Gambara (livro)

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Gambara é uma novela de Honoré de Balzac, surgida em 1837 na Revue et gazette musicale de Paris, a pedido de Maurice Schlesinger, editor de música originário de Berlim.

À época da redação, o romancista ia, toda semama, ao Teatro dos Italianos no camarote dos Guidoboni-Visconti, amigos italianos que lhe fizeram descobrir a Scala de Milão e as maravilhas de Veneza mandando-o resolver certas questões para eles[1] . O texto foi editado em volume, junto com Le Cabinet des Antiques, na edição Soverain em 1839, antes de tomar lugar na edição Furne de 1846, nos Estudos filosóficos, junto com Massimilla Doni, novela também escrita depois que Balzac retorna da Itália, muito impressionado por essa "mão das artes", como ele apelida o país.

Encontra-se nessa obra a formidável intuição artística que o autor da Comédia Humana já desenvolveu em Le Chef-d'œuvre inconnu e La Bourse, seu jeito de representar os hábitos de um pintor, de destrinchar a alma e os meandros do pensamento de um escultor em Sarrasine. Com Gambara, Balzac aborda o mundo musical através de uma personagem, um luthier que se transforma em compositor de músicas loucas. Tem-se a impressão de que o autor compreende tudo da composição de uma obra, de que o músico é ele mesmo. Ele faz dizer a Gambara:

A música é, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte. As raízes que ela tem da física e das matemáticas formam a ciência; ela se torna arte pela inspiração que emprega, simultaneamente com os teoremas da ciência. Ela tem da física a essência mesma da substância que ela emprega, o son é ar modificado, o ar é composto de princípios, os quais encontram em nós, sem dúvida, princípios análogos que lhes respondem, simpatizam e crescem com o poder do pensamento. Assim, o ar deve conter várias partículas de elasticidades diferentes e capazes de várias vibrações e durações diversas que dão os tons nos corpos sonoros, e essas partículas, percebidas por nossas orelhas, misturadas em obra musical, respondem às ideias seguindo nossas organizações.


Essa novela, incompreendida em sua publicação, foi depois reconhecida como uma obra de grande amplidão (os musicólogo encontraram muito poucos erros nos desenvolvimentos de Balzac, de tanto o autor ter sido apaixonadamente documentado). O romancista tinha uma cultura musical tão extensa que George Sand, ao longo de uma conversação sobre música, foi ela mesma atordoada pelas suas idéias sobre ópera. Ela recomendou-lhe escrever aquilo que ele acabara de lhe contar[2] .

Enredo[editar | editar código-fonte]

O conde Andrea Marcosini, nobre milanês, fica no Palais Royal quando descobre no meio da multidão o rosto extraordinário de uma mulher de olhos de fogo. Ela tenta fugir dele, mas ele a persegue até uma sórdida ruela onde ela desaparece, atrás do Palais. Se ele está preso aos "passos de uma mulher cuja vestimenta anuncia uma miséria profunda, radical, antiga, inveterada, que não era mais bela que tantas outras que ele vira toda noite na ópera", é que seu olhar lhe enfeitiçou completamente. Logo o conde faz uma pesquisa e descobre que essa mulher é casada com um compositor de música, Gambara, também luthier, que tem sobre a música teorias e práticas desconcertantes. Sua música não é bela a menos que ele esteja bêbado. Mariana se sacrifica para ele, faz os trabalhos mais humilhantes para manter o casamento, pois ela acredita ser duro como ferro o gênio inabalável de seu marido. Depois de tentar salvar o casal da miséria, de manter Gambara em seu melhor lhe dando dinheiro (ou pior, lhe dando de beber), ele retira Mariana, que abandonará logo por uma dançarina, e que voltará para seu marido, ainda mais miserável que antes.

Referências

  1. Notas de Pierre Brunel a Gambara; o volume compreende também Massimilla Doni e Sarrasine, « Folio classique », Gallimard, 1995.
  2. Notes de Pierre Brunel pour Gambara, Op. cit.. Gambara e Massimilla Doni seriam os resultados deste conselho.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • (fr) Max Andréoli, « Sublime et parodie dans les Contes artistes de Balzac », L'Année balzacienne, 1994, n° 15, p. 7-38.
  • (fr) Pierre Brunel, « Gambara, ou l’opéra ivre », Corps écrit, 1985, n° 13, p. 133-139.
  • (en) Jean-Pierre Barricelli, « Poésie and Suono: Balzac and Leopardi on Music », Romanticism across the Disciplines, Larry H. Peer, Éd. et intro., Lanham, UP of America, 1998, p. 99-113.
  • (fr) Matthias Brzoska, « Mahomet et Robert-le-Diable : l’Esthétique musicale dans Gambara », L’Année balzacienne, 1984, n° 4, p. 51-78.
  • (fr) Pierre Citron, « Gambara, Strunz et Beethoven » L’Année balzacienne, Paris, Eds. Garnier Frères, 1967, p. 165-170.
  • (fr) Pierre Citron, « Préludes à Gambara », L’Année balzacienne, 1982, n° 3, p. 292-294.
  • (fr) Geneviève Delattre, « Andrea Marcosini et les tribulations du romancier dans Gambara », L’Année balzacienne, 1984, n° 4, p. 79-91.
  • (fr) Béatrice Didier, « Logique du récit musical chez Stendhal et chez Balzac », Stendhal, Balzac, Dumas : un récit romantique ? Chantal Massol, Éd., Lise Dumasy, Intro., Toulouse, PU du Mirail, 2006, p. 137-47.
  • (en) Louise Fiber Luce, « Alchemy and the Artist in Balzac’s Gambara », Centerpoint, 1978, n° 3 (1), p. 67-74.
  • (fr) J.-C. Fizaine, « Génie et folie dans Louis Lambert, Gambara et Massimilla Doni », Revue des sciences humaines, 1979, n° 175, p. 61-75.
  • (en) Bettina L. Knapp, « Balzac’s Gambara: Music Is a Science and an Art », Nineteenth-Century French Studies, Fall-Winter 1986-1987, n° 15 (1-2), p. 62-69.
  • (de) Klaus Ley, « Die Oper im Roman: Erzählkunst und Musik bei Stendhal, Balzac und Flaubert », Heidelberg, Carl Winter Universitätsverlag, 1995.
  • Roger Pierrot, « La Véritable Édition originale de Gambara », Mélanges d’histoire du livre et des bibliothèques offerts à Frantz Calot, 1961, p. 175-179.
  • (en) Anthony R. Pugh, « Balzac’s Beethoven: A Note on Gambara », Romance Notes, 1966, n° 8: 43-46.
  • (fr) Daniela Teodorescu, « Deux Personnages dans Gambara de Balzac : les Effets et les causes », Symposium, Spring 2004, n° 58 (1), p. 29-42.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]