Black bloc

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O black bloc nas ruas de Hamburgo contra a repressão policial aos okupas (dezembro de 2007).

Black bloc (do inglês black, preto; bloc, agrupamento de pessoas para uma ação conjunta ou propósito comum, diferentemente de block: bloco sólido de matéria inerte) é o nome dado a uma tática de ação direta, de corte anarquista, empreendida por grupos de afinidade[1] [2] que se reúnem, mascarados e vestidos de preto, para protestar em manifestações de rua, utilizando-se da propaganda pela ação para desafiar o establishment e as forças da ordem. Black bloc é basicamente uma estrutura efêmera, informal, não hierárquica e descentralizada. Unidos, seus integrantes pretendem adquirir força suficiente para confrontar as forças da ordem.

A tática surgiu na Alemanha, nos anos 1980, como tática utilizada por autonomistas e anarquistas para a defender os squats (ocupações) contra a ação da polícia e os ataques de grupos neonazistas.[3] Posteriormente suas atividades ganharam atenção da mídia fora da Europa, durante as manifestações contra o encontro da OMC em Seattle, em 1999,[4] quando grupos mascarados destruíram fachadas de lojas e escritórios do McDonald's, da Starbucks, da Fidelity Investments e outras instalações de grandes empresas.

À diferença do modus operandi de outros grupos anticapitalistas, os integrantes do black bloc realizam ataques diretos à propriedade privada, como forma de chamar a atenção para sua oposição ao que consideram símbolos do capitalismo - as corporações multinacionais e os governos que as apoiam. Um exemplo desse tipo de ação foi a destruição das fachadas de lojas e escritórios do McDonald's, da Starbucks, da Fidelity Investments e outras instalações de grandes empresas no centro de Seattle, em 1999, durante as manifestações contra a conferência de ministros de países integrantes da Organização Mundial do Comércio (OMC).[4]

As roupas e máscaras pretas - que dão nome à tática e, por extensão, também aos grupos que dela se utilizam - tanto visam proteger a integridade física dos indivíduos quanto garantir seu anonimato, caracterizando-os, em conjunto, apenas como um único e imenso bloco.

Identidade[editar | editar código-fonte]

Inicialmente as grandes redes de comunicação de massa difundiram o entendimento de que black bloc seria uma organização internacional.[5] Mais recentemente, ficou claro que black bloc não é uma organização ou grupo mas uma tática utilizada por vários indivíduos anticapitalistas, que não mantêm muitas conexões entre si.[6] Na mesma manifestação, podem formar-se diversos blocos negros, com diferentes objetivos e ações.[6] Esses blocos podem até mesmo entrar em confronto entre si, a exemplo do que ocorreu nas protestos contra o G8, em Gênova (2001)[7] e Montebello (Quebec), em 2007, durante a Cúpula de Líderes da América do Norte (também conhecida como Three Amigos Summit ou "Cúpula dos Três Amigos", a saber: Estados Unidos, México e Canadá), quando alguns policiais se infiltraram no black bloc.[8] A polícia negou que os agentes tivessem atuado como provocadores, mas um dos policiais infiltrados foi filmado com uma grande pedra na mão.[9]

O black bloc geralmente é formado por anarquistas e integrantes de movimentos afins (anticapitalismo e anti-globalização), que se juntam para determinada ação de protesto. O objetivo pode variar em cada caso, mas, em termos gerais, trata-se de expressar solidariedade diante da ação repressiva do Estado e de veicular uma crítica, segundo a perspectiva anarquista, acerca do objeto do protesto no momento.[10]

Alguns também consideram um equívoco considerar o bloc como violento. Para John Zerzan (teórico anarquista considerado como uma espécie de ideólogo dos movimentos de multidão) no documentário Surplus,[11] não se pode falar em violência contra objetos: não se violenta uma mesa, cadeira ou vidraça. Segundo Zerzan, a violência só pode ser exercida contra outros seres vivos, coisa que não acontece com o black bloc. "Veteranos" do bloco confirmam essa visão: "Não somos violentos, jamais atacamos pessoas (...) Não é violência destruir os símbolos do capitalismo selvagem, da exploração, da globalização". Esses símbolos seriam lojas, caixas automáticos, carros de luxo. Os blocs nunca andam armados. Objetos simples, muitas vezes encontrados pelo caminho (pedras, extintores de incêndio, placas de trânsito, vergalhões de aço encontrados em canteiros de obras), são transformados em armas improvisadas. O importante, para o sucesso da tática, é ser imprevisível, incontrolável e visível apenas no breve momento da ação, graças à inconfundível máscara e às roupas pretas.[7]

História[editar | editar código-fonte]

