Glândula suprarrenal
| Glândula suprarrenal | |
|---|---|
Esquema anatômico demonstrando a localização das glândulas suprarrenais sobre o polo superior de cada rim. | |
Secção esquemática evidenciando o córtex (dividido em três zonas) e a medula adrenal central. | |
| Detalhes | |
| Sistema | Sistema endócrino |
| Vascularização | Artéria suprarrenal superior, Artéria suprarrenal média, Artéria suprarrenal inferior |
| Drenagem venosa | Veia suprarrenal (veia suprarrenal direita drena na veia cava inferior; veia suprarrenal esquerda drena na veia renal esquerda) |
| Inervação | Fibras pré-ganglionares simpáticas mielinizadas dos nervos esplâncnicos, plexo celíaco e plexo renal |
| Drenagem linfática | Gânglios linfáticos lombares (para-aórticos e paracavais) |
| Precursor | Córtex: mesotélio celômico (mesoderme); Medula: crista neural (ectoderme) |
| Identificadores | |
| Latim | Glandula suprarenalis |
| Gray | pág.1278 |
| MeSH | Adrenal+Glands |
Nos mamíferos, as glândulas suprarrenais (ou adrenais) são duas glândulas endócrinas pares, de coloração amarelada e localização retroperitoneal, situadas no polo ântero-superior de cada rim.[1] Em seres humanos adultos, cada glândula pesa cerca de 4 a 5 gramas e mede aproximadamente 5 centímetros de comprimento por 3 centímetros de largura e 1 centímetro de espessura. Apresentam assimetria morfológica notável: a glândula suprarrenal direita possui formato tipicamente piramidal ou triangular, ao passo que a esquerda exibe conformação semilunar e costuma ser discretamente mais volumosa.[2]
Cada suprarrenal é estrutural e funcionalmente composta por duas entidades biológicas distintas envoltas por uma cápsula fibrosa comum: o córtex adrenal periférico (de origem mesodérmica, responsável por cerca de 80% a 90% do volume da glândula) e a medula adrenal central (de origem neuroectodérmica, derivada da crista neural).[3]
O córtex divide-se em três zonas concêntricas especializadas na síntese de hormônios esteroides (esteroidogênese): a zona glomerulosa produz mineralocorticoides (com destaque para a aldosterona, essencial no equilíbrio hidroeletrolítico e controle da pressão arterial), a zona fasciculada sintetiza glicocorticoides (principalmente o cortisol, regulador central do metabolismo energético e das respostas inflamatórias ao estresse) e a zona reticular secreta androgênios adrenais (como a deidroepiandrosterona ou DHEA).[4] Por sua vez, a medula adrenal opera fisiologicamente como um gânglio simpático especializado, cujas células cromafins descarregam catecolaminas (adrenalina e noradrenalina) diretamente na corrente sanguínea em situações agudas de alerta, deflagrando a clássica resposta de "luta ou fuga".[5]
Anatomia macroscópica e relações topográficas
[editar | editar código]As glândulas suprarrenais repousam no espaço perirrenal do abdómen, imediatamente acima e anteromedialmente aos polos superiores dos rins, ao nível da 12.ª vértebra torácica (T12) e 1.ª vértebra lombar (L1). Encontram-se encerradas pela fáscia renal (fáscia de Gerota), inseridas em meio ao coxim adiposo perirrenal. Um septo fascial delgado separa a glândula da superfície renal propriamente dita; em virtude dessa clivagem anatômica, a ptose renal (deslocamento caudal do rim) não acarreta o deslocamento conjunto da suprarrenal, que permanece ancorada à fáscia e ao diafragma.[1]
As relações de contiguidade diferem acentuadamente entre os dois lados:
- Glândula suprarrenal direita: De silhueta piramidal, apoia-se como um barrete sobre o polo superior do rim direito. Anteriormente, relaciona-se medialmente com a veia cava inferior (VCI) e ântero-lateralmente com a face nua do fígado (lobo hepático direito), deixando frequentemente uma impressão na víscera. Posteriormente, repousa contra a cúpula do músculo diafragma.
