Obras de A Comédia Humana de Balzac

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Volumes d'A Comédia Humana, na edição inglesa de 1901

Grandes obras[editar | editar código-fonte]

Ninguém, nem mesmo Shakespeare e Leonardo da Vinci, consegue criar exclusivamente obras-primas. Não é diferente com Balzac e as oitenta e oito narrativas de sua monumental A Comédia Humana. Otto Maria Carpeaux, a par de um julgamento bastante positivo do autor, não se furta de salientar que "grande parte de sua obra já envelheceu irremediavelmente, porque constituída de romances de mero divertimento, escritos às pressas para ganhar dinheiro" [1] . Provavelmente, estaria pensando em obras menores como Honorina e A Mulher de Trinta Anos (esta, imensamente popular até os dias de hoje). Ainda assim, poucos escritores possuem um resultado tão expressivo na relação entre quantidade e qualidade.

Uma lista contendo algumas das obras consideradas pela crítica como as mais bem realizadas, relevantes e/ou influentes inclui:

  • A Estalagem Vermelha (1831) - conto que é umas das primeiras obras que Balzac assinou com seu nome, daí seu clima ainda levemente gótico. Uma das teses do autor é que "na raiz de toda grande fortuna existe um crime" e aqui conta-se como o banqueiro Taillefer construiu a sua; assim, temos dois médicos que passam a noite numa taverna; um terceito hóspede traz consigo muito dinheiro e aparece morto; todas as provas são contra um dos amigos, que realmente teve a idéia de matá-lo, porém desistiu no último segundo; mesmo assim, aceita sua condenação à morte, pois se sente culpado; sua idéia do assassinato fora transmitida telepaticamente a Taillefer, o outro médico, que é o verdadeiro criminoso e se cala para ficar com a fortuna. Mas o conto não acaba aí: Balzac empregou uma técnica complexa e inovadora, onde a história é contada pela única pessoa que conhecia a trama, estando presentes, entre outros, Taillefer e seu futuro genro, que o desmacara intimamente graças a um pequeno detalhe. Daí, o dilema: é imoral aceitar riquezas sabidamente advindas de um ato criminoso?
  • A Menina dos Olhos de Ouro (1835) - esta noveleta é a terceira e última obra do subgrupo "História dos Treze", que também compreende Ferragus ou o Chefe dos Devoradores e A Duquesa de Langeais. Balzac, amante da literatura gótica e do romance histórico, acreditava em transmissão de pensamentos (que ainda não havia ganhado o nome definitivo de telepatia), ocultismo, fisiognomia e, praticamente, qualquer outra teoria pseudo-científica com a qual se deparasse. Além disso, tinha uma queda por sociedades secretas, que aparecem mais de uma vez na Comédia e que são resquícios do que produzia no início de sua carreira. A Sociedade dos Treze é formada por treze amigos que juraram ajudar uns aos outros sempre que houvesse necessidade. Aqui, o cínico e amoral dândi Henrique de Marsay, personagem donjuanesco caro a Balzac, persegue a misteriosa Paquita Valdés por uma Paris surreal, numa trama complexa, onde nada é muito claro e tudo é surpreendente. Balzac, como autoproclamado "historiador de costumes", não fugia dos tabus de sua época e, com a ousadia que chegou a lhe trazer muitos aborrecimentos, trata aqui do lesbianismo, um tema do qual foi virtualmente o pioneiro.
  • A Missa do Ateu (1836) - um dos contos mais apreciados de Balzac, escrito em uma única noite. O doutor Bianchon, personagem recorrente e a quem o próprio Balzac teria invocado em seu leito de morte, vê seu mestre, o cirurgião Desplein, entrar numa igreja e assistir contrito à missa e distribuir esmolas. Ora, Desplein é conhecido pelo seu ateísmo. Um ano depois, a mesma cena se repete. Curioso, Bianchon interpela-o e recebe uma resposta surpreendente, que coloca em dúvida diversos preceitos religiosos.
