João Antônio (escritor)
| João Antônio | |
|---|---|
| Nome completo | João Antônio Ferreira Filho |
| Nascimento | |
| Morte | 31 de outubro de 1996 (59 anos) |
| Nacionalidade | Brasileiro |
| Cônjuge | Marília Mendonça Andrade (1 filho) |
| Ocupação | Escritor e jornalista |
| Prémios | Prémio Jabuti (1964), (1993) |
| Magnum opus | Malagueta, Perus e Bacanaço |
João Antônio Ferreira Filho (Osasco,[nota 1] 27 de janeiro de 1937 — Rio de Janeiro, 31 de outubro de 1996)[2][3] foi um jornalista e escritor brasileiro, criador do conto-reportagem no jornalismo brasileiro e contista que se tornou conhecido por retratar os proletários e marginais que habitam as periferias das grandes cidades, o que lhe conferiu a alcunha de "intérprete do submundo".
Biografia
[editar | editar código]Nascido em uma família de pequenos comerciantes de Presidente Altino, Osasco, (então subúrbio de São Paulo),[4] João Antônio trabalhou em empregos mal remunerados antes de lançar seu primeiro livro de contos, Malagueta, Perus e Bacanaço, em 1963, sucesso imediato de público e crítica. Já na sua primeira obra, o autor ganhou dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), o Prêmio Fábio Prado e o Prêmio Prefeitura Municipal de São Paulo. A dupla premiação no Jabuti foi um feito inédito para um escritor estreante.
Os originais da obra foram destruídos em 1960 no incêndio da casa da família do escritor, que deixou a ele e sua família só com a roupa do corpo. João Antônio refugiou-se então numa cabine da Biblioteca Mário de Andrade e reescreveu todos os contos, de memória.
Em 1976, o conto que dá título ao livro, a história de três jogadores de sinuca do submundo paulistano, vira filme com o título O Jogo da Vida, com direção de Maurice Capovilla e com Lima Duarte no elenco.
O sucesso literário conduziu-o à atividade jornalística. Trabalhou inicialmente no Jornal do Brasil. Foi da equipe fundadora da Realidade (revista) (1966), na qual publicou o primeiro conto-reportagem do jornalismo brasileiro, Um dia no cais (1968). Trabalhou, ainda, na revista Manchete, no jornal O Pasquim e em diversos órgãos da imprensa alternativa, de oposição ao regime militar. Neste período, alternava residência entre Rio de Janeiro e São Paulo.
Em 1967, casa-se com Marília Mendonça Andrade. No mesmo ano nasce seu único filho, Daniel Pedro.
Mas no final dos anos 1960 resolve mudar radicalmente de vida. Larga seu emprego, destrói seus cartões de crédito, vende seu automóvel, separa-se da mulher e passa a vestir-se de forma despojada, geralmente de bermudas e sandálias. Enfim, adota um estilo de vida próximo ao da marginalidade vivida por seus personagens, tudo para se dedicar inteiramente à literatura.
Produziu quinze livros, mas sempre se recusava a participar de cerimônias e de se vincular a grupos e academias literárias. Aceitava apenas convites para palestras em escolas e universidades.
Viajou pelo Brasil em 1978 e pela Europa em 1985. Em 1987, agraciado com bolsa de estudos, radicou-se na Alemanha, onde permaneceu até 1989. Neste período, conheceu também Holanda e Polônia, realizando conferências.
Faleceu em 1996, e seu corpo só foi encontrado quinze dias depois de seu desaparecimento.[3]
Em 2005, Mylton Severiano publicou "Paixão de João Antônio", livro que tem sua escrita com base em cerca de 200 cartas que João Antônio enviou ao amigo jornalista. As cartas revelam a personalidade ímpar desse poeta-narrador dos panos verdes, bares e ruas que se perpetuam cada vez que corremos os olhos sobre sua escrita.
Após a morte de João Antônio, seu filho Daniel Pedro cedeu a biblioteca pessoal e as mobílias do pai para o Departamento de Literatura da Universidade Estadual Paulista (UNESP), em Assis-SP. Os pertences estavam no apartamento do escritor em Copacabana, na Praça Serzedelo Corrêa. São livros de João Antônio em diversas línguas; livros de amigos com dedicatórias de Lygia Fagundes Telles e Jorge Amado, Clarice Lispector, Dalton Trevisan, Moacyr Scliar, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino; jornais e revistas - entre elas a Realidade; correspondência ativa e passiva, além de anotações feitas a punho em papel de padaria; discos de 78 rotações, troféus e quadros. Sob os cuidados do CEDAP (Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa), o Acervo João Antônio em Assis auxilia pesquisadores do escritor e está aberto à visitação pública.