- Glândula suprarrenal esquerda: Em formato semilunar ou de crescente, estende-se inferiormente ao longo da borda medial do rim esquerdo até as imediações do hilo renal. Relaciona-se anteriormente com a face posterior do estômago (separada por este pela bolsa omental), com o corpo e cauda do pâncreas e com a artéria esplênica. Posteriormente, repousa sobre o pilar esquerdo do diafragma.[2]
Vascularização e inervação
[editar | editar código]Suprimento arterial
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As glândulas adrenais exibem uma das mais densas vascularizações relativas do corpo humano, perfundidas por um fluxo sanguíneo arterial que atinge cerca de 5 mL/g/min em condições basais.[4] A irrigação provém de três origens arteriais distintas em cada lado:[1] 1. Artéria suprarrenal superior: Composta por múltiplos ramos delgados (em média de 6 a 30) originados da respectiva artéria frênica inferior; 2. Artéria suprarrenal média: Ramo de calibre variável emergente diretamente da face lateral da aorta abdominal, logo acima da origem das artérias renais; 3. Artéria suprarrenal inferior: Um ou mais ramos volumosos originados da artéria renal homolateral antes de sua penetração no hilo renal.
Essas artérias ramificam-se livremente na superfície da cápsula fibrosa, constituindo um plexo arterial subcapsular. A partir desse plexo derivam arteríolas curtas e capilares sinusoides fenestrados que atravessam o córtex de forma centrípeta (entre as colunas celulares), além de raras arteríolas medulares diretas que cruzam o córtex sem se ramificar para alcançar diretamente a medula. Essa arquitetura de fluxo centrípeto garante que a medula adrenal receba sangue portador de concentrações extremamente elevadas de glicocorticoides corticais, fator essencial para a regulação enzimática da síntese de catecolaminas.[3]
Drenagem venosa
[editar | editar código]Ao contrário do afluxo arterial profuso e disperso, a drenagem venosa de cada glândula é efetuada predominantemente por um único vaso calibroso central, a veia suprarrenal, cuja terminação exibe assimetria cirurgicamente crítica:[2]
- Veia suprarrenal direita: Muito curta (geralmente com menos de 4 a 5 milímetros de comprimento), drena de modo quase horizontal e direto para a face póstero-lateral da veia cava inferior. Sua brevidade e fragilidade impõem extremo cuidado técnico durante intervenções cirúrgicas de adrenalectomia laparoscópica à direita.
- Veia suprarrenal esquerda: Mais longa (cerca de 2 a 4 centímetros), desce obliquamente, recebe comumente a veia frênica inferior esquerda e desemboca na face superior da veia renal esquerda, a qual cruza adiante da aorta para tributar na veia cava inferior.[1]
Drenagem linfática e inervação
[editar | editar código]Os vasos linfáticos adrenais originam-se em dois plexos (um subcapsular e outro medular) e acompanham os trajetos venosos para drenar nos linfonodos lombares para-aórticos e paracavais adjacentes à origem das artérias renais.[2]
A inervação é profusa e deriva primariamente dos nervos esplâncnicos maior, menor e imo, através dos plexos celíaco, renal e suprarrenal. Notavelmente, a imensa maioria dessas fibras corresponde a axônios pré-ganglionares simpáticos mielinizados (colinérgicos). Tais fibras penetram na glândula sem fazer sinapse nos gânglios paravertebrais e terminam diretamente em contato com as células cromafins da medula adrenal, que funcionam embriológica e funcionalmente como neurônios pós-ganglionares modificados. O córtex, por sua vez, é desprovido de inervação sináptica motora direta; sua regulação é quase exclusivamente hormonal humoral.[5]
Histologia
