Democracia cristã

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Democracia cristã, tal como o nome indica, é um pensamento, ideologia e movimento político que defende uma democracia baseada nos ensinamentos e princípios cristãos, tais como a liberdade, a solidariedade e a justiça. Ela é democrática na medida em que desde a sua origem, aderiu sinceramente aos ideais da democracia pluralista do tipo ocidental. E é cristã porque representa uma tentativa permanente de defesa e aplicação dos princípios e valores cristãos na vida política nacional e internacional. Tal como os outros grandes movimentos políticos, as prioridades e políticas postos em prática pelos partidos democratas cristãos podem variar consideravelmente em diferentes países e em diferentes tempos.

Há quem enquadre a Democracia Cristã, no plano económico e social, exclusivamente à Doutrina social da Igreja Católica. Este enquadramento é incorrecto e não corresponde à realidade porque, como por exemplo, muitos partidos democratas cristãos são constituídos por ramos católicos e protestantes que coexistem harmoniosamente. Existem inclusivamente alguns partidos que têm como matriz as Igrejas protestantes (como por exemplo a CDU da Alemanha que tem como matriz a Igreja Luterana).

A Igreja Católica, apesar de ser a principal fonte deste pensamento político, não impõe qualquer filiação partidária específica aos seus fiéis, optando por se auto-excluir das lutas políticas ao poder. Ela, devido à sua missão evangelizadora e à sua natureza essencialmente religiosa, opta por um papel social interventino, preferindo combater as injustiças e moralizar as pessoas, incluindo os políticos.

Os partidos democratas cristãos agrupam-se na Internacional Democrata Cristã (IDC), também chamada de Internacional Democrata Centrista (IDC), a segunda maior organização política internacional. A IDC é subdividido em vários grupos políticos regionais. Os partidos democratas cristãos da Europa também agrupam-se no "Partido Popular Europeu", o grupo regional europeu da IDC, e é o maior grupo político no Parlamento Europeu. Os partidos democratas cristãos da América também agrupam-se na "Organização Democrata Cristã da América", também um grupo regional da IDC.

Características atuais[editar | editar código-fonte]

A Democracia Cristã combate o Estado forte e centralizado por isso ela é regionalista e municipalista, apoiando a descentralização e a autonomia das províncias e dos concelhos. Ela também é internacionalista, defendendo a solidariedade e a cooperação entre povos. Defende também a paz no mundo, o direito à independência e segurança dos povos face à opressão e a dignidade humana, ajudando por isso o desenvolvimento dos povos menos desenvolvidos e mais desfavorecidos.

A Democracia cristã incorpora ideias dos liberais, conservadores e socialistas que têm em comum a adopção e a defesa dos princípios cristãos e da moral cristã. Mas ela apresenta também grandes diferenças do liberalismo, do conservadorismo e do socialismo, bem como do fascismo e do nacionalismo.

A Democracia Cristã (DC) tem algumas semelhanças com o Conservadorismo visto que ambos defendem um conjunto semelhante de valores morais considerados[quem?] como tradicionais, o desenvolvimento evolucionário e gradual da sociedade, a implementação da lei e da ordem e a rejeição do comunismo.[carece de fontes?] No entanto, diverge com esta forma de pensamento na medida em que a DC pretende superar e reformular o capitalismo através de uma política defensora da justiça social e adopta um posição de abertura à mudança.

A DC tem aspectos comuns com o liberalismo porque ela defende os direitos humanos, a liberdade e a iniciativa privada e individual. Mas diverge dele por rejeitar a tolerância dos liberais em assuntos ético-morais, como por exemplo a liberalização e facilitação do aborto e da eutanásia, a laicização, e a preservação do capitalismo pelos liberais.

Tem também aspectos comuns ao Socialismo Democrático visto que ambos defendem a democracia e a justiça e solidariedade social, apoiando por isso as instituições democráticas, as eleições livres e honestas, a Previdência social, a intervenção do Estado na economia se for necessário, o apoio aos mais desfavorecidos, a dignificação do trabalho e a diminuição da pobreza. As principais diferenças entre estes dois pensamentos residem no facto do socialismo ser basicamente de inspiração materialista e de tendência colectivista, querendo construir um sociedade sem classes, ao passo que a Democracia Cristã tem inspiração espiritual, pretende caminhar no sentido do personalismo e suporta a economia social de mercado.

