Restauracionismo

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Restauracionismo é a postura histórico-teológica presente em denominações cristãs que acreditam que o cristianismo histórico apostatou em algum ponto de sua existência, sendo necessário restaurar o cristianismo primitivo da era apostólica.1

Movimentos primitivistas incluem os hussitas,2 anabatistas,2 inseridos no contexto da Reforma Radical, os puritanos2 têm sido descritos como exemplos de restauracionismo. A Reforma Radical foi uma resposta do século XVI em que se acreditava ser tanto a corrupção na Igreja Católica Romana e do movimento de expansão do Magistério Protestante liderado por Martinho Lutero e muitos outros. Começando na Suíça, da Reforma Radical nasceu muitos grupos anabatistas em toda a Europa. Movimentos bem restauracionistas como o Mormonismo, o Adventismo e as Testemunhas de Jeová procuravam restabelecer uma igreja visível e restaurada conforme novas perspectivas de seus líderes.

Embora a presença do restauracionismo seja prevalente no seio protestante, há instâncias católicas de restauracionismo, como a Igreja Vétero-Católica e o Sedevacantismo3 .

Pressuposto histórico-teológico[editar | editar código-fonte]

Parte de uma série da
História da teologia cristã
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Contexto

Quatro marcas da Igreja
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História do cristianismo
Teologia · Governo eclesiástico
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Escatologia · Cristologia · Mariologia
Cânon bíblico: Deuterocanônicos e Livros apócrifos

Visões teológicas da história

De Civitate Dei · Sucessão Apostólica
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Ortodoxia radical · Jean-Luc Marion
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A perspectiva de restauração procura restaurar tudo que Jesus Cristo havia estabelecido porém fora perdido com a Grande Apostasia, diferente do Protestantismo magisterial oriundo da tentativa de reforma da Igreja Católica Romana.

O historiador de teologia Steven L. Ware define "restauracionismo é um complexo de ideias que, implícito e comum a todo o Protestantismo (...) é essencialmente sinônimo de primitivismo." Algum tipo de corrupção teria acontecido no cristianismo e os ensinos dos apóstolos teriam sido influenciados por práticas pagãs.4

Também o restauracionismo é chamado de primitivismo cristão. "O primitivismo persiste em um envolvimento mínimo da ação de Deus na história (que se restringiria à vida de Cristo e geralmente ao I século da atividade apostólica) e assim coloca a Igreja do Novo Testamento no I século como modelo para a prática contemporânea."5

Adicionalmente, igrejas de origem norte-americana referem-se a si mesmas especificamente como Restauracionista ou Movimento Restauracionista Stone-Campbell, sendo as principais denominações a Igrejas de Cristo, os Discípulos de Cristo e os Cristadelfianos.6

Todavia, muitos adeptos da doutrina restauracionista não se identificam como protestantes, católicos ou ortodoxos, mas sim com a igreja primitiva. Em contrapartida, vários protestantes se veem como continuidade ininterrupta, histórica ou marginal (como os batistas landmarkistas), do cristianismo primitivo.

Contraste com outras doutrinas[editar | editar código-fonte]

Outras doutrinas sobre a história da Igreja são a doutrina da sucessão apostólica e o Sucessionismo Marginal. Na doutrina da sucessão apostólica, adotada pela Igreja Católica Romana, Igreja Anglicana e Igreja Ortodoxa, a legitimidade denominacional é fundada na sucessão do clero. Enquanto no Sucessionismo Marginal, defendido pelo Landmarkismo2 , o cristinismo puro teria sobrevivido à história através de grupos pequenos e marginais, normalmente tidos como hereges.

Grande Apostasia[editar | editar código-fonte]

A doutrina restauracionista prega que durante a história houve uma Grande Apostasia no Cristianismo. Para alguns, ocorreu em um período específico, como após a morte do último apóstolo de Cristo, ou o reinado de Constantino, enquanto para outros, como protestantes em geral, a apostasia se implantou gradativamente e a longo prazo durante os séculos da era cristã.

História da doutrina Restauracionista[editar | editar código-fonte]

Restauracionismo na Europa Continental[editar | editar código-fonte]

Durante a Idade Média movimentos populares como os valdenses, franciscanos, hussitas pretendiam restaurar a simplicidade do cristianismo original, vontade expressa nas profecias de Joaquim de Fiori.

A própria Reforma foi baseada em uma ideologia restauracionista. Lutero proclamava em seu O cativeiro babilônico da Igreja o fim de uma era de corrupção e retorno ao cristianismo neo-testamentário. Heinrich Bullinger defendia que as ideias dos reformadores não eram novidade, mas sim doutrinas olvidadas ou corrompidas7 . Todavia, a reforma magisterial (Luteranismo, Calvinismo e Anglicanismo) via-se uma continuação do cristianismo histórico, aceitando a validade dos canônes dos primeiros concílios ecumênicos e a literatura patrística desde que estivessem de acordo com as Escrituras. O ideal era reformar a Igreja, rejeitando práticas e doutrinas corrompidas, mas manter práticas que, mesmo não estando presente na Bíblia, não estivesse em oposição a ela.

