Esquerda política

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Na Ciência política, a esquerda é considerada a posição que geralmente implica o apoio a uma mudança do enfoque social, do governo em exercício, com o intuito de criar uma sociedade mais igualitária. O termo surgiu durante a Revolução Francesa, em referência à disposição dos assentos no parlamento; o grupo que ocupava os assentos da esquerda apoiavam as mudanças radicais da Revolução, incluindo a criação de uma república ou o parlamentarismo da Inglaterra e a secularização do Estado.1 Um conceito distinto de esquerda originou-se com a Revolta dos Dias de Junho em 1848. Os organizadores da Primeira Internacional se consideravam os sucessores da ala esquerda da Revolução Francesa. O termo "esquerda" passou a definir vários movimentos revolucionários na Europa, especialmente socialistas, anarquistas2 3 e comunistas. O termo também é utilizado para descrever a social democracia e o liberalismo social (diferente do liberalismo econômico, considerado atualmente de direita).4

Índice

História do termo [editar]

Na política, o termo esquerda deriva da Revolução Francesa: quando, a 28 de Agosto de 1789, se discutiu na Assembleia Nacional Constituinte a questão do direito de veto do rei, os deputados que se opunham à proposta sentaram-se à esquerda do assento do presidente, iniciando-se o costume dos deputados radicais do Terceiro Estado se identificarem com essa posição. Ao longo do século XIX, a principal linha divisória entre esquerda e direita na França era o apoio à República ou à Monarquia.1 A República em si era o menor denominador comum da esquerda francesa. A Revolta dos Dias de Junho durante a Segunda República foi a tentativa da esquerda de afirmar-se após a Revolução de 1848, mas poucos da população (ainda predominantemente rural) apoiaram tal esforço.

Após o golpe de estado de Napoleão III em 1851 e o subsequente estabelecimento do Segundo Império, a esquerda foi excluída da arena política e se focou na organização dos trabalhadores e o trabalho dos ideólogos pensadores sobre essas classes. O crescente movimento operário francês consistia em diversas vertentes segundo os diversos pensadores e ideólogos; o marxismo começou a se rivalizar com o republicanismo radical e o "socialismo utópico" de Saint-Simon e Charles Fourier e o anarquismo de Proudhon, com o qual Karl Marx havia se desiludido. A maioria dos católicos praticantes continuaram a votar de maneira conservadora, enquanto que os grupos que foram receptivos à revolução de 1789 começaram a votar nos movimentos socialistas. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, muitos esquerdistas, sociais liberais, progressistas e sindicalistas foram influenciados pelos trabalhos de Thomas Paine, que introduziu o conceito de igualitarismo baseado em ativos, que teoriza que a igualdade social é possível através da redistribuição dos recursos, geralmente sob a forma de capital concedido aos indivíduos que atingirem a maioridade.

A partir da segunda metade do século XIX, a esquerda ideológica iria se referir cada vez mais a diferentes correntes do socialismo e do comunismo. Particularmente influente foi a publicação do Manifesto Comunista por Marx e Friedrich Engels em 1848, que afirmava que a história de todas as sociedades humanas existentes até então era a história da luta de classes. Ele previa que uma revolução proletária acabaria por derrubar a sociedade burguesa e, através da abolição da propriedade privada, criaria uma sociedade sem classes, sem Estado, e pós-monetária. A Associação Internacional dos Trabalhadores (1864-76), às vezes chamada de Primeira Internacional, reuniu representantes de diversos países, e de diferentes grupos de esquerda e organizações sindicais. Alguns contemporâneos de Marx defendiam ideias semelhantes, mas não concordavam com sua visão de como chegar a uma sociedade sem classes e sem Estado. Após a cisão entre os grupos ligados a Marx e Mikhail Bakunin na Primeira Internacional, os anarquistas formaram a Associação Internacional dos Trabalhadores.5

A Segunda Internacional (1888-1916) acabou sendo dividida pela questão do apoio ou oposição à Primeira Guerra Mundial. Aqueles que se opuseram à guerra, como Lênin e Rosa Luxemburgo, voltaram-se mais à esquerda do que o resto do grupo. Fora deste embate, o movimento socialista dividiu-se em social-democratas e comunistas. Na década de 1960, com as convulsões políticas da ruptura sino-soviética e de Maio de 1968 na França, os pensadores da "Nova Esquerda" se definiram como mais críticos, do discurso marxista e marxista-leninista (rotulado de "velha esquerda").

Nos Estados Unidos após a Reconstrução, o termo esquerda foi utilizado para descrever os sindicatos, o movimento pelos direitos civis e as manifestações pacifistas.4 Em tempos mais recentes, nos Estados Unidos, os termos esquerda e direita são políticas concretas de democrata e republicano ou liberal e conservador, respectivamente.

Na definição de Norberto Bobbio, ser de esquerda é lutar pela igualdade. Neste ponto, opõe-se à direita, comumente defensora da ideia de que, em qualquer sociedade, há a tendência natural a surgirem elites políticas, econômicas e sociais. Roderick Long descreve a esquerda como uma "preocupação pelos direitos dos trabalhadores, pela plutocracia, pelo feminismo e vários tipos de igualdade social".6

O pensamento de esquerda admite a possibilidade da quebra da lei estabelecida quando esta se opõe aos interesses sociais, pois a justiça social se sobrepõe à ordem. No pensamento de direita, o conceito de justiça social não se coloca, já que a desigualdade é inerente a uma ordem natural, que se transpõe para as relações econômicas e sociais, sendo finalmente, consagrada pela jurídica.

