Lygia Fagundes Telles

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Lygia Fagundes Telles Gold Medal.svg Academia Brasileira de Letras
Lygia em 2011, durante reunião no Ministério da Cultura.
Nome completo Lygia de Azevedo Fagundes
Nascimento 19 de abril de 1923 (94 anos)
São Paulo, Brasil
Nacionalidade brasileira
Cônjuge Gofredo Teles Júnior
Ocupação Escritora e jurista
Prémios Prémio Jabuti (1966)

Prémio da Associação Paulista dos Críticos de Arte (1973, 1980)
(1974)
Prémio Camões (2005)
Prêmio Juca Pato (2008)

Magnum opus Ciranda de Pedra (1955)
As Meninas
As Horas Nuas

Lygia Fagundes Telles, nascida Lygia de Azevedo Fagundes ComIH (São Paulo, 19 de abril de 1923), é uma escritora brasileira, considerada por acadêmicos, críticos e leitores uma das maiores escritoras brasileiras do século XX e da história da literatura brasileira.[1][2][3][4][5][6][7] Advogada, romancista e contista, a escritora tem grande representação no pós-modernismo, e suas obras retratam temas clássicos e universais como a morte, o amor, o medo e a loucura, além da fantasia.[8]

Nascida na cidade de São Paulo, a escritora cresceu em Sertãozinho e outras pequenas cidades do interior paulista, e desde pequena demostrou interesse pelas letras. Aos oitos anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, permanecendo lá por cinco anos. De volta a São Paulo, matriculou-se no Instituto de Educação Caetano de Campos e passou a se interessar por literatura. Sua estreia literária foi com o livro de contos Porões e sobrados (1938), que foi bem recebido pela crítica. O sucesso se repetiria com Praia viva (1944). Após concluir o curso de Direito na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em 1946, onde conhecera Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Sales Gomes, entre outros, integrou a Academia de Letras da Faculdade e colaborou com os jornais Arcádia e A Balança. Seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho, publicado três anos depois, recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.

Seu sucesso literário internacional veio com Antes do Baile Verde (1970), As Meninas (1973) e Seminário dos Ratos (1977), pelos quais ganhou o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, na França, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e o Pen Club do Brasil, respectivamente. Ingressou na Academia Paulista de Letras, em 1982, e, em 1985, ocupou a cadeira de número dezesseis da Academia Brasileira de Letras, tomando posse em 12 de maio de 1987, e nesse mesmo ano, tornou-se membro da Academia das Ciências de Lisboa. Seus outros sucessos incluem: Ciranda de Pedra (1954), Verão no Aquário (1964), Mistérios (1981), As horas nuas (1989) e Meus contos esquecidos (2005). Teve seus livros traduzidos para o alemão, espanhol, francês, inglês, italiano, polonês, sueco, tcheco, além de inúmeras edições em Portugal.[9]

Na 17.ª edição do Prêmio Camões, maior láurea concedida a escritores de países com o português como a língua oficial, ocorrida em 2005, Lygia foi anunciada a vencedora.[10][11] Ganhadora de todos os prêmios literários importantes do Brasil, homenageada nacional e internacionalmente, tornou-se, em 2016, aos 92 anos, a primeira mulher brasileira a ser indicada ao prêmio Nobel de Literatura.[12]

Vida[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Lygia (em pé) com seus pais e irmão.

Lygia de Azevedo Fagundes nasceu no dia 19 de abril de 1923 na rua Barão de Tatuí, do bairro de Santa Cecília, na cidade de São Paulo.[13] Quarta filha de Maria do Rosário Silva Jardim de Moura, conhecida como Zazita, uma pianista, e Durval de Azevedo Fagundes, procurador e promotor público, que também trabalhou como advogado distrital, comissário de polícia e juiz. Em função do trabalho do pai, a família mudou-se muitas vezes para várias cidades do estado, vivendo em Apiaí, Assis, Itatinga e Sertãozinho.[14] Nesses municípios, recebia o cuidado de babás dotadas de um farto repertório de lendas. Foram aquelas mulheres que deram à menina um sem-fim de histórias povoadas por mulas-sem-cabeça e lobisomens, o que a influenciou a criar seus próprios contos nas últimas páginas de seus cadernos escolares, os quais contava nas rodas de conversa.[13] Lygia gosta de dizer que começou a escrever antes mesmo de saber escrever, e cismou que seria escritora ainda menina. Diz, hoje, que a teimosia juvenil não rendeu boa escrita. "Para escrever, é preciso, antes, ler muito, criar parâmetros. A pressa faz muito mal ao escritor", afirmou, referindo-se a si, mas também aos jovens autores contemporâneos, os quais notou que parecem ser ainda mais ansiosos do que eram os escritores de sua geração, finalizando que a ansiedade é o maior perigo para um escritor.[15] Sua predileção, na infância e na primeira juventude, era pelas histórias de terror.[16]

Lygia declarou que, por causa da mentalidade preconceituosa de seu tempo, em que as mulheres não tinham condições de ousar determinadas profissões, sua mãe, uma excelente pianista, não prosseguiu na carreira que começou na adolescência, fazendo apenas os deveres domésticos considerados femininos. "Eu me lembro, era menina quando ia com a cesta para colher goiabas no quintal da nossa casa lá em Sertãozinho e onde meu pai era promotor. Minha mãe seria mais feliz se fosse pianista? E se ela continuasse estudando e compondo naquele antigo piano preto com os quatro castiçais, hein? Mas esta seria uma extravagância, uma ousadia e em vez de abrir o álbum de [Frédéric] Chopin ela abria o caderno de receitas".[17] Seu pai era um jogador contumaz e sempre a levava consigo a um cassino em Santos "para dar sorte", mas ele sempre perdia as apostas.[8][13]

Aos oito anos, em 1931, ela mudou-se com a mãe para o Rio de Janeiro, onde permaneceram por cinco anos. Em 1936, seus pais se separaram, mas não se desquitaram, e isso fez com que Lygia retornasse a São Paulo, matriculando-se na Escola Caetano de Campos, onde passou a se interessar por literatura, formando-se em 1937.[18]

Início da carreira literária, casamentos e reconhecimento[editar | editar código-fonte]

