Nauruanos

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Nauruanos
Nauruan-warrior-1880ers.jpg
Guerreiro nauruano na década de 1880
População total

~ 8694[1]

Regiões com população significativa
Nauru ~8694
Línguas
Nauruano e inglês
Religiões
Protestantismo e catolicismo
Grupos étnicos relacionados
Austronésios

Os nauruanos são um grupo étnico originário de Nauru, uma ilha do Oceano Pacífico, a noroeste da Papua-Nova Guiné. Actualmente, os Nauruanos vivem quase todos nesta ilha, com a excepção de uma pequena diáspora presente na Austrália.

O termo «Nauruanos» constitui um etnónimo mas é simultaneamente o gentílico da população de Nauru. As pessoas com a nacionalidade de Nauru também são chamadas «Nauruanos» mas nem todas fazem parte deste grupo étnico (o país tem mais de 12 000 habitantes). A Constituição local, na sua parte VIII[2] define a cidadania do país através de uma artigo que se refere à "comunidade nauruana". Segundo a sua secção 4, os membros desta última serão "aborígenes nativos da ilha de Nauru em virtude das instituições, costumes e usos da ilha", além de pessoas originárias de outras ilhas do Pacífico casados com nauruanos, ou residentes em Nauru e que mantenham um estilo de vida tipicamente nauruano, e respectiva descendência"[3] .

História[editar | editar código-fonte]

Nauruanos em 1896.
Casa tradicional e piroga em 1896.

Época pré-colonial[editar | editar código-fonte]

Embora não exista nenhuma prova arqueológica, crê-se que os primeiros povoamentos de Nauru terão acontecido na Antiguidade e serão de navegantes micronésios e melanésios[4] . Cerca de 1200 a.C., uma nova vaga de imigração terá chegada a esta ilha vinda do litoral da China através das Filipinas. Cruzamentos interétnicos entre estes e provavelmente também com as populações polinésias de arquipélagos circundantes terão homogeneizado a população[4] . Os Nauruanos, organizados em doze tribos, partilham uma mitologia comum, vivem da agricultura de subsistência (cultura de coqueiro, de bananeira, do pandanus e do takamaka, embora também da pesca e da piscicultura)[5] , [6] .

A partir de 1830, populações alóctones chegam à ilha descoberta para o mundo ocidental em 1798 pelos britânicos[7] . Alguns Europeus desembarcam e introduzem conceitos desconhecidos para os Nauruanos como as transacções com dinheiro, e a solução de conflitos recorrendo à violência[7] . Estes contactos com a civilização ocidental tiveram influências nefastas na sociedade nauruana, desembocando numa guerra civil que fez centenas de vítimas entre 1878 e 1888[8] . Ao mesmo tempo, grassaram doenças como a gripe, a disenteria e a tuberculose contra as quais as defesas imunitárias dos Nauruanos são deficitárias dizimaram a população[7] . O número de Nauruanos passou de cerca de 1400 indivíduos em 1843 a apenas 900 em 1888[8] .

Colonização[editar | editar código-fonte]

A partir de 1888, a Alemanha colonizou a ilha e trouxe estrangeiros como mão-de-obra: Chineses, Gilbertinos e Carolinianos. Ao mesmo tempo, os Alemães evangelizaram, educaram e ocidentalizaram os Nauruanos que perderam assim progressivamente as referências à sua própria cultura, abandonando a sua religião, os seus costumes, a sua estrutura social e de modo parcial a sua língua[7] . Em 1906, com o início da extracção de fosfato no planalto central da ilha, o número de aldeias reduz-se, passando de 169 em 1900 a 110 em 1920.

No final da Primeira Guerra Mundial, Nauru passou para o controlo do Reino Unido. Foi a partir deste período que nasceu a percepção de que os Nauruanos poderiam desaparecer enquanto grupo étnico[9] . De facto, as autoridades da época constataram que o número de Nauruanos tinha diminuído até chegar a apenas 1 068 indivíduos, por causa da epidemia de gripe. Criaram então o conceito de Angam Day para relançar a natalidade : o 1500.º Nauruano receberia presentes e todas as honras da ilha quando nascesse e o dia seria festejado como feriado todos os anos[9] . Em 26 de Outubro de 1932, o Angam Day é festejado pela primeira vez com o nascimento de Eidegenegen Eidagaruwo, o primeiro Angam Baby[9] .

