Ambrósio de Milão

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Santo Ambrósio de Milão
Mosaico na
Basílica de Santo Ambrósio em Milão
Bispo de Milão, Padre latino e
Doutor da Igreja
Nascimento 340 em Tréveris
Morte 4 de abril de 397 (57 anos) em Milão, Itália
Veneração por Igreja Católica
Igreja Anglicana
Igreja Ortodoxa
Igrejas não-calcedonianas
Igreja Luterana
Igreja Presbiteriana
Principal templo Basílica de Santo Ambrósio, em Milão
Festa litúrgica 7 de dezembro
Gloriole.svg Portal dos Santos

Ambrósio de Milão (Tréveris, 340Milão, 4 de abril de 397), conhecido como Santo Ambrósio, foi bispo da atual Arquidiocese de Milão (então chamada Mediolano), e é considerado um dos Padres latinos e Doutores da Igreja. Foi ele quem ministrou o baptismo a Agostinho de Hipona. É considerado um dos quatro máximos doutores da Igreja, aprendeu de Orígenes a conhecer e a comentar a Bíblia.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Ambrósio era, na verdade, gaulês, descendente de gregos como se pode inferir de seu nome e do de seu irmão, Urânio Sátiro. Nasceu em Tréveris (atual Trier, na Alemanha), onde seu pai exercia alta função na administração do Império Romano. Depois de residir em Roma por muito tempo, onde se encontrava entre as mais ricas e nobres famílias, seu pai foi posto por Constantino I à frente da prefeitura da Gália.

Seu pai teria falecido logo após seu nascimento. Sua mãe, então, retornou a Roma com os três filhos: Marcelina, Sátiro e Ambrósio. Em Roma, recebeu a formação dos nobres romanos, estudando gramática, literatura grega e romana, retórica e direito. Não lhe faltaram ainda a frequência ao circo e ao teatro. Ao lado dessa formação, recebeu, também, educação religiosa, destinada aos catecúmenos, ministrada pelo sacerdote Simpliciano, futuro sucessor de Ambrósio na sede de Milão. A influência deste sacerdote sobre Ambrósio foi tão marcante que santo Agostinho o chamava de "pai do bispo Ambrósio, segundo a graça".

Terminados os estudos, partiu para Sirmio, onde iniciou, com seu irmão, a carreira de advogado do tribunal da prefeitura. Sexto Petrônio Probo, prefeito do pretório, o nomeou, em 370, membro de seu conselho, e depois de alguns anos, consularis, isto é, governador da província da Emília e Ligúria, com sede em Milão. Na época, Milão era a segunda cidade da Itália, encruzilhada dos caminhos para a Gália e Constantinopla.

Nomeado bispo[editar | editar código-fonte]

Com a morte do bispo Auxêncio, ariano, acirrou-se a disputa pela vaga entre arianos e católicos. Para assegurar a ordem na eleição, Ambrósio compareceu, pessoalmente, na qualidade de prefeito da polícia. Tinha, então, 40 anos. Agiu com tamanha eficácia, controlou os ânimos das facções com tanta moderação que os partidos opostos se uniram para elegê-lo bispo. Reconhecendo na unanimidade a vontade de Deus, Ambrósio aceitou o cargo, depois de muitas tentativas de recusa. Era ainda catecúmeno. Prepararam-se as cerimônias do batismo. Na semana seguinte, recebeu todas as ordens e foi consagrado bispo a 7 de dezembro de 374.

Como bispo, evitou prudentemente as controvérsias dogmáticas. Sob orientação ainda de seu antigo preceptor, Simpliciano, mergulhou nos estudos da Bíblia. Lia assiduamente os autores antigos e contemporâneos, especialmente os gregos. Procurou reformar, interiormente, o clero. Para isso escreveu, sob o modelo da obra homônima de Cícero, o Sobre o ofício dos ministros. Em pouco tempo, capacitou-se para a pregação a tal ponto que o próprio Agostinho se admirava de sua interpretação alegórica das Escrituras.

Suas exposições sobre o valor da virgindade provocaram um movimento religioso em toda a Itália. Renunciou a seus bens em favor da Igreja e dos pobres, levando vida ascética exemplar. Ele mesmo preparava os catecúmenos para o batismo, iniciava-os nas celebrações pascais, na compreensão dos ritos. Consagrava-se dia e noite aos deveres de seu ministério.

Segundo o depoimento de Agostinho de Hipona:

Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores, e teu fiel servidor. Suas palavras ministra-vam constantemente ao povo a substância do teu trigo, a alegria do teu óleo e a embriaguez sóbria do teu vinho. (…) Comecei a estimá-lo, a princípio, não como mestre da verdade (…), mas como homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloquência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras me prendiam a atenção. (…) Eu me encantava com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável do que o de Fausto quanto à forma.
 