Aos 15 anos, incentivada por seus maiores amigos, os escritores Carlos Drummond de Andrade e Érico Veríssimo,[19] e financiada pelo pai, Lygia publicou seu primeiro livro, Porão e Sobrado (1938), o qual foi bem recebido pela crítica.[18] Cursou, em 1939, o pré-jurídico e a Escola Superior de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP). Começou a participar ativamente nos debates literários, onde conheceu Mário e Oswald de Andrade, Paulo Emílio Salles Gomes, entre outros nomes da cena literária brasileira. Fez parte da Academia de Letras da Faculdade e escreveu para os jornais Arcádia e A Balança. Em 1941, matriculou-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, sendo uma das seis mulheres em uma classe com mais de cem homens; lá, conheceu a poeta Hilda Hilst, que veio a ser a sua melhor amiga.[9][14] A escritora afirmou, em entrevista, que sofreu deboche por ser mulher e por estar na faculdade e querer seguir a profissão de escritora, considerada masculina, dizendo que os rapazes perguntavam para ela e suas outras colegas de classe com irônico espanto o que elas foram fazer lá, casar? Para ela, esse começo foi difícil, era um desafio, pois estavam na moda as poetisas, mas escrever um livro com a liberdade de abordar todos os temas, era outra coisa. "Sim, foi um duro desafio porque o preconceito era antigo e profundo. Enfim, eu sabia que na opinião de [Leon] Trotsky os que vão logo na primeira fila são os que levam no peito as primeiras rajadas. A solução era assumir a luta, sair da condição de mulher-goiabada, [que é] a mulher caseira, antiga 'rainha do lar' que sabe fazer a melhor goiabada no tacho de cobre".[17] Ela decidiu ser advogada por causa do pai, que também se formou na São Francisco. Para custear os estudos, começou a trabalhar na Secretaria de Agricultura. Seu segundo livro, Praia Viva, saiu em 1944, um ano antes de seu bacharelado.[14][18] Em 1949, três anos depois do término do curso de Direito, a escritora publica, pela editora Mérito, seu terceiro livro de contos, O cacto vermelho, que recebeu o Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras.[3] [20]

Em 1947, casou-se com Gofredo Teles Júnior (filho de Gofredo da Silva Telles), seu professor de direito internacional privado, de quem adquiriu o sobrenome. Na ocasião, Gofredo era deputado federal, e em virtude desse fato, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde funcionava a Câmara Federal. Lygia exerceu a profissão na Secretaria de Agricultura durante algum tempo, mas a abandonou pelas letras, tornando-se colaboradora do jornal carioca A Manhã, para o qual escreveu uma coluna de crônicas semanal.[20] Em 1954, nasceu o único filho do casal, Goffredo da Silva Telles Neto.[14] A escritora tornou-se muito amiga do crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes, seu ex-colega, com quem se casaria em 1962, depois de separar-se do primeiro marido. Foi um escândalo: embora oficialmente continuasse casada (a lei brasileira não admitia o divórcio) com Goffredo da Silva Telles, ela juntou-se com Paulo Emílio, enfrentando a maledicência da sociedade da época. Viveram juntos até a morte do escritor, em 1977.[9]

"Fico aflita só de pensar nas novas gerações lendo esses meus livros (os dois primeiros) que não têm importância. Eu não quero que os jovens percam tempo com eles. Quero que conheçam o melhor de mim mesma, o melhor que eu pude fazer, dentro das minhas possibilidades".

Fagundes Telles sobre Ciranda de Pedra.[9]

Com seu retorno à capital paulista, em 1952, começa a escrever seu primeiro romance, Ciranda de pedra (1954), que a tornou conhecida nacionalmente.[21] Na fazenda Santo Antônio, em Araras - São Paulo, de propriedade da avó de seu marido, para onde viajava constantemente, escreveu várias partes desse romance. Essa fazenda ficou famosa na década de 20, pois lá reuniam-se os escritores e artistas que participaram do movimento modernista, tais como Mário e Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Heitor Villa-Lobos. O crítico Antonio Cândido o considera o marco de sua maioridade como escritora, e ela própria, crítica severa de seus primeiros escritos, gosta de assinalar a publicação deste romance como sua estreia como escritora.[9] Os críticos Paulo Rónai, Otto Maria Carpeaux e Carlos Drummond de Andrade também aclamaram-no.[22] O livro foi adaptado com sucesso pela Rede Globo para a televisão em duas ocasiões: a primeira em 1981 e a segunda em 2008.[18][23] Em 1958, a escritora publicou Histórias do Desencontro, que ganhou o Prêmio Artur Azevedo do Instituto Nacional do Livro.[19]

Em 1960, Lygia se divorciou e, no ano seguinte, começou a trabalhar como advogada no Instituto de Providência do Estado de São Paulo. Ela trabalharia neste escritório e continuaria suas publicações simultaneamente até 1991.[14] O segundo romance da escritora foi Verão no Aquário, lançado em 1963, que novamente foi bem recebido pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. Nesse mesmo ano, casou-se com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, com quem escreve o roteiro para cinema Capitu (1968), inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis. Esse roteiro, que fora encomenda de Paulo César Saraceni, recebeu o Prêmio Candango, concedido ao Melhor Roteiro Cinematográfico.[14] Ainda em 1963, Telles começa a escrever o romance As meninas, inspirado no momento político por que passa o país. Em 1964 e 1965 são publicados seus livros de contos Histórias Escolhidas e O jardim Selvagem, respectivamente.[20]

Consagração internacional[editar | editar código-fonte]

Embora tenha estreado na década de 1940, foi apenas da década de 1970 que Lygia alcança a plena maturidade de seus meios de expressão e marca o início da sua consagração na carreira, tornando-se um nome fundamental na ficção brasileira contemporânea.[24] Publicou, então, alguns de seus livros mais importantes, que foram um êxito no exterior e traduzidos para várias línguas.[17] Antes do Baile Verde (1970), cujo conto que dá título ao livro foi um sucesso internacional, conquistando, em Cannes, o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, em língua francesa, ao qual concorreram 360 manuscritos de 21 países.[25] O escritor Caio Fernando Abreu avaliou que Lygia "[é] basicamente uma contadora de histórias, no melhor e mais vasto significado da expressão".[26] Antonio Candido, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ressaltou que "Lygia sempre teve o alto mérito de obter, no romance e no conto, a limpidez adequada a uma visão que penetra e revela, sem recurso a qualquer truque ou traço carregado, na linguagem ou na caracterização".[17] O professor e ensaísta Silviano Santiago afirma que "uma definição curta e sucinta dos contos de Lygia dirá que a característica mais saliente deles é a dificuldade que têm os seres humanos de estabelecer laços".[27] O revisor e crítico Paulo Rónai também opinou favoravelmente sobre os dezoito contos de Antes do Baile Verde: "essas obras-primas, de tão fremente inquietação íntima e que exalam um desespero tão profundo, ganham a clássica serenidade das formas de arte definitivas".[28] Na versão original, é apresentada uma carta escrita por Carlos Drummond de Andrade, em 1966, à Lygia em relação a obra:[29]

