Lulismo

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Lulismo é um termo cunhado por André Singer que se refere ao fenômeno político de esquerda ocorrido no Brasil em torno do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Criado durante a campanha presidencial de 2002, representando um novo plano em relação aos ideais de esquerda adotado pelo Partido dos Trabalhadores até o final de 2001, buscando transformações sem confrontar o capital.[1]

Diversos políticos na América Latina citaram o lulismo como modelo político, quando denominado de "Consenso de Brasília" (em contraposição ao Consenso de Washington) e "Modelo Brasileiro".[2] É o caso de Ollanta Humala, José Mujica, Mauricio Funes, Fernando Lugo[3] e o oposicionista Henrique Capriles.[2] Ou ainda, conjugam esse modelo com o chavismo, como é o caso da Argentina kirchnerista e do Paraguai até a destituição de Fernando Lugo.[2]

Origem do termo[editar | editar código-fonte]

O termo "lulismo" foi cunhado em artigos e em tese de livre-docência do cientista político André Singer, que também foi porta-voz de Lula na presidência, de 2002 a 2007.[4][5]

Nascido durante a campanha presidencial de 2002, o lulismo representou o afastamento em relação a componentes importantes do programa da política esquerdista adotado pelo Partido dos Trabalhadores até o final de 2001[6] e o abandono das ideias de organização e mobilização, ao buscar transformações sem confrontar o capital.[7][1] De acordo com Singer:[5]

"Como o lulismo é um modelo de mudança dentro da ordem, até com um reforço da ordem, ele não é e não pode ser mobilizador. Isso faz com que o conflito não tenha uma expressão política partidária, eleitoral, institucional"

Assim, o lulismo buscou um caminho de conciliação, a partir do carisma de Lula, com amplos setores conservadores brasileiros.[5][8] E é sob o signo da contradição[9] que o lulismo se constitui como um grande pacto social conservador, que combina a manutenção da política econômica do governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) com fortes políticas distributivistas sob o governo Lula (2002-2010).[4]

Características[editar | editar código-fonte]

Conduzido sob a égide da conciliação,[10] o lulismo representa um "apaziguamento dos conflitos sociais, dos quais a burguesia sempre tem muito medo, sobretudo num país de grande desigualdade como é o caso do Brasil", pois vislumbra uma "agenda da redução da pobreza e da desigualdade, mas sob a égide de um reformismo fraco".[9] Esse modelo de mudança social se explica como uma "variante conservadora de modernização", em que o Estado tem um "papel proeminente na alavancagem dos mais pobres", ao mesmo tempo em que garante que os problemas estruturais sociais brasileiros não serão tocados, ou seja, sem entrar em conflito com setores conservadores das elites rurais e urbanas ligados aos interesses financeiros.[10]

Por essas características, o lulismo "confeccionou nova via ideológica, com a união de bandeiras que não pareciam combinar" (continuidade do governo Lula com o governo FHC na política macroeconômica baseada em três pilares: metas de inflação, câmbio flutuante e superávit primário nas contas públicas).[6]

Outra característica que diferencia o lulismo de um movimento político genuíno, que represente um pensamento político, é o fato de que o lulismo não tem bandeira partidária. Ao contrário disso, o lulismo se sobrepõe aos partidos, inclusive ao próprio Partido dos Trabalhadores, fundado por Lula.[11] Por fim, embora tenha sido ancorado no carisma de Lula, o lulismo difere de outros movimentos ocorridos em torno de líderes políticos, como o peronismo na Argentina, pois não se formou uma base de culto à personalidade do então presidente brasileiro por forças políticas e populares.

