Massacre do Carandiru

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O massacre do Carandiru ocorreu no Brasil, em 2 de outubro de 1992, quando uma intervenção da Polícia Militar do Estado de São Paulo, para conter uma rebelião na Casa de Detenção de São Paulo, causou a morte de 111 detentos.

Motivos da rebelião e intervenção da PM[editar | editar código-fonte]

A rebelião teve início com uma briga de presos no Pavilhão 9 da Casa de Detenção. A intervenção da Polícia Militar, liderada pelo coronel Ubiratan Guimarães, tinha como justificativa acalmar a rebelião no local. Sobreviventes afirmam que o número de mortos é superior ao divulgado. A promotoria do julgamento do coronel Ubiratan classificou a intervenção como sendo "desastrosa e mal-preparada".[1]

A intervenção da polícia foi autorizada pelo então Secretário de segurança pública de São Paulo, Pedro Franco de Campos, que deixaria o governo menos de um mês depois.[2] No entanto, ele negou ter consultado o governador Luiz Antônio Fleury Filho sobre a ação. Fleury, anos depois, afirmou que não deu a ordem, mas se estivesse em seu gabinete teria autorizado a invasão.[3]


Michel Temer assumiu a Secretaria de Segurança no lugar de Pedro Franco de Campos. Ao tomar posse, ele anunciou como reação ao massacre que recomendaria repouso e meditação para os policiais envolvidos[4].

Julgamento[editar | editar código-fonte]

Um tribunal brasileiro condenou, em abril de 2013, 23 dos policiais militares a 156 anos de prisão cada um pelo seu envolvimento na morte de 12 presos durante o massacre. A sentença foi anunciada pelo juiz José Augusto Nardy Marzagão e corresponde apenas à primeira parte do julgamento que está dividido em quatro etapas. Outros três policiais julgados nesta primeira fase foram absolvidos a pedido do próprio Ministério Público.

Em 3 de agosto de 2013, por volta das 4 horas da manhã, o juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo leu a sentença de 624 anos de prisão a 25 réus policiais militares que foram acusados de participação no massacre, especificamente na participação direta na morte de 52 detentos instalados no terceiro pavimento do pavilhão 9.[5][6]

Cinco júris condenaram 74 policiais militares envolvidos no massacre, porém, acabaram anulados por decisão do desembargador Ivan Ricardo Garisio Sartori, em 2016.[7]

Absolvição e morte do coronel Ubiratan[editar | editar código-fonte]

Em junho de 2001, o coronel Ubiratan Guimarães foi inicialmente condenado a 632 anos de prisão por 102 das 111 mortes do massacre (seis anos por cada homicídio e vinte anos por cinco tentativas de homicídio)[8]. No ano seguinte, ele foi eleito deputado estadual por São Paulo após a sentença condenatória, durante o trâmite do recurso da sentença de 2001. Por este motivo, o julgamento do recurso foi realizado pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça, ou seja, pelos 25 desembargadores mais antigos do estado de São Paulo, em 15 de fevereiro de 2006. O Órgão reconheceu, por vinte votos a dois, que a sentença condenatória, proferida em julgamento pelo Tribunal do Júri, continha um equívoco. Essa revisão acabou absolvendo o réu. A absolvição do réu causou indignação em vários grupos de direitos humanos, que acusaram o fato de ser um "passo para trás" da justiça brasileira[9].

No dia 10 de setembro de 2006, o coronel Ubiratan foi assassinado com um tiro na região do abdômen.[10]. No muro do prédio onde morava foi pichada a frase "aqui se faz, aqui se paga", em referência ao massacre do Carandiru[11].

Fundação do PCC[editar | editar código-fonte]

Ver artigo principal: Primeiro Comando da Capital

O massacre causou indignação em detentos de outras penitenciárias, os quais supostamente decidiram formar o Primeiro Comando da Capital (PCC) no ano seguinte ao do evento. Uma das afirmações iniciais do grupo era a de que pretendiam "combater a opressão dentro do sistema prisional paulista" e "vingar a morte dos cento e onze presos". Entretanto, esta suposta origem do PCC, um dos principais grupos do crime organizado no Brasil, é muito questionada, não havendo provas claras de que haja qualquer ligação entre a facção criminosa e o massacre dos detentos.

Na cultura popular[editar | editar código-fonte]

Canções[editar | editar código-fonte]

Filmes[editar | editar código-fonte]

Livros[editar | editar código-fonte]

  • Uma Porta para a Vida, de Celso Bueno de Godoy Junior
  • Carandiru: o Caldeirão do diabo de Celso Bueno de Godoy Junior
  • Diário de um Detento do ex-detento Jocenir
  • Estação Carandiru (1999) de Dr. Dráuzio Varella
  • O outro lado do muro - Ladrões, humildes, vacilões e bandidões nas prisões paulistas, 1997, de Silvio Cavalcante e Osvaldo Valente
  • Pavilhão 9 - O Massacre do Carandiru, de Elói Pietá e Justino Pereira
  • "Vidas do Carandiru - Histórias Reais", 2003, de Humberto Rodrigues

Televisão[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Terra.com.br Sob ameaça de anulação, julgamento do Carandiru acaba hoje de sexta, 29 de junho de 2001
  2. Ex-secretário de Segurança diz que autorizou entrada da PM no Carandiru. UOL, 16 de abril de 2013
  3. "Não dei a ordem de entrada da PM no Carandiru, mas teria dado", diz Fleury em júri. UOL, 30 de julho de 2013
  4. 'Os PMs do Carandiru merecem repouso e meditação', disse Temer na época do massacre. Brasil Post, 27 de setembro de 2016
  5. [1] Carandiru: PMs são condenados a 624 anos por massacre de sábado, 03 de agosto de 2013
  6. [2] Réus do massacre do Carandiru são condenados a 624 anos de prisão de sábado, 03 de agosto de 2013
  7. Alexandre Hisayasu, Marco Antônio Carvalho (29 de setembro de 2016). «Desembargador que anulou Carandiru mandou prender ladrão de salame». Estadão. Consultado em 30 de setembro de 2016. 
  8. «CMI Brasil - Coronel Ubiratan: condenado a 632 anos de prisão tem sentença anulada». www.midiaindependente.org. Consultado em 8 de fevereiro de 2010. 
  9. «Folha Online - Cotidiano - TJ inocenta coronel Ubiratan por massacre do Carandiru - 15/02/2006». www1.folha.uol.com.br. Consultado em 8 de fevereiro de 2010. 
  10. «Veja cronologia do caso da morte do coronel Ubiratan -». noticias.terra.com.br. Consultado em 8 de fevereiro de 2010. 
  11. «Muro em frente à casa de coronel Ubiratan é pichado -». noticias.terra.com.br. Consultado em 8 de fevereiro de 2010. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]