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1966.
Lygia querida:
[...] O livro está perfeito como unidade na variedade, a mão é segura e sabe sugerir a história profunda sob a história aparente. Até mesmo um conto passado na China você consegue fazer funcionar, sem se perder no exotismo ou no jornalístico. Sua grande força me parece estar no psicologismo oculto sob a massa de elementos realistas, assimiláveis por qualquer um. Quem quer a verdade subterrânea das criaturas, que o comportamento social disfarça, encontra-a maravilhosamente captada por trás da estória. Unir as duas faces, superpostas, é arte da melhor. Você consegue isso. Tão diferente da patacoada desses contistas que se celebram a si mesmo nos jornais e revistas e a gente lê e esquece o que eles escreveram! Conto de você fica ressoando na memória, imperativo.
Tchau, amiga querida. Desejo para você umas férias tranquilas, bem virgilianas.

Em 1973, Lygia ganhou vários e importantes prêmios brasileiros com o romance As Meninas, publicado em Nova Iorque em 1982, com o título de The girl in the photograph.[30] O romance recebeu o Prêmio Jabuti; o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras e o prêmio de Ficção da Associação Paulista de Críticos de Arte.[20][11] Ele conta a história de três jovens no início da década de 1970, um momento difícil na história política do Brasil devido à repressão da ditadura militar. Em uma publicação, o site Passei Web elogiou a ousadia e a coragem com que a escritora denunciou os "problemas cruciais que agitaram a juventude durante um dos períodos mais conturbados da história do Brasil" e concluiu que "trata-se, sem dúvida, do mais importante romance de Lygia".[31] A escritora estava entre os intelectuais que foram para Brasília em 1977, para entregar o "Manifesto dos Intelectuais". O protesto foi a maior manifestação de intelectuais, desde 1968, contra o regime militar e censura da imprensa, implantada há 30 anos no dia 31 de março. O manifesto foi entregue no Ministério da Justiça. O ministro era Armando Falcão. Além de Lygia, compunham a comissão o historiador Hélio Silva e os escritores Nélida Piñon e Jefferson Ribeiro de Andrade. Segundo a escritora, o manifesto, apoiado por nomes como Jorge Amado, Antonio Cândido, Otto Maria Carpeaux e Carlos Drummond de Andrade, contribuiu para frear o ímpeto dos censores daquele momento em diante, e completou que os intelectuais já vinham "conspirando" desde um congresso de escritores realizado em Belo Horizonte em outubro de 1976.

A censura vinha exorbitando em relação ao teatro, ao cinema, às artes plásticas, livros e jornais. Nós fomos nos sentindo frágeis. É bonito isso, o sentimento do homem fragilizado politicamente, a sua vontade de se reunir, de formar seus círculos. Em 1976, jovens escritores em Belo Horizonte, em mesas de bar, já estavam se levantando, tentando também armar não se sabe bem o quê, não se sabe se um manifesto ou um memorial. As ações estavam coincidindo, embora não houvesse ainda entre nós contato mais profundo. O movimento de Belo Horizonte acabou liderando grupos esparsos de São Paulo e do Rio, que tinha à frente Rubem Fonseca e José Louzeiro. Eu me sentia dentro de uma nova inconfidência, de origem mineira e âmbito nacional.[32]
Lygia falando sobre o motivo do manifesto

Em 1977, foi galardoada pelo Pen Club do Brasil, pela sua coletânea Seminário dos Ratos,[33] que foi elogiada por Hélio Pólvora, que ressaltou que a escritora começa a projetar dimensões supra-reais, considerando a obra uma reunião de contos "fantásticos ou quase".[3] Nesse ano participa da coletânea Missa do Galo: variações sobre o mesmo tema, livro organizado por Osman Lins a partir do conto clássico de Machado de Assis. Integra o corpo de jurados do Concurso Unibanco de Literatura, ao lado dos escritores e críticos literários Otto Lara Resende, Ignácio de Loyola Brandão, João Antônio Ferreira Filho, Antônio Houaiss e Geraldo Galvão Ferraz.[20] Em setembro do mesmo ano, falece Paulo Emílio Salles Gomes. A escritora assume, face ao ocorrido, a presidência da Cinemateca Brasileira, que Paulo Emílio ajudara a fundar.[14]

No ano de 1978, a editora Cultura lança Filhos Pródigos. Essa coletânea de contos seria republicada com o título de um de seus contos A Estrutura da Bolha de Sabão (1991). A Rede Globo leva ao ar um Caso Especial baseado no conto "O jardim selvagem".[11] Sua próxima publicação, A Disciplina do Amor (1980), foi bem recebida pela crítica e ganhou o Prêmio Jabuti e o Troféu APCA da Associação Paulista de Críticos de Arte.[34] O jornalista e autor Wladir Dupont escreveu que A Disciplina do Amor trata-se de "um conjunto de contos de estranho e belo mosaico, de fragmentos aparentemente desconexos".[3] Ele considerou que a escritora atravessa muito bem a fronteira entre o sonho e a realidade, sendo a condição humana o tema que privilegia no livro. Fábio Lucas ressaltou que afloram mais contundentemente neste livro as reivindicações feministas que apareciam brandas nas [publicações da escritora] anteriores.[3] Dupont ainda faz um paralelo de Lygia com Hilda Hilst, Adélia Prado, Rachel Jardim, Nélida Piñon e Lya Luft: "vigorosas em estilos heterogêneos", chamando a atenção para essas literaturas femininas e singulares. Ele sublinha que, já nos primeiros passos de sua carreira e na análise do contexto intelectual em que Lygia se situava, percebia o embrião da grande escritora que ela seria.[3] Em uma entrevista, Lygia afirmou que "A Disciplina do Amor é meu melhor livro".[35][36] Em 1981, a escritora lança Mistérios, uma coletânea de dezenove contos fantásticos antigos e atuais, originada de uma edição na Alemanha, publicada sob o título Contos Fantásticos.