Segundo Gilberto Maringoni (2013), relembrando uma fala de Lula sobre os presidentes militares, na comemoração de 35 anos da Embrapa (abril de 2008), "A conduta ambígua não indica dúvida, hesitação ou falta de clareza sobre posição a tomar ou rumo a seguir. Trata-se de discurso bem pensado e sofisticado para o tipo de projeto que o assim chamado lulismo vem implantando no país há dez anos.", completando que "É sofisticado porque dialoga com os vários interesses em disputa na sociedade. Contenta progressistas e conservadores, direitistas e esquerdistas e... não toca no status quo." Ainda para Maringoni, "a justiça social lulista se faz via mercado, via crédito e aumento da massa salarial que dependem de cenários de crescimento econômico.", possuindo "uma fala marcadamente ambígua, sofisticada e, sobretudo, conservadora."[12]

Declínio[editar | editar código-fonte]

Em seu livro O Lulismo em Crise – Um Quebra-Cabeça do Período Dilma (2011-2016), Singer analisa o Governo Dilma Rousseff, desde sua posse (2011) até seu impeachment (2016). Uma das explicações para o impeachment foi a tentativa de Dilma de acelerar o lulismo, que era caracterizado justamente pelo reformismo fraco. Dilma o fez por dois meios: por um ensaio desenvolvimentista e outro republicano. O primeiro corresponde à política econômica conhecida como a nova matriz econômica, que incluía redução dos juros, desvalorização do real e desonerações. O segundo refere-se à relação de Dilma com o Congresso e o PMDB.[13]

Para Singer, as Jornadas de Junho (grandes manifestações em 2013) já eram um sinal de alerta de que o lulismo ia mal. Logo no ano seguinte, tem início a crise político-econômica no país, obrigando Dilma a recuar e prejudicando a nova matriz econômica.[13] Com a ascensão do bolsonarismo após este período, em paralelo, com o fenômeno de polarização em torno das figuras carismáticas de Bolsonaro e Lula, o lulismo volta a crescer, apesar destes não terem projetos amplamente antagônicos, tendo em comum por exemplo um projeto de Estado-nação chamado de "desenvolvimento na dependência".[14]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Singer, André (28 de agosto de 2012). Os sentidos do lulismo: Reforma gradual e pacto conservador. [S.l.]: Companhia das Letras. ISBN 9788580863581 
  2. a b c GUTIÉRREZ, Estrella Gutiérrez (6 de outubro de 2012). «Consenso de Brasília, modelo para armar na América Latina». Consultado em 25 de maio de 2013 
  3. «Lulismo seduz América Latina mas é difícil de copiar». O Globo. Consultado em 28 de abril de 2012 
  4. a b «Cientista político André Singer explica sua tese sobre o lulismo». Folha de S.Paulo. 19 de agosto de 2012 
  5. a b c Galhardo, Ricardo (30 de setembro de 2012). «André Singer: 'O lulismo não é um monopólio do PT' - Política - iG». Último Segundo 
  6. a b Singer, André (2009). «Raízes sociais e ideológicas do lulismo». Novos estudos CEBRAP (85): 83–102. ISSN 0101-3300. doi:10.1590/S0101-33002009000300004 
  7. KAMRADT, João; DI CARLO, Josnei (2013). «As eleições e "Os Sentidos do Lulismo": entrevista com André Singer». Em Tese. doi:10.5007/1806-5023.2013v10n2p116. Consultado em 7 de agosto de 2017 
  8. «Gustavo Gindre: Dilma e o esgotamento do lulismo». Viomundo. 28 de junho de 2013 
  9. a b «Os impasses do "lulismo"». Brasil de Fato. 3 de janeiro de 2013 
  10. a b Keinert, Fábio Cardoso (2012). «Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador». Tempo Social. 24 (2): 255–260. ISSN 0103-2070. doi:10.1590/S0103-20702012000200014 
  11. Rachel Duarte (7 de outubro de 2010). «Em 30 anos de PT, Lula se tornou maior do que o partido». Sul 21. Consultado em 24 de outubro de 2010 
  12. Maringoni, Gilberto (15 de maio de 2013). «Lula, ser E não ser». Carta Maior. Consultado em 17 de março de 2021 
  13. a b Martins, William Gonçalves Lima. «André Singer faz diagnóstico do declínio do Lulismo no Brasil». www.ihu.unisinos.br. Consultado em 14 de novembro de 2020 
  14. CORDEIRO, Andrey Ferreira (2020). "Lulismo, bolsonarismo e a crise brasileira: do desenvolvimento dependente a uma política autonômica". Em: BARBOSA, Fabio; etal; O pânico como política: o Brasil no imaginário do Lulismo em crise. Mauad Editora, Rio de Janeiro. Pg 143.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]