Vertentes [editar]

O espectro da esquerda política varia da centro-esquerda à extrema-esquerda. O termo centro-esquerda descreve uma posição ligada à política tradicional. Os termos extrema-esquerda e ultra-esquerda se referem a posições mais radicais, como os grupos ligados ao trotskismo e comunismo de conselhos. Dentre os grupos de centro-esquerda estão os social-democratas, progressistas e também alguns socialistas democráticos e ambientalistas (em particular eco-socialistas), esses no sentido tradicional. O centro-esquerda aceita a alocação de recursos no mercado de uma economia mista, com um setor público significativo e um setor privado próspero.

O conceito de esquerda política, não deve ser confundido com o de "esquerdismo", termo usado por Lênin no ensaio Esquerdismo, doença infantil do comunismo (1920) para designar as correntes oposicionistas dentro Terceira Internacional, que defendiam a revolução pela ação direta do proletariado, sem a mediação de partidos políticos e sindicatos ou que recusavam a via parlamentar, as alianças do partido comunista com outros partidos progressistas visando a participação em "eleições burguesas". Quase nenhum dos partidos de esquerda atualmente existentes é "esquerdista" nesse sentido.

A esquerda e os costumes [editar]

Integrantes da esquerda costumam ser liberais nos costumes, alinhando-se a alguns grupos libertários de direita. Tanto liberais de esquerda como de direita defendem a regulamentação da união civil homossexual, a descriminalização do aborto, a legalização das drogas e outros temas controversos.

Há, porém, aqueles que, embora defendam propostas de esquerda em relação à economia e à política, são conservadores nos costumes. No Brasil, a esquerda ligada à igreja católica ou às igrejas evangélicas tende a assumir posições conservadoras com relação aos costumes, como a ex-governadora do Rio de Janeiro, Benedita da Silva, e outros ligados a movimentos religiosos e sociais.

Partidos e agremiações políticas de esquerda ou centro-esquerda [editar]

Brasil [editar]

Atualmente, existem vários partidos que se declaram de esquerda no Brasil, não sendo necessariamente seu posicionamento real, tais como PT, PC do B, PCB, PDT, PSB, PSOL, PSTU, PCO e PPS, dentre outros.

São comumente classificados como esquerda ou centro-esquerda os partidos de orientação declaradamente socialista, como PT, PC do B, PSOL, PDT, PSB e PPS, entre outros. São partidos de extrema-esquerda o PCB, o PSTU e o PCO. Existe polêmica em relação à categorização do PSDB, eis que seus defensores dizem tratar-se de um partido de centro-esquerda, contudo, especialmente a partir do governo Fernando Henrique Cardoso, que aplicou várias medidas neoliberais - e, após este período, com a polarização com o PT, hoje seu principal opositor - o partido passou a ser considerado por muitos como de centro-direita.

Tendo em vista os governos Lula e Dilma (PT) terem realizado alianças com diversos partidos não-esquerdistas para garantirem sua governabilidade - entre eles PMDB, PR (extinto PL), PP, PTB, PSC e PTC (antigo PRN) -, seus críticos mais à esquerda têm sustentado que se tratam de governos de direita ou centro-direita. Ao mesmo tempo, o PPS vem se utilizando de politicas direitistas após alianças com o antigo PFL (atual DEM) e com o PSDB, desvencilhando-se da sua origem de esquerda.7

Estados Unidos da América [editar]

Com características políticas tradicionais, e pragmáticas, o Partido Democrata, embora não possa se classificar exatamente como um partido de esquerda, mas sim de centro-esquerda, está atualmente à esquerda do Partido Republicano, por defender mais o Estado Providência, os direitos civis das minorias e o combate ao aquecimento global (no entanto, durante muito tempo os Democratas também foram o partido dos conservadores sulistas, que por vezes defendiam posições à direita dos Republicanos). À esquerda do Partido Democrata, temos o Partido Verde, o Partido Socialista e o Partido Comunista.

Portugal [editar]

Rússia [editar]

Ver também [editar]

Referências

  1. a b KNAPP, Andrew e WRIGHT, Vincent (2006). The Government and Politics of France. Routledge.
  2. BROOKS, Frank H. (1994). The Individualist Anarchists: An Anthology of Liberty (1881–1908). Transaction Publishers. p. xi. "Geralmente considerada uma ideologia de extrema-esquerda, o anarquismo sempre incluiu um esforço significativo de individualismo radical…"
  3. Michael Schmidt, Lucien van der Walt, Black Flame: The Revolutionary Class Politics of Anarchism and Syndicalism (Counter-Power vol. 1) (AK Press, 2009), p. 128, "o anarquismo é uma corrente intelectual e política coerente que remonta dos anos 1860 e da Primeira Internacional, e é parte da tradição operária e de esquerda." ISBN 978-1-904859-16-1
  4. a b Van Gosse, The Movements of the New Left, 1950-1975: A Brief History with Documents, Palgrave Macmillan, 2005, ISBN 9781403968043
  5. Marshall, Peter. "Demanding the Impossible — A History of Anarchism" p. 9. Fontana Press, Londres, 1993 ISBN 978-0-00-686245-1
  6. Long, Roderick. T. "An Interview With Roderick Long".
  7. [1]