Academia Brasileira de Letras — atualidade[editar | editar código-fonte]

Em 1982, foi eleita para a cadeira 28 da Academia Paulista de Letras e, em 1985, por 32 votos a 7, foi eleita, em 24 de outubro, para ocupar a cadeira 16 da Academia Brasileira de Letras, na vaga deixada por Pedro Calmon, tomando posse em 12 de maio de 1987.[20]

"Às vezes, a esperança. O homem vai sobreviver, e essa certeza me vem quando vejo o mar, um mar que talhou com tanta poluição, embora! mas resistindo. Contemplo as montanhas e fico maravilhada porque elas ainda estão vivas. Sei que é preciso apostar e de aposta em aposta cheguei a esta Casa para a harmoniosa convivência com aqueles que apostam na palavra."

— Trecho do "Discurso de Posse", 1987.[37]

Em 26 de Novembro de 1987, foi feita Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal.[38] Questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão estão presentes em seu trabalho seguinte, o romance As horas nuas (1989), em que o leitor segue o desnudamento da personagem Rosa Ambrósio, com suas frustrações expostas nas memórias que ela dita num gravador.[30] Ainda em 1989, a escritora recebeu a Comenda Portuguesa Dom Infante Santo.[20] Em 1990, seu filho, Goffredo Neto, realiza o documentário Narrarte, sobre a vida e a obra da mãe. Em 1991, aposenta-se como funcionária pública.[20] A Rede Globo de Televisão apresenta, em 1993, dentro da série Retrato de Mulher, a adaptação da própria escritora do seu conto "O moço do saxofone", que faz parte do livro Antes do baile verde, num episódio denominado "Era uma vez Valdete". Participa da Feira o Livro de Frankfurt, na Alemanha, em 1994, e lança, no ano seguinte, um novo livro de contos, A Noite Escura e Mais Eu, que ganhou os prêmios de Melhor livro de contos, concedido pela Biblioteca Nacional; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e Prêmio APLUB de Literatura.[20]

Em 1996, estreia o filme As Meninas, de Emiliano Ribeiro, baseado no romance homônimo da escritora. Em maio de 1997, Lygia participou da série O escritor por ele mesmo, projeto do Instituto Moreira Salles (IMS) que compreendia um depoimento ao vivo, nas sedes do IMS, e a leitura de textos do autor, feita por ele próprio, gravados em CD anteriormente e distribuídos ao público no dia do depoimento. Para esse projeto, Lygia gravou a leitura de dois contos: "A estrutura da bolha de sabão" e "As formigas". Em março do ano seguinte, o IMS a homenageou com a edição do volume nº 5 dos Cadernos de Literatura Brasileira. A edição contou com a reprodução do primoroso conto "Que se chama solidão", que, ao lado de outros também inéditos, seriam incluídos posteriormente em Invenções e memória.[30] A editora Rocco adquire os direitos de publicação de toda a obra passada e futura da escritora. No ano seguinte, a convite do governo francês, a brasileira participa do Salão do Livro da França. Seu livro Invenção e Memória foi agraciado com o Prêmio Jabuti, na categoria ficção, em 2001.[37] Recebe, também, o "Golfinho de Ouro" e o Grande Prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em março do mesmo ano, Lygia recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília.[39]

No dia de maio de 2005, ela recebe o Prêmio Camões, o mais importante da literatura em língua portuguesa, pelo conjunto da obra,[14] distinguida pelo júri composto por Antônio Carlos Sussekind (Brasil), Ivan Junqueira (Brasil), Agustina Bessa-Luís (Portugal), Vasco Graça Moura (Portugal), Germano de Almeida (Cabo Verde) e José Eduardo Agualusa (Angola).[40] Em fevereiro de 2016 foi indicada ao Prêmio Nobel de Literatura pela União Brasileira de Escritores.[41]

Obra[editar | editar código-fonte]

Estilo de escrita[editar | editar código-fonte]

Com Clarice Lispector, a obra de Lygia estabeleceu um interessante diálogo, pois ambas exploraram, de maneira inédita até então, o universo feminino sob uma perspectiva moderna, rompendo com o moralismo social que deixava a mulher sempre à margem da figura masculina. Traçou o de suas personagens através das técnicas do fluxo de consciência e do monólogo interior, alçando-as ao posto de protagonista de suas histórias.[4] Além de abordar intensamente a temática feminina, Lygia abriu espaço em sua obra para temas como a vida nas grandes cidades, assim como os problemas sociais e outros temas polêmicos, como drogas, adultério e o amor.

Cronologicamente, a escritora se posiciona na geração modernista de 1945, ao lado de Guimarães Rosa, Lispector, Rubem Braga e Dalton Trevisan; portanto, observa-se influência do fluxo de consciência e da epifania, recursos utilizados por esses escritores. Enquanto seus romances ganharam ares de literatura realista, os contos da autora refletem o estilo de Edgar Allan Poe, escritor estadunidense de tendência romântica e fantástica. Além disso, há um grande espaço destinado às figuras femininas em suas obras, tendo como temas recorrentes o ódio, o ciúme e a solidão.[42] A escritora constrói uma perspectiva feminina da realidade e do mundo interior humano. Em geral, suas personagens são seres inquietos e vulneráveis, instrumentos de reflexão psicológica, que se movimentam em aparente espontaneidade, como representação irônica da sociedade.[43] Lygia fez a fusão do fantástico à realidade do espaço urbano, incorporando em seus contos muitos elementos modernos, como os contos A caçada, Venha ver o pôr do sol e As formigas.[4][44]

Linguagem[editar | editar código-fonte]

O simbolismo da cor verde é recorrente em Antes do Baile Verde. Ora representa vida, ora representa morte. Às vezes, alude à esperança, à inveja e ao dinheiro.

