Papa Clemente I

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São Clemente I
papa
Nome de nascimento Clemens Romans
Nascimento Roma,
35
Eleição 88
Fim do pontificado 97 (62 anos)
Antecessor Anacleto
Sucessor Evaristo
Listas dos papas: cronológica · alfabética

São Clemente I,também conhecido como Clemente Romano (em latim, Clemens Romanus), foi o quarto papa da Igreja Católica, entre 88 e 97. Nascido em Roma, nos arredores do Coliseu, de família hebraica, foi um dos primeiros a receber o batismo de São Pedro. Foi sucessor de Anacleto I (ou Cleto) e autor da Epístola de Clemente aos Coríntios (segundo Clemente de Alexandria e Orígenes), o primeiro documento de literatura cristã, endereçada à Igreja de Corinto. Ele foi o primeiro Pai da Igreja[1] .

Discípulo de São Pedro, após eleito restabeleceu o uso da Crisma, seguindo o rito do primeiro Papa e iniciou o uso da palavra Amém nas cerimónias religiosas. É conhecido pela carta que escreveu para atender a um pedido da comunidade de Corinto, na qual rezava uma convincente censura à decadência daquela igreja, devida sobretudo às lutas e invejas internas entre os fiéis (consta que os presbíteros mais jovens teriam usurpado as prerrogativas dos mais velhos), estabelecia normas precisas referentes à ordem eclesiástica hierárquica (bispos, presbíteros, diáconos) e ao primado da Igreja de Roma, que se ressalta ainda mais pelo fato de São João Evangelista ainda estar vivo e não ter intervido em tal crise.

Obras[editar | editar código-fonte]

Clemente escreveu para a problemática congregação em Corinto, onde alguns "presbíteros" ou "bispos" tinham sido depostos (na época, os clérigos acima do posto de diácono eram tratados de forma indistinta)[2] . Nela, Clemente clama pela restauração dos que foram depostos e pelo arrependimento dos faltosos, em linha com a manutenção da ordem e obediência à autoridade da Igreja estabelecida pelos doze apóstolos com criação dos "diáconos e bispos"[2] . Ele menciona "oferecer os presentes" (uma referência à Eucaristia) como uma das funções do alto episcopado de então[2] .

Irineu de Lião em seu tratado Contra as Heresias, (180 d.C) comenta sobre a sucessão de Clemente "terceiro lugar depois dos apóstolos" e comenta sobre sua obra:

"Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episcopado a Clemente, que vira os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição. E não era o único, porque nos seus dias viviam ainda muitos que foram instruídos pelos apóstolos. No tempo de Clemente, surgiram divergências graves entre os irmãos de Corinto. Então a Igreja de Roma enviou aos coríntios uma carta importantíssima para reuni-los na paz, reavivar-lhes a fé e reconfirmar a tradição que há pouco tinham recebido dos apóstolos, isto é, a fé num único Deus todo-poderoso, que fez o céu e a terra, plasmou o homem e provocou o dilúvio, chamou Abraão, fez sair o povo do Egito, conversou com Moisés, deu a economia da Lei, enviou os profetas, preparou o fogo para o diabo e os seus anjos. Todos os que quiserem podem aprender desta carta que este Deus é anunciado pelas igrejas como o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo e conhecer a tradição apostólica da Igreja, porque mais antiga do que os que agora pregam erradamente outro Deus superior ao Demiurgo e Criador de tudo o que existe". (Irineu de Lião, Contra as Heresias, Livro III, capítulo III, verso III)

Eusébio de Cesaréia em sua História Eclesiástica (317 d.C) falando da Obra de Clemente que foi lida pela maior parte das Igrejas e ainda era lida em seus dias:

1. "Deste [Clemente] existe uma Carta universalmente admitida, longa e admirável, que escreveu em nome da igreja de Roma à dos Coríntios, tendo como motivo uma sedição ocorrida em Corinto. Sabemos que esta carta foi lida publicamente na assembleia na maior parte das igrejas, não apenas antigamente, mas também em nossos dias. E Hegesipo é testemunha suficiente de que no tempo indicado houve a sedição de Corinto". (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, Capítulo XVI)

Sucessão Apostólica[editar | editar código-fonte]

O próprio Clemente em sua Epístola atesta a sucessão apostólica, é um testemunho autêntico que atesta a sucessão apostólica em pleno século I já escrita por um Papa:

"Também os apóstolos sabiam por Nosso Senhor Jesus Cristo, que haveria contestações a respeito da dignidade episcopal. 2. Por tal como tivessem pleno conhecimento do porvir, estabeleceram os acima mencionados e deram, além disso, instruções no sentido de que, após morte deles [dos apóstolos] outro homens comprovados lhe sucedessem em seu ministério". (Clemente 3º Bispo de Roma aos Coríntios - CAPÍTULO XLIV - por volta de 96 d.C)