A Democracia Cristã é antagónica ao Comunismo. O último defende o materialismo dialéctico, o transpersonalismo, a ditadura do proletariado e uma sociedade sem classes em que todos partilham equitativamente a riqueza e os bens enquanto que o primeiro defende a filosofia do ser, a fé em Deus, a concepção da verdade revelada, o personalismo, a democracia e a economia social de mercado democraticamente estruturada e encaminhada para a realização de uma sociedade personalista onde todos conseguem alcançar a propriedade privada.

Ela pretende implantar na sociedade princípios éticos e valores morais cristãos, como a caridade, a partilha e a solidariedade.

Normalmente, os democratas cristãos não adoptam uma posição secular, "indiferente" e liberal de que todas as religiões são equivalentes. Estes partidos tendem sobressair, glorificar e preservar a tradição cristã que o país deles herdou e tendem afirmar e adoptar os princípios éticos e morais cristãos. Adoptam o Cristianismo como a religião oficial do país e normalmente dão privilégios à Igreja Cristã, mas defendem também a liberdade religiosa, não desprezando as outras religiões.

A Democracia cristã é uma força política significante na Europa e na América Latina, mas é menos comum e popular em outros continentes. Os partidos democratas cristãos da América Latina costumam suportar ideias ecomómicas da esquerda (mais "socialista") enquanto que os partidos da Europa tendem suportar ideias económicas da direita (mais "liberal").

Os democratas cristãos são geralmente conservadores em assuntos sociais. Eles opõe-se à prática do aborto, da eutanásia e do casamento de pessoas de sexo igual, mas alguns partidos democratas cristãos, recentemente, aceitaram a legalização destas 3 práticas (condenadas pela Igreja Cristã), embora com limites, devido à pressão feita pelos seus eleitores e pela sociedade altamente secular em geral.

Esta ideologia de inspiração cristã é muito diferente de Teocracia. Democracia cristã defende que o povo deve governar a sua própria Nação, mas orientado pelos princípios cristãos, por isso eles defendem que a democracia é o melhor sistema político para governar um Estado. Em contrapartida, a Teocracia defende que o povo, ignorante e facilmente tentado pelo Diabo e pelas forças do mal, é preciso ser orientado e controlado pelo clero que governa, segundo eles dizem, segundo o desejo de uma divindade.

A seguir, estão, resumidamente, algumas características deste pensamento político cristão:

  • É defensor da democracia, dos direitos humanos, do Cristianismo e dos princípios defendidos por esta religião e pretende implantá-los na sociedade a ponto de prentender subordinar o Estado e a vida social à moral cristã;
  • Reconhece a autonomia da Igreja face ao Estado;
  • É defensor da colocação do Estado ao serviço do Homem (e não o Homem ao serviço do Estado);
  • É defensor do princípio do personalismo, do princípio da solidariedade e do princípio da subsidiariedade (ou princípio da livre associação ou da sociedade civil);
  • Reconhece o papel das comunidades intermédias e combate o centralismo estatal;
  • É defesor da família como célula fundamental da sociedade;
  • É defensor da liberdade, nomeadamente a de ensino, a de religião e a de escolha dos sistemas sociais;
  • É defensor do humanismo económico, pretendendo implantar nas relações socio-económicas os princípios e valores ético-morais cristãos e defendendo que é a economia que serve o Homem (e não o Homem a servir a economia e o lucro);
  • É defensor da reformulação do capitalismo, apoiando por isso uma profunda reforma na empresa, como por exemplo a promoção da dignidade do trabalho, da participação dos trabalhadores na gestão da empresa e da distinção do lucro (uma legítima renumeração do capital investido na empresa) e do sobrelucro (os democratas cristãos defendem que este "lucro extra" deve ser distribuído equitativamente aos trabalhadores).

História[editar | editar código-fonte]

A expressão "Democracia Cristã" foi usada pela primeira vez em França, no ano de 1871, pelo então Bispo de Lyon, Lamourette. Naquela altura, este bispo católico não pretendia exprimir com este conceito uma forma de organização política dos cristãos, mas sublinhar o contraste entre os fiéis de uma nova Igreja democrática e popular e de uma Igreja aristocrática e elitista oriunda dos velhos tempos, onde a França ainda tinha como sistema político uma monarquia absoluta.

A Democracia Cristã tem as suas raízes em S. Tomás de Aquino porque foi ele o primeiro que lançou as bases de uma doutrina que defendia uma origem popular do poder, ao afirmar que "todo o poder vem de Deus através do povo".