A sinestesia é uma das principais figuras de linguagem utilizadas nos contos de Lygia: a cor verde é constantemente citada como referência à passagem da vida à morte.[45] As variações linguísticas são também usufruídas como representação das personagens retratadas de acordo com seu nível social e com a situação da comunicação. Outros dois traços marcantes na literatura de Lygia são a ambiguidade e a ironia, presentes em Ciranda de Pedra (1954) Antes do Baile Verde (1970) e As Meninas (1973), nas quais a escritora estabelece conflitos internos do homem vivendo em sociedade.[46]

Antes do Baile Verde[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Antes do Baile Verde

A linguagem de Antes do Baile Verde modifica conforme a temática de cada conto. Em geral, há um tom engajado como denúncia velada à desigualdade social e uma oposição ao regime militar no Brasil;[47] a presença ampla do discurso indireto livre para enfatizar a análise psicológica feita das personagens e o uso de inúmeras figuras de linguagem, como metáfora, personificação e sarcasmo.[48] A narrativa de Lygia apresenta grande agilidade. A autora utiliza linguagem clara, concisa, descartando tudo o que poderia ser considerado desnecessário para a ficção. O emprego dos diálogos, por meio dos quais autor e narrador constroem as personagens, desenvolvem o enredo, transmitem as informações ao leitor, é feito de maneira primorosa e também contribui para a rapidez narrativa de Lygia.[49]

Sempre que possível, mostra os fatos ao invés de contá-los para o leitor, tirando proveito das características determinantes do modo showing de narrar, a imitação verdadeira, a mimese, as falas diretas, o modo dramático, como que propiciando que a história se conte por si mesma. Assim, na maioria dos contos, o leitor tem a sensação que o narrador se esconde e que ele, leitor, é também personagem e observa os fatos acontecerem diante dos próprios olhos. Existem momentos de ousadia e coragem, principalmente com relação à seleção de temas, mas, na maioria das vezes, a escritora pode ser classificada como prudente no ato de escrever. A autora não explora todos os artifícios narrativos que os recursos retóricos da linguagem disponibilizam. Lygia, de certo modo, limita o uso de recursos praticados na Â"modernidadeÂ", ou seja, aqueles que buscam uma ruptura radical com os moldes tradicionais. Assim, ao que parece, evita experimentações. Ao invés disso, pode-se perceber no modo de narrar traços marcadamente realistas. Em suma, em Antes do Baile Verde, sugere, mas não corre riscos.[49]

As meninas[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: As Meninas (livro)

Em As Meninas, a escritora não cai na vulgaridade, não se banaliza. A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais. Para realizar a descrição da alma, ela teve de usar o foco narrativo de maneira insinuante e inventiva, teve que deixar a alma falar, sem intermediações. O foco narrativo em primeira pessoa é manipulado pela autora de forma magistralmente cambiante: ele se desloca constantemente (e inesperadamente!) para o fluxo de consciência das três amigas, que se entrevistam, que se apresentam umas às outras e ao leitor, que refletem continuamente sobre si mesmas e umas sobre as outras, arrastando-os nessas frequentes invasões à privacidade de Ana Clara, Lorena e Lia, que se vão desnudando paulatinamente diante do leitor. Existe uma dificuldade inicial para a leitura até a identificação do estilo peculiar de cada personagem, pois cada uma delas se exprime dentro de seu "dialeto" coloquial - o discurso mais elaborado e culto de Lorena, o regionalismo politicamente engajado de Lia e o pensamento confuso e truncado de Ana "Turva". Superada essa dificuldade, o leitor mergulha de corpo e alma no universo fantástico dessas três meninas encantadoras, representantes autênticas daquele que foi um dos períodos mais importantes e difíceis para a emancipação da mulher, para a liberdade de pensamento e para a realização individual dentro de um universo politicamente conturbado.[31]

Uma coisa é certa, ninguém pode expressar melhor seus sentimentos do que si próprio. Dada essa evidência, as três moças terão de falar em primeira pessoa. Lorena, Lia e Aninha usam o pronome EU, falam de si mesmas. Cada moça é sempre um EU observador, que mostra sua própria posição, quando fala das outras. Cada uma fala o que sabe. Isso, porém, ainda não constitui o verdadeiro foco. É uma habilidade, uma astúcia criada pelo foco. Mas ainda não é o foco. Se fosse assim, se houvesse três narradoras em primeira pessoa, quem é que poderia ter juntado esses três eus? É fato que cada moça fala de si mesma e fala das duas outras. Mas quem é que fala das três juntas? O verdadeiro narrador. Há, portanto, em As Meninas, um narrador que nada fala de si, e que só fala das três. Logo, é um narrador onisciente (que tudo sabe) e de terceira pessoa, como costumam ser os narradores oniscientes. Portanto, em As Meninas, o narrador é de terceira pessoa, é também onisciente (porque sabe tudo sobre as três meninas) e, na maior parte do tempo, deixa que as meninas falem por si mesmas, dando a impressão de um teatro com alguns diálogos e muitos monólogos. Ninguém conhece esse narrador. Nem pode se dizer que seja Lygia, pois ela é a autora, a pessoa física e real que escreveu o romance, e nele concebeu um narrador sobre o qual se sabe muito pouco ou nada. A seguir uma das passagens do romance em que esse narrador se mostra um pouco:

Inclinou-se [Lorena] para os lados, numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase.
As Meninas, páginas 11-12.[50]

É claro que o narrador aí se mostra porque é ele que está em sua função de falar sobre a personagem (em geral as personagens falam de si mesmas). Mas, nesses raros momentos em que se mostra, tal narrador revela a manipulação das técnicas "românticas" de apresentação das meninas-moças. Isso acaba se harmonizando bem com o realismo dos monólogos, onde as confissões tendem a ser mais brutais e mais modernas.[31]

Temática[editar | editar código-fonte]

Vivendo a realidade de uma escritora do terceiro mundo, Lygia considera sua obra de natureza engajada, ou seja, comprometida com a difícil condição do ser humano em um país de tão frágil educação e saúde. Participante desse tempo e dessa sociedade a escritora procura apresentar através da palavra escrita a realidade envolta na sedução do imaginário e da fantasia.[11] Em sua ficção, predomina quase sempre o retrato da dimensão psicológica dos personagens. Os recursos tradicionais da narrativa são manipulados de acordo com a inclinação para investigar os efeitos das relações entre os sujeitos e dos sujeitos com o mundo sobre o que há de mais íntimo no ser humano. Devido a isso, ganham relevo dois modos principais de tratar a realidade: aspectos da sociedade - mais evidentes nos romances, como é o caso das referências à ditadura militar em As Meninas (1973) - são enfocados de modo subjetivo. Já os contos, sobretudo os reunidos em Mistérios (1981), realizam incursões pelo fantástico como modo de ressignificar o real.[51]