Irineu de Lião é um dos primeiros pais da igreja a falar da sucessão de Clemente, dizendo que ele foi o terceiro depois dos apóstolos:

3,3. "'Os bem-aventurados apóstolos que fundaram e edificaram a igreja [de Roma] transmitiram o governo episcopal a Lino', o Lino que Paulo lembra na carta a Timóteo. Lino teve como sucessor Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar, depois dos apóstolos, coube o episcopado a Clemente, que vira os próprios apóstolos e estivera em relação com eles, que ainda guardava viva em seus ouvidos a pregação deles e diante dos olhos a tradição". (Contra as Heresias, Livro III)

Tertuliano de Cartago em sua Prescrição contra os Hereges, cita que Clemente foi ordenado pelo Apóstolo Pedro:

"Porque é assim que as igrejas apostólicas transmitem suas listas: como a igreja de Esmirna, que sabe que Policarpo foi colocado lá por João, como a igreja de Roma, onde Clemente foi ordenado por Pedro. Assim, todas as outras igrejas que tiveram lhes mostram em que tem as raízes apostólicas, tendo recebido o episcopado pela mão dos apóstolos". (Prescrição contra os Hereges, 32, 1)

Eusébio de Cesareia em sua História Eclesiástica (317 d.C), e cita a carta de Paulo que diz que Clemente foi seu colaborador baseando-se na carta de São Paulo Apóstolo aos Filipenses:

1. "No duodécimo ano do mesmo reinado [93 d.C], Clemente sucede a Anacleto, que havia sido bispo da igreja de Roma durante doze anos. O apóstolo, em sua carta aos Filipenses, faz saber a estes que Clemente era colaborador seu, dizendo: Com Clemente também e os demais colaboradores meus, cujos nomes estão no livro da vida [Fp 4, 3]". (Eusébio de Cesareia, História Eclesiástica, Livro III, Capítulo XVI)

São Jerônimo de Estridão, em sua obra De viris illustribus, diz que os latinos acreditavam que Clemente era o segundo depois de Pedro, mas atesta que ele foi o quarto Bispo de Roma:

Clemente, de quem o apóstolo Paulo escreve aos Filipenses diz: "Com Clemente e outros de meus companheiros de trabalho, cujos nomes estão escritos no livro da vida", (cf. Fl 4:3) o quarto bispo de Roma depois de Pedro, se de fato o segundo foi Lino e o terceiro Anacleto, embora a maioria dos latinos pensar que Clemente foi o segundo depois do apóstolo.” (De Viris Illustribus, Capítulo 15)

Santo Agostinho de Hipona (400 d.C) diz que Clemente foi o sucessor de Lino, e Anacleto foi após Clemente:

"O sucessor de Pedro foi Lino, Clemente, Anacleto..." (Epístola 53, 2)

Embora haja essas divergências se ele foi o segundo, ou o terceiro (sem contar Pedro) e São Jerônimo contando Pedro que era o quarto, todos os testemunhos nos mostra que Clemente foi sucessor de Pedro na Sé de Roma.

Primazia da Sé de Roma[editar | editar código-fonte]

Em I Clemente, o bispo de Roma pede para que recebam os bispos que tinham sido expulsos injustamente dizendo:

(Cap. 7, n. 1) "Nós vos escrevemos tudo isso para vos advertir …" (Cap. 58, n. 2) "Acolhei nosso conselho e não vos arrependereis." (Cap. 59, n. 1) "Mas se alguns não obedecerem àquilo que por ele [Cristo] é dito através de nós [plural majestático], saibam que serão implicados numa culpa e num perigo não pequeno; (2) nós, porém, seremos inocentes desse pecado". (Cap. 63, n. 2) "De fato, sereis motivo de alegria e regozijo se, obedecendo a quanto vos temos aqui exposto no Espírito Santo, cortardes pela raiz a fúria injustificável da vossa inveja, conforme o pedido de paz e concórdia que nesta carta fizemos".

(Epístola do Papa Clemente I aos Corintios, 7, 1; 58, 2; 59, 1; 63, 2[1]). A autoridade de Clemente como bispo de Roma acaba corroborando a afirmação autêntica da Igreja Católica que defende que estas ações revelam que, já desde cedo, a Sé de Roma (e o seu bispo, que é o Papa) tinha primazia sobre os cristãos.

Obras que já foram um dia atribuídas a Clemente[editar | editar código-fonte]

"São Clemente", por Tiepolo

O autor destas obras é desconhecido. Porém a tradição acadêmica o chama de "Pseudo-Clemente" para diferenciá-lo das obras consideradas autênticas de Clemente.

