Florentino de Carvalho

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Florentino de Carvalho, na verdade o pseudônimo de Raymundo Primitivo Soares (Camponese, província de Oviedo, 3 de março de 1889Marília?, 24 de março de 1947) foi um anarco-sindicalista nascido na Espanha que viveu no Brasil.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

Florentino de Carvalho chegou ao Brasil, quando tinha dez anos de idade, na cidade de São Paulo.

Alistou-se na força pública do Estado de São Paulo, onde fora promovido a cabo, até que o destino o colocou diante do célebre livro A Conquista do Pão, de Piotr Kropotkin. Impressionado, pediu baixa definitiva da força pública, indo então trabalhar nas docas de Santos, chamada no período de "Barcelona brasileira", devido à quantidade de imigrantes.

Porém, não tardou a mudar de emprego, devido a sua constituição física frágil, ingressando na carreira de tipógrafo. Ao ter contato com o movimento sindical, participou de greves e foi preso. A polícia o perseguiu, obrigando-o a ter que se refugiar na Argentina e acabou conhecendo e participando do movimento anarquista argentino, chegando até a fundar uma escola, exercendo o magistério, dentro dos padrões da Escola Moderna, de Barcelona.

Sua estada na Argentina não durou muito. Expulso do país Florentino fora embarcado a força em direção a Espanha, porém de passagem pelo porto de Santos em 1910, fora arrancado do navio pelos trabalhadores brasileiros das docas. Fora neste período que adotou o pseudônimo de Florentino de Carvalho, devido a motivos óbvios.

Florentino de Carvalho fora um dos maiores expositores do anarquismo que o Brasil já teve. Reflexo disto, é a impressionante história de sua família, que Florentino de Carvalho conseguiu influenciar, transformando-a na maior família anarquista de que se tem notícia. Eram sete irmão e irmãs, sua madrasta, sobrinhos, alunos e pessoas que o ouviam falar sobre anarquismo. Até seu pai, fervoroso defensor do catolicismo, não resistiu à transformação de sua casa na mais bela e fecunda célula libertária, e segundo o historiador Edgar Rodrigues, única no Brasil.

Seus irmãos, dos dois matrimônios, e sua madrasta fizeram do modesto lar da família Soares uma pousada anarquista. A casa abrigou diversos de anarquistas exilados, fugitivos da polícia, exilados, desempregados ou companheiros sem moradia.

Na casa de Florentino de Carvalho davam-se aulas, ensaivam-se peças de teatro, realizavam-se reuniões, enfim, se vivia intensamente o anarquismo.

Seus irmãos Manolo e Pilar foram membros ativos da última geração, e seu sobrinho Arsénio Palácio, poeta, filósofo, conferencista, escrevia e foi diretor das revistas Ácratas, Arte e Vida e Phrometeu, com redação em São Paulo.

Florentino ainda percorreu o Brasil inteiro, participando de congressos operários, proferindo conferências e realizando propaganda das idéias ácratas. Além disso, deu uma contribuição muito grande para a prática da pedagogia libertária, tendo como alunos anarquistas como Jaime Cubero e Liberto.

Florentino de Carvalho dirigiu em épocas diferentes: A Plebe, O Libertário, Germinal-La Barricata (parte em português e parte em italiano), a revista A Obra e colaborou nas revistas Renascença, O Comentário, Arte e Vida, Phrometeu, entre outras.

Problemas com a polícia[editar | editar código-fonte]

Florentino de Carvalho sempre teve problemas com a polícia, que encarregou-se de destruir os seguintes trabalhos em via de publicação: Síntese de uma Filosofia Anarquista e Constituição Socialista Libertária. Além disso, sempre que ocorria uma greve ou uma agitação, Florentino era perseguido pela polícia, tendo participação ou não no fato, sempre era visto como seu mentor intelectual. Após a onda de repressão que se abateu em terras tupiniquins, durante o governo Artur Bernardes, Florentino fora embarcado com outros anarquistas, nos porões de um navio de carga, com ordens para deixá-los no primeiro país que os aceitassem. Os menos conhecidos por sua idéia permaneceram, já Florentino de Carvalho não fora aceito em país nenhum, tendo vivido durante um período em alto-mar por este fato.

A imprensa anarquista e comercial comentou o falecimento de Florentino de Carvalho, quando fazia mais de um ano que havia terminado a Segunda Guerra e a ditadura de Getúlio Vargas.

A última carta de Florentino de Carvalho[editar | editar código-fonte]

"Marília,17 de dezembro de 1946

Alexandre Pinto,

Estimado camarada

Acabo de chegar a esta cidade de Marília, procedente de uma fazenda distante daqui uns 40 quilômetros e tenho, com surpresa, a satisfação de receber a sua grata missiva, a qual veio a servir de início a novas e necessárias relações com o velho amigo e companheiro de ideal.

Ao mesmo tempo, tenho conhecimento de uma série de fatos dos quais o amigo houve por bem informar e que me causaram a melhor impressão.

Folgo ao saber que o nosso movimento idealista ressurge por toda a parte, particularmente com as felizes iniciativas tomadas pelos companheiros dessa capital.

Muito grato fico aos companheiros pela lembrança e amizade que os mesmos tem com a minha pessoa, apesar da fragilidade que me distingue.

Eu também jamais os esqueço e desejaria abraça-los, porém a ingrata sorte media entre nós grande distância. Faço votos para que esta aspiração seja brevemente realizável.

Sinto que o camarada esteja passando por período crítico em sua saúde.

Quanto a mim, creio que estou padecendo de mal, mais ou menos idêntico, com a agravante de ser, segundo penso, crônico.

Com relação ao propósito do camarada vir para o interior, não sei o que lhe possa aconselhar. Só sei dizer que para pessoas idosas como nós, em qualquer parte se torna difícil a vida. Creio, porém, que particularmente, no meu caso, na capital as dificuldades são sempre maiores.

Eu gostaria que o camarada viesse para aqui (Marília). Comesse fim, vou sondar a zona para ver se em alguma fazenda há possibilidades para o trabalho escolar.

Se encontrar com o camarada Edgard pode dizer-lhe que se tenciona escrever-me pode fazê-lo, pois seria com o maior prazer que eu estabeleceria com ele e com outros camaradas ativa correspondência.

Atualmente estou lecionando em uma fazenda distante de Oriente uns 20 quilômetros, lugar denominado Monte Alegre.

Sem mais queira o camarada abraçar em meu nome, as pessoas da nossa grei, e receber um fraternal amplexo deste seu amigo e companheiro de ideal.

Primitivo Raymundo Soares

Ao cuidado do Sr. José Oliveira Cruz

Caixa Postal n.40

Oriente

E.F.P.

Estado de São Paulo"

Obras[editar | editar código-fonte]

Publicou os livros Da Escravidão à Liberdade, Guerra Civil de 1932 em S. Paulo, e deixou três obras inéditas: Crise do Socialismo, Filosofia do Sindicalismo e uma incompleta sobre a Revolução Espanhola.