Intérprete do submundo
[editar | editar código]João Antônio foi o intérprete do submundo, o escritor da marginalidade. Seus personagens são as criaturas que vivem na periferia das grandes cidades e da vida, operários, biscateiros, soldados, crianças abandonadas ou quase, prostitutas, pedintes, homossexuais, jogadores de sinuca, desempregados, gente que se reúne nos cenários da periferia, vilas e favelas com seus botequins, seus campos de pelada e as diversas curriolas do vício e do crime. Rio de Janeiro e São Paulo são apresentados ao leitor no conjunto espantoso de seus contrastes e na extraordinária vibração humana de seu cotidiano.
A linguagem de João Antônio é a um só tempo elaborada e malandra, o que a tornaria única na literatura brasileira, não fosse a companhia de Plínio Marcos a trilhar pelo mesmo caminho. Mas, apesar da escrita elaborada, não se espere de seus personagens sentimentos falsos ou esperança de redenção: a realidade é tratada de forma lírica, mas sem dissimular seu lado cruel.
Segundo ele, em posfácio de sua obra Malhação do Judas Carioca, não é possível produzir uma literatura de heróis taludos ou de grandiosidade imponente na vida de um país cujo homem está, por exemplo, comendo rapadura e mandioca em beira de estrada e esperando carona em algum pau-de-arara para o Sul, já que deve e precisa sobreviver.
Fases e evolução da obra
[editar | editar código]Para alguns estudiosos, a obra de João Antônio poderia ser dividida, quanto à forma, em duas fases. Uma primeira, em que prepondera o conto numa estrutura mais convencional, e uma segunda, em que a influência do jornalismo se torna mais evidente. Malagueta, Perus e Bacanaço (1963), seu livro de estreia, e Leão-de-chácara (1975) pertenceriam à primeira fase enquanto o restante de sua obra, a partir do livro Malhação do Judas Carioca (1975) (livro de contos onde João Antônio republica Um dia no cais), pertenceria à segunda fase do escritor.
A evolução de sua obra também é marcada por um crescente teor autobiográfico dentro de suas narrativas: como o jornalismo vem ganhando força em cada nova publicação, é compreensível uma também crescente formalização, na voz do narrador-jornalista, de um ethos que corresponde à voz do João Antônio-jornalista. Esta faceta de sua obra fica evidente no conto Abraçado ao meu rancor, texto em que o narrador-personagem é um repórter “arrastado” do Rio de Janeiro para sua cidade natal, São Paulo, para fazer uma matéria sobre os pontos turísticos desta, e na coletânea Dedo-duro (1982), onde se trabalha a profissão do jornalista no contexto da ditadura militar.
O fator autobiográfico, ainda que indiretamente e/ou não marcado, não deixa de ter também sua relevância nas primeiras narrativas do escritor paulistano. João Antônio sempre aludiu — em suas entrevistas, crônicas, ensaios, artigos e mesmo em seus próprios contos — à extrema importância de um vínculo consistente entre literatura e realidade. No conto Merduchos, do livro Casa de Loucos (1976), o narrador, por exemplo, faz referência a uma frase sua pertencente ao conto Malagueta, Perus e Bacanaço, de 15 anos antes: “ 'A mesa é triste como uma bola branca que cai.' / Isso é frase que apanhei de vagabundo na Lapa. Parece uma frase literária, mas não é. ”Pelo trecho evidencia-se tanto a dificuldade na delimitação entre o autor/narrador antoniano quanto certas preocupações ao seu fazer artístico.
Os temas tratados, com o tempo, também vão se modificando. Unicamente interessado pelos marginalizados da sociedade em um primeiro momento, João Antônio abomina a classe média, à qual apelida de “mérdea”, principalmente por causa da alienação e descaso para com o “miserê” da maior parte dos brasileiros. Na parte final de sua obra, seu olhar finalmente encontra interesse em personagens pertencentes a esta classe social tão detestada. Em Abraçado ao meu rancor (1986), por exemplo, os contos Televisão, Publicitário do Ano e Abraçado ao meu rancor, que dá nome ao livro, tratam e criticam duramente esta camada da sociedade brasileira; camada à qual, morando em Copacabana, o próprio João Antônio agora inevitavelmente pertencia, vivendo, assim, abraçado ao seu rancor.