Santo Agostinho,

É especialmente a Ambrósio que Agostinho deve sua conversão e foi dele que recebeu o batismo.

Ambrósio e o imperador Teodósio[editar | editar código-fonte]

Santo Ambrósio proíbe o imperador Teodósio I de entrar na igreja, por van Dyck, óleo na National Gallery, em Londres.

Pela Páscoa de 381, o imperador Teodósio I transferiu sua residência de Tréveris para Mediolano (atual Milão). A partir de então, desenvolveu sempre mais estreita colaboração com Ambrósio. Por outro lado, seu campo de atividade alargou-se cada vez mais, desdobrando-se pelo zelo por sua diocese, em numerosos contatos com bispos da Itália, fundando novas dioceses, ordenando novos bispos.

Sua autoridade moral era ilibada e reconhecida pelos inimigos. Por isso, seu desempenho nos relacionamentos políticos foi cheio de êxito. Em todos os problemas, acabou sempre vencendo, impondo sua opinião. Foi assim no caso de sua vitória contra a imperatriz Justina e seu filho Valentiniano II que queriam uma igreja para os cristãos arianos. Quando o imperador Teodósio ordenou o massacre de Tessalônica, Ambrósio foi o único que, numa conduta corajosa, fez frente recriminando a crueldade do imperador.

Quando este, mesmo advertido por carta de Ambrósio, quis entrar na igreja acompanhado de sua corte, Ambrósio o impediu com autoridade e valentia: "Não ousaria, em sua presença, oferecer o sacrifício divino". Como o imperador recalcitrasse e invocasse o exemplo de Davi, Ambrósio o recriminava publicamente e lhe perguntava se aquela boca que ordenara tão cruel massacre era digna de receber a hóstia sagrada. Convidava-o a imitar Davi não só no pecado, mas, também, na penitência, pois "o pecado só nos é tirado pelas lágrimas e pela penitência".

Santo Ambrósio convertendo Teodósio I, por Pierre Subleyras

No Natal de 390, o imperador teve de revestir-se de trajes penitenciais, confessar publicamente o seu pecado, fazer penitência e só então é readmitido no seio da Igreja. Cinco anos depois, o próprio Ambrósio pronunciou a oração fúnebre deste mesmo imperador, de quem exigira atos de penitência. Na luta contra o paganismo, venceu o prefeito Símaco de Roma e o próprio senado que pleiteavam a reintrodução da estátua da deusa Vitória, na sala de sessões.

O imperador Graciano, ainda jovem, pediu a Ambrósio que o esclarecesse sobre a fé cristã. Seu tio Valentiniano era ariano. Queria ser esclarecido especialmente sobre o dogma da divindade do Verbo. Ambrósio responde-lhe por um tratado "Sobre a fé para Graciano Augusto", em cinco livros. Em 381, escreveu um tratado sobre a Encarnação do Senhor, dirigido contra os arianos. No mesmo ano, enquanto se realizava o Segundo Concílio de Constantinopla, escreveu novamente a Graciano um tratado "Sobre o Espírito Santo".

Após a eleição do bispo de Pavia, Ambrósio retornou para Milão muito enfermo (fevereiro de 397). O que Ambrósio representava para a Itália, na época, pode ser compreendido na frase do general Estilicão: "A morte de tão grande homem seria a ruína da Itália" [carece de fontes?], quando soube da grave enfermidade do bispo de Milão. Na sexta-feira santa, 4 de abril de 397, entra em agonia e morre na manhã do sábado santo, sendo sepultado junto aos mártires Gervásio e Protásio, cujos corpos tinham sido descobertos em 396. Antes de morrer, indicou Simpliciano como seu sucessor no episcopado de Milão: "É velho, mas é bom", teria dito. Tão logo Ambrósio morreu foi aclamado e venerado pelo povo como santo.

Inspirando-se na teologia grega, afirmou a identidade da essência do Espírito Santo com o Pai e o Filho. Assim, embora não sendo teólogo, contribuiu para a teologia trinitária. Sua terminologia preparou as formas definitivas para Agostinho de Hipona. Na cristologia, é o primeiro, no ocidente, que se opõe a Apolinário de Laodiceia. Sua terminologia sobre as duas naturezas perfeitas, unidas na pessoa divina de Cristo foram assumidas pelos Concílio de Éfeso (431) e de Calcedônia (451).

Atualidade[editar | editar código-fonte]

Cripta do bispo Ambrósio e dos mártires cristãos Gervásio e Protásio, na Basília de Santo Ambrósio, Milão

Os escritos de Ambrósio guardam atualidade na Igreja que a eles em várias épocas tem recorrido. As suas obras são citadas em documentos doutrinais e pontifícios até hoje. Pio XII escora-se em Ambrósio na sua Encíclica Sacra Virginitas, de 25 de março de 1954, citando todas as obras do santo sobre o assunto.