Este grande teólogo da Igreja Católica defendia a colocação do Estado ao serviço do Homem, dizendo até que "a felicidade do Homem dependia da ordenação do próprio Estado".

Apesar das poucas contribuições de S. Tomás de Aquino, este pensamento político só apareceu e tomou forma em meados do século XIX, quando um número significante de pensadores católicos, incluindo alguns sacerdotes, apoiaram e aderiram publicamente aos regimes liberais fundamentados numa Constituição. Em nome da doutrina cristã, eles começaram a colocar-se do lado dos direitos do Homem e contra o absolutismo do Antigo Regime.

Após a formação deste específico pensamento político cristão, surgiram também rapidamente os primeiros partidos católicos em países da Europa, nomeadamente na França (o primeiro partido deste tipo foi fundado em 1844 por Montalembert) e na Alemanha (foi criado em 1848 o Partido Católico). Estes partidos tinham objectivos semelhantes que eram a luta pelos direitos da Igreja Católcia e pela liberdade religiosa e de ensino e a defesa contra o radicalismo protestante. Nos países onde o catolicismo se predominava ao ponto de confundir-se muitas vezes a Igreja e o Estado, como era o caso de Portugal, Espanha e Itália, não se verificaram ainda o aparecimento destes partidos de inspiração cristã. Na maioria dos casos, eles só apareceram nos inícios do século XX nestes países profundamente católicos.

A rápida evolução económica e social que a Europa experimentou ao longo século XIX, como consequência da industrialização, conduziu o operariado a condições de vida degradante. A resposta da Igreja Católica a estes problemas sociais surgiu oficialmente com a encíclica "Rerum Novarum" do Papa Leão XIII (1891). Este documento papal propôs pela primeira vez soluções para resolver este grande problema que, segundo a Igreja, era a consequência do capitalismo liberal e da falta de princípios éticos e de valores morais nas relações sócio-económicas da época. Por isso, estas soluções estavam essencialmente no plano ético-religioso, formuladas segundo os princípios e ensinamentos cristãos expressos no Evangelho. Muitos dizem[quem?] que este documento foi promulgado principalmente para travar os movimentos socialistas que espalharam rapidamente por toda a Europa e para criticar o liberalismo económico.

Quatro anos após a promulgação desta encíclica, em 1895, surgiu o primeiro sindicato cristão na Alemanha. A partir deste movimento sindical, nasceu vários partidos cristãos de massas, intrinsecamente populares, com forte apoio sindical e uma grande base eleitoral. Eles passaram a defender o governo para o povo, a representação nacional e proporcional, a descentralização, a autonomia das províncias, a organização de uma economia de providências e o sindicalismo. Entre estes partidos de massas podemos destacar o Partido Popular Italiano (italiano: Partito Popolare Italiano), fundado em 1919 pelo padre católico italiano Don Luigi Sturzo e considerado por muitos[quem?] como um dos primeiros partidos democrata-cristãos assente num corpo doutrinal articulado. O Partido Popular Italiano (PPI) defendia abertamente, além dos princípios cristãos e dos direitos da Igreja Católica, os valores da democracia pluralista. Por esta razão, o PPI foi declarado ilegal pelo regime fascista de Mussolini em 1925.

A posição da Igreja Católica foi clarificada e reforçada na encíclica Quadragesimo Anno, promulgada pelo Papa Pio XI em 1931. Depois da promulgação desta encíclica, a Democracia cristã, anteriormente um pensamento essencialmente católico, passou a desenvolver-se rapidamente e foi-se tornando num pensamento e movimento político cristão universal. Na Alemanha, por exemplo, o Partido Democrata Cristão emergiu-se como um grupo político composto por Católicos Bávaros, mas passou também a defender os interesses da população protestante. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Democracia cristã tornou-se a maior e a mais unida voz dos conservadores alemães que destestavam o regime nazi de Hitler.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Democracia Cristã tornou-se tão popular no Mundo cristão, principalmente na Europa e na América Latina, que muitos partidos católicos ou de inspiração cristã passaram também a incluir os seus ideais nos programas socio-políticos deles. [carece de fontes?] Devido a esta vaga de popularidade, mas também pelo papel que os democrata-cristãos desempenharam na resistência à ocupação nazi durante a Segunda Guerra Mundial, ao desaparecimento dos partidos da direita tradicional e ao medo do comunismo a seguir à Guerra, os partidos democrata-cristãos conquistaram uma posição sólida e durável no panorama político da Europa Ocidental. Eles contribuíram para a manutenção da democracia pluralista nesta parte do Mundo, evitando assim a expansão do comunismo que já se tinha consolidado na Europa Oriental.