  • A Obra-Prima Ignorada (1832) - conto cuja ação se passa no século XVII e que, portanto, não tem ligação com o restante d'A Comédia Humana. Estamos aqui no terreno das artes plásticas, que Balzac tanto prezava. Mestre Frenhofer pinta sua tela, mas nunca se satisfaz com o resultado e põe-se a refazê-la obsessivamente, pois seu desejo é chegar à essência da arte. Contudo, essa sede de perfeição porá tudo a perder, inclusive sua sanidade. É o conceito de que "o pensamento mata o pensador", presente em diversas obras dos Estudos Filosóficos, além desta, como A Procura do Absoluto e A Pele de Onagro. Há suspeitas de que as idéias sobre pintura expostas na história são, na verdade, de Delacroix, grande amigo do autor. Para Paulo Rónai, "esta obra estranha (...) representa, com A MIssa do Ateu e A Paz Conjugal, o apogeu alcançado por Balzac no domínio do conto" [2] .
Sótãos de Paris, por Gustave Caillebotte: A Pele de Onagro
  • A Pele de Onagro (1831) - este romance é sua obra mais importante entre aquelas do início da carreira, quando ainda escrevia sob a influência da literatura gótica. Em um clima de pesadelo, esta narrativa simbólica é a história de Rafael de Valentin, que vem a possuir uma pele de onagro. Essa pele misteriosa, cuja origem pode ser oriental, permite a satisfação de todos os desejos, porém vai diminuindo de tamanho, enquanto também diminui o tempo de vida de seu possuidor. Há vários pontos de contato entre Rafael e Balzac: ambos escreveram um tratado filosófico, o "Tratado da Vontade" (Balzac era adolescente), ambos moraram em sótãos enquanto passavam por privações e ambos tiveram de enfrentar encarniçados credores. Obra de transição ou aprendizado, há nela dois elementos díspares: a tentativa realista, que ficou em segundo plano, de pintar o retrato fiel de uma mulher manipuladora e a presença do fantástico, representada pelo objeto mágico, que acaba por se impor. Grande sucesso de público à época da publicação, o livro não foi bem visto pela crítica. Contudo, sua importância cresceu com o passar do tempo e hoje, relevando-se alguns defeitos de construção, é visto como sua primeira obra-prima.
  • A Prima Bette (1846) - romance que é uma das obras-primas definitivas do autor, pertence ao subgrupo "Os Parentes Pobres", do qual faz parte ainda O Primo Pons. Neste livro, a ressentida, pobre e solteirona Lisbeth Fischer, a personagem-título, vinga-se de maneira terrível de todas as humilhações verdadeiras e imagináveis que sofreu de seus parentes ricos. O trágico é que suas vítimas, várias sem nenhuma estatura moral, vêem nela um exemplo de desprendimento e lealdade. Outras grandes personagens são a calculista Valéria Marneffe, comparsa da Prima Bette e umas das maiores cortesãs criadas por Balzac; o decadente barão Hulot d'Ervy, presa do vício da libertinagem, que só faz aumentar à medida que envelhece; e o rico Barão Henrique Montes de Montejanos, único brasileiro a constar na galeria balzaquiana, com um nome que, aliás, de brasileiro tem muito pouco. Montejanos, apaixonado pela Senhora Marneffe, é por ela ludibriado com falsas promessas e reiteradas traições, até o momento em que reclama sua vingança. O horrível instrumento utilizado para isso está perfeitamente de acordo com pessoas originárias de país tão exótico e selvagem...
  • A Procura do Absoluto (1834) - o tema do "pensamento matando o pensador", isto é, uma idéia fixa que se apodera do personagem, perpassa várias obras da Comédia, mormente aquelas colocadas entre os Estudos Filosóficos, como A Obra-Prima Ignorada e Gambara. Já neste romance, o químico Baltasar Claes deseja descobrir a matéria mãe de todas as matérias e de tudo que há nos reinos animal, vegetal e mineral. Para isso, ele sacrifica sua família, fortuna, honra e saúde. Balzac estudou Química para escrever o livro, mas chegou a ser acusado de igualar essa ciência à alquimia. Esta crítica não se sustenta, contudo outra sim: apesar de Claes levar a família à bancarrota várias vezes, sua filha sempre consegue repor a fortuna, deixando-a até maior.