Diferente dos reformadores magisteriais e partindo a uma postura que primou ser chamada de Reforma Radical os anabatistas, socinianos e schwelkenfelders rejeitaram qualquer necessidade de continuação histórica, mas sim restaurar suas perspectivas do cristianismo primivito. Para eles o ideal seria reconstruir a igreja primitiva, praticar somente o que fosse mencionado nas Escrituras, sem necessidade de aderir aos preceitos históricos dos concílios e literatura patrística.

Mesmo entre os reformadores radicais a doutrina restauracionista não foi muito popular, a partir do século XVII a perspectiva histórico-teológico preferida foi a da sucessão secreta ou marginal. Essa doutrina emergiu baseada em escritos de Thieleman 8 que retratava os mártires do cristianismo e a perseguição dos anabatistas, e Gottfried Arnold que argumentava que ao longo da história do cristianismo houve grupos marginais tão legítimos quanto as igrejas estabelecidas9 .

Restauracionismo Anglo-Americano[editar | editar código-fonte]

No século XIX houve a ressurgência da doutrina restauracionista nos Estados Unidos e Inglaterra. Nesse último país o pastor presbiteriano Edward Irving proclamava uma restauração espiritual do cristianismo primitivo, enquanto John Nelson Darby e outros irmãos de Plymouth pretendiam restaurar um cristianismo simples e adenominacional, usando uma interpretação dispensacionalista da história.

Nessa época, durande o Segundo Grande Despertar nos Estados Unidos emergiram movimentos restauracionistas, primeiro na fronteira agrícola na região dos Apalaches, onde os Campbell e Barton Stone pregavam um cristianismo não-credal e sem barreiras denominacionais. Posteriormente movimentos como o Mormonismo, o Adventismo e as Testemunhas de Jeová procuravam restabelecer uma igreja visível e restaurada conforme novas perspectivas de seus líderes10 .

Testemunhas de Jeová[editar | editar código-fonte]

Charles Taze Russell

As Testemunhas de Jeová creem que sua organização foi prevista na Bíblia como restauração da igreja primitiva para proclamar a mensagem original do cristianismo até a iminente volta de Jesus Cristo[carece de fontes?]. Em 1870, um grupo de estudos bíblicos liderados por Charles Taze Russell formaram o que acabou por ser chamado de Estudantes da Bíblia. Russell não considerou-se ser o fundador de uma nova religião, mas que foi usado como um elemento restaurador do verdadeiro cristianismo depois da Grande Apostasia que teria sido predita por Jesus e pelo apóstolo Paulo.

Uma biografia de Russell, publicada logo após sua morte, explicou: “Ele não fundou uma nova religião, e nunca afirmou ter feito isso. Restabeleceu as grandes verdades ensinadas por Jesus e pelos Apóstolos, e voltou a luz do século XX sobre elas. Não alegou ter revelação especial de Deus, mas sustentou que era o tempo devido de Deus para a Bíblia ser entendida e que, estando ele plenamente consagrado ao Senhor e ao Seu serviço, teve permissão de entendê-la...”11 .12

As Testemunhas de Jeová acreditam que as outras religiões surgiram a partir de uma Grande Apostasia da fé original em pontos importantes, e que a fé original pode ser restaurada através de uma interpretação literal e geral da Bíblia, com um compromisso sincero de seguir seus ensinamentos. Elas continuaram a desenvolver doutrinas que consideram ser uma restauração melhorada da Igreja primitiva. Se concentraram em diversos pontos-chave doutrinários que consideram um retorno ao cristianismo primitivo, derivados da sua interpretação da Bíblia, incluindo a ênfase maior sobre o uso de Jeová como o nome pessoal de Deus; a rejeição do trinitarianismo, a rejeição da definição de inferno como um lugar de tormento eterno; estrita neutralidade nos assuntos políticos; abstinência de guerra, e a crença na manifestação iminente de Reino de Deus na Terra com a transformação desta num restabelecido Paraíso.

Santos dos Últimos Dias (Mórmons)[editar | editar código-fonte]

Joseph Smith, Jr

No entendimento dos mórmons, ou A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, a restauração abrange também o aspecto do sacerdócio ou autoridade eclesiástica, seguindo exatamente a mesma organização que Cristo usara quando estava na terra, isto é, profetas e apóstolos. Em sua crença, no início do século XIX Moisés, Elias, João Batista, Pedro, Tiago, João e vários outros profetas, apóstolos e seres celestiais teriam vindo do céu e entregado o sacerdócio de Melquisedeque a Joseph Smith, assim sendo restaurada a ordem eclesiástica como prevista na Biblia.