Durante a Segunda Guerra Mundial, Nauru foi relativamente poupada pelos combates mas foi ocupada entre 1942 e 1945 pelo Japão[10] . Os 1 850 Nauruanos foram deixados em liberdade de circulação mas submetidos a racionamento[10] . Em Setembro de 1943, os Japoneses deportaram 1 200 Nauruanos nas ilhas Truk, para os utilizar como mão-de-obra mas também para limitar o estado de fome que se abateu sobre Nauru nas condições difíceis do Pacífico, com os bombardeamentos e combates a dificultar o contacto entre ilhas[7] ,[11] . Só 737 Nauruanos sobreviveram. Estes seriam repatriados para a sua ilha em 31 de Janeiro de 1946. Os outros não sobreviveram às duras condições de vida (incluindo o Angam Baby Eidegenegen Eidagaruwo)[9] ,[12] . O número de Nauruanos caiu de novo para apenas 1 369 indivíduos mas em 31 de Março de 1949, o Angam Day foi promovido pela segunda vez na história de Nauru com o nascimento de Bethel Enproe Adam[9] . O número de Nauruanos não cessou de aumentar desde essa época.

Em 1 de Novembro de 1947, a ONU confia o mandato de Nauru à Austrália e a extracção do fosfato é retomada[13] . Os Nauruanos retiram daí poucos benefícios, e reivindicam o estabelecimento de um «Conselho de governo local». Este foi criado em 18 de Dezembro de 1951[10] . No entanto, o Conselho não tem nenhum poder concreto, enquanto os Nauruanos tomam consciência que as reservas de fosfato diminuem e são literalmente pilhadas[10] . A Austrália concebe então um projecto de deslocação da totalidade dos Nauruanos na ilha Fraser e depois na ilha Curtis mas estes últimos recusam-no porque a Austrália não concorda com a independência [10] , [12] . Reforçados por esta recusa por parte da Austrália, os Nauruanos reclamam a independência para Nauru, que é finalmente concedida em 31 de Janeiro de 1968, no termo de um período de transição política e económica[10] .

Repartição geográfica[editar | editar código-fonte]

A maioria dos Nauruanos vivem na ilha de Nauru, principalmente agrupados numa aglomeração situada no sudoeste da ilha, ao longo do litoral, e os outros habitantes formam uma pequena comunidade em volta da lagoa Buada, o único lugar habitado do planalto central. Para além de Nauru, uma pequena diáspora vive maioritariamente na Austrália. Esta pequena parte é constituída por Nauruanos financeiramente estáveis e por estudantes inscritos nas universidades australianas[12] .

Estrutura da sociedade e modo de vida[editar | editar código-fonte]

Missão católica em 1914.
Cena de pesca na lagoa Buada em 1938.

Costumes tradicionais[editar | editar código-fonte]

Antes da colonização da ilha no final do século XIX, os Nauruanos estavam organizados em doze tribos (simbolizadas hoje pela estrela branca de doze pontas da bandeira de Nauru) e distribuídos por aldeias : Deiboe, Eamwidamit, Eamwidara, Eamwit, Eamgum, Eano, Emeo, Eoraru, Irutsi, Iruwa, Iwi e Ranibok[14] ,[8] . Cada tribo tinha um chefe que era o representante do conjunto de elementos do seu clã. Estes chefes encontravam-se em grandes reuniões para decidir sobre assuntos importantes para a sociedade no seu conjunto. A sociedade matriarcal[8] permitia às mulheres ocupar o posto de chefe de tribo embora se saiba que o mais comum era um homem tomar esse lugar[15] . Os homens são responsáveis por fornecer uma casa à sua família enquanto as mulheres se ocupam das crianças e das decisões familiares[15] .