Venha Ver o Pôr do Sol é a história de crime passional. Retrata um personagem sombrio, cuja humanidade ambígua provoca a reflexão sobre a natureza do sentimento amoroso. Já no caso de Seminário dos Ratos, o flerte com o implausível leva a uma alegoria em que homens e ratos se invertem. Escrito sob o signo da ditadura, o conto reconfigura a realidade, elaborando uma referência cifrada à condição então vivida pelo Brasil.[51] No que diz respeito à importância atribuída à interioridade dos personagens, a principal consequência para os escritos de Lygia talvez seja a configuração do narrador. Em tramas confessionais que objetivam revelar a verdade do protagonista, o foco é em primeira pessoa. Em Nortuno Amarelo, outro representante das incursões pelo fantástico, é um longo e improvável passeio pelo âmbito do sonho que leva a narradora-protagonista a tomar consciência de sua condição real, concentrando o texto nos devaneios de Laura.[51]

Já Ana Clara, coprotagonista do romance As Meninas - em que o manejo do foco narrativo adquire a mais alta complexidade na obra da autora -, revela-se dividida entre o amor verdadeiro e o anseio de bens materiais. Ao lado dessa jovem, estão Lorena, da alta burguesia, e Lião, ativista de esquerda que se dedica à atividade política clandestina. Trata-se, aqui, de quatro narradores: as três meninas se alternam, assumindo a primeira pessoa, e a elas se soma outra voz, onisciente. Com mudanças deliberadas e não assinaladas no fluxo narrativo, articulam-se o discurso indireto livre, o monólogo interior e o discurso direto. Os recursos terminam por oferecer diferentes pontos de vista a respeito de uma mesma situação, em trechos que eventualmente recuperam um único episódio.[51]

Para escrever, você precisa se dedicar de corpo e alma a seu personagem, a seu enredo e à sua ideia. É preciso que seja um ato de amor, uma doação absoluta, e é impossível sair do transe enquanto não dá a história por acabada, enquanto não decifra o humano. O detalhe é que o ser humano é indefinível. Por mais que tente, você não consegue defini-lo totalmente. O ser humano é inalcançável, inacessível e incontrolável, ele está sujeito a esses três 'Is'.

Lygia a falar sobre escrita.[8]

O tempo nas narrativas de Lygia é sempre breve, também em consequência do preponderante retrato dos conflitos internos. No caso dos contos, pode-se tratar de um rápido encontro entre personagens ou de instantes de reflexão. Em um escrito de mais fôlego, como é o caso de As Meninas, o recorte objetivo é também diminuto: o período de uma greve estudantil, em que as protagonistas, livres dos estudos por alguns dias, dedicam-se às próprias questões e aos momentos que passam juntas no pensionato onde moram. É o tempo subjetivo, dos analepse, portanto, que sustenta a narrativa. Com lembranças recentes ou longínquas, a maior parte dos personagens, seja nos contos, seja nos romances, traz à tona acontecimentos passados com forte consequência para sua configuração presente.[51]

No que diz respeito ao espaço, embora a cidade de São Paulo seja o ambiente preferencial da autora, todos os dados objetivos são convocados como correlatos do estado de fragilidade emocional dos personagens. Mesmo em um conto como Pomba Enamorada ou uma História de Amor, centrado em uma ajudante de cabeleireiro, as referências concretas à periferia da cidade tornam-se índices irônicos de sua condição. O clube São Paulo Chique, onde ela conhece o bruto homem por quem permanece apaixonada, sugere, por exemplo, não apenas a precariedade em que vivem os trabalhadores de baixa renda, como também a ingenuidade ordinária em que consiste a crença no "amor verdadeiro", conforme retratam as novelas a que assiste a protagonista.[51]

Os relacionamentos amorosos, aliás, são tema privilegiado na obra da autora - sempre conduzidos à frustração dos sujeitos ou ao retrato da hipocrisia. O primeiro caso é mais frequente quando se trata de protagonistas femininas: oprimidas pelas dificuldades da autoafirmação ou da realização de desejos, as mulheres encontram a impossibilidade de idealização. No que concerne aos homens, o conto Eu Era Mudo e Só é exemplar: integrando o que considera uma realidade de "cartão-postal", o protagonista abre mão de suas aspirações por uma família de aparências perfeitas e alto padrão de vida.[51]

As relações familiares, a partir das quais se retratam a culpa e o peso das expectativas sociais, tendem com frequência ao trágico, cujo exemplo máximo talvez esteja em Ciranda de Pedra (1954) - livro com o qual a autora atinge, segundo Antonio Candido, a maturidade literária.[9] A narrativa se centra em dois momentos da trajetória de Virgínia: a infância solitária, dividida entre pais separados, e a volta da jovem à casa do pai. Preconceito contra filhos de casais divorciados, saúde mental, suicídio, homossexualidade e falsa paternidade são algumas das dificuldades que a protagonista deve enfrentar em seu crescimento.[51]

Questões relacionadas ao envelhecimento e à solidão, este último tema caro à ficcionista, estão presentes no romance As horas nuas, de 1989, em que o leitor segue o desnudamento da personagem Rosa Ambrósio, com suas frustrações expostas nas memórias que ela dita num gravador.[30] O foco das atenções da autora, portanto, faz com que um trecho do conto Verde Lagarto Amarelo se torne emblemático com relação ao conjunto dessa obra: "Assim queria escrever, indo ao âmago do âmago até atingir a semente resguardada lá no fundo como um feto".[51]

Crítica literária[editar | editar código-fonte]

Segundo o crítico José Castello, Lygia "é uma escritora que se dedica aos temas universais: a loucura, o amor, a paixão, o medo, a morte".[8] Para João Ubaldo Ribeiro, é a grande dama da literatura brasileira. Milton Hatoum destaca a magnitude e a perenidade dos contos de Antes do Baile Verde e Seminário dos Ratos, livros publicados nos anos 1970. Já Ignácio de Loyola Brandão garante não "existir, na literatura brasileira, uma pessoa mais adorável". Muitos livros se tornaram clássicos, como o romance As Meninas (1973), "livro até hoje muito lido nas escolas, pois reflete o impasse de jovens que viveram numa época obscura", observa Hatoum. "O destino das personagens é, de algum modo, o destino de uma geração movida por sonhos de liberdade sexual e política, ou por um desejo de ascensão social. É um romance que opera com o equilíbrio entre o psicológico, o social e o político. Sem dúvida, um dos melhores livros da autora."[8] 

Lista de obras[editar | editar código-fonte]