Saumur, onde se desenrola a ação de Eugênia Grandet, em obra de Henry Salomé
  • Eugênia Grandet (1833) - universalmente reconhecido como um dos melhores romances de Balzac e, ao mesmo tempo, um dos mais lidos pelo público, conta a história de Eugênia, típica provinciana filha de pai rico e, por isso, disputada por potenciais maridos. Um dia, chega seu primo; ambos se apaixonam, mas o rapaz é fraco e, aconselhado pelo tio, parte em busca de fortuna. Eugênia fica à espera, com a fria resignação de quem ama sem pedir nada em troca. O que, em outras mãos, seria apenas um romance sentimental, alarga-se enormemente pela ação de outros personagens, com destaque para o pai, enriquecido pelo comércio de vinhos, considerado um dos maiores avarentos da história da literatura.
  • Esplendores e Misérias das Cortesãs (1869) - a publicação deste romance se deu de forma bastante acidentada: o início da primeira parte ainda em 1838; o restante sucessivamente em 1843, 1844, 1846 e 1847. Todas as partes somente se juntaram em um único volume em 1869, quase vinte anos após a morte do autor. A composição é mais fragmentada que Ilusões Perdidas, da qual é continuação, desenvolvendo-se em quatro linhas, que correspondem às suas quatro partes: os amores de uma cortesã; os amores de um idoso; Luciano de Rubempré e sua segunda tentativa de conquistar Paris; e polícia versus bandidos. Temos aqui quase um "livro de ação", passado em galés e masmorras, com tipos vindos do submundo e seu linguajar característico, crimes horríveis, personagens cruéis e, sem dúvida, uma força extraordinária. A essa altura, Luciano já não é mais aquele poeta ingênuo da obra anterior: agora ele perdeu todo o pejo e usa sua beleza como moeda de troca; mas continua a mesma pessoa fraca, de fácil manipulação. Desta vez, ele se deixa enredar pelo misterioso Padre Carlos Herrera, cuja verdadeira identidade logo descobrimos ser o diabólico Vautrin. Essa que é uma das maiores e mais polêmicas criações de Balzac faz aqui sua derradeira aparição e recebe do autor uma surpreendente, porém lógica e irônica, vida futura. Por outro lado, a descrição dos momentos finais de Luciano é um dos mais belos e poderosos textos saídos da pena do autor.
  • História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau (1837) - escrito em cerca de vinte dias, em troca de vinte mil francos, esta é uma das obras mais perfeitas e das que melhor ilustram o modo de Balzac fazer literatura. César Birotteau é um modesto perfumista, que se deixa levar pela ambição e acaba arruinado. A vingança engendrada por um antigo empregado, tendo por objeto a especulação imobiliária; a descrição do processo de falências; a fabricação de pomadas e elixires; embalagens, bulas, letras de câmbio, tudo isso faz do romance um verdadeiro tratado comercial, onde pouca coisa acontece, mas que prende a atenção até o fim. O retrato desse artista das essências, meio ingênuo, meio tolo, é tão convincente e humano, que o final deixa o leitor com uma ponta de tristeza e amargura.
Angoulême, cenário de parte de Ilusões Perdidas, em fotografia de 1872 de Louis Ducos du Hauron
  • Ilusões Perdidas (1843) - esta é a obra mais extensa de Balzac, principalmente quando levamos em conta sua continuação, também longa, Esplendores e Misérias das Cortesãs (na edição da nova Editora Globo, o conjunto soma mil e cem páginas). Para melhor entender como foi composta A Comédia Humana, basta lembrar que as partes deste livro foram publicadas em épocas diversas, a primeira em 1837 e a última somente em 1843. No entanto a primeira parte de Esplendores... começou a ser publicada já no final de 1838! Temos aqui a história de um dos maiores e mais emblemáticos personagens do autor, o belo poeta Luciano de Rubempré, que deseja sair da província sufocante para se tornar escritor famoso em Paris. Mas Luciano é fraco de caráter e se deixa influenciar por todos com quem trava conhecimento, desde o íntegro escritor Daniel d'Arthez até, principalmente, a rica fauna dos cínicos, amorais, gananciosos e canalhas que parecem predominar em uma Paris onde nada, nem uma minúscula nota no jornal, é inocente ou de graça. Outro personagem importante neste livro que contém tantos é David Séchard, cunhado de Luciano. David é impressor, daí Balzac nos conduzir a uma tipografia e nos mostrar as máquinas, os operários, as gírias empregadas, enfim, o processo completo. Depois David inventa um tipo de papel barato e cai nas garras de espertos concorrentes, que se associam para arruiná-lo. Para além das peripécias de Luciano e David, este romance, de tantas leituras possíveis, aponta a mesquinhez e a pobreza espiritual da província e pinta um retrato arrasador da nascente imprensa moderna, ambiente que Balzac dominava muito bem.