Smith é considerado um profeta pelos seguidores desta linha de pensamento, assim como Moisés o era para os israelitas. O Livro de Mórmon, outro testamento de Jesus Cristo, é uma nova escritura que foi revelada por Deus, não para conflitar com a bíblia, mas para complementar e reforçar as doutrinas que na bíblia ainda são confusas. Os mórmons são também de alguma forma zelosos na guarda de um dia consagrado à adoração, no caso, o domingo.

Pentecostalismo[editar | editar código-fonte]

Quanto ao movimento pentecostal, possuía uma concepção restauracionista em sua origem e via o batismo no Espírito Santo, manifesto na glossolalia, como prova da restauração do cristianismo primitivo.13

Ambrose J. Tomlison, pioneiro pentecostal e fundador da Igreja de Deus, Cleveland e da Igreja de Deus da Profecia, via a história do cristianismo como um desenrolar de restaurações movidas por Deus: a justificação pela de influência Luterana, a conversão pessoal e/ou pietismo Wesleyano, o movimento de Santidade metodista que culminaram no estabelecimento de suas igrejas em 1903, com a manifestação das novas línguas.

A pregadora Aimee McPherson pregou um sermão alegórico em 1917 cuja função do pentecostalismo seria restaurar o poder carismático do cristianismo primitivo.

Nos anos 1950 surgiu o movimento de "chuva tardia" que se via como uma última dispensação restauracionista de dons e cura divina. Um dos expoentes desse movimento foi William Marrion Branham.

Dentro do pentecostalismo surgiu o movimento apostólico, pregando a restauração do ofício do apóstolo no cristianismo contemporâneo. O termo também é utilizado por grupos mais recentes, descrevendo o objetivo de restabelecer o cristianismo na sua forma original, como alguns Restauracionistas Carismáticos antidenominacionais, que surgiram na década de 1970 no Reino Unido14 15 e em outros lugares.

Uma instância brasileira de restauracionismo é o movimento chamado Obra de Restauração, que surgiu entre batistas no Rio de Janeiro na década de 1960.16

Outros[editar | editar código-fonte]

A descoberta da biblioteca de Nag Hammadi no Egito fez com que vários textos gnósticos se tornassem públicos e movimentos neognósticos surgiram pregando que o cristianismo neotestamentário tenha sido uma forma corrupta que reprimiu o cristianismo gnóstico.

Entre grupos teosóficos e místicos há duas correntes principais quanto à história teológica. Uns acreditam em um conhecimento transmitido secretamente através dos séculos, enquanto outros veem uma restauração de um conhecimento perdido há tempos, como o caso da Igreja Cristã Primitiva.

Doutrinas e Práxis[editar | editar código-fonte]

Os diversos movimentos restauracionistas visam objetivos distintos para restauração: Escrituras perdidas ou não corrompidas (mórmons, neognósticos, movimento do Nome Sagrado; eclesiologia (movimento de Stone-Campbell, Irmãos de Plymouth, pentecostalismo apostólico, Igreja Nova Apostólica); rito (anabatismo, Zwinglianos); espiritualidade (Glossolalia religiosa no Pentecostalismo e Irvinismo); ou a Igreja como instituição remanescente (Igreja Adventista do Sétimo Dia, Igreja de Deus da Profecia)

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. [1]
  2. a b c d C. Leonard Allen and Richard T. Hughes, "Discovering Our Roots: The Ancestry of the Churches of Christ," Abilene Christian University Press, 1988, ISBN 0-89112-006-8
  3. http://www.catholicrestoration.org/
  4. Ware, Steven L. "Restorationism in Classical Pentecostalism" em New Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Zondervan, 2002.
  5. SMITH, James K.A. Who is Afraid of Postmodernism?, Grand Rapids: Baker Academic, 2006. p.128-130
  6. Clark, Elmer T.The Small Sects in America. Nashville: Cokesbury Press, 1937
  7. Bullinger, Heinrich. Alte Glaube. Zurique, 1539.
  8. van Braght, Thieleman J. Märtyrerspiegel oder Der blutige Schauplatz oder Märtyrerspiegel der Taufgesinnten oder wehrlosen Christen, die um des Zeugnisses Jesu, ihres Seligmachers, willen gelitten haben und getötet worden sind, von Christi Zeit bis auf das Jahr 1600. Dordrecht 1660.
  9. Arnold, Gottfried. Unparteiische Kirchen und Ketzerhistorie''. Wittenberg,1699
  10. Hughes, 1988
  11. The Watch Tower A Sentinela, 1° de dezembro de 1916, p. 356
  12. Proclamadores do Reino de Deus jv cap. 31 p. 707
  13. Blumhofer, Edith L.Pentecostal Currents in American Protestantism Chicago: University of Illinois Press, 1999.
  14. Evangelicalism in modern Britain: a history from the 1730s to the 1980s, David W. Bebbington, pub 1995, Routledge (UK), ISBN 0415104645, pg 230,231; 245-249
  15. Alternative Religions: A Sociological Introduction, Stephen J. Hunt, pub 2003, Ashgate Publishing, Ltd; ISBN 0754634108, pg 82,83
  16. [2]