Segunda Epístola de Clemente[editar | editar código-fonte]

A segunda epístola de Clemente é uma homilia, ou sermão, provavelmente escrito em Corinto ou em Roma, mas não por Clemente[2] . As congregações da Igreja antiga muitas vezes compartilhavam estas homilias entre si e é possível que a Igreja para a qual Clemente enviou sua primeira epístola tenha incluído uma homilia festiva para economizar no envio e, assim, ela acabaria se tornando II Clemente.

Atualmente, os estudiosos acreditam que ela foi escrito no século II d.C. baseados nos temas do texto e na coincidência de palavras entre o texto de II Clemente e o apócrifo Evangelho Grego dos Egípcios[1] [3] .

Epístolas sobre a virgindade[editar | editar código-fonte]

Duas "Epístolas sobre a Virgindade" foram tradicionalmente atribuídas a Clemente, mas hoje existe quase que um consenso de que ele não foi o autor delas.[4] .

Falsas Decretais[editar | editar código-fonte]

Uma coleção de legislação eclesiástica conhecida como "Falsas Decretais", atribuídas a Isidoro Mercador, é basicamente constituída de falsificações. Ali estão cartas de papas pré-nicenos, começando com Clemente, assim como os documentos atribuídos aos próprios concílios[5] e mais de quarenta outras falsificações dos papas pós-nicenos estão ali também, do Papa Silvestre I (314 - 335) até o Papa Gregório II (715 - 731). Os Falsos Decretos eram parte de uma série de falsificações sobre a legislação passada por um partido no império Carolíngio, cujo principal objetivo era libertar a igreja e os bispos das interferências do estado e dos arcebispos metropolitanos[5] .

Clemente está incluído entre os primeiros papas cristãos como autor de alguns destes Falsos Decretos. Eles e as cartas que ali estão retratam mesmo os papas mais antigos alegando absoluta e universal autoridade[6] .

Literatura Clementina[editar | editar código-fonte]

Clemente também foi retratado como o herói de um romance (ou novela) na Igreja antiga que sobreviveu em pelo menos duas versões diferentes, conhecidas como "Literatura Clementina", onde ele é identificado com o primo do imperador Domiciano, Titus Flavius Clemens. A Literatura Clemente retrata Clemente como o meio que apóstolos encontraram de disseminar seus ensinamentos para a igreja[2] .

Morte[editar | editar código-fonte]

Neste pontificado ocorreu uma segunda perseguição aos cristãos, na época de Domiciano. Com Nerva, os cristãos viveram uma temporada de paz. Mais tarde, Clemente foi preso no reinado de Trajano. Após ser detido e condenado ao exílio, com trabalhos forçados nas minas de cobre de Galípoli; no ano 97, decidiu que os cristãos não podiam ficar sem um guia espiritual, renunciando em favor de Santo Evaristo. Converteu muitos presos e por isso, no ano 100 foi atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, tornando-se num mártir cristão dos princípios da Cristandade. Seu corpo foi recuperado da águas e sepultado em Quersoneso, na Crimeia, de onde, mais tarde, por ordem de Nicolau I, seu corpo foi levado a Roma.

A Igreja Bizantina Grega celebra Clemente como santo e mártir no dia 24 de novembro (assim como Pedro). Na Igreja Bizantina Russa, os dois são lembrados no dia 25 de novembro. Na Igreja Romana, 23 de novembro. Em sua honra, foi erguida a Basílica de São Clemente.

Referências

  1. a b Wikisource-logo.svg "Pope St. Clement I" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  2. a b c d e Cross, F. L., ed.. The Oxford Dictionary of the Christian Church: artigo: Clement of Rome, St. (em inglês). New York: Oxford University Press, 2005.
  3. McBrien. Lives of the Popes (em inglês). [S.l.]: HarperCollins, 2000. 35 pp.
  4. Riddle, M. B. Introductory Notice to Two Epistles Concerning Virginity (em inglês). [S.l.: s.n.].
  5. a b Donation of Constantine (em inglês) Encyclopædia Britannica (11ª edição). Visitado em 06/02/2011. e Cross, F. L., ed.. The Oxford Dictionary of the Christian Church: artigo: pre-Nicene Popes (em inglês). New York: Oxford University Press, 2005.
  6. "Estes documentos antigos foram construídos para mostrar que mesmo nas mais antigas práticas e tradições cristãs, nenhum bispo poderia ser deposto, nenhum concílio poderia ser convocado e nenhum assunto importante poderia ser decidido sem o consentimento do Papa. Mesmo os Papas mais antigos, por estas evidências, teriam alegado autoridade absoluta e universal como vigários de Cristo na Terra." em DURANT, Will. The Age of Faith (em inglês). New York: Simon and Schuster, 1972. 525 pp.


Precedido por
Anacleto
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Papa

4.º
Sucedido por
Evaristo


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