Cinemateca Brasileira

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Fachada da Cinemateca Brasileira

A Cinemateca Brasileira é a instituição responsável pela preservação da produção audiovisual brasileira. Desde 1940, desenvolve atividades em torno da divulgação e da restauração de seu acervo, com cerca de 200 mil rolos de filmes. Fisicamente, está localizada no Largo Senador Raul Cardoso, 207, em São Paulo. Possui também um amplo acervo de documentos formado por livros, revistas, roteiros originais, fotografias e cartazes. Sua base de dados pode ser acessada através do seu site da Cinemateca Brasileira.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Vista lateral da Cinemateca Brasileira

A Cinemateca Brasileira teve como inspiração a Cinémathèque Française. O embrião do projeto nasceu quando Paulo Emílio Salles Gomes, na época bacharel em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), emigrou para a Europa e conheceu o museu vivo de cinema francês. A emigração se deu em um contesto de fuga, já que ocorreu logo após Paulo Emilio escapar de seu período preso por ter participado da Intentona Comunista de 1935[2]. Durante sua estadia na França, o estudante trabalhou diretamente na Cinématèque Française, e lá aprendeu sobre a importância da cultura de preservação das obras audiovisuais.[3]

De volta ao Brasil em 1940, iniciou seu projeto para difundir essa cultura cinematográfica no país ao fundar, juntamente com colegas da USP como Décio de Almeida Prado e Antonio Candido de Mello e Souza, o primeiro Clube de Cinema de São Paulo. O Clube se propunha a estudar o cinema por meio de projeções, conferências, debates e publicações. Porém, o projeto não conseguiu se desenvolver. Criado durante o período do Estado Novo, sob o governo de Getúlio Vargas, o primeiro Clube de Cinema de São Paulo foi fechado pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), o que o forçou a operar de forma clandestina na residência de Emilío Machado e Lourival Machado a partir de 1941.[4]

Após várias tentativas de se organizarem cineclubes, cinco anos depois, em 1946, foi oficializada a criação do segundo Clube de Cinema de São Paulo. Com direção composta por Almeida Salles, Múcio Porphyrio Ferreira, Rubem Biáfora, Benedito Junqueira Duarte, João de Araujo Nabuco, Lourival Gomes e Tito Batini, a associação foi responsável pela consolidação da ideia de Paulo Emilio e pela criação da Cinemateca Brasileira. A vivência de Paulo Emílio Salles como pesquisador na Cinemateca Francesa e a convivência do mesmo com Henri Langlois, diretor da instituição, são parcialmente responsáveis pelo seu comprometimento com a criação da Cinemateca Brasileira. Em setembro de 1947, ele filiou o Clube se à International Federation of Films Society - IFFS (Federação Internacional dos Clubes de Cinema, em tradução livre), o que lhe permitiu acesso à uma pequena coleção de filmes. Porém, a real construção de seu arquivo fílmico veio em 1948, com a filiação à International Federation of Film Archives - FIAF (Federação Internacional de Arquivos de Filmes, e tradução livre).

Em março de 1949, o Clube estabeleceu um acordo com o então recém-criado Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), para a criação da Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, com o intuito de fortalecer a produção cultural brasileira por meio de grandes mostras realizadas em conjunto com outras instituições culturais de São Paulo. O desligamento do MAM em busca de maior autonomia veio em 1956, quando o clube se transformou em Cinemateca Brasileira, uma sociedade civil sem fins lucrativos. Em 1984, a Cinemateca foi incorporada ao governo federal como um órgão do então Ministério de Educação e Cultura (MEC). No dia 12 de agosto de 2003, a Cinemateca Brasileira foi incorporada à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura.