Como cada tribo tem a sua própria história e o seu próprio dialecto da língua nauruana[1] , cada Nauruano reclama-se como membro de uma tribo. A tribo Iruwa era composta por imigrantes Gilbertinos recentemente chegados a Nauru. As tribos Irutsi e Iwi não tiveram descendentes: os seus últimos representantes terão aparentemente desaparecido, desconhecendo-se as razões, aquando da invasão e ocupação japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Estas tribos não existem mais na actualidade, e os habitantes de Nauru identificam-se em primeiro lugar com o distrito onde vivem.

A sociedade, totémica e pacífica (como testemunha o primeiro nome de Nauru : Pleasant Island, « Ilha Agradável »), vive da cultura de coqueiros, bananeiras, pandanus e takamakas usando o método da queimada e da criação de suínos[5] ,[7] . Para enfrentar a seca provocada por La Niña, foram feitas reservas de coco na forma de copra[7] . O leite de coco é fermentado para produzir uma bebida alcoólica de sabor amargo[7] . Os Nauruanos praticam também a piscicultura desde há centenas de anos, capturando peixes-leite em torno da ilha e colocando-os na lagoa Buada, um lago no centro da ilha, e numa lagoa de Anabar[6] . A piscicultura serve agora como modo de organização social entre as diferentes tribos: as exploirações são divididas entre as tribos com muretes, o cuidado dos peixes é confiado aos homens que renovam regularmente o oxigénio da água para a carregar de nutrientes, as crianças estão proibidas de perturbar os peixes quando se banham nas suas águas[6] .

Ocidentalização[editar | editar código-fonte]

Os primeiros contactos com o mundo ocidental através de navios-mercantes e dos raros Europeus que viviam na ilha deram lugar a uma guerra civil tribal que fez centenas de vítimas. Para repôr a paz e unidade entre os Nauruanos, o Império alemão tomou posse da ilha e proclamou o chefe Auweyida e a sua mulher Eigamoiya rei e rainha de Nauru, títulos honoríficos que mantiveram até 1920[14] . Com a colonização, a sociedade nauruana perdeu a sua estrutura original e os seus usos e costumes: o cristianismo substituiu o totemismo, o nauruano perdeu os seus dialectos para se tornar uma língua única e alterou-se com palavras provenientes da língua alemã, o matrimónio cristão suplantou a poligamia, as danças tradicionais tidas por demasiado sexuais foram interditas, os panos que tapavam o sexo são substituídos por vestes e as fricções corporais com óleo de coco são abandonadas[7] . Os colonizadores alemães e depois os britânicos preocuparam-se pouco com os Nauruanos não lhes entregando senão uma pequena parte do rendimento gerado pela extracção do fosfato[7] .

Esta situação perdurou até à década de 1960, quando o processo de independência permitiu aos Nauruanos melhorar o seu nível de vida[7] . A partir da independência, vivendo da totalidade dos benefícios da exportação do fosfato, converteram-se a uma sociedade de consumo[12] , [8] (alimentos industriais, tabaco, álcool, automóveis, televisores, electrodomésticos, etc) e equiparam-se com todas as infrastruturas necessárias à vida de um estado e de uma população numa ilha isolada (centro de congressos, companhia aérea, estruturas de comunicação, etc)[16] . Este período de opulência termina na década de 1990 quando as reservas de fosfato começam a esvanecer-se e os investimentos financeiros e imobiliários fora do país se revelam infrutíferos[12] ,[17] . Empobrecidos, os Nauruanos sentem o perigar do seu modo de vida ocidentalizado com um aumento da incidência de certas doenças ligadas a uma má higiene[18] ,[16] . Os Nauruanos apresentam de facto uma das mais altas taxas no mundo de diabetes (quase 66% dos indivíduos que atingem a idade de 55 anos) e uma altíssima incidência de obesidade e de hipertensão[18] ,[16] .

Cultura[editar | editar código-fonte]

Equipa nauruana de futebol australiano dos Panzer Saints em 2003.