Obras[5]
[editar | editar código]| Ano de lançamento | Título | Classificação |
|---|---|---|
| 1963 | Malagueta, Perus e Bacanaço | Contos |
| 1975 | Leão-de-Chácara | Contos |
| 1975 | Malhação do Judas Carioca | Contos |
| 1976 | Casa de Loucos | Contos |
| 1977 | Calvário e Porres do Pingente Afonso Henriques de Lima Barreto | Crítica, teoria ou história literária |
| 1977 | Lambões de Caçarola | Contos |
| 1978 | O moderno conto brasileiro | Contos |
| 1978 | Ô Copacabana | Crônicas, artigos de periódico, blogues |
| 1982 | Noel Rosa | Crítica, teoria ou história literária |
| 1982 | Dedo-duro | Contos |
| 1983 | 10 contos escolhidos | Contos |
| 1983 | Meninão do Caixote | Contos |
| 1986 | Abraçado ao meu rancor | Contos |
| 1991 | Zicartola e que Tudo Mais Vá para o Inferno | Outros |
| 1992 | Guardador | Contos |
| 1993 | Paulinho Perna Torta | Romance ou novela |
| 1993 | Um herói sem paradeiro | Romance ou novela |
| 1993 | Afinação da Arte de Chutar Tampinhas | Romance ou novela |
| 1996 | Patuléia | Contos |
| 1996 | Sete Vezes Rua | Romance ou novela |
| 1996 | Dama do Encantado | Contos |
Prêmios
[editar | editar código]- 1959 — Prêmio Edgard Cavalheiro, instituído pelo jornal Ultima Hora e Editora Pensamento-Cultrix[6]
- 1962 — Prêmio Fábio Prado pelo livro Malagueta, Perus e Bacanaço[7]
- 1963 — Prêmio Jabuti de Revelação de Autor e de Melhor livro de contos para Malagueta, Perus e Bacanaço[8]
- 1965 — Prêmio Prefeitura de São Paulo[9]
- 1974 — Prêmio Nacional de Contos do Paraná pelo livro Leão-de-Chácara[9]
- 1975 — Prêmio Ficção concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte para Leão-de-Chácara[8]
- 1983 — Prêmio Pen Club e para o livro Dedo-duro[10]
- 1983 — Troféu Candango, da Fundação Cultural do Distrito Federal, para Dedo-duro[10]
- 1986 — Troféu Golfinho de Ouro pelo livro Abraçado ao Meu Rancor[11]
- 1986 — o Prêmio Pedro Nava pelo livro Abraçado ao Meu Rancor[11]
- 1986 — Troféu Oswald de Andrade pelo livro Abraçado ao Meu Rancor[11]
- 1993 — Prêmio Jabuti pelo livro Guardador[12]
Notas e referências
Notas
- ↑ Na época, Osasco era um bairro da capital paulista, tendo se tornado município emancipado após plebiscito realizado em 19 de fevereiro de 1962.[1]
Referências
- ↑ Prefeitura de Osasco. «História». Consultado em 27 de fevereiro de 2013. Cópia arquivada em 2 de fevereiro de 2014
- ↑ Moraes, Vaniucha de (dezembro de 2017). «A Construção do Escritor João Antônio». Estudos Históricos (Rio de Janeiro) (62): 681–700. ISSN 2178-1494. doi:10.1590/S2178-14942017000300009. Consultado em 20 de março de 2025
- 1 2 «Folha de S.Paulo - João Antônio é encontrado morto no RJ - 1/11/1996»
- ↑ «João Antônio: o ilustre desconhecido de Presidente Altino – Jornal do Campus». 21 de junho de 2018. Consultado em 3 de junho de 2025
- ↑ UFSC-NUPILL, UFSC-INE. «Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos». literaturabrasileira.ufsc.br. Consultado em 11 de abril de 2026
- ↑ ANTONIO, João. Cartas aos amigos Caio Porfírio Carneiro e Fábio Lucas. São Paulo: Ateliê Editoria, 2005, p. 44
- ↑ ANTONIO, João. Cartas aos amigos Caio Porfírio Carneiro e Fábio Lucas. São Paulo: Ateliê Editoria, 2005, p. 43
- 1 2 Brasil, Repórter (30 de março de 2005). «Principais obras de João Antônio». Repórter Brasil. Consultado em 11 de abril de 2026
- 1 2 UFSC-NUPILL, UFSC-INE. «Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos». literaturabrasileira.ufsc.br. Consultado em 11 de abril de 2026
- 1 2 «CEDAP». Consultado em 11 de abril de 2026
- 1 2 3 «Antônio, João 1937–1996 | Encyclopedia.com». www.encyclopedia.com. Consultado em 11 de abril de 2026. Cópia arquivada em 7 de novembro de 2025
- ↑ «Premiados do Ano | Prêmio Jabuti». www.premiojabuti.com.br. Consultado em 11 de abril de 2026