Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Logo da 37a Mostra.

A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é um festival cinematográfico que ocorre anualmente na cidade de São Paulo (SP). Realizada pela Associação Brasileira Mostra Internacional de Cinema (ABMIC), e com o reconhecimento da Federação Internacional da Associação dos Produtores de Filmes, a Mostra Internacional é um evento cultural sem fins lucrativos. Tradicionalmente ocorrendo no mês de outubro, a edição de 2016 é a 40ª Mostra da história, tendo início em 20 de outubro e tendo sua conclusão no dia 2 de novembro.

História[editar | editar código-fonte]

Trabalhando no MASP (Museu de Arte de São Paulo) como programador de cinema, o crítico Leon Cakoff passou a organizar exibições de filmes estrangeiros inéditos ao longo da década de 1970. Mesmo em caso de filmes sem legenda ou qualquer tipo de tradução, as apresentações cinematográficas obtiveram significante audiência no museu. Em 1977, quando o MASP celebrava os seus 30 anos de fundação, Cakoff criou a Mostra Internacional de Cinema, um evento de exibição e premiação de filmes de dentro e de fora do Brasil[1].

A edição de estreia da Mostra contou com 16 longa-metragens e seis curtas, contabilizando produções de 16 países diferentes. Os filmes foram apresentados em 40 sessões no Grande Auditório do MASP, inaugurando também a modalidade do voto do público para a escolha do melhor filme, ritual que nunca mais foi abandonado. O vencedor do primeiro Prêmio do Público foi Lúcio Flávio, o passageiro da agonia (1977), de Hector Babenco. O Jornal do Brasil chegou a escrever que a Mostra era o único lugar no Brasil em que as pessoas tinham o direito de votar, uma crítica em alusão ao então período de Regime Militar.

1º Mostra Internacional[editar | editar código-fonte]

A primeira edição da Mostra trouxe os seguintes filmes para exibição [2]:

Filme País Direção Formato
25
Moçambique
Celso Luccas, José Celso Martinez Corrêa
Longa-metragem
La Guerre de Pacification En Amazonie
França
Yves Billon
Longa-metragem
A Moça dos Cabelos Brancos
China
Não informado
Longa-metragem
La Communion Solonnelle
França
René Féret
Longa-metragem
Jorden Er Flad
Dinamarca
Henrik Stangerup
Longa-metragem
Ajuricaba, o Rebelde da Amazônia
Brasil
Oswaldo Caldeira
Longa-metragem
Arquitetura Coreana
Coreia do Sul
Sung In Kim
Curta-metragem
Berthe
Bélgica
Patrcik Ledeux
Longa-metragem
Brotos
China
Não informado
Curta-metragem
Diga aí, Bahia
Brasil
Alvaro Freire, Emiliano Ribeiro
Curta-metragem
Echoes of a Summer
Estados Unidos
Don Taylor
Longa-metragem
Europa Nostra
Reino Unido
Charles Maplestone
Curta-metragem
Anno Domini 1573
Iugoslávia
Vatroslav Mimica
Longa-metragem
J.A. Martin Photographe
Canadá
Jean Beaudin
Longa-metragem
Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia
Brasil
Hector Babenco
Longa-metragem
Predmeti Nasi Dliznji
Iugoslávia
Boro Pecnov
Curta-metragem
O Enigma de Kaspar Hauser
Alemanha
Werner Herzog
Longa-metragem
Que Es El Otoño?
Argentina
David José Kohon
Longa-metragem
Rada Y Luiky Zobar
Rússia
Emil Lotianu
Longa-metragem
Os Demónios de Alcácer Quibir
Portugal
José Fonseca e Costa
Longa-metragem
Pavlínka
República Checa
Karel Kachyňa
Longa-metragem
Wilson Grey
Brasil
Jessel Buss dos Santos
Curta-metragem

Censura[editar | editar código-fonte]

Na época, o Brasil vivia sob o regime militar instaurado em 1964, o que fez com que as primeiras sete edições realizadas pelo Departamento de Cinema do MASP, dirigido por Cakoff, sofressem severas dificuldades em vista da vigência da chamada Lei de Censura, promulgada pelo regime em 1968. Desligada do museu em 1984, a Mostra desafiou a controle da lei instaurando um processo contra a União, reivindicando o direito de apresentar os filmes selecionados diretamente ao público, sem censura prévia, como ocorria até então[3].

