Rômulo e Remo

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Lupa Capitolina: loba com Rômulo e Remo. Obra medieval que imita um original etrusco.
Eneias abandona Troia em chamas, de Federico Barocci (ca. 1598), Galleria Borghese, Roma.
Rômulo e Remo, de Peter Paul Rubens (ca 1615-1616), Museus Capitolinos, Roma.
Rômulo e Remo abrigados por Fáustulo, por Pietro de Cortona (ca. 1643), Museu do Louvre, Paris.
Rapto das Sabinas, óleo de Pietro de Cortona (ca. 1627-1629), Museus Capitolinos, Roma.

Rômulo (português brasileiro) ou Rómulo (português europeu) e Remo são, segundo a mitologia romana, dois irmãos gêmeos, um dos quais, Rômulo, foi o fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. Segundo a lenda, eram filhos de Marte e de Reia Sílvia, descendente de Eneias. A data de fundação de Roma é indicada, por tradição, em 21 de abril de 753 a.C. (também chamado de "Natal de Roma" e dia das festas de Pales).

Tradição[editar | editar código-fonte]

A primeira menção a Rômulo ocorre em uma das vertentes do mito de Eneias, onde este possui um filho de nome "Rhomylos", que, por conseguinte, era pai do fundador de Roma, "Rhomos".[1] Os primeiros relatos escritos acerca de Rômulo provêm de autores gregos, especialmente de Helânico de Mitilene (século V a.C.) e Quinto Fábio Pictor, que inspiraram o relato de autores clássicos como Tito Lívio, Plutarco e Dionísio de Halicarnasso.[2] [3] Estes autores forneceram uma ampla base literária para o estudo da mitografia da fundação de Roma. Eles têm muito em comum, mas cada é seletivo para sua finalidade. O relato de Tito Lívio é um digno manual, justificando a finalidade e moralidade das tradições romanas para seus próprios tempos. Ele usa pelos menos uma fonte compartilhada por Dionísio e Plutarco mas os últimos são etnicamente gregos; eles abordam os mesmos assuntos romanos como forasteiros interessados, e incluem tradições de fundadores não rastreáveis a uma fonte comum, e provavelmente específicos para determinadas regiões, classes sociais ou tradições orais.[4] [5] Um texto sobrevivente do período imperial tardio, Origo gentis Romanae (A origem do povo romano) é dedicado as variantes, muitas vezes contraditórias, do mito da fundação.[6]

Tanto a loba como o pica-pau, animais sagrados relacionados ao mito dos gêmeos, assim como o estupro sofrido por Reia Sílvia são características de relatos mais antigos como, por exemplo, uma das passagens do Antigo Testamento (Êxodo 2:1-10).[7]

Lenda[editar | editar código-fonte]

Na Eneida de Virgílio e na Ab Urbe condita libri de Tito Lívio, Eneias, filho da deusa Vênus foge de Troia com seu pai Anquises, seu filho Ascânio e os sobreviventes da cidade. Com este realiza diversas peregrinações que o levam, por fim, ao Lácio, na Itália. Lá ele é recebido pelo rei local Latino que oferece a mão de sua filha, Lavínia. Isto provoca a fúria do rei dos rútulos, Turno, um poderoso monarca itálico que havia se interessado por ela. Uma terrível guerra entre as populações da península eclode e como resultado, Turno é morto. Eneias, agora casado, funda a cidade de Lavínio em homenagem a sua esposa. Seu filho, Ascânio governa na cidade por trinta anos até que resolve se mudar e fundar sua própria cidade, Alba Longa.[8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15]

Cerca de 400 anos depois, o filho e legítimo herdeiro do décimo-segundo rei de Alba Longa, Numitor, é deposto por um estratagema de seu irmão Amúlio. Para garantir o trono, Amúlio assassina os descendentes varões de Numitor e obriga sua sobrinha Reia Sílvia a tornar-se vestal (sacerdotisa virgem, consagrada a deusa Vesta),[16] no entanto, esta engravida do deus Marte e desta união foram gerados os irmãos Rômulo e Remo.[17] [18] Como punição, Amúlio prende Reia em um calabouço e manda jogar seus filhos no rio Tibre.[19] Como um milagre, o cesto onde estavam as crianças acaba atolando em uma das margens do rio no sopé dos montes Palatino e Capitolino, em uma região conhecida como Cermalus, onde são encontrados por uma loba que os amamenta;[20] próximo às crianças estava um pica-pau, ave sagrada para os latinos e para o deus Marte, que os protege.[21] Tempos depois, um pastor de ovelhas chamado Fáustulo encontra os meninos próximo ao pé da Figueira Ruminal (Ficus Ruminalis), na entrada de uma caverna chamada Lupercal.[22] [23] Ele os recolhe e leva-os para sua casa onde são criados por sua mulher Aca Laurência.[24] [25] [26]