  • Melmoth Apaziguado (1835) - fantasia e realidade se misturam nesta novela baseada em Melmoth the Wanderer, romance gótico do escritor inglês Charles Robert Maturin, um dos preferidos de Balzac. Em tom humorístico, de início temos o retrato perfeitamente realista de um representante dessa profissão tão cara ao capitalismo: o caixa de banco, no caso o honesto porém pobre Castanier. Súbito, surge-lhe o errante diabo Melmoth e Castanier celebra com ele um contrato em que aceita vender sua alma em troca de onipotência. Mais tarde, transfere o contrato para outra pessoa, em troca de dinheiro; o novo possuidor também o vende e assim sucessivamente até que a transação passa a ser feita na própria Bolsa com valores cada vez menores. Nessa narrativa de fundo moral, o autor prenuncia, por conseguinte, uma das máximas de nossos dias: tudo é produto, tudo é mercadoria, tudo pode ser vendido, inclusive um pacto sobrenatural!
  • O Coronel Chabert (1832) - pequena novela onde o Coronel Chabert, dado por morto nas guerras napoleônicas, descobre que sua esposa herdou sua fortuna, casou-se pela segunda vez e agora o repele. Procura, então, um escritório de advocacia, palco de várias obras do autor. Temos aqui um drama judicial sombrio e pessimista, onde Balzac aproveita o que aprendeu em seus anos como escriturário de cartórios.
Castelo em Ferrara: O Elixir da Longa Vida
  • O Elixir da Longa Vida (1830) - presente em muitas antologias, este conto é típico do início da carreira do autor: ambiente exótico, atmosfera misteriosa, tema escabroso, violência física etc. A história trata de uma variante do "crime do mandarim", que Balzac citou em várias obras, como O Pai Goriot: se você pudesse matar um solitário mandarim perdido nos confins da China para ficar com sua fortuna, e não houvesse a menor possibilidade do crime ser descoberto jamais, você o faria? Aqui, conta-se que o rico pai de Don Juan (o famoso conquistador), estudioso de alquimia, descobriu um óleo que permite a ressurreição, desde que alguém banhe o cadáver logo em seguida à morte. Quando chega sua hora, pede ao filho que o faça, porém este, amante de festas e da boa vida, queda-se inerte e consegue espalhar o líquido apenas em um dos olhos que, apavorado, esmaga ao ver se mexer. Anos depois, eis Don Juan com mulher e filho, a quem sempre tratou muito bem. Um dia, chega sua hora e ele pede ao filho que lhe passe o óleo quando morrer. Será atendido? O final é totalmente bizarro, em clima de grã-guignol.
  • O Ilustre Gaudissart (1833) - um conto humorístico, introduz na literatura a figura do caixeiro-viajante, este subproduto dos novos tempos, tão importante nas décadas seguintes para a consolidação do capitalismo. O engraçado Gaudissart, muito querido por Balzac, possui uma eloqüência capaz de vender sorvete para esquimós. Um dia, porém, ao oferecer apólices de seguro em um recanto da província, depara-se com um morador esperto. Através de inúmeros mal-entendidos e palavras de duplo sentido, Gaudissart se vê do outro lado do balcão.
