O Livro Negro do Comunismo

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
(Redirecionado de O livro negro do Comunismo)
Ir para: navegação, pesquisa
Emblem-scales.svg
A neutralidade desse artigo (ou seção) foi questionada, conforme razões apontadas na página de discussão. (desde dezembro de 2012)
Justifique o uso dessa marca na página de discussão e tente torná-lo mais imparcial.

O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror, Repressão é uma obra coletiva de professores e pesquisadores universitários europeus. O livro foi editado por Stéphane Courtois, diretor de pesquisas do Centre national de la recherche scientifique (CNRS), e seu lançamento ocorreu por ocasião dos 80 anos da Revolução Russa.

O Livro Negro faz um inventário da repressão política por parte regimes ditos marxistas-leninistas — incluindo as execuções extrajudiciais, as deportações e as crises de fome. Foi publicado originalmente em 1997, na França, sob o título Le livre noir du communisme: Crimes, terreur, répression.[1]

Autores[editar | editar código-fonte]

O livro, editado por Stéphane Courtois, tem como autores os seguintes académicos e especialistas europeus:

  • Stéphane Courtois, director de pesquisas no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS).
  • Nicolas Werth, pesquisador do Institut d'Histoire du Temps Présent (IHTP) em Paris.[2]
  • Jean-Lous Panné, especialista em movimento comunista internacional.
  • Andrzej Paczkowski, director do Instituto de Estudos Políticos da Academia Polaca das Ciências e um membro da comissão arquivadora do Ministério Polaco dos Assuntos Internos.
  • Karel Bartošek (1930-2004), historiador checo e investigador no IHTP.
  • Jean-Lous Margolin, pesquisador da Universidade da Provença e do Instituto de Investigação do Sudeste Asiático.
  • Sylvain Boulougue, pesquisador associado do GEODE, Universidade de Paris X.
  • Pascal Fontaine, jornalista, especialista em América Latina.
  • Rémi Kauffer, especialista em história dos serviços secretos, terrorismo e operações clandestinas.
  • Pierre Rigoulet, pesquisador do Instituto de História Social.
  • Yves Santamaria, historiador.

A introdução, a cargo do editor Stéphane Courtois, declara que "…os regimes comunistas tornaram o crime em massa uma forma de governo". Usando estimativas não oficiais, apresenta um total de mortes que chega aos 94 milhões. A estatística do número de mortes dado por Courtois é a seguinte:

O livro defende explicitamente que os regimes comunistas são responsáveis por um número maior de mortes do que qualquer outra ideologia ou movimento político, incluindo o fascismo. As estatísticas das vítimas incluem execuções, fomes intencionalmente provocadas, mortes resultantes de deportações, prisões e trabalhos forçados.

Uma lista parcial mais detalhada de alguns crimes cometidos na União Soviética durante os regimes de Lenin e Stalin descritos no livro inclui:

O livro, entre outras fontes, usou material dos recentemente abertos ficheiros do KGB e de outros arquivos soviéticos.

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

Dois dos autores, Nicholas Werth e Jean-Louis Margolin, desencadearam um debate na França quando publicamente se dissociaram das declarações de Curtois na introdução acerca da escala de violências tachadas a regime "ditos" comunistas. Achavam que este estava "obcecado" com chegar a um total de 100 milhões de vítimas. Em vez disso estimavam que o comunismo fizera entre 65 e 93 milhões de mortos.[3] Rejeitaram igualmente a comparação da repressão soviética com o genocídio Nazi.

Werth, um bem considerado especialista francês acerca da União Soviética, disse que apesar de tudo existia uma diferença qualitativa entre o nazismo e o comunismo. Disse ao Le Monde que "Não existiam campos de extermínio na União Soviética",[4] e que "Quanto mais se compara o comunismo com o nazismo, mais as diferenças são óbvias.[5] "

O número de 60 milhões de mortes na China (as estimativas variam muito [carece de fontes?] ) é criticada por incluir as mortes por fome (talvez cerca de metade do total) e da guerra civil, que parece incluir também as mortes causadas pela invasão japonesa.

Recepção[editar | editar código-fonte]

Sem surpresas, devido à natureza do assunto a que diz respeito, o livro desencadeou uma grande variedade de respostas, desde o apoio entusiástico a um criticismo severo.

Apoio[editar | editar código-fonte]

O livro negro do comunismo recebeu louvores dos meios de comunicação norte-americanso e britânicos, incluindo o Times Literary Supplement, New York Times Book Review, Library Journal, Kirkus Reviews, The New Republic, The National Review e The Weekly Standard.[6]

O historiador Tony Judt, analisando o livro para o The New York Times:[6]

Um compêndio de 800 páginas dos crimes dos regimes comunistas por todo o mundo, recolhidos e analisados em grande detalhe por uma equipa de especialistas. Os factos e os dados, alguns deles bem conhecidos, outros confirmados há pouco em até agora inacessíveis artigos, são irrefutáveis. O mito dos fundadores bem intencionados - o bom czar Lenine e os seus perversos herdeiros - foi apagado de vez. Ninguém poderá mais clamar ignorância ou incerteza acerca da natureza criminosa do comunismo, e aqueles que começaram a esquecer serão forçados a relembrar de novo.