Rômulo e Remo crescem junto dos pastores da região praticando caça, corrida e exercícios físicos; saqueavam as caravanas que passavam pela região à procura de espólio. Em um dos assaltos, Remo é capturado e levado para Alba Longa. Fáustulo, então, revela a Rômulo a história de sua origem. Este parte para a cidade de seus antepassados liberta seu irmão, mata Amúlio, devolve Numitor ao torno e dá a sua mão todas as honrarias que lhe fossem devidas.[27] [28] [29] Percebendo que não teriam futuro na cidade, os gêmeos decidem partir junto com todos os indesejáveis para então fundarem uma nova cidade no local onde foram abandonados.[30] [31] Rômulo queria chamá-la Roma e edificá-la no Palatino, enquanto Remo desejava nomeá-la Remora e fundá-la sobre o Aventino.[32] [33] Como forma de decidir foi estabelecido que deveria-se indicar, através dos auspícios, quem seria escolhido para dar o nome à nova cidade e reinar depois da fundação. Tal gerou divergência entre os espectadores o que gerou uma acirrada discussão entre os irmãos que terminou com a morte de Remo.[34] Uma versão alternativa afirma que, para surpreender o irmão, Remo teria escalado o recém-construído pomério quadrangular da cidade e, tomado em fúria, Rômulo teria assassinado-o.[35] Remo foi sepultado em um região ao sul do Aventino, conhecida como Remoria, sendo também comemorado em 9 de maio a festa chamada Remúria (ou Lemúria) em sua homenagem.[36] [37]

Rômulo reinou sob Roma por 38 anos, tendo sido o Rapto das Sabinas um dos fatos mais importantes de seu reinado. Rômulo falece em 11 de julho de 716 a.C. durante uma tempestade provocada pelo deus Marte, na qual é tragado para o firmamento onde é transformado no deus romano Quirino.[38] [nt 1] Em outra versão Rômulo é assassinado por ordem do senado romano.[41]

Caverna Lupercal[editar | editar código-fonte]

Em novembro de 2007, arqueólogos italianos anunciaram que tinham descoberto a caverna em que os romanos celebravam a festa da Lupercália e onde segundo a lenda, Rômulo e Remo supostamente viveram. O especialista Andrea Carandini disse que isto é um dos maiores achados arqueológicos já feitos.[42] A identificação da caverna não foi unânime, no entanto, arqueólogos como Fausto Zevi consideram que é sim uma dependência do palácio imperial.[43]

Cronologia[editar | editar código-fonte]

Existe muita divergência, tanto entre autores antigos quanto modernos, sobre as datas em que ocorreram os principais eventos na vida de Rômulo e Remo. O quadro abaixo é uma síntese das datas propostas por diferentes autores.

Eventos na vida de Rômulo e Remo
Autor Concepção Nascimento Fundação de Roma Morte de Rômulo
Cefalão de Gergis Na segunda geração após a Guerra de Troia, por Romus, filho de Eneias [44]
Timeu da Sicília 38o ano antes da primeira olimpíada (814 a.C.) [44]
Diodoro Sículo 751 a.C. [44]
Pórcio Catão 752 a.C. [44]
Dionísio de Halicarnasso Durante a sétima olimpíada (752-749 a.C.)[44]
Quinto Fábio Pictor 748 a.C. [44]
Lúcio Cíncio (um senador) 729 a.C. [44]
Eusébio de Cesareia Durante a segunda olimpíada (772-769 a.C.)[45] Durante a sétima olimpíada (752-749 a.C.)
Tarúcio, astrólogo a serviço de Varrão dia 23 do mês Choeac de 772 a.C. (durante um eclipse solar) [46] dia 21 do mês Thoth de 771 a.C. [46] dia 9 do mês Farmuti [46]
Plutarco 13 de Abril de 754 a.C. (durante um eclipse solar)[46] 5 de Julho, após reinar trinta e sete anos [47]
Jerônimo de Estridão 773 a.C. [48] 21 de Abril de 755 a.C. [48] 716 a.C.[48]

Notas

  1. Quirino é considerado por muitos como de origem sabina, tendo ele sido relacionado ao deus romano Marte após a incorporação deste povo. Além disso, não há evidências até o século I a.C. do sincretismo entre Rômulo e Quirino.[39] [40]