Entrada do Cemitério Père-Lachaise, cenário do final de O Pai Goriot
  • O Pai Goriot (1834) - foi neste romance, por muitos considerado sua maior obra-prima, que o autor empregou pela primeira vez a técnica do retorno de personagens. Grande parte da ação se passa na Pensão Vauquer, com sua curiosa tabuleta, onde lê a frase CASA VAUQUER - Pensão burguesa para os dois sexos e outros (Paulo Rónai chama-a "dístico imbecil" [3] ). Nela, somos apresentados a algumas das maiores criações de Balzac: o próprio Pai Goriot, antigo comerciante que se deixa arruinar para que as filhas, que o exploram e desprezam, possam freqüentar as altas rodas; Eugênio de Rastignac, para muitos um alter ego do autor, jovem pobre e ambicioso da província que deseja enriquecer em Paris a qualquer custo; e Vautrin, ou Jacques Collin ou, ainda, o "Engana-a-Morte", personificação moderna do diabo, amoral, manipulador e sedutor, que terá uma longa e desnorteante trajetória por outras obras da Comédia. Mais que a história do personagem-título, contam-se aqui as transformações porque passa Rastignac, de interiorano ingênuo a cínico e inescrupuloso. O livro termina com uma cena que se tornou clássica: no cemitério Père-Lachaise, tendo Paris a seus pés, Rastignac "lançou àquela colméia sussurrante um olhar que parecia sugar-lhe antecipadamente o mel e proferiu esta frase suprema: --E agora, nós!" [4] . A cada reaparição, mais alto estará na escala social.
  • O Primo Pons (1847) - este romance compõe, com A Prima Bette, o subgrupo "Os Parentes Pobres". O Primo Pons é um velho e ingênuo músico que, em virtude de impenitente gula, é constantemente humilhado pelos parentes ricos, que ele visita todos os dias em busca de comida. Mas Pons possui outro vício: é inveterado colecionador de objetos de arte (como o próprio Balzac, aliás), que vão sendo amontoados em seu quarto. Quando ele cai doente e se descobre que essas obras valem uma fortuna, uma verdadeira legião de aves de rapina se mobiliza para depená-lo: a porteira Cibot, o comerciante Rémonencq, o joalheiro/agiota Elias Magus, o doutor Poulain, advogados, parentes etc. A única pessoa com quem ele pode contar é seu único amigo, o também velho e pobre músico Schmucke, impotente ante tal desequilíbrio de forças. O Primo Pons é uma das melhores e mais sombrias obras de Balzac, onde ele demonstra todo seu pessimismo em relação à humanidade. Essas pessoas em volta de Pons não sentem o menor remorso nem se conscientizam do crime que estão a praticar, independente de origem, classe social ou profissão. Todos se irmanam, se associam e se hostilizam, dependendo das circunstâncias, com o fito único de ficar com seu quinhão do testamento, da herança, enfim, da coleção do velho músico. No entanto, no meio de tanta baixeza, Balzac ainda encontra tempo para falar de duas novidades de seu tempo: a daguerreotipia e as ferrovias.
Issoudun: Um Conchego de Solteirão
  • Um Conchego de Solteirão (1841) - um dos principais romances do autor, conta-se aqui a história dos irmãos José e Felipe Bridau. O primeiro é pintor, tendo muito de Delacroix, segundo muitos pesquisadores. Já Felipe, militar posto em disponibilidade e inadaptado à paz, evolui para uma das criaturas mais monstruosas criadas por Balzac, apesar das inúmeras chances que tem de se regenerar. Tipicamente, o que está em jogo é uma herança, que Felipe deseja só para si, mas há também deliciosas descrições da vida provinciana, com suas fofocas, seus tipos mesquinhos, seus jogos cruéis e suas sociedades secretas, como os Cavalheiros da Malandragem. Na história, Felipe é o preferido da mãe, que releva seus atos abomináveis e não enxerga a genialidade e o bom coração do outro filho. Estudiosos vêem aí uma referência à biografia de Balzac, que mais de uma vez lembrou com amargura que sua própria mãe não não lhe dava o devido valor, colocando-o em segundo plano em relação a seus irmãos Laura e Henri.