Black bloc em 12 de abril de 2003 em Washington DC

O black bloc surgiu na Alemanha, na década de 1980, como uma tática utilizada por autonomistas e anarquistas para defenderem os squats (ocupações) e as universidades contra a ação da polícia e os ataques de grupos nazistas e fascistas.[3] A expressão Schwarzer Block nasce nessa época. Era utilizada pela polícia alemã para identificar os Autonomen (similares aos Autonomi italianos, que se situavam na área da esquerda extraparlamentar, mas com uma substancial diferença quanto ao uso de táticas violentas [12] ) que, durante as manifestações e passeatas antinucleares e em favor da Rote Armee Fraktion, geralmente usavam roupas e máscaras negras para que o conjunto dos manifestantes formasse uma massa compacta e bem identificável, seja para parecerem numericamente superiores, seja para atraírem a solidariedade e a ajuda de outros grupos ideologicamente afins, durante as manifestações. As máscaras e os gorros ou capacetes têm a função de proteger os integrantes do bloco e ao mesmo tempo impedir a identificação dos participantes, por parte da polícia.

Black Bloc em protesto anti-UE

A mesma denominação foi posteriormente utilizada em inglês - Black Bloc - nos Estados Unidos, durante as manifestações contra o Pentágono (1988) e durante os protestos contra a Primeira Guerra do Golfo (1991). Outras aparições significativas dos black bloc ocorreram em Seattle (30 de novembro a 4 de dezembro de 1999) durante as manifestações contra a conferência de ministros dos países membros da OMC, em Praga (26 a 28 de setembro de 1999), quando a cidade foi ocupada durante a reunião dos países membros do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.
No Brasil, a primeira ação Black Bloc registrada pela grande imprensa, ocorreu durante a Ação Global dos Povos, em 27 de setembro de 2000, quando manifestantes mascarados promoveram depredação no andar térreo da sede da Bovespa, em São Paulo.[13]

A tática black bloc também apareceu em Gotemburgo (14 e 15 de junho de 2001) nas manifestações contra o Conselho Europeu.[14] Em Gênova (20 de julho de 2001), durante a cúpula do G8, as manifestações destruíram partes da capital da Ligúria. Na época, houve suspeitas de que provocadores estivessem infiltrados no black bloc, atuando em cumplicidade com a polícia.[15] Mais tarde, ficou claro que havia policiais infiltrados no "bloco". Além disso, os black bloc foram criticados por outros ativistas, por provocarem uma violenta reação da polícia, o que, além de inviabilizar as manifestações pacíficas de diferentes organizações, resultou na morte do jovem Carlo Giuliani, por um policial.[16] [17] [18]

Em 20 de abril de 2001, durante a Cúpula das Américas, o black bloc derrubou parte da cerca metálica de 3,8 quilômetros (chamada o muro da vergonha pelos manifestantes) que protegia o local da reunião. [19] [20]

Em 2009, a City, o centro financeiro de Londres, foi transformada em praça de guerra durante os protestos contra a reunião do G-20. A tropa de choque tentou dispersar os manifestantes, e um homem acabou morto. Em todas as ocasiões, o padrão das ações do black bloc basicamente se repete. No Rio de Janeiro e em São Paulo, em 2013,[21] não foi diferente: enfrentaram a polícia com paus e pedras, quebraram vitrines de lojas e bancos (que consideram símbolos do capitalismo), fizeram barricadas incendiando lixeiras, destruíram veículos (principalmente carros da polícia).[22]

Em alguns casos, porém, a reação policial às ações do black bloc pode ser muito mais violenta. Em Gênova (2001), depois de atirar e passar duas vezes por cima do corpo de Carlo Giuliani com um carro, a polícia realizou, na noite de 20 para 21 de julho, um ataque ao complexo de escolas A. Diaz. No local, funcionavam a coordenação do Genoa Social Forum ("Fórum Social de Gênova") e a sala de imprensa da Indymedia, além de um dormitório improvisado. O motivo da invasão teria sido a suspeita de que lá haveria adeptos do black bloc. Na sequência, os policiais passaram a espancar indistintamente todas as pessoas se encontravam no prédio. Ao final, 61 pessoas foram feridas e levadas a hospitais, três das quais em estado grave e uma (o jornalista britânico Mark Covell) em estado de coma; 93 foram presas e, dentro das instalações da polícia, continuaram a maus-tratos. Relatos publicados pela imprensa da época descreveram o episódio como um massacre.[23] Posteriormente, 125 policiais foram indiciados pelas agressões. [24] [25] [26] [27] [28] A invasão da escola foi tema do filme Diaz - Don't Clean Up This Blood (em português, Diaz - Não limpe esse sangue), de Daniele Vicari.[29]

