José Luandino Vieira

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José Luandino Vieira Gold Medal.svg
Nome completo José Vieira Mateus da Graça
Nascimento 4 de maio de 1935 (82 anos)
Vila Nova de Ourém, Portugal
Nacionalidade Angola Angolana
Ocupação Escritor e tradutor
Principais trabalhos Luuanda, Macandumba
Prémios Prémio Camões (2006)

José Luandino Vieira, pseudónimo literário de José Vieira Mateus da Graça (Vila Nova de Ourém, 4 de maio de 1935) é um escritor e tradutor angolano.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Português de nascimento, aos três anos de idade viajou para Angola, juntamente com os seus pais, e passou toda a infância e juventude em Luanda, onde fez os estudos secundários. Durante a Guerra Colonial, ingressou nas fileiras do MPLA, participando na luta armada contra Portugal. Detido pela PIDE, pela primeira vez, em 1959 e, posteriormente em 1961, seria condenado a 14 anos de prisão. Até 1964 passou por várias cadeias em Luanda, até que em 1964 foi transferido para o campo de concentração do Tarrafal, Cabo Verde, onde passou oito anos.

Em 21 de Maio de 1965, encontrando-se Luandino preso há quatro anos, a Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Jacinto do Prado Coelho, atribuiu-lhe o Grande Prémio de Novela pela sua obra Luuanda. Depois de os jornais portugueses noticiarem o galardão, a Direcção dos Serviços de Censura detectou a gaffe política e proibiu qualquer referência ao prémio sem um enquadramento crítico face ao escritor, aos membros do júri e à própria SPE, cuja sede foi assaltada e destruída na noite de 21 de Maio, alegadamente por "desconhecidos", mas na realidade elementos da polícia política PIDE e da Legião Portuguesa. Por despacho datado do mesmo dia 21 de Maio, o Ministro da Educação Nacional, Inocêncio Galvão Teles, extinguiu a Sociedade Portuguesa de Escritores.[1] Na sua edição de 23 de Maio, o Jornal do Fundão noticiou os prémios, elogiando fortemente os vencedores, incluindo Luandino, e recusando qualquer referência ao estatuto criminal do escritor. Em consequência, o periódico foi suspenso durante seis meses e multado, tendo a sua caução aumentado exponencialmente até cumprir a obrigação de apresentar as provas à delegação de Lisboa dos Serviços de Censura e não de Castelo Branco. Só viria a retomar a normalidade no final de Novembro de 1965, após exposições do diretor ao Presidente do Conselho.[2]

Em 2009, numa rara entrevista concedida ao jornal Público, Luandino confidenciou que as notícias do prémio chegaram tardiamente ao Tarrafal, pois o director do campo de detenção retardou a informação. Como o escritor estava impossibilitado de candidatar a obra, bem como o seu editor, foi com surpresa que percebeu que a obra fora, mesmo assim, distinguida, graças à intervenção do crítico literário Alexandre Pinheiro Torres.[3]

Saiu em regime de liberdade condicional em 1972, passando a viver em Lisboa, sujeito à medida de segurança residência sob vigia. Foi trabalhar com o editor Sá Costa (até à Revolução de Abril) e iniciou a publicação da sua obra, escrita, na grande maioria, nas prisões por onde passou.

Em 1975 regressou a Angola, participando na fundação da República Popular de Angola. Foi logo nomeado diretor da Televisão Popular de Angola (1975-1978), ao mesmo tempo em que era diretor do Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA (1975-1979). Passou depois a dirigir o Instituto Angolano de Cinema (1979-1984). Foi igualmente cofundador da União dos Escritores Angolanos, de que foi secretário-geral (1975-1980 e 1985-1992), e secretário-geral adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos (1979-1984).

Na sequência das eleições de 1992, e desiludido com o reinício da guerra civil angolana, acabou por regressar ao seu país natal. Há vários anos que vive radicado numa zona rural do Minho, próximo de Vila Nova de Cerveira.

A recusa do Prémio Camões[editar | editar código-fonte]

Em 2006 foi-lhe atribuído o Prémio Camões, o maior galardão literário da língua portuguesa. Luandino recusou o prémio alegando, segundo um comunicado de imprensa, «motivos íntimos e pessoais». Entrevistas posteriores, sobretudo ao Jornal de Letras, esclareceram que o autor não aceitara o prémio por se considerar um escritor morto e, como tal, entendia que o mesmo deveria ser entregue a alguém que continuasse a produzir. Ainda assim publicou dois novos livros em 2006.

