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Corne inglês

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Corne inglês, c. 1860–70

O corne inglês (ou corno inglês) é um instrumento de sopro de palheta dupla, da família do oboé. É um instrumento transpositor em , portanto uma quinta abaixo do oboé, em .[1] Sendo um instrumento mais grave, também é maior do que o oboé, e geralmente o instrumentista necessita de uma alça no pescoço para auxiliar o suporte, como no caso do fagote e de alguns tipos de saxofone. A palheta dupla utilizada no corne inglês é muito semelhante à do oboé, mas não é inserida diretamente no instrumento e, sim, em um bocal.[2] Mesmo sendo transpositor, a técnica é a mesma do oboé, e suas partes são escritas como se fossem tocadas em dó, para facilitar o trabalho do oboísta que estiver tocando um corne inglês. A formação de todo instrumentista de corne inglês passa antes pelo aprendizado do oboé.

Apesar de não ser rigorosamente análogo ao oboé (como são o oboé piccolo, o oboé baixo e o oboé contrabaixo), o corne inglês pode ser considerado um oboé tenor. O oboé seria a voz soprano, o oboé d'amore a voz de contralto, e o oboé baixo a voz do baixo.

Etimologia

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Não se sabe exatamente de onde surgiu a denominação "corne inglês". Uma teoria é que as versões do instrumento datadas do século XVIII seriam parecidas com o oboé da caccia, um instrumento barroco contralto da família do oboé, que tinha a forma curvilínea, e por isso era chamado de cor angulé (que significa "chifre angulado") ou corps angulé (que significa "corpo angulado"), também utilizado em caçadas, nos primórdios dos tempos. O nome atual, "corne inglês", seria então uma tradução de uma corruptela em francês cor anglais.[3] Em alemão o corne inglês era chamado de Engelisch-horn (trompa angelical ou trompa dos anjos).

O cone inglês, assim como o oboé, teve como antecessor a charamela.

Descrição e timbre

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Tessitura real do Corne inglês

A campana em forma de pera (chamada Liebesfuß) do corne inglês confere-lhe um timbre mais velado do que o do oboé, mais próximo da qualidade tonal do oboé d’amore. Enquanto o oboé é o instrumento soprano da família dos oboés, o corne inglês é geralmente considerado o membro alto da família, e o oboé d’amore — afinado entre os dois, em Lá — como o membro mezzo-soprano.[4] O corne inglês é percebido como tendo um tom mais suave e melancólico do que o oboé. A diferença no som resulta principalmente de uma palheta mais larga e de um tubo cônico que se expande por uma distância maior do que no oboé; embora mais escuro em timbre e mais grave em altura do que o oboé, o seu som é distinto do (embora se misture naturalmente com o) som da família dos fagotes. Sua aparência difere da do oboé porque o instrumento é notavelmente mais longo, a palheta é presa a um pequeno tubo metálico curvo chamado bocal (ou crook), e a campana tem um formato bulboso (“Liebesfuß”).[5]

Tessitura transposta na partitura.

O corne inglês costuma ser notado na clave de sol, uma quinta justa acima da altura real. A clave de dó na terceira linha, escrita na altura real, é ocasionalmente usada, até mesmo por compositores tardios como Sergei Prokofiev. No fim do século XVIII e início do século XIX, na Itália, onde o instrumento era frequentemente tocado por fagotistas em vez de oboístas, ele era notado na clave de fá, uma oitava abaixo da altura real (como ocorre na abertura de Guillaume Tell, de Rossini). Compositores operísticos franceses até Fromental Halévy anotavam o instrumento na altura real usando a clave mezzosoprano, o que permitia ao instrumentista lê-la como se estivesse na clave de sol.[4]

Embora o instrumento geralmente desça apenas até o si natural grave (escrito), instrumentos continentais com extensão até si bemol grave (soando mi bemol) existem desde o início do século XIX.[6] Exemplos de obras que exigem essa nota (embora reconhecendo seu caráter excepcional) incluem "Gurre-Lieder", de Arnold Schoenberg; "Das Lied von der Erde", de Gustav Mahler; "Chôros n.º 6", de Heitor Villa-Lobos; e "Zeitmaße", de Karlheinz Stockhausen. Antonín Dvořák, em seu "Scherzo capriccioso", chega a escrever para corne inglês até o grave, embora pareça improvável que tal extensão tenha realmente existido.[4]

Uso orquestral

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O corne inglês possui um timbre de características mutantes ao próprio registro: Seus graves são muito brilhantes e penetrantes, semelhantemente ao oboé. Mas as suas notas mais agudas tendem ao abafamento e escuridão, do mesmo jeito que o fagote. Seu uso é mais incomum, tendo sido mais utilizado em peças orquestrais a partir do século XIX. Um solo de corne inglês bastante conhecido está no 2.º movimento da Nona Sinfonia de Antonín Dvořák, conhecida como "Novo Mundo".

História e etimologia

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Corne inglês.