[editar | editar código]Microscopicamente, a suprarrenal é envolvida por uma cápsula conjuntiva densa que emite septos delgados para o interior da glândula transportando vasos sanguíneos e nervos. Abaixo da cápsula identificam-se claramente o córtex e a medula.[3]
Córtex adrenal
[editar | editar código]Representa cerca de 80% a 90% do parênquima glandular. Suas células possuem as características ultraestruturais típicas de células secretoras de esteroides: mitocôndrias abundantes com cristas tubulovesiculares, extenso retículo endoplasmático liso (REL) e inclusões citoplasmáticas lipídicas (gotículas de colesterol). Subdivide-se funcional e morfologicamente em três zonas concêntricas sem limites rígidos:[3]
| Zona histológica | Proporção cortical | Organização celular e características | Principal classe hormonal | Hormônio representativo | Fator estimulador primário |
|---|---|---|---|---|---|
| Zona glomerulosa | ~15% | Células colunares ou piramidais pequenas reunidas em cordões encurvados e ninhos arqueados rodeados por capilares; gotas lipídicas esparsas. | Mineralocorticoides | Aldosterona | Angiotensina II, K⁺ extracelular |
| Zona fasciculada | ~75% | Células poliédricas volumosas (espongiócitos) arranjadas em cordões longitudinais retilíneos paralelos, perpendiculares à cápsula; citoplasma vacuolizado rico em lipídios. | Glicocorticoides | Cortisol (humanos) Corticosterona (roedores) | ACTH (corticotropina) |
| Zona reticular | ~10% | Células menores, basofílicas, organizadas em cordões anastomosados formando rede tridimensional; contêm grânulos de lipofuscina e poucas gotas lipídicas. | Androgênios adrenais | Deidroepiandrosterona (DHEA) e Androstenediona | ACTH |
Medula adrenal
[editar | editar código]Ocupa o núcleo central da glândula. É formada por cordões e aglomerados de células cromafins (ou feocromócitos) imersos em um estroma reticular sustentado por ampla rede capilar sinusoidal e veias medulares de músculo liso espessado. O termo "cromafim" decorre da propriedade histológica clássica dessas células: quando expostas a soluções contendo sais de cromo (dicromato de potássio), seus grânulos citoplasmáticos de catecolaminas oxidam-se e precipitam sob a forma de um pigmento castanho-escuro insolúvel.[3]
Ultraestruturalmente, as células cromafins contêm densos grânulos secretórios de centro eletrodenso envolvidos por membrana (grânulos cromafins), onde as catecolaminas permanecem estocadas em complexo com proteínas solúveis chamadas cromograninas, íons cálcio e ATP. Distinguem-se dois subtipos celulares: as células secretoras de adrenalina (cerca de 80% do total em humanos, com grânulos menores e matriz homogênea) e as secretoras de noradrenalina (cerca de 20%, com grânulos maiores e centro intensamente denso). Entre as células cromafins observam-se ainda neurônios ganglionares simpáticos isolados ou em pequenos grupos.[5]
Embriogênese
[editar | editar código]O desenvolvimento embrionário da glândula suprarrenal é um processo singular que conjuga dois tecidos de origens blastodérmicas completamente independentes:[6]
- Origem do córtex: Durante a 5.ª e 6.ª semanas de gestação, células do epitélio celômico mesodérmico proliferam entre a raiz do mesentério dorsal e a crista urogenital embrionária, invadindo o mesênquima subjacente. Essas células diferenciam-se inicialmente para constituir o imenso córtex fetal (ou córtex provisório). Logo em seguida, uma segunda onda de células mesenquimais do mesotélio celômico envolve a massa primitiva, originando a camada precursora do córtex permanente.[6]
- Origem da medula: Simultaneamente, células neuroectodérmicas pluripotentes originadas da crista neural migram ventralmente ao longo dos gânglios da cadeia simpática primária e penetram no córtex fetal pela sua face medial por volta da 7.ª semana. Ali, agregam-se no centro da glândula e diferenciam-se em feocromócitos (células cromafins).[1]