A obra de Lygia constitui-se de quatro romances, 20 livros de contos, algumas crônicas, participações em antologias e coletâneas.[7] Com publicações de sucesso no exterior, teve seus livros lançados em diversos países: Portugal, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, Espanha e República Checa, entre outros, com obras adaptadas para a televisão, teatro e cinema.[11]

Romances[editar | editar código-fonte]

Livros de contos[editar | editar código-fonte]

Antologias[editar | editar código-fonte]

  • Seleta, 1971 (organização, estudos e notas de Nelly Novaes Coelho)
  • Lygia Fagundes Telles, 1980 (organização de Leonardo Monteiro)
  • Os melhores contos de Lygia F. Telles, 1984 (seleção de Eduardo Portella)
  • Venha ver o pôr-do-sol, 1988 (seleção dos editores - Ática)
  • A confissão de Leontina e fragmentos, 1996 (seleção de Maura Sardinha)
  • Oito contos de amor, 1997 (seleção de Pedro Paulo de Sena Madureira)
  • Pomba enamorada, 1999 (seleção de Léa Masima).

Participações em coletâneas[editar | editar código-fonte]

  • Gaby, 1964 (novela - in Os sete pecados capitais - Civilização Brasileira)
  • Trilogia da confissão, 1968 (Verde lagarto amarelo, Apenas um saxofone e Helga - in Os 18 melhores contos do Brasil - Bloch Editores)
  • Missa do galo, 1977 (in Missa do galo: variações sobre o mesmo tema - Summus)
  • O muro, 1978 (in Lições de casa - exercícios de imaginação - Cultura)
  • As formigas, 1978 (in O conto da mulher brasileira - Vertente)
  • Pomba enamorada, 1979 (in O papel do amor - Cultura)
  • Negra jogada amarela, 1979 (conto infanto-juvenil - in Criança brinca, não brinca? - Cultura)
  • As cerejas, 1993 (in As cerejas - Atual)
  • A caçada, 1994 (in Contos brasileiros contemporâneos - Moderna)
  • A estrutura da bolha de sabão e As cerejas, s.d. (in O conto brasileiro contemporâneo - Cultrix)

Crônicas publicadas na imprensa[editar | editar código-fonte]

  • Não vou ceder. Até quando?. O Estado de S. Paulo - 6 de janeiro de 1992
  • Pindura com um anjo. Jornal da Tarde - 11 de agosto de 1996

Traduções e adaptações[editar | editar código-fonte]

  • Para o alemão:
    • Filhos pródigos, 1983
    • As horas nuas, 1994
    • Missa do galo, 1994
  • Para o espanhol:
    • As meninas, 1973
    • As horas nuas, 1991
  • Para o francês:
    • Filhos pródigos, 1986
    • Antes do baile verde, 1989
    • As horas nuas, 1996
    • W. M., 199
    • As meninas 2005 (Les pensionnaires, Brésil 70, un rêve de liberté)
  • Para o inglês:
    • As meninas, 1982
    • Seminário dos ratos, 1986
    • Ciranda de pedra, 1986
  • Para o italiano:
    • As pérolas, 1961
    • As horas nuas, 1993
  • Para o polaco:
    • A chave, 1977
    • Ciranda de pedra, 1990 (traduzido também para o chinês e espanhol).
  • Para o sueco:
    • As horas nuas, 1991
  • Para o tcheco:
    • Antes do baile verde, s.d. (traduzido também para russo)
  • Edições em Portugal:
    • Antes do baile verde, 1971
    • A disciplina do amor, 1980
    • A noite escura e mais eu, 1996
    • As meninas, s.d.
  • Para o cinema:
    • Capitu (roteiro); parceria com Paulo Emílio Salles Gomes, 1993 (Siciliano).
    • As meninas (adaptação), 1996
  • Para o teatro:
    • As meninas, 1988 e 1998
  • Para a televisão:
    • O jardim selvagem, 1978 (Caso especial - TV Globo)
    • Ciranda de pedra, 1981 e 2008 (Novela - TV Globo)
    • Era uma vez Valdete, 1993 (Retratos de mulher - TV Globo)

Prêmios[editar | editar código-fonte]

Reconhecimento e honras[editar | editar código-fonte]

Medalha Mário de Andrade – Governo do Estado de São Paulo; Medalha Mérito Cívico e Cultural – da Sociedade Brasileira de Heráldica de São Paulo; Medalha do Grande Prêmio Literário de Cannes, categoria contos (1969); Medalha do Prêmio Imperatriz Leopoldina, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo (1969); Ordem do Rio Branco, Comendador (1985); título Personalidade Literária do Ano de 1987, conferido pela Câmara Brasileira do Livro; medalha Ordre des Arts et des Lettres, Ministério da Cultura da França (1998) e Ordem al Mérito Docente y Cultural Gabriela Mistral, Gran Oficial (Chile). Agraciada, em março de 2001, com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade de Brasília (UnB).[52]

A primeira edição da Ilustrada, que circulou no dia 10 de dezembro de 1958, no jornal "Folha da Manhã", trazia uma entrevista com a escritora. O caderno, na época, havia sido concebido pelo então dono do jornal, José Nabantino Ramos, como um suplemento feminino.[53]

Lygia tem participado de feiras de livros e congressos realizados não só no Brasil, mas também em Portugal, Espanha, Itália, México, Estados Unidos, França, Alemanha, República Tcheca, Canadá e Suécia, países nos quais foram publicados seus contos e romances.[11] Em 2013, para comemorar os 90 anos da escritora, a Fundação Biblioteca Nacional apresentou uma exposição, que foi aberta ao público de 15 de abril até 10 de junho do mesmo ano, em homenagem a escritora por esta ser uma das mais importantes escritoras brasileiras. A exposição foi composta por documentos do acervo da Biblioteca Nacional - contos e romances e livros selecionados para ilustrar a trajetória de Lygia, desde suas primeiras publicações até obras mais recentes, como Invenção e Memória. A exposição reuniu também reproduções de periódicos sobre ela e uma foto da autora quando jovem.[9]