Cargos que exerceu[editar | editar código-fonte]

  • 1975 - 1978 - organizou e dirigiu a Televisão Popular de Angola
  • 1979 - dirigiu o Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA.
  • 1975 - 1980 - secretário-geral da União dos Escritores Angolanos (Membro Fundador)
  • 1979 - 1984 - dirigiu o Instituto Angolano do Cinema.
  • 1979 - 1984 - secretário-geral Adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos
  • 1985 - 1992 - secretário-geral da União dos Escritores de Angola

Colaborações jornalísticas[editar | editar código-fonte]

  • Mensagem, da Casa dos Estudantes do Império, delegação de Lisboa, (Lisboa, 1950; 1961-1963)
  • O Estudante (Luanda, 1961)
  • Cultura (Luanda, 1961)
  • Boletim Cultural do Huambo (Nova Lisboa, 1958)
  • Jornal de Angola (Luanda 1961-1963)
  • Jornal do Congo (Carmona, 1962)
  • Vértice (Coimbra, 1973)
  • Jornal de Luanda (1973 -?)

Obras[editar | editar código-fonte]

Contos[editar | editar código-fonte]

  • A cidade e a infância (Contos), 1957; 1986
  • Duas histórias de pequenos burgueses (Contos), 1961
  • Luuanda (Contos), 1963; 2004
  • Vidas novas (Contos), 1968; 1997
  • Velhas histórias (Contos), 1974; 2006
  • Duas histórias (Contos), 1974
  • No antigamente, na vida (Contos), 1974; 2005
  • Macandumba (Contos), 1978; 2005
  • Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu (Contos), 1981; 1989
  • História da baciazinha de Quitaba (Conto), 1986

Novela[editar | editar código-fonte]

  • A vida verdadeira de Domingos Xavier, 1961; 2003
  • João Vêncio. Os seus amores, 1979; 2004

Romance[editar | editar código-fonte]

  • Nosso Musseque (Romance), 2003
  • Nós, os do Makulusu (Romance), 1974; 2004
  • O livro dos rios, 1º vol. da trilogia De rios velhos e guerrilheiros (Romance), 2006

Infanto-juvenil[editar | editar código-fonte]

  • A guerra dos fazedores de chuva com os caçadores de nuvens. Guerra para crianças (infanto-juvenil), 2006

Tradução[editar | editar código-fonte]

Outras[editar | editar código-fonte]

  • Kapapa: pássaros e peixes, 1998
  • À espera do luar, 1998
  • Papéis da prisão, 2015

Prémios[editar | editar código-fonte]

  • Grande Prémio de Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (Prémio Camilo Castelo Branco) (1965)
  • Prémio Sociedade Cultural de Angola (1961),
  • Casa dos Estudantes do Império - Lisboa (1963)
  • Prémio Mota Veiga (1963)
  • Associação de Naturais de Angola (1963).
  • Prémio Camões (2006)

Algumas opiniões sobre o autor[editar | editar código-fonte]

  • "A sua obra, importantíssima, foi precursora da literatura angolana e tem raízes na terra e na cultura do país" - José Saramago
  • "Luandino Vieira é também um marco revolucionário pelo movimento que criou em Portugal a favor da liberdade de expressão" - Lídia Jorge
  • "Luandino Vieira é um nome tão grande da literatura em língua portuguesa que a sua distinção já há muitos anos era esperada". "A sua obra tem um enorme valor, e este prémio é um reconhecimento da dinâmica das literaturas africanas e do vigor da Língua Portuguesa em África" - José Eduardo Agualusa.
  • "(…) autor que conta na literatura de língua portuguesa e porque foi a certa altura quase um símbolo de rebelião" - Eduardo Lourenço
  • "Luandino Vieira dedicou toda a sua vida ao povo angolano, expressando, através dos seus escritos, o sofrimento e as alegrias do povo" - Arlindo Isabel, director da Editorial Nzila.

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Precedido por
Lygia Fagundes Telles
Prémio Camões
2006
Sucedido por
António Lobo Antunes