O córtex fetal e a adrenarca pós-natal
[editar | editar código]Durante a vida intrauterina, a suprarrenal fetal atinge dimensões desproporcionais: por volta do 4.º mês de gestação, a glândula é maior do que o próprio rim contíguo e, em proporção ao peso corporal, é de dez a vinte vezes maior do que a suprarrenal do indivíduo adulto.[6] A imensa massa do córtex fetal opera como elemento-chave da chamada "unidade feto-placentária", sintetizando vultosas quantias de sulfato de desidroepiandrosterona (DHEA-S), precursor que a placenta converte no estrogênio materno estriol.[4]
Logo após o nascimento, com a secção do cordão umbilical e a perda dos estímulos tróficos placentários, o córtex fetal sofre apoptose e involução hemorrágica maciça. Como resultado, a glândula suprarrenal perde cerca de um terço a metade de sua massa nas primeiras duas a três semanas neonatais, não recuperando seu peso original de nascença até os 2 a 3 anos de idade.[6] As camadas adultas estruturam-se gradativamente: a zona glomerulosa e fasciculada estão organizadas no lactente, enquanto a zona reticular consolida-se funcionalmente apenas por volta dos 5 a 8 anos de vida, evento endócrino denominado adrenarca, que deflagra o surgimento dos primeiros pelos pubianos e axilares (pubarca) e a alteração do odor corporal na infância tardia.[7]
Fisiologia e vias de biossíntese hormonal
[editar | editar código]Esteroidogênese adrenal
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Todos os hormônios secretados pelo córtex suprarrenal são esteroides derivados do colesterol. As células corticais obtêm cerca de 80% do colesterol necessário por endocitose de lipoproteínas de baixa densidade (LDL) plasmáticas circulantes, sintetizando o restante internamente a partir do acetil-CoA.[4]
A etapa limitante e regulatória da síntese ocorre na membrana mitocondrial interna: o colesterol livre é translocado do citoplasma através do espaço intermembranar pela ação da proteína reguladora aguda da esteroidogênese (proteína StAR). Na matriz mitocondrial, a enzima clivadora da cadeia lateral do colesterol (CYP11A1 ou P450scc) converte o colesterol em pregnenolona, precursora comum de todas as três linhagens de esteroides:[7]
1. Via mineralocorticoide (Zona glomerulosa): A zona glomerulosa não expressa a enzima 17α-hidroxilase (CYP17A1), mas é a única zona do organismo a expressar a enzima aldosterona sintase (CYP11B2). A pregnenolona é convertida sequencialmente em progesterona $\rightarrow$ 11-desoxicorticosterona (DOC) $\rightarrow$ corticosterona $\rightarrow$ aldosterona. A aldosterona atua nos túbulos coletores distais do néfron renal, estimulando a reabsorção ativa de sódio (acompanhada de água) e a excreção urinária de potássio e prótons ($H^+$), desempenhando papel central na manutenção do volume extracelular e da osmolaridade plasmática.[5]
2. Via glicocorticoide (Zona fasciculada): As células fasciculadas expressam a 17α-hidroxilase (CYP17A1) e a 11β-hidroxilase (CYP11B1), convertendo a pregnenolona em 17α-hidroxipregnenolona $\rightarrow$ 17α-hidroxiprogesterona $\rightarrow$ 11-desoxicortisol $\rightarrow$ cortisol. O cortisol exerce múltiplos efeitos sistêmicos:[4]
- Estímulo à gliconeogênese hepática e à quebra de proteínas teciduais (proteólise muscular);
- Aumento da lipólise em tecido adiposo periférico e redistribuição centrípeta de gordura;
- Efeito anti-inflamatório e imunossupressor potente (via inibição da fosfolipase A2, diminuição de citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-2, IL-6, TNF-alfa e bloqueio da migração leucocitária);
- Manutenção do tônus vascular e da reatividade cardiovascular às catecolaminas.
