos países. Em decisão judicial de 2012 expedida pela 14.ª Vara Federal do Distrito Federal, o passaporte foi suspenso. A decisão proferida alegou que houve "absoluta confusão de interesses públicos com interesses pessoais".[379]

Referências na cultura popular

Em 1995, a banda brasileira Os Paralamas do Sucesso lançou a canção "Luís Inácio (300 Picaretas)", que faz alusão ao trecho de uma fala de Lula quando este ainda era deputado.[380]

Em 1996, foi lançada a biografia Lula, o Filho do Brasil, de Antonio Candido.[381] Em 2009 o cineasta indicado ao Óscar Fábio Barreto dirigiu o filme Lula, o Filho do Brasil que retrata a vida de Lula até os 35 anos, baseando-se no livro de Cândido.[382] O filme foi um fracasso de crítica e público,[383][384] acusado de ser propaganda política,[385][386] e os produtores até o exibiram de graça.[387] Alguns observadores no Brasil disseram que o filme foi um sinal de culto à personalidade.[388] Anteriormente, Lula foi retratado nos documentários Peões, que mostra a luta do movimento sindical do ABC Paulista, e Entreatos, que acompanha sua campanha política de 2002, ambos lançados em 2004.[389][390] Lula também participou de dois documentários dirigidos por Oliver Stone sobre Hugo Chávez: South of the Border (2009) e Mi amigo Hugo (2014).[391][392][393]

Em 2017, foi lançado o filme Polícia Federal: A Lei É para Todos, que conta a história da Operação Lava Jato da perspectiva de seus autores, com Lula sendo interpretado pelo ator Ary Fontoura.[394] No ano seguinte, foi lançada a série O Mecanismo, da Netflix, que também trata da Operação Lava Jato e traz um personagem que faz alusão a Lula, João Higino, interpretado por Arthur Kohl.[395]

O documentário Democracia em Vertigem, escrito e dirigido por Petra Costa em 2019, narra a ascensão e queda de Lula e Dilma Rousseff e a crise sócio-política no Brasil durante o período.[396]

Cronologia sumária

Ver também

Notas

  1. a b A localidade onde Lula nasceu é a atual cidade de Caetés. No ano de seu nascimento (1945), Caetés era um distrito da cidade de Garanhuns, antes denominado São Caetano, cujo nome foi alterado para Caetés pelo decreto-lei nº 92, de 31 de março de 1938. Pela lei estadual n.º 4987, de 20 de dezembro de 1963, dezoito anos depois do nascimento de Lula, o distrito foi emancipado, desmembrando-se de Garanhuns e elevado à categoria de município.[1]
  2. A data de nascimento de Lula foi registrada incorretamente como sendo 6 de outubro de 1945. De acordo com seu irmão, Frei Chico, "um dia minha mãe foi ao cartório em Santos registrar os filhos. Levou anotado todas as datas e os nomes. Mas acredito que ficou intimidada pela atitude da escrivã, que sugeriu mudar o nome da minha irmã ali, na hora, de Sebastiana para Ruth, seu próprio nome, em sua 'homenagem', e ela acabou se atrapalhando com tantas datas."[2]
  3. Relembrando o acidente, Lula afirmou: "Quebrou o parafuso de uma prensa. Eu fiz o parafuso e quando fui colocar, o companheiro prensista que estava cochilando distraiu-se, largou o braço da prensa, a prensa fechou e eu perdi meu dedo."[30]
  4. Em outro momento, Lula observou que, dentre os trabalhadores da Metalúrgica Independência, "o orgulho dos militares terem chegado ao poder era muito grande. As pessoas confiavam no exército brasileiro [...] [e] eu achava que o golpe era uma coisa boa."[44]
  5. De acordo com John D. French, a partir de depoimento de José de Segadas, "Lula encarnava a esperança, há muito tempo mantida por homens de poder [incluindo Paulo Egydio] de que um dirigente sindical legítimo e não comunista poderia um dia emergir para libertar os patrões e funcionários do governo de homens desonestos que eles não respeitavam, mas sem os quais não conseguiriam viver face à ameaça "comunista."[63]
  6. De acordo com o Barcelona Centre for International Affairs, "sectores situados à sua esquerda [...] transitaram entre a desilusão, a impaciência e a revolta."[107] Em 2003, escrevendo para a revista Crítica Marxista, Armando Boito Jr registrou que ' O governo Lula, que gerara alguma expectativa positiva em parte da esquerda brasileira e internacional, revelou-se uma espécie de 'terceira via' da periferia, disseminando a perplexidade, a decepção e a revolta entre trabalhadores e intelectuais." Boito Jr. escreveu que Lula manteve e aprofundou "pilares do modelo capitalista neoliberal dependente."[113]
  7. Diretor-geral de Pesquisas para Mercados Emergentes da Goldman Sachs, Paulo Leme classificou em 2003 como acertadas as decisões do governo na economia. Para Leme, "a coisa mais importante é o sucesso do programa de estabilização econômica. A condução da política fiscal e monetária foi acertada" e "a inflação vem caindo muito, o ajuste das contas externas é muito impressionante e o resultado disso tudo é que o país recuperou a confiança do investidor."[114][107]
  8. Em seu primeiro mandato, FHC registrou 55 viagens ao exterior. O ritmo de viagens ao exterior superou ainda as médias de Itamar Franco (15 visitas), Fernando Collor (27) e José Sarney (41).[124]
  9. Dentre os críticos, o escritor Ferreira Gullar afirmou em 2010 que "[...] Difícil é conquistar o cara que vive por sua conta. Difícil é conquistar a mim, que trabalho e vivo do meu dinheiro. Não me conquistam comprando, como o Lula comprou todos os pobres do Brasil. Por isso é que ele tem 80 por cento de aprovação. Ele comprou os pobres. Não tem preocupações de fiscalizar, e pôr em prática a natureza do programa, que é quando o cara conseguir trabalho sair do programa. Ele quer que tenha cada vez mais gente no programa. Ou seja, pessoas sem trabalho e dependentes da bondade dele. Não está preocupado em resolver problema social nenhum. O Lula é um esperto. Só pensa no poder dele."[134]
  10. Em 2009, foi controversa a nomeação de Dias Toffoli, com os críticos questionando sua ligação com o PT, sua idade e seus conhecimentos jurídicos.[143] Toffoli havia advogado para o partido durante eleições anteriores. A mobilização da base aliada garantiu sua aprovação com 58 votos a favor e 9 contrários.[144]
  11. De acordo com o Ibope, a aprovação pessoal de Lula em dezembro de 2010 era de 87%; a de seu governo, de 80%.[170] Na mesma época, o Datafolha apurou que 83% dos brasileiros consideravam o governo Lula como "ótimo" ou "bom."[171]

Referências

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