Castelo de L'Isle-Adam, cenário de Uma Estreia na Vida. Obra de Michel Barthélemy Ollivier
  • Uma Estreia na Vida (1842) - romance pouco conhecido, narra as desventuras do desagradável adolescente Oscar Husson em sua viagem de Paris a Presles e as consequências daí advindas, já que comete várias gafes. Acompanham-no vários personagens da galeria balzaquiana. Mais que uma estreia, essa obra de título simbólico narra a vida do jovem até o momento em que Balzac percebe que já não vale mais a pena: depois que ele assegura um casamento proveitoso para si, consegue uma sinecura no Estado e aprende a cultivar as amizades certas. Hoje "Oscar é um homem comum, manso, sem pretensões, modesto e sempre se mantendo, como o seu governo, num justo meio. Não causa nem inveja, nem desdém. É, enfim, o burguês moderno." [5]
  • Uma Paixão no Deserto (1830) - um dos mais perfeitos contos do autor, considerado por muitos o melhor dos que escreveu, esta obra-prima de apenas quatorze páginas (na edição da nova Editora Globo) se vale de subentendidos e reticências para contar uma história obscura que nos angustia e ao mesmo tempo nos atiça a curiosidade à medida que, num crescendo, atinge seu final. Como acontece com muitos de seus contos iniciais, esta história não tem ligação orgânica aparente com as outras obras da Comédia. Paulo Rónai especula que a identidade do protagonista, não revelada por Balzac, "poderia ter sido perfeitamente atribuída a um dos Treze, o General Montriveau, aprisionado, como sabemos, pelos selvagens da África. Seu caráter ardente e destemido até o predestinava a desempenhar o papel extraordinário do soldado provençal junto à pantera." [6]

Plano geral[editar | editar código-fonte]

Esta é a relação das oitenta e oito obras que compõem A Comédia Humana, na ordem em que estão dispostas nos dezessete volumes da nova edição da Editora Globo, São Paulo, lançados entre 1989 e 1993:

Título no Brasil Título Original Divisão Subdivisão Grupo 1a. Edição Volume
Ao “Chat-qui-pelote” La Maison du “Chat-qui-pelote” Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1829 I
O Baile de Sceaux Le Bal de Sceaux Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1829 I
Memórias de Duas Jovens Esposas Mémoires de deux jeunes mariées Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1841 I
A Bolsa La Bourse Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 I
Modesta Mignon Modeste Mignon Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1844 I
Uma Estreia na Vida Un Début Dans la Vie Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 II
Alberto Savarus Albert Savarus Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 II
A Vendeta La Vendetta Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1830 II
Uma Dupla Família Une Double Famille Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 II
A Paz Conjugal La Paix du Ménage Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1829 II
A Falsa Amante La Fausse Maîtresse Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 II
A Senhora Firmiani Madame Firmiani Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 II
Estudo de Mulher Étude de femme Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1830 II
Uma Filha de Eva Une fille d'Eve Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1838 II
A Mensagem Le Message Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 III
O Romeiral La Grenadière Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 III
A Mulher Abandonada La Femme abandonnée Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 III
Honorina Honorine Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1843 III
Beatriz Béatrix Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1839 III
Gobseck Gobseck Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1830 III
A Mulher de Trinta Anos La Femme de Trente Ans Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 III
O Pai Goriot Le Père Goriot Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1834 IV
O Coronel Chabert Le Colonel Chabert Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1832 IV
A Missa do Ateu La Messe d'Athée Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1836 IV