3. Via androgênica (Zona reticular): A atividade liasse 17,20 da CYP17A1 converte precursores em androgênios adrenais fracos: deidroepiandrosterona (DHEA), sua forma sulfatada (DHEA-S) e androstenediona. Na circulação periférica, esses compostos são convertidos em androgênios e estrogênios biologicamente ativos mais potentes (como testosterona e estradiol), constituindo a fonte primordial de androgênios em mulheres adultas.[7]
Mecanismos de controle hormonal
[editar | editar código]- Eixo Hipotálamo-Hipófise-Adrenal (HPA): A secreção de glicocorticoides e androgênios é estritamente subordinada ao hormônio adrenocorticotrófico (ACTH ou corticotropina), secretado pela adeno-hipófise sob estímulo do hormônio liberador de corticotropina (CRH) hipotalâmico. O eixo obedece a um ritmo circadiano pulsátil bem estabelecido (com pico sérico de cortisol no início da manhã, entre 6h e 8h, e vale à meia-noite) e responde imediatamente ao estresse físico ou psicológico. O cortisol exerce retroalimentação negativa (feedback negativo) sobre o hipotálamo e a hipófise anterior inibindo a síntese de CRH e ACTH.[4]
- Controle da Aldosterona: A aldosterona independe quase totalmente do ACTH. Seus dois reguladores fisiológicos diretos cruciais são o sistema renina-angiotensina-aldosterona (onde a queda da volemia ou da pressão arterial na mácula densa renal induz a secreção de renina e a formação de angiotensina II) e a concentração plasmática do íon potássio ($K^+$). Pequenas elevações nos níveis séricos de potássio despolarizam diretamente a membrana das células da zona glomerulosa, ativando a secreção de aldosterona para promover caliurese.[5]
Fisiologia da medula adrenal
[editar | editar código]A medula sintetiza as catecolaminas hidrossolúveis através de uma cascata enzimática citoplasmática e vesicular que parte do aminoácido essencial L-tirosina:[5] $$\text{L-Tirosina} \xrightarrow{\text{Tirosina hidroxilase}} \text{L-DOPA} \xrightarrow{\text{DOPA descarboxilase}} \text{Dopamina} \xrightarrow{\text{Dopamina }\beta\text{-hidroxilase}} \text{Noradrenalina} \xrightarrow{\text{PNMT}} \text{Adrenalina}$$
A etapa terminal que converte noradrenalina em adrenalina é catalisada pela enzima feniletanolamina N-metiltransferase (PNMT). A expressão e a atividade da PNMT são diretamente induzidas por concentrações elevadíssimas de cortisol, o qual atinge o tecido medular através do sistema vascular sinusoidal porta-cortical adrenomedular. Em humanos normais, a medula libera aproximadamente 80% de adrenalina e 20% de noradrenalina em resposta à despolarização pré-ganglionar simpática e liberação de acetilcolina.[4]
As catecolaminas ligam-se a receptores adrenérgicos ($\alpha_1, \alpha_2, \beta_1, \beta_2, \beta_3$) amplamente distribuídos nos tecidos, deflagrando aumento da frequência cardíaca (efeito inotrópico e cronotrópico positivo), vasoconstrição cutânea e renal, vasodilatação coronariana e muscular esquelética, broncodilatação, dilatação pupilar (midríase) e rápida elevação glicêmica via glicogenólise hepática.[5]
Doenças e correlações clínicas
[editar | editar código]Os distúrbios das glândulas suprarrenais dividem-se classicamente em estados de hipofunção, hiperfunção endócrina ou afecções neoplásicas:[8]
Insuficiência adrenal
[editar | editar código]Condição caracterizada pela produção deficiente de hormônios corticais:
- Doença de Addison (Insuficiência adrenal primária): Decorre da destruição direta do córtex glandular por processos autoimunes (adrenalite autoimune, responsável por cerca de 70% a 80% dos casos no mundo ocidental), infecções (tuberculose, paracoccidioidomicose, citomegalovírus em indivíduos imunocomprometidos) ou metástases. Manifesta-se insidiosamente com fraqueza crônica, fadiga extrema, perda de peso, hipotensão postural, hipoglicemia, hiponatremia, hipercalemia e marcante hiperpigmentação de pele e mucosas (decorrente do aumento compensatório do ACTH e da pró-opiomelanocortina / MSH).