Em muitos países protestantes, os partidos democratas cristãos foram fundados por conservadores protestantes, em reacção às políticas liberais dos seus países e das suas igrejas. Estes partidos são normalmente caracterizados por partidos da direita. [carece de fontes?]

Além das encíclicas papais, obras de alguns autores modernos, como Emmanuel Mounier, Étienne Gilson e Jacques Maritain, contribuiu para a formação da ideologia democrata cristã.

Mas, com o passar dos tempos, a grande maioria dos partidos democrata-cristãos começaram a sentir muitas dificuldades, causados essencialmente pela evolução da Igreja Católica e a secularização da sociedade ocidental. A Igreja Católica, depois do Concílio do Vaticano II, reconheceu a legitimidade do pluralismo político dos cristãos desde que as ideias políticas destes não sejam contrárias aos ensinamentos do Cristianismo. Este reconhecimento foi uma das causas do declínio dos conflitos entre a Igreja e o Estado e isto deixou os partidos de inspiração religiosa sem causas, tornando-os cada vez mais semelhantes com os outros partidos políticos. Tendo perdido a sua especificidade confessional, eles passaram a ocupar o espaço dos partidos conservadores que se ausentaram do espectro político.

Apesar destas dificuldades, os partidos democrata-cristãos e as características principais da sua ideologia conseguiram sobreviver à custa de uma evolução dos seus programas socio-políticos. Estes novos programas, sempre fiel aos princípios fundamentais defendidos pela Democracia Cristã, procuraram responder com maior precisão e eficácia às necessidades e desafios das sociedades modernas, seculares e contemporâneas que estão constantemente em evolução.

Democracia cristã em Portugal[editar | editar código-fonte]

O único partido político português que possui certas características da Democracia cristã é o Centro Democrático Social - Partido Popular (CDS-PP). Este partido foi fundado em 1974, logo após a Revolução dos Cravos, sob a liderança de um destacado democrata cristão, Diogo Freitas do Amaral. Com ele estava Adelino Amaro da Costa, co-fundador do referido Centro Democrático Social (CDS) e ex-Ministro da Defesa, que foi também um político democrata cristão proeminente. Foi graças à acção conjunta de Freitas do Amaral e de Amaro da Costa que o CDS, durante a década de 70, obteve os seus resultados eleitorais mais expressivos, tornando-se num dos partidos mais importantes da democracia portuguesa.

Mas, um facto curioso é que o CDS-PP, apesar das suas características democrata-cristãs, não é membro da Internacional Democrata Centrista, que reúne os partidos democrata-cristãos e os partidos de ideologia de centro-direita e de centro (ao contrário do CDS, o PSD é membro desta organização política internacional)[1] . Actualmente, o CDS é só membro do Partido Popular Europeu e da União Internacional Democrata[2] .

Também o Partido da Democracia Cristã (PDC) existiu em Portugal desde 1974, tendo contudo sido ilegalizado durante o período do chamado PREC - Processo Revolucionário em Curso, na sequência dos acontecimentos do dia 11 de Março de 1975. Ainda reapareceu na cena política portuguesa, após o 25 de Novembro de 1975, mas viria a ser extinto em 2004. Uma das principais figuras do PDC foi Sanches Osório.

Nas eleições legislativas de 2005, o CDS-PP obteve apenas 12 cadeiras na Assembleia da República (AR). Nas eleições legislativas de 2009, o CDS-PP conquistou 21 deputados, conseguindo assim uma grande subida e tornando-se na terceira força política na AR (o número total de deputados na AR é de 230). Nas eleições legislativas de 2011, o partido subiu o seu número de deputados de 21 para 24, acabando, posteriormente, por formar governo com o Partido Popular Democrático

Democracia cristã no Brasil[editar | editar código-fonte]

No Brasil existe o PSDC, oriundo de uma antiga facção do PDC que não aceitou a fusão com o Partido Democrático Social. Outro partido com fortíssima influência democrata-cristã é o PHS.

Democratas Cristãos Famosos

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]