A Interdição L'Interdiction Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1836 IV
O Contrato de Casamento Le Contrat de Mariage Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1835 IV
Outro Estudo de Mulher Autre étude de femme Estudos de Costumes Cenas da Vida Privada 1842 IV
Úrsula Mirouët Ursule Mirouët Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana 1841 V
Eugênia Grandet Eugènie Grandet Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana 1833 V
Pierrette Pierrette Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana Os Celibatários 1839 V
O Cura de Tours Le Curé de Tours Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana Os Celibatários 1832 V
Um Conchego de Solteirão La Rabouilleuse Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana Os Celibatários 1841 VI
O Ilustre Gaudissart L'Illustre Gaudissart Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana Os Parisienses na Província 1833 VI
A Musa do Departamento La Muse du département Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana Os Parisienses na Província 1844 VI
A Solteirona La Vieille Fille Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana As Rivalidades 1836 VI
O Gabinete das Antigüidades Le Cabinet des Antiques Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana As Rivalidades 1837 VI
Ilusões Perdidas Illusions Perdues Estudos de Costumes Cenas da Vida Provinciana 1843 VII
Ferragus Ferragus Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense História dos Treze 1833 VIII
A Duquesa de Langeais La Duchesse de Langeais Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense História dos Treze 1834 VIII
A Menina dos Olhos de Ouro La fille aux yeux d'or Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense História dos Treze 1835 VIII
História da Grandeza e da Decadência de César Birotteau Histoire de la Grandeur et de la Décadence de César Birotteau Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1837 VIII
A Casa Nucingen La Maison Nucingen Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1837 VIII
Esplendores e Misérias das Cortesãs Splendeurs et misères des courtisanes Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1869 IX
Os Segredos da Princesa de Cadignan Les Secrets de la princesse de Cadignan Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1839 IX
Facino Cane Facino Cane Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1836 IX
Sarrasine Sarrasine Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1830 IX
Pedro Grassou Pierre Grassou Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1839 IX
A Prima Bete La Cousine Bette Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense Os Parentes Pobres 1846 X
O Primo Pons Le Cousin Pons Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense Os Parentes Pobres 1847 X
Um Homem de Negócios Un homme d’affaires Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1845 XI
Um Príncipe da Boêmia Un prince de la bohème Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1846 XI
Gaudissart II Gaudissart II Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1844 XI
Os Funcionários Les Employés Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1838 XI
Os Comediantes sem o Saberem Les comédiens sans le savoir Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1846 XI
Os Pequenos Burgueses Les Petits Bourgeois Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1854 XI
O Avesso da História Contemporânea L'Envers de l'histoire contemporaine Estudos de Costumes Cenas da Vida Parisiense 1848 XI
Um Episódio do Terror Un épisode sous la Terreur Estudos de Costumes Cenas da Vida Política 1831 XII
Um Caso Tenebroso Une ténébreuse affaire Estudos de Costumes Cenas da Vida Política 1841 XII
O Deputado de Arcis Le Député d'Arcis Estudos de Costumes Cenas da Vida Política 1854 XII
Z. Marcas Z. Marcas Estudos de Costumes Cenas da Vida Política 1840 XII
A Bretanha em 1799 Les Chouans Estudos de Costumes Cenas da Vida Militar 1829 XII
Uma Paixão no Deserto Une Passion dans le Désert Estudos de Costumes Cenas da Vida Militar 1830 XII