Desde 1992, a sede da Cinemateca ocupa o espaço do antigo Matadouro Municipal, na Vila Clementino, cedido pela Prefeitura da cidade, que na época era comandada pelo político Jânio Quadros. Seus edifícios históricos foram construídos em 1887 para receber o antigo matadouro da baixada do Humaitá (que existia desde 1856)[5] e tombados pelo Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo, e restaurados pela entidade. [6][7]

Ainda que, ao longo de sua história, a Cinemateca tenha sido incorporada por órgãos políticos, conseguir recursos para mantê-la sempre foi uma dificuldade dos fundadores. Tanto as instituições públicas quanto as privadas exerciam certa resistência em financiar os projetos e ceder capital. Os mecenas, como Assis Chateaubriand e Francisco Matarazzo Sobrinho, não viam motivos para que houvesse um “museu” de elementos audiovisuais. Já o poder público muitas vezes se recusava a financiar esse centro de distribuição e preservação paralelo, dando preferência ao circuito comercial de cinema.[8]

Em texto escrito em 1958, sobre o cineasta Eisenstein, Paulo Emílio Salles Gomes escreveu sobre os poucos recursos da Cinemateca:

Anteontem, dia 23 de janeiro, comemorou-se em todas as cinematecas do mundo o sexagésimo aniversário do nascimento de Serguei Mikhailovitch Eisenstein. Desde o início do ano passado a Cinemateca Brasileira projetara para esta ocasião uma retrospectiva da obra completa do cineasta russo. A situação de penúria em que se encontra, obrigou, porém, o adiamento do projeto. Este artigo é o último de uma série que foi escrita numa irrisória tentativa de compensação.[9]

Sociedade Amigos da Cinemateca[editar | editar código-fonte]

Fachada da Cinemateca Brasileira

A SAC é uma entidade civil sem fins lucrativos criada em 1962, por iniciativa de Dante Ancona Lopez, que tem como objetivo desenvolver ações de apoio à Cinemateca Brasileira. Sua atuação está principalmente voltada para a difusão da cultura do cinema e da produção audiovisual do país, além da viabilização de projetos da Cinemateca[10]. Por muitos anos, ficou instalada numa pequena sala do Cine Belas Artes, onde promovia retrospectivas de filmes nacionais e estrangeiros.

A SAC desenvolveu um importante trabalho de formação de público cinematográfico por meio da realização de festivais e mostras de filmes inéditos na Sala Cinemateca. Atualmente, promove a exibição de filmes, palestras, debates, cursos, pesquisas históricas, pesquisas artísticas, exposições, produção e edição de livros. Também é responsável pela captação de recursos, por meio da Lei Rouanet e de convênios com a Prefeitura de São Paulo e com a União, para a realização de projetos especiais, como o restauro de filmes, a digitalização de cartazes e obras, além da compra de equipamentos diversos.

Aqui está uma lista de projetos que contam com a colaboração da SAC:

Laboratório de Restauração[editar | editar código-fonte]

Desde 1978, a Cinemateca Brasileira possui um Laboratório de Restauração devidamente equipado, que foi reconhecido pela FIAF(International Federation of Film Archives) como um exemplo para as cinematecas latino-americanas. Entre as suas atividades permanentes está a restauração de filmes do acervo em estado de deterioração, a transferência de materiais em suporte de nitrato de celulose para suporte de segurança (poliéster) e a confecção de cópias (matrizes ou reproduções para empréstimo).

O que diferencia o Laboratório de Restauração da Cinemateca Brasileira dos demais são equipamentos como: o copiador óptico, capaz de processar filmes 35 mm com até 4% de encolhimento; a mesa de comparação com 4 pistas; a moviola-telecine para filmes de 35 mm e de 16 mm que, ao contrário de copiadores normais, consegue projetar filmes até mesmo em estado de alta deterioração. É também um dos poucos que faz controle sensitométrico de cópias em 35 e 16 mm.

Além de cuidar da recuperação de materiais do acervo da Cinemateca Brasileira, o Laboratório de Restauração também está envolvido em projetos externos, que são fruto de parcerias com produtores e pesquisadores. Um exemplo disso é o Acervo Glauber Rocha - Cooperação técnica para a restauração do acervo Glauber Rocha. Atualmente, estão sendo trabalhados os longas-metragens Barravento e A idade da terra.