O instrumento se originou na Silésia por volta de 1720, quando uma campana bulbosa foi adaptada a um corpo curvo do tipo oboe da caccia pela família Weigel de Breslau. O oboé tenor reto, com duas chaves e campana aberta (em francês taille de hautbois, “oboé tenor”), e especialmente o oboé da caccia com campana em flare, lembravam os cornos tocados por anjos em imagens religiosas da Idade Média. Isso deu origem, na Europa Central de língua alemã, ao nome em alto-alemão médio engellisches Horn, significando “corno angélico”. Como engellisch também significava “inglês” no vernáculo da época, o “corno angélico” tornou-se o “corno inglês”. Na ausência de melhor alternativa, o oboé tenor curvo e de campana bulbosa manteve esse nome mesmo depois que o oboe da caccia caiu em desuso por volta de 1760.[7] O nome surgiu regularmente em partituras italianas, alemãs e austríacas a partir de 1749, geralmente na forma italiana corno inglês.[8]

A primeira parte orquestral conhecida escrita especificamente para o instrumento aparece na versão vienense da ópera "Ezio", de Niccolò Jommelli, datada de 1749,[9] onde foi chamado pelo nome italiano corno inglês.[10] Gluck e Haydn seguiram o exemplo na década de 1750,[11] e os primeiros concertos para corne inglês foram escritos na década de 1770. A Schwarzenberg Wind Harmonie de 1771 empregava 2 cornos ingleses, além de 2 oboés, 2 fagotes e 2 trompas. Johan Went era o primeiro corne inglês e Ignaz Teimer (pai dos irmãos Teimer) era o segundo. Os primeiros trios de oboé foram compostos por Johan Went para os irmãos Teimer. A escrita para oboé e corne inglês nesses trios originais boêmios/vienenses de Johan Went e Joseph Triebensee é notável por ter sido elaborada por oboístas para oboístas, incluindo alguns exemplos iniciais de escrita florida e virtuosística para o corne inglês, abrindo caminho para obras semelhantes posteriores. Em 1796, Johann e Franz Teimer morreram. A primeira apresentação registrada de um trio de oboé ocorreu em 1793 (assistida por Beethoven). Enquanto os irmãos Teimer se apresentavam em Viena e arredores, mais de 20 trios de oboé foram compostos. Phillip Teimer continuou a tocar corne inglês no teatro de Schikaneder, em Viena. Ele também cantava alguns papéis na companhia devido à sua voz grave e sonora. Muitas partes de corne inglês foram escritas especialmente para ele por Stengel, Süssmayr, Paer, Winter, Weigl, Eberl, Eybler, Salieri, Hummel, Schacht e Fisher.[12]

Considerando o nome cor anglais, é irônico que o instrumento não tenha sido usado regularmente na França antes de cerca de 1800, nem na Inglaterra antes da década de 1830.[13] Ele é mencionado na Penny Cyclopedia de 1838 como “O English Horn, ou Corno Inglese, é um oboé de tom mais grave [...]”, enquanto o primeiro uso impresso identificado do termo cor anglais em inglês data de 1870.[14] No Reino Unido, o instrumento é geralmente chamado coloquialmente de “cor”. O equivalente local de “corne inglês” é usado na maioria das outras línguas europeias, enquanto algumas utilizam o equivalente de “oboé alto”.[4]

Devido às formas curvas ou angulares que o instrumento teve anteriormente, já foi sugerido que anglais poderia ser uma corrupção do francês médio anglé (anguloso, dobrado em ângulo, angulaire no francês moderno),[15] mas isso foi rejeitado sob a justificativa de que não há evidência do termo cor anglé antes de ele ter sido proposto como possível origem de anglais no final do século XIX.[10]

Ligações externas

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Ver também

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Referências

  1. «Events». sopa.vt.edu (em inglês). Consultado em 21 de novembro de 2025 
  2. «Sign in ・ Cloudflare Access». asu.cloudflareaccess.com. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  3. «madasafish». www.users.globalnet.co.uk. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  4. a b c d Del Mar, Norman (1987). Anatomy of the orchestra. Berkeley: Univ. of California Press. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  5. «English Horn - English Horns: The Enigmatic Beauty of the Cor Anglais Instrument - Cor Anglais Meaning» (em inglês). 12 de junho de 2024. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  6. Berlioz, Hector; Macdonald, Hugh John (2002). Berlioz's orchestration treatise: a translation and commentary. Col: Cambridge musical texts and monographs. Cambridge: Cambridge University press. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  7. «The New Grove Dictionary of Music and Musicians». Wikipedia (em inglês). 25 de outubro de 2025. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  8. Apel, Willi (1969). Harvard dictionary of music 2d ed., rev. and enl ed. Cambridge, Mass: Belknap Press of Harvard University Press. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  9. www.vsl.co.at https://www.vsl.co.at/en/70/3161/3168/3171/5566.vsl. Consultado em 21 de novembro de 2025  Em falta ou vazio |título= (ajuda)
  10. a b Adam Carse, Musical Wind Instruments: A History of the Wind Instruments Used in European Orchestras and Wind-Bands from the Later Middle Ages Up to the Present Time (London: Macmillan and Co., 1939).
  11. «klassik.com : Musik-Zeitschriften und -Magazine: Tibia aus "Die Oboeninstrumente in tieferer Stimmlage, Teil 5"». portraits.klassik.com. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  12. «The Teimers and Schwarzenbergs». lonarcoboetrio (em inglês). Consultado em 21 de novembro de 2025 
  13. «klassik.com : Musik-Zeitschriften und -Magazine: Tibia aus "Die Oboeninstrumente in tieferer Stimmlage, Teil 5"». portraits.klassik.com. Consultado em 21 de novembro de 2025 
  14. «English, adj. (and adv.) and n. : Oxford English Dictionary». www.oed.com (em inglês). Consultado em 21 de novembro de 2025. Cópia arquivada em 24 de outubro de 2022 
  15. «Dictionnaire de l'ancien français jusqu'au milieu du XIVe siècle | WorldCat.org». search.worldcat.org. Consultado em 21 de novembro de 2025 


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