Referências

  1. Bendlin 2001, p. 1130
  2. Salles 2008, p. 112
  3. Halicarnasso século I a.C., p. 1, 72-90; 2, 1-76
  4. Momigliano 1990, p. 101
  5. Dillery 2009, p. 78-81
  6. Cornell 1995, p. 57-58
  7. Beck 2001, p. 89
  8. Pedro 2005, p. 69
  9. Plutarco século I, p. 1.2
  10. Floro século II, p. I, 1.4
  11. Lívio 27-25 a.C., p. 1,3
  12. Halicarnasso século I a.C., p. 1.71
  13. Sículo século I a.C., p. VII, 5
  14. Virgílio 19 a.C., p. VI, 767
  15. Ovídio 12, p. IV, 35
  16. Plutarco século I, p. 3. 2
  17. Plutarco século I, p. 3. 4
  18. The Founding of Rome (em inglês). Visitado em 17.04.2012.
  19. Floro século II, p. I, 1.2
  20. Lívio 27-25 a.C., p. I, 4
  21. Plutarco século I, p. 4, 2-3
  22. Varrão século I a.C., p. V, 54
  23. Plutarco século I, p. 4. 1
  24. Plutarco século I, p. 3, 5-6
  25. Lívio 27-25 a.C., p. I, 5-7
  26. Floro século II, p. I, 1.3
  27. Plutarco século I, p. 7-8
  28. Lívio 27-25 a.C., p. 1,6
  29. Floro século II, p. I, 1.5
  30. Lívio 27-25 a.C., p. 1,6
  31. Plutarco século I, p. 9, 1-2
  32. Floro século II, p. I, 1.6
  33. Halicarnasso século I a.C., p. 1.85
  34. Plutarco século I, p. 9, 5; 10, 1-3
  35. Salles 2008, p. 111
  36. Plutarco século I, p. 9, 4; 11, 1
  37. Ovídio 12, p. 445-492
  38. Engels 2007, p. 103-130
  39. Evans 1992, p. 103
  40. Fishwick 1993, p. 53
  41. Irmscher 1987, p. 507
  42. Romulus and Remus cave may have been found - experts. Visitado em 29.04.2012.
  43. È uno splendido ninfeo, ma il Lupercale non era lì. Visitado em 29.04.2012.
  44. a b c d e f g Eusébio de Cesareia, Crônica, Os Romanos [em linha]
  45. Eusébio de Cesareia, Crônica, As Olimpíadas Gregas, Uma lista desde a primeira olimpíada até a 247a quando Antonino, filho de Severo, era imperador dos romanos [em linha]
  46. a b c d Plutarco, Vidas Paralelas, Vida de Rômulo [em linha]
  47. Plutarco, Vidas Paralelas, Vida de Numa [em linha]
  48. a b c Jerônimo de Estridão, Chronicon [em linha]

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Bendlin, Andreas. Enzyklopädie der Antike. [S.l.: s.n.], 2001. ISBN 3-476-01470-3.
  • Sículo, Diodoro. Biblioteca Histórica (em grego). [S.l.: s.n.], século I a.C..
  • Pedro, Antônio; Lizânias de Souza Lima; Yone de Carvalho. História Do Mundo Ocidental (em português). São Paulo: FTD, 2005. ISBN 978-85-322-5602-7.
  • Virgílio. Eneida. [S.l.: s.n.], 19 a.C..
  • Halicarnasso, Dionísio de. Das antiguidades romanas. [S.l.: s.n.], século I a.C..
  • Plutarco. Vida de Rômulo. [S.l.: s.n.], século I.
  • Irmscher, Johannes. Lexikon der Antike. [S.l.: s.n.], 1987. ISBN 3-323-00026-9.
  • Evans, Jane DeRose. The Arte of Persuasion. [S.l.: s.n.], 1992. ISBN 0-472-10282-6.
  • Lívio, Tito. Ab Urbe condita libri. [S.l.: s.n.], 27-25 a.C..
  • Engels, David. Postea dictus est inter deos receptus. [S.l.: s.n.], 2007.
  • Varrão, Marco Terêncio. De lingua latina. [S.l.: s.n.], século I a.C..
  • Momigliano, Arnoldo. The classical foundations of modern historiography. [S.l.: s.n.], 1990.
  • Fishwick, Duncan. The Imperial Cult in the Latin West. [S.l.: s.n.], 1993. ISBN 90-04-07179-2.
  • Cornell, T.. The Beginnings of Rome: Italy and Rome from the Bronze Age to the Punic Wars (c.1000–264 BC). [S.l.: s.n.], 1995. ISBN 978-0-415-01596-7.
  • Dillery, Andrew. The Cambridge Companion to the Roman Historians. [S.l.: s.n.], 2009.
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  • Ovídio, Publius Ovidius Naso. Fasti. [S.l.: s.n.], 12.
  • Salles, Catherine. Larousse das Civilização Antigas: Vol. I Dos faraós à fundação de Roma. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008. ISBN 978-85-7635-443-7.
  • Beck, Hans. Die frühen römischen Historiker. [S.l.: s.n.], 2001. ISBN 3-534-14757-X.