Nos documentos do Concílio Vaticano II Ambrósio é reiteradamente citado e invocado como fundamento. Ao menos cinco vezes na Constituição Dogmática Lumen Gentium e ainda na Constituição Gaudium et Spes e na Dei Verbum é mencionado, o Concílio recorre também a ele nos Decretos Ad gentes, Perfectas caritatis e Optatam totius para confirmação da sua doutrina.

Também o Papa Paulo VI nele se apoia para escrever a Constituição Apostólica Poenitemini e na Exortação Apostólica O Culto à Virgem Maria, de 24 de março de 1973. Estes e outros documentos eclesiásticos demonstram a sua atualidade dentro do magistério da Igreja Católica.

Bento XVI discorrendo sobre ele diz que Ambrósio: "Trouxe para o ambiente latino a meditação das Escrituras, iniciando no Ociente a prática da lectio divina, que orientou a sua pregação e os seus escritos, que brotam precisamente da escuta (…) da Palavra de Deus. (…) Com ele os catecúmenos aprendiam primeiro a arte de viver bem para preparar-se depois para os grandes mistérios de Cristo e sua pregação partia da leitura dos Livros Sagrados, para viver de conformidade com a revelação divina."

"Nessa leitura (…) onde o coração se esforça por compreender a palavra de Deus, se entrevê o método da catequese ambrosiana: a Escritura intimamente assimilada, sugere os conteúdos que se devem anunciar para converter os corações. (…) A catequese é pois, inseparável do testemunho de vida."[1]

Obras[editar | editar código-fonte]

Cartas: Mais de noventa de suas cartas chegaram aos tempos atuais dando informes sobre a situação política, eclesiástica e religiosa de seu tempo.

Hinos: É considerado, no Ocidente, como sendo o introdutor da hinologia na liturgia da Igreja. Em 396, o canto de hinos, salmos e antífonas era prática usual na Igreja de Milão, daí disseminou-se para as outras igrejas. Foi autor de várias melodias e de cantos litúrgicos utilizando o metro ambrosiano (oito estrofes de 4 linhas).

Exegéticas[editar | editar código-fonte]

  • Hexameron: uma obra em seis livros, celebrando a beleza da criação. Inspirada na obra de S. Basílio traz, inclusive, o mesmo título. Sua exegese é alegórica, em dependência direta da escola de Alexandria, especialmente de Orígenes. Sente-se ainda as influências das ideias estóicas.
Desenho de estátua de Santo Ambrósio
  • De Paradiso
  • De Cain et Abel
  • De Noe
  • De Abraham
  • De Isaac et anima
  • De bono mortis
  • De fuga saeculi
  • De Jacob et vita beata
  • De Joseph
  • De Patriarchis
  • De Helia e Jejunio
  • De Nabuthae Historia
  • De Tobia
  • De interpellatione Job et David
  • De apologia profhetae David
  • Ennarrationes in XII Psalmos davidicos
  • Expositio Psalmi CXVIII
  • Exposição do evangelho segundo Lucas (composta em 390): sua obra mais longa.
  • Expositio Isaiae prophetae

Dogmáticas[editar | editar código-fonte]

  • De fide ad Gratianum: cinco livros com o objetivo de esclarecer Graciano sobre a heresia ariana.
  • De Spiritu Sancto
  • De Incarnationis Dominicae Sacramento
  • Explanatio Symboli ad initiandos
  • Expositio fidei
  • De Mysteribus
  • De Sacramentis
  • De poenitentia
  • De Sacramento regenerationis vel de Philosophia: conhecida apenas por meio de fragmentos.

Morais e ascéticas[editar | editar código-fonte]

  • De officiis ministrorum: dedicada aos clérigos, seguindo na forma de exposição o modelo utilizado por Cícero.
  • De virginibus
  • De viduis
  • De virginitate
  • De instituitione virginis
  • Exhortatio virginitatis

Sermões diversos, o comentário aos quatro livros dos Reis e a tradução de Guerra dos Judeus de Flávio Josefo somam-se à sua extensa produção espiritual e intelectual.

Ver também[editar | editar código-fonte]

  • Rito Ambrosiano - um rito litúrgico ocidental, atribuído a Ambrósio de Milão, utilizado por um grupo de católicos romanos.

Referências

  1. Audiência geral, 24 de outubro de 2007, Vatican Information Service Num. 181.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

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  • AMBRÓSIO, Santo. A Virgindade. Tradução das Monjas Beneditinas da Abadia de Santa Maria, SP. Introdução, Revisão e Notas de Hugo D. Baggio, O.F.M.. Petrópolis: Ed. Vozes, 1980.