Referências

  1. André Takahashi. (31 de julho de 2013). "O Black Bloc e a resposta à violência policial. O Black Bloc não é uma organização e sim uma forma de protesto estética baseada na depredação dos símbolos do estado e do capitalismo.". Carta Capital.
  2. Peasant Revolt’ - N30 Black Bloc Communique (PDF). ACME Collective (A communique from one section of the Black Bloc: N30 in Seattle). In VAN DEUSEN, David; MASSOT, Xaviar (ed.). The Black Bloc Papers - An Anthology of Primary Texts From The North American Anarchist Black Bloc 1988-2005. The Battle of Seattle Through The Anti-War Movement, p.42 (em inglês)
  3. a b Black Bloc: "Fazemos o que os outros não têm coragem de fazer". Fórum, 20 de agosto de 2013.
  4. a b Infoshop.org Autonomia and the Origin of the Black Bloc
  5. A agência Reuters se referiu a "algo em torno de 2.000 militantes conhecidos como o 'black block' [sic]". "German organizers condemn violence at anti-G8 demos". Reuters, 3 de junho de 2007.
  6. a b K, 2001, "Being black block". In On Fire: The Battle of Genoa and the Anti-capitalist movement, p. 31-5. London: One Off Press, 2001.
  7. a b Strana violenza: se il potere ha paura, scatena i black bloc
  8. "Quebec police admit they went undercover at Montebello protest", 23 August 2007. Página visitada em 29 de janeiro de 2014.
  9. "Quebec police admit agents posed as protesters", 23 de agosto de 2007.
  10. Black Blocs for Dummies
  11. Surplus: Terrorized Into Being Consumers, documentário de Erik Gandini (2003). Disponível com legendas em português em youtube.com/watch?v=YbpmWeymWWw#t=12
  12. German autonomen: morality police Louis Proyect: The Unrepentant Marxist.
  13. Artigo, publicado em 09/10/2013 no Jornal "O Globo", sobre o histórico na mídia de ações dos Black Blocs - Último parágrafo.
  14. Gothenburg Riots: An Eye witness Reports
  15. A ordem liberal e a baixaria. A manobra do governo italiano, permitindo que fossem devastados bairros inteiros de Gênova, visava a responsabilizar pela violência centenas de organizações não violentas. A tentativa fracassou, mas o preço foi alto: um morto e 600 feridos... Por Susan George. Biblioteca Diplô, agosto de 2001
  16. Fórum Social pede suspensão da cúpula devido à morte do ativista; número de prisões chega a 69. De luto, 70 mil protestam contra o G-8. Por Leonardo Cruz. Folha de S. Paulo, 22 de julho de 2001.
  17. A Personal Account of the G8 Demonstrations in Genoa July 2001
  18. GENOVA G8: Há 10 anos, o mundo assistia ao "inferno". Radio Italiana.
  19. Une brèche dans le mur de la honte (vendredi 20 avril 2001). Por Jesse Fox Mayshark. CMAQ, 20 de abril de 2001.
  20. Busting the Barricades: Canadians Rise Up Against FTAA at Quebec Summit. Por John Tarleton, abril de 2001.
  21. O Black Bloc está na rua. Nem grupo nem movimento, essa tática de guerrilha urbana anticapitalista pegou carona nos protestos atuais. Como esse fenômeno pode impactar o Brasil. Por Piero Locatelli e Willian Vieira. Carta Capital, 21 de agosto de 2013.
  22. Davos, Londres, Praga, Gotemburgo: protestos explodem no rastro de Seattle. Ação do grupo Black Bloc foi semelhante ao que acontece agora nos protestos no Brasil. O Globo, 11 de outubro de 2013.
  23. G8, Fournier: Sembrava una macelleria. La Repubblica, 13 de junho de 2007.
  24. Diaz-choc, l’agente: la polizia si decida a chiedere scusa. Libre idee, 17 de abril de 2012
  25. L'incubo della Diaz, botte calci e sangue. ANSA, 10 de julho de 2011.
  26. Gênova-G8 - O julgamento dos acontecimentos da Escola Diaz. Mídia independente, 18 de maio de 2006.
  27. The Genova G8 Diaz trial - Chilean night. Por Oscar Beard. Indymedia 21 de janeiro de 2006
  28. Guadagnucci: "La giustizia non cancella la vergogna". Il reduce della Diaz: gli arresti dei poliziotti non riabilitano uno Stato assente. Por Wanda Valli. La Repubblica, 4 de janeiro de 2014
  29. Sobre o filme Diaz – Não limpe esse sangue (2012)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Leitura complementar[editar | editar código-fonte]


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