A Mostra ganhou o processo contra a União, mas apesar de estar no último ano da ditadura (1984), sua programação pública foi suspensa na primeira semana de sua 8ª edição. A interrupção durou quatro dias, tempo suficiente para que os censores do Ministério da Justiça, chefiado por Ibrahim Abi-Ackel, assistissem a todos os filmes da programação do festival. A truculência mostrada repercutiu mundo afora e criou-se um impasse já para a edição seguinte da mostra, apesar do processo de redemocratização a qual o país vinha passando com o fim do regime militar.

A partir de 1985, a Mostra não precisou mais passar por censura prévia em ocorrência de uma portaria assinada pelo então ministro da Justiça, Fernando Lyra, a pedido dos próprios organizadores do evento. A medida de lei estendeu-se a todo o território brasileiro, isentando a partir dali outros festivais que incorporavam a censura prévia em seus regulamentos de forma passiva. A vitória na justiça fez com que a 9ª Mostra Internacional de Cinema, realizada entre 15 e 31 de outubro de 1985, ocorresse sem censura.

Impacto[editar | editar código-fonte]

“A história da Mostra Internacional de São Paulo é o relato de uma batalha constante contra a censura, as leis arbitrárias, o descaso pela cultura. É, finalmente, uma luta pela criação e preservação de uma memoria coletiva.”

Walter Salles, diretor de Central do Brasil e Diários de Motocicleta.

Em seus 36 anos, a Mostra começou como um evento exclusive do MASP e hoje é espalhada em várias salas de exibição pela cidade. Exibindo mais de 300 filmes por ano, ela é reconhecida como a maior janela no Brasil para o cinema mundial. O diretor Fernando Meirelles afirmou que o Brasil só conhece produções dos Estados Unidos e uma pequena porção da Europa graças à existência do festival. Já a cineasta Laís Bodanzky observou a importância do evento e sua influencia sobre uma geração de cineastas brasileiros que frequentavam o evento nos anos 80 e 90, batizados de “filhos da Mostra”[4].

O festival já teve a presença de vários cineastas brasileiros. Dentre os convidados internacionais de destaque desde 1977, foram Dennis Hopper, Pedro Almodóvar, Miguel Gomes, Victoria Abril, Jane Birkin, Guy Maddin, Abbas Kiarostami, Claudia Cardinale, Amos Gitai, Les Blank, Quentin Tarantino, Maria de Medeiros, Wim Wenders, Alan Parker, Manoel de Oliveira, Kiju Yoshida, Atom Egoyan, Danis Tanovic, Christian Berger, Satyajit Ray, Eizo Sugawa, Theo Angelopoulos, Marisa Paredes, Rossy De Palma, Chan-Wook Park e Jonas Mekas.

Milhares de pessoas assistem a exibição ao ar livre de Nosferatu na 36ª Mostra

A Mostra produziu o curta-metragem Volte Sempre, Abbas em 1999. Dirigido pelos diretores do festival, Leon Cakoff e Renata de Almeida, o filme segue o diretor de cinema Abbas Kiarostami durante uma de suas visitas em São Paulo. A Mostra também produziu longa-metragens coletivos, com os mais notáveis sendo Bem-Vindo a São Paulo (2004) e Mundo Invisível (2011), além de curtas não só de Leon e Renata, mas também de outros diretores brasileiros e internacionais. Convidados para filmar na cidade foram Wolfgang Becker, Maria de Medeiros, Hanna Elias, Amos Gitai, Mika Kaurismäki, Jim McBride, Phillip Noyce, Ming-liang Tsai, Andrea Vecchiato, Caetano Veloso, Yoshishige Yoshida, Theo Angelopoulos, Gian Vittorio Baldi, Marcho Bechis, Laís Bodanzky, Beto Brant, Manoel de Oliveira, Atom Egoyan, Guy Maddin, Jerzy Stuhr, Cisco Vasques e Wim Wenders.

Leon Cakoff, fundador, organizador e diretor do evento, faleceu em 2011, pouco antes da abertura da 35ª Mostra. A produtora Renata de Almeida, viúva de Leon, assumiu a direção da Mostra.

Referências

  1. http://tvcultura.com.br/videos/266_mostra-internacional-de-cinema.html
  2. http://39.mostra.org/br/filmes/?
  3. Cakoff, Leon (2006). "Cinema Sem Fim: A História da Mostra - 30 Anos." Imprensa Oficial
  4. "Especial: A Mostra". (2011) Directed by: Hélio Goldsztejn. TV Cultura

Ligações externas[editar | editar código-fonte]