Mitologia e religião[editar | editar código-fonte]

Os Nauruanos, antes da evangelização cristã, praticavam uma religião totémica baseada numa mitologia centrada em torno de uma cosmogonia e de duas divindades principais: Eijebong, a deusa da feminilidade, e Buitani, a ilha dos espíritos. Diversos rituais eram associados a essa religião como o de os hommes deverem beber uma bebida amarga à base de kava todas as noites[19] ou ainda a oferenda diária sob a forma de farinha feita para o espírito do lar. Segundo a cosmogonia nauruana, uma aranha chamada "Areop-Enap" criou o mundo a partir de um mexilhão, de dois caracóis e de um verme e os homens a partir de pedras[20] .

Desde a evangelização dos Nauruanos a partir do fim do século XIX, são muito poucos os que seguem ainda esta mitologia que se encontra mais como folclore. Cerca de dois terços dos Nauruanos declaram-se protestantes, os outros católicos[10] .

Língua[editar | editar código-fonte]

A língua des Nauruanos pertence ao grupo malaio-polinésio oriental da família das línguas austronésias. No início da colonização da ilha pelo Império Alemão, o nauruano foi objecto de estudos linguísticos[21] . Contendo originalmente vários dialectos que tornavam a intercompreensão difícil entre os falantes de zonas linguísticas diferentes, pouco a pouco foram-se fundindo numa língua comum com empréstimos da língua alemã[7] .

Em 1938 foi posta em marcha uma reforma da língua com vista a simplificar para que fossem mais fáceis as comunicações com os Europeus e os Norte-Americanos. Esta reforma não foi senão parcialmente aplicada na realidade, pois certos e antigos usos ainda hoje se encontram em vigora.

Com a colonização britânica e depois com a australiana, os Nauruanos passaram a aprender e a utilizar maioritariamente a língua inglesa[1] . A sua língua constitui ainda um testemunho da colonização da ilha porque muitos Nauruanos são bilingues[1] . O inglês é assim utilizado preferencialmente nos domínios da administração, da justiça, do ensino superior e do comércio enquanto que o nauruano só é usado entre a população, nos primeiros anos do ensino e na televisão e rádio[1] .

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Commons
O Commons possui multimídias sobre os Nauruanos

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bellwood, Peter, The Austronesians, Research School of Pacific and Asian Studies, Australian National University, 1995

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. a b c d e (em francês) Université de Laval - Aménagement linguistique dans le monde
  2. Constituição de Nauru, parte VIII
  3. Nauruan Community Ordinance 1956-1962
  4. a b (em inglês) Nauru Department of Economic Development and Environment. 2003. First National Report To the United Nations Convention to Combat Desertification (UNCCD) acesso em 2006-05-03
  5. a b (em inglês) FAO - Forestry
  6. a b c (em inglês) Secretariat of the Pacific Comunity - Nauru aquaculture development plan
  7. a b c d e f g h i j k l (em inglês) Carl N. McDaniel, John M. Gowdy, Paradise for Sale, Cap. 2
  8. a b c d e (em inglês) U.S. Department of state - Nauru
  9. a b c d e (em inglês) Missão permanente de Nauru junto das Nações Unidas - Angam Day
  10. a b c d e f g (em inglês) Encyclopedia of the Nations - Histoire de Nauru
  11. (em inglês) Pacific Magazine História de Nauru durante a Segunda Guerra Mundial
  12. a b c d e (em inglês) Center for Independent Studies
  13. (em inglês) World Statesmen - Nauru
  14. a b (em inglês) Site com a história da administração de Nauru
  15. a b (em inglês) Université de Houston - Nauru
  16. a b c (em inglês) Republic of Nauru National Assessment Report
  17. (em francês) Article de L'EXPRESS, « Nauru, île en perdition », 7-3-2005
  18. a b (em inglês) World Health Organisation - Nauru
  19. (em inglês) Map and History of the Nauruan People
  20. (em inglês) Encyclopedia Mythica - Areop-Enap
  21. (em inglês) Dictionnaire anglais-nauruan de Philip Delaporte

Ver também[editar | editar código-fonte]