- Crise adrenal aguda: Emergência médica potencialmente fatal precipitada por infecções graves, trauma ou cirurgia em pacientes com insuficiência adrenal prévia. Ocorre colapso cardiovascular refratário a vasopressores. A Síndrome de Waterhouse-Friderichsen é uma forma catastrófica de apoplexia e necrose hemorrágica adrenal bilateral desencadeada por sepse fulminante, clássica da infecção bacteriana por meningococo.[8]
- Insuficiência adrenal secundária/terciária: Resulta da supressão do eixo HPA por déficit hipofisário de ACTH ou, com extrema frequência na prática médica, pela retirada abrupta de corticoterapia sistêmica exógena prolongada, provocando atrofia do córtex adrenal.[7]
Estados de hiperfunção cortical
[editar | editar código]- Síndrome de Cushing: Quadro clínico gerado pelo excesso crônico de glicocorticoides livres. Pode ser ACTH-dependente (como a Doença de Cushing, causada por adenoma hipofisário secretor de ACTH) ou ACTH-independente (decorrente de adenoma ou carcinoma da suprarrenal). Caracteriza-se por obesidade central/troncular, fácies em "lua cheia", gibosidade ("giba de búfalo"), estrias violáceas largas no abdome, fragilidade capilar com equimoses frequentes, fraqueza muscular proximal, hipertensão e osteoporose.[7]
- Hiperaldosteronismo primário (Síndrome de Conn): Hipersecreção autônoma de aldosterona, decorrente na maioria dos casos de adenoma solitário da zona glomerulosa ou hiperplasia adrenal bilateral. Manifesta-se classicamente por hipertensão arterial refratária de difícil controle, hipocalemia, alcalose metabólica e supressão da atividade de renina plasmática.[8]
- Hiperplasia adrenal congênita: Grupo de distúrbios genéticos autossômicos recessivos caracterizados pela deficiência de enzimas da esteroidogênese adrenal. Em mais de 90% a 95% dos casos resulta de mutações no gene CYP21A2, determinando a deficiência da enzima 21-hidroxilase. O bloqueio impede a síntese adequada de cortisol e aldosterona; o acúmulo de precursores é desviado massivamente para a produção de androgênios sob o estímulo constante do excesso de ACTH. Em recém-nascidos do sexo genético feminino (46,XX), cursa com ambiguidade genital e virilização da genitália externa; na forma clássica perdedora de sal, associa-se a desidratação e choque hiponatrêmico nas primeiras semanas de vida.[8]
Neoplasias e afecções da medula adrenal
[editar | editar código]- Feocromocitoma: Tumor neuroendócrino derivado das células cromafins da medula adrenal (tumores análogos extra-adrenais são denominados paragangliomas). Secreta catecolaminas de maneira paroxística ou contínua. Apresenta-se tipicamente com a "tríade clássica": crises paroxísticas de cefaléia, sudorese profusa e palpitações/taquicardia, acompanhadas de picos súbitos e graves de hipertensão arterial. Cerca de 10% a 15% associam-se a síndromes familiares hereditárias, como neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (NEM 2), síndrome de von Hippel-Lindau e neurofibromatose tipo 1.[7]
- Neuroblastoma: Tumor embrionário maligno agressivo originado de neuroblastos da crista neural, sendo uma das neoplasias sólidas extracranianas mais prevalentes na primeira infância (mais de 80% diagnosticados antes dos 4 anos de idade), apresentando-se frequentemente como massa abdominal palpável que cruza a linha média.[8]
- Incidentaloma adrenal: Massa adrenal assintomática detectada fortuitamente durante a realização de exames de imagem abdominal (tomografia computadorizada ou ressonância magnética) solicitados por outras queixas clínicas. Exige propedêutica armada minuciosa para diferenciar nódulos benignos não funcionantes de carcinomas adrenocorticais ou tumores funcionantes subclínicos.[7]
Ver também
[editar | editar código]Referências
[editar | editar código]Ligações externas
[editar | editar código]- Artigo didático sobre rins e glândulas suprarrenais na plataforma Kenhub (em português)
- Diretrizes e consensos