Referências

  1. «10 Grandes escritoras brasileiras do século XX». Homo Literatus 
  2. Saraiva, Livraria. «DEZ romancistas feministas importantes na história da Literatura». SaraivaConteudo 
  3. a b c d e f Lamas, Berenice Sica (2004). O duplo em Lygia Fagundes Telles: um estudo em literatura e psicologia. [S.l.]: EDIPUCRS. ISBN 9788574304397 
  4. a b c «Realismo e fantasia: O universo de Lygia Fagundes Telles - Mundo Educação». Mundo Educação. Consultado em 3 de outubro de 2017 
  5. «Lygia Fagundes Telles - Brasil Escola». Vestibular Brasil Escola 
  6. «Lygia Fagundes Telles». Default Store View 
  7. a b «As 10 principais obras da indicada ao Nobel Lygia Fagundes Telles». VIX. 3 de fevereiro de 2016 
  8. a b c d e «Lygia Fagundes Telles, testemunha literária - Cultura - Estadão». Estadão 
  9. a b c d e f g «Lygia Fagundes Telles: escrever é meu ofício - CULTURA - Sermos Galiza - Diario de intereses galegos». 20 de abril de 2013 
  10. «Lygia Fagundes Telles vence o Prêmio Camões de 2005». Academia Brasileira de Letras. Consultado em 10 de setembro de 2017 
  11. a b c d e f «Lygia Fagundes Telles | Academia Brasileira de Letras» 
  12. «Lygia Fagundes Telles é indicada ao Nobel de Literatura». Pop & Arte. 3 de fevereiro de 2016 
  13. a b c «Lygia Fagundes Telles». Recanto das Letras 
  14. a b c d e f g h "Dossiê: O Tempo de Lygia" – Revista Entre Livros. edição 20. Pgs. 21-26. Editora Duetto. São Paulo (2007)]
  15. «Folha de S.Paulo - Entrevista - Lygia Fagundes Telles: A ansiedade é o maior perigo para um escritor - 23/04/2011». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 6 de dezembro de 2017 
  16. «No tempo da Delicadeza | Revista Pesquisa Fapesp». revistapesquisa.fapesp.br. Consultado em 4 de dezembro de 2017 
  17. a b c d «O baile de Lygia - O Benedito». obenedito.com.br. Consultado em 5 de dezembro de 2017 
  18. a b c d «Biografia de Lygia Fagundes Telles». biografias.netsaber.com.br 
  19. a b «Lygia Fagundes Telles - Biografia da escritora». InfoEscola 
  20. a b c d e f g h i Jr, Arnaldo Nogueira. «Lygia Fagundes Telles». www.releituras.com 
  21. «Ciranda de Pedra - Lygia Fagundes Telles». InfoEscola 
  22. «CIRANDA DE PEDRA». Livraria Cultura. Consultado em 8 de dezembro de 2017 
  23. «Lygia Fagundes Telles aprova adaptação de "Ciranda de Pedra" - BOL Notícias». noticias.bol.uol.com.br 
  24. «Lygia Fagundes Telles». educaterra.terra.com.br. Consultado em 3 de outubro de 2017 
  25. «As Meninas por Lygia Fagundes Telles». livrozilla.com (em inglês). Consultado em 8 de dezembro de 2017 
  26. Rosário, Maria do Rosário. «Um estudo da recepção crítica de Lygia Fagundes Telles» (PDF). Universidade Estadual de Santa Cruz. Cópia arquivada em 8 de outubro de 2016 
  27. Elek, Cassiano. «Lygia Fagundes Telles autografa seus cadernos». Folha de S.Paulo. Consultado em 7 de dezembro de 2017 
  28. Telles, 2009, p. 209
  29. Telles, 2009, p. 197
  30. a b c d «Sobre Lygia Fagundes Telles - Instituto Moreira Salles». Instituto Moreira Salles. 1 de junho de 2017 
  31. a b c «As meninas, de Lygia Fagundes Telles - Passeiweb». www.passeiweb.com. Consultado em 5 de dezembro de 2017 
  32. «Lygia Fagundes Telles | Academia Brasileira de Letras» 
  33. «Academia Brasileira de Letras». Academia Brasileira de Letras. Consultado em 28 de setembro de 2017 
  34. «Folha.com - Livraria da Folha - Há disciplina no amor? Lygia Fagundes Telles aconselha indisciplinados sentimentais - 11/11/2010». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 28 de setembro de 2017 
  35. Estadão (12 de abril de 2013), "A Disciplina do Amor é meu melhor livro", diz Lygia Fagundes Telles, consultado em 28 de setembro de 2017 
  36. «5 livros em que Lygia Fagundes Telles mostra que é um ícone literário». HuffPost Brasil. 13 de outubro de 2016 
  37. a b «Vida e Obra de Lygia Fagundes Telles». Toda Matéria 
  38. «Cidadãos Estrangeiros Agraciados com Ordens Portuguesas». Resultado da busca de "Lygia Fagundes Telles". Presidência da República Portuguesa. Consultado em 17 de fevereiro de 2015 
  39. UBE – União Brasileira de Escritores – "Lygia Fagundes Telles"
  40. Releituras – "Resumo biográfico: Lygia Fagundes Telles"
  41. «Lygia Fagundes Telles é indicada ao Nobel de Literatura». Portal G1 - Pop & Arte. 3 de fevereiro de 2016. Consultado em 5 de fevereiro de 2016 
  42. Calixto, 2000, p. 398
  43. Tietzmann, 1992, p. 34
  44. «Lygia Fagundes Telles: Características e Estilos em Ciranda de Pedra». Recanto das Letras 
  45. «A vida e produção de Lygia Fagundes Telles». CR Mário Covas. Consultado em 8 de outubro de 2016 
  46. Júnior, Francisco de Paula. «A semântica das cores na literatura fantástica». Cópia arquivada em 8 de outubro de 2016 
  47. Quint, 1995, p. 157
  48. Nadal, Paula (2011). «A literatura engajada de Lygia Fagundes Telles». Nova Escola. Consultado em 8 de dezembro de 2017 
  49. a b «Antes do baile verde (livro), de Lygia Fagundes Telles - Passeiweb». www.passeiweb.com. Consultado em 8 de dezembro de 2017 
  50. As Meninas, p.11-12
  51. a b c d e f g h i «Lygia Fagundes Telles - Enciclopédia Itaú Cultural». 23 de dezembro de 2016. Consultado em 3 de outubro de 2017 
  52. «Lygia Fagundes Telles | Academia Brasileira de Letras». 19 de agosto de 2016. Consultado em 1 de outubro de 2017 
  53. «Folha de S.Paulo - Lygia estampou primeira capa da Ilustrada - 23/04/2011». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 6 de dezembro de 2017 

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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