Os Camponeses Les Paysans Estudos de Costumes Cenas da Vida Rural 1855 XIII
O Médico Rural Le Médecin de Campagne Estudos de Costumes Cenas da Vida Rural 1833 XIII
O Cura da Aldeia Le Curé de Village Estudos de Costumes Cenas da Vida Rural 1841 XIV
O Lírio do Vale Le Lys dans la vallée Estudos de Costumes Cenas da Vida Rural 1836 XIV
A Pele de Onagro La Peau de chagrin Estudos Filosóficos 1831 XV
Jesus Cristo em Flandres Jésus-Christ en Flandre Estudos Filosóficos 1831 XV
Melmoth Apaziguado Melmoth Réconcilié Estudos Filosóficos 1835 XV
Massimilla Doni Massimilla Doni Estudos Filosóficos 1839 XV
A Obra-Prima Ignorada Le Chef-d'œuvre inconnu Estudos Filosóficos 1832 XV
Gambara Gambara Estudos Filosóficos 1837 XV
A Procura do Absoluto La Recherche de l'absolu Estudos Filosóficos 1834 XV
O Filho Maldito L'Enfant maudit Estudos Filosóficos 1837 XVI
As Maranas Les Marana Estudos Filosóficos 1832 XVI
O Conscrito Le Réquisitionnaire Estudos Filosóficos 1831 XVI
"El Verdugo" El Verdugo Estudos Filosóficos 1830 XVI
Um Drama à Beira-Mar Un drame au bord de la mer Estudos Filosóficos 1835 XVI
Mestre Cornélius Maître Cornélius Estudos Filosóficos 1831 XVI
A Estalagem Vermelha L'Auberge rouge (livro) Estudos Filosóficos 1831 XVI
Sobre Catarina de Médicis Sur Catherine de Médicis Estudos Filosóficos 1843 XVI
O Elixir da Longa Vida L'Élixir de longue vie Estudos Filosóficos 1830 XVI
Os Proscritos Les Proscrits Estudos Filosóficos 1831 XVI
Adeus Adieu Estudos Filosóficos 1830 XVI
Luís Lambert Louis Lambert Estudos Filosóficos 1832 XVII
Seráfita Séraphîta Estudos Filosóficos 1834 XVII
Fisiologia do Casamento Physiologie du mariage Estudos Analíticos 1829 XVII
Pequenas Misérias da Vida Conjugal Petites misères de la vie conjugale Estudos Analíticos 1846 XVII

A edição mais antiga de 1954[7] continha ainda ensaios críticos introdutórios em cada volume, escritos por grandes críticos, filósofos e escritores famosos e traduzidos para o português. Esses ensaios foram, infelizmente, removidos na reedição acima mencionada. Em contrapartida, adicionou-se o famoso prefácio do autor, que a edição de 1954 não continha.

Volume Título do ensaio Autor Página
I A vida de Balzac Paulo Rónai xiii
II Balzac Hippolyte Taine xiii
III Balzac Victor Hugo ix
III Honoré de Balzac Théodore de Banville xv
VI Balzac Anatole France xiii
VI Balzac, escritor universal Ferdinand Baldensperger vi
V Balzac Sainte-Beuve xiii
VI Balzac e o naturalismo no romance Teófilo Braga xiii
VII Balzac Émile Faguet xiii
VIII Chaudes-Aigues e Balzac Émile Zola xi
VIII Os livros subterrâneos de Balzac Stefan Zweig xxi
IX Balzac Georg Brandes xi
X Balzac, uma análise marxista V. Grib xxi
XI Balzac e os irmãos da consolação Marcel Bouteron 494
XI Sobre caracteres no romance e no drama Hugo von Hofmannsthal xiii
XII Balzac Pierre Mille xiii
XII Introdução a Balzac Raymond Mortimer xxi
XIII O método de Balzac Ramon Fernandez xi
XIII A humanidade vista por Balzac Ronald de Carvalho xxv
XIV O caso Lemoine num romance de Balzac Marcel Proust xi
XIV H. de Balzac Nestor Victor xix
XV A influência de Balzac Ernst Curtius xiii
XVI Balzac Benedetto Croce xi
XVI Elogia e sátira de Balzac Pio Baroja xxiii
XVII Balzac Henry James xi


Referências

  1. CARPEAUX, Otto Maria, História da Literatura Ocidental, Vol. VI, pág. 1399, 2a. edição, revista e atualizada, 1982, Rio de Janeiro: Editorial Alhambra
  2. RÓNAI, Paulo, Balzac e A Comédia Humana, pág. 73, 3a. edição, 1993, São Paulo: Editora Globo
  3. RÓNAI, Paulo, op. cit., pág. 35
  4. BALZAC, Honoré de, O Pai Goriot, tradução de Gomes da Silveira, in A Comédia Humana, Vol. IV, pág. 235, orientação, introduções e notas de Paulo Rónai, nova edição, revista, 1989, São Paulo: Editora Globo
  5. BALZAC, Honoré de, Uma Estreia na Vida, tradução de Vidal de Oliveira, in op. cit., Vol. II, pág. 157
  6. RÓNAI, Paulo, introdução a Uma Paixão no Deserto in A Comédia Humana, Vol. XII, pág. 623, orientação, introduções e notas de Paulo Rónai, nova edição, revista, 1991, São Paulo: Editora Globo
  7. Honoré de Balzac. "A comédia humana." Org. Paulo Rónai. Porto Alegre: Editora Globo, 1954. Volume XVII