Sala Cinemateca[editar | editar código-fonte]

A Sala Cinemateca foi inaugurada em 10 de março de 1989, no espaço onde funcionava o Cine Fiametta, na rua Fradique Coutinho, em Pinheiros. O filme em cartaz era "A Paixão de Joana D’Arc", de Carl Dreyer.

Durante oito anos, mais de 200 mil pessoas assistiram à retrospectivas variadas promovidas pela Sociedade Amigos da Cinemateca, muitas vezes formadas por obras inéditas.

No local, o público pode conhecer o estilo de importantes autores estrangeiros, tais como Charles Chaplin, Orson Welles, David Griffith, Ingmar Bergman, Federico Fellini, Pier Paolo Pasolini, Luchino Visconti, Jean-Luc Godard, François Truffaut Jean Renoir, Fritz Lang, Friedrich Murnau, Carl Dreyer, Yasujiro Ozu, Akira Kurosawa, Kenji Mizoguchi, Roberto Rosselini e Andrei Tarkovski.

Em 5 de novembro de 1997, a Sala Cinemateca foi transferida para a sede oficial da entidade, na Vila Clementino. No final de 2005, a sala passou por uma reforma, sendo reaberta em março de 2006 com incluindo equipamentos modernos de projeção e som que proporcionam uma exibição de alta qualidade técnica, de acordo com as normas internacionais.

A programação da Sala mescla a exibição de obras do acervo da Cinemateca com produções expressivas de outros acervos, proporcionando a união do clássico e do moderno. Além disso, oferece, todas as terças-feiras, uma programação gratuita para escolas, além de sessões de curtas-metragens e um curso de história do cinema.

Anexo à Sala Cinemateca está o Espaço de Exposições Paulo Emílio Salles Gomes.

Imagens em movimento[editar | editar código-fonte]

A Cinemateca Brasileira possui o maior acervo de imagens em movimento da América Latina. Ele é formado por cerca de 200 mil rolos de filmes, que correspondem a 30 mil títulos. São obras de ficção, documentários, cinejornais, filmes publicitários e registros familiares, nacionais e estrangeiros, produzidos desde 1895.

As coleções mais significativas de cinejornais são as do Cine Jornal Brasileiro, Carriço e Bandeirantes da Tela, todos feitos a partir da década de 1930, em nitrato de celulose.

Também pertence ao acervo a coleção de imagens da extinta TV Tupi – a primeira emissora de televisão brasileira. Em 1985, a instituição herdou 180.000 rolos de filme 16 mm com reportagens veiculadas nos telejornais da emissora, além de fitas de vídeo com a programação de entretenimento.

Os filmes e vídeos são incorporados à Cinemateca Brasileira através de depósito, doação e depósito legal. O depósito de filmes e outras mídias é regido pelo Contrato de Depósito.

Incêndios[editar | editar código-fonte]

A Cinemateca Brasileira sofreu com 4 incêndios ao longo de sua história. O primeiro deles aconteceu em Setembro de 1957 e foi causado pela autocombustão sofrida pelos filmes em suporte de nitrato de celulose,o que resultou na destruição de todas as instalações da organização e quase todo seu acervo, até então localizados na rua Sete de Abril, no centro de São Paulo. Para a recuperação, a instituição recebeu apoio e doações de diversas entidades nacionais e estrangeiras. O segundo incêndio ocorreu em Abril de 1969 e também levou a Cinemateca à uma situação de crise, quando foram perdidos 2.000 filmes do acervo. O terceiro, com semelhantes causas e consequências, aconteceu em 1982 e levou a perda de 1.500 fitas.[11]

O último acidente sofrido pela Cinemateca ocorreu em 3 de Fevereiro de 2016[12], quando exatamente 1.007 rolos de filmes, armazenados na atual sede da instituição, foram perdidos em outro incêndio, segundo nota oficial do Ministério da Cultura [13]. Ainda de acordo com a nota, neste último caso, foram perdidos filmes nacionais originais de 731 títulos, que consistiam em cinejornais (98,1%), curtas-metragens (1,7%), testes de atores de longa metragem (0,1%) e um registro publicitário (0,1%).

Artigos relacionados[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Cinemateca Brasileira

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