Anne Applebaum, autora de "Gulag: Uma História":[6]

Uma história séria dos crimes comunistas na União Soviética, Europa Oriental e Ocidental, China, Coreia do Norte, Camboja, Vietname, África e América Latina… 'O livro negro' de facto ultrapassa muitos dos seus predecessores em relatar a grande escala da tragédia comunista devido ao uso extensivo por parte dos autores dos recentemente abertos arquivos da União Soviética e da Europa Oriental.

Martin Malia, professor de história na Universidade da Califórnia, Berkeley, escrevendo para o suplemento literário do Times:[6]

A publicação sensação em França neste inverno (1999) foi um austero tomo volume académico, 'Le Livre Noir du Communisme', detalhando os crimes do comunismo desde a Rússia, em 1917, ao Afeganistão, em 1989… 'O livro negro do comunismo' faz um balanço do nosso presente conhecimento acerca dos custos humanos do comunismo, baseado em arquivos quando possível, e quando não baseado nas melhores fontes secundária e com referência às dificuldades de qualificação. No entanto, apesar de austero, o seu impacto cumulativo é enorme. Ao mesmo tempo o livro dá uma série de importantes pontos analíticos.

Críticas[editar | editar código-fonte]

Debate sobre o número de vítimas[editar | editar código-fonte]

Não há consenso entre os historiadores sobre o número de vítmas da repressão nos países do bloco socialista. Alguns põem o número de vítimas muito mais alto do que no Livro negro, mas outros dizem que o número é mais baixo. Por exemplo, as estimativas para o regime de Estaline na União Soviética vão entre os 20 e os 60 milhões,[7] e os de Mao Tsé Tung na China entre os 19,5 e os 75 milhões.[8] Os autores do Livro negro defendem as suas estimativas para a União Soviética (20 milhões) e para a Europa de Leste (1 milhão) dizendo que usaram fontes que não estavam disponíveis a investigadores anteriores (os arquivos mencionados anteriormente). Ao mesmo tempo, os autores reconhecem que as estimativas para a China e outros países ainda governadas por partidos comunistas são incertas, uma vez que os seus arquivos ainda estão fechados. Nos anos recentes alguns autores publicaram estimativas progressivamente maiores das mortes provocadas por regimes comunistas; assim, livros recentes como Mao: A história desconhecida e Um século de violência na Rússia Soviética defenderam números de mortos mais elevados para a China e a Rússia respectivamente.

Outros pesquisadores criticam as estimativas excessivamente altas e desprovidas de fundamento empírico-documental, e estabeleceram números muito menores por meio de pesquisas em casos específicos. Para a ditadura stalinista, por exemplo, a análise estatística dos arquivos do aparelho repressivo soviético revelam 3 milhões de vítimas letais da repressão, tanto política quanto criminal: 800 mil execuções, 1,7 milhões de mortos dentro das prisões e campos de trabalho, e 350 mil mortos nos conflitos no campo durante a coletivização forçada da agricultura.[9] [10] Vickery, citado por Chomsky, calcula em 700 mil o número de mortes "acima do normal" durante a ditadura de Pol Pot, estipulando que uma boa porcentagem destas mortes foram provocadas pela fome provocada pela destruição da agricultura por bombardeios norte-americanos.[11]

Outro professor da Universidade da Califórnia, Mark Tauger, também discorda com a tese do autor de que a morte de um camponês da Ucrânia "vale a morte de uma criança no Gueto de Varsóvia". Não interpreta o Holodomor como uma fome intencional e como genocídio.[12] Esta é uma polémica em curso entre os historiadores. Por exemplo, Robert Conquest também vê esta fome, o Holodomor, como intencional.

O argumento de que os regimes políticos descritos não eram comunistas[editar | editar código-fonte]

Críticos do Livro negro alegaram que este usa o termo comunista para se referir a uma vasta variedade de sistemas e que "arbitrariamente atira fenómenos históricos completamente diferentes como a querra civil de 1918-21, a colectivização forçada e o Grande Terror na União Soviética, o domínio de Mao na China e de Pol Pot no Camboja, o governo militar na Etiópia tal como diversos movimentos políticos da América Latina, desde a frente sandinista na Nicarágua ao Caminho Brihante no Perú."[13] Não discutindo a natureza comunista ou não dos países referenciados, o jornal francês Le Monde diplomatique argumentou que a história local e as tradições desempenharam um papel ao menos tão importante quanto o do comunismo em cada caso.[14]

Em carta de Engels à Eduard Bernstein Karl Marx teria dito a Lafarge: "Se algo é certo, é que eu próprio não sou um marxista". Isso sendo dito como crítica a peculiaridade distorcida do marxismo françês à época, não uma autocrítica de arrependimento, mas um aviso contra distorções.[15] Esta frase é usada isolada do seu contexto por críticos do marxismo como se fosse uma autocrítica de arrependimento. [16] Contudo dentro do marxismo há uma tentativa teórica de diferenciar os textos e conceitos de Marx-Engels (marxianismo) dos demais teóricos ou praxistas que vieram produzir novos conceitos ou interpretações. Essa diferenciação não vem a invalidar ou refutar obras derivadas, contudo vem buscar diferenciar e contextualizar a obra de Marx e Engels com um recorte mais preciso.

O argumento de que o livro é parcial[editar | editar código-fonte]

Outra crítica ao livro é que discute apenas os estados comunistas, sem fazer comparações com os estados capitalistas. Alguns críticos argumentaram que, se fossem aplicados os padrões do Livro negro ao capitalismo, este poderia ser responsabilizado por tantas mortes como os países comunistas (ver: O Livro Negro do Capitalismo) Entre os alegados crimes do capitalismo estão as mortes resultantes do colonialismo e do imperialismo, repressão das classes trabalhadoras e de sindicatos nos séculos XIX e XX, dictaduras pró-ocidentais durante a guerra fria e o rápido regresso ao capitalismo em estados anteriormente comunistas após 1990.[17] [18] O Le Monde Diplomatique nota que o Livro Negro incrimina o lado comunista em numerosas guerras e revoluções sem mencionar as mortes e outros crimes cometidos pelo lado anticomunista ao mesmo tempo.[14] Noam Chomsky, refere que os argumentos usados por capitalistas para justificar essas mortes são muito semelhantes aos argumentos usados para defender os países comunistas. Por exemplo, alega-se que o colonialismo e o imperialismo não representam o verdadeiro capitalismo, e que as mortes provocadas por ditadura pró-ocidentais durante a guerra fria eram necessárias para lutar contra o comunismo.

Apoiantes do capitalismo defendem que a investigação empírica, tal como a que é feita acerca da liberdade económica, mostra que os países capitalistas tendem a ter menor pobreza.[19]

Trivia[editar | editar código-fonte]

O livro Estalinismo e Nazismo: História e Memória Comparadas argumenta que o título ecoa o livro documental de Ilya Ehrenburg e Vasily Grossman acerca das atrocidades nazis, O Livro Negro.[20] . O

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Le Livre noir du communisme, Éditions Robert Laffont, 1997. ISBN 2-221-08-204-4p.
  2. [1]
  3. Le Monde, 14 de Novembro de 1997
  4. J Arch Getty, The Atlantic Monthly, Boston: Mar 2000.Vol.285, Iss. 3; pg. 113, 4 pgs [2]
  5. Le Monde, 21 de Setembro de 2000
  6. a b c d [3]
  7. [4]
  8. [5]
  9. Stephen G. Wheatcroft, "Victims of Stalinism and the Soviet Secret Police: The Comparability and Reliability of the Archival Data. Not the Last Word", Source: Europe-Asia Studies, Vol. 51, No. 2 (Mar. 1999), pp. 315–345, gives the following numbers: During 1921–53, the number of sentences was (political convictions): sentences, 4,060,306; death penalties, 799,473; camps and prisons, 2,634397; excile, 413,512; other, 215,942. In addition, during 1937–52 there were 14,269,753 non-political sentences, among them 34,228 death penalties, 2,066,637 sentences for 0–1 year, 4,362,973 for 2–5 years, 1,611,293 for 6–10 years, and 286,795 for more than 10 years.
  10. Getty, Rittersporn, Zemskov. "Victims of the Soviet Penal System in the Pre-war Years". Archived from the original on 11 June 2008. See also: Stephen Wheatcroft (1996). "The Scale and Nature of German and Soviet Repression and Mass Killings, 1930–45" (PDF). Europe-Asia Studies. Retrieved 28 December 2008. and Stephen Wheatcroft (1990). "More light on the scale of repression and excess mortality in the Soviet Union in the 1930s"
  11. [6]
  12. [7]
  13. [8]
  14. a b [9]
  15. [10]
  16. [11]
  17. [12]
  18. [13]
  19. Liberdade Económica no Mundo: Relatório Anual de 2004 (pdf)
  20. Henry Rousso (edt), Stalinism and Nazism: History and Memory Compared (2004), ISBN 0803239459, p. xiii

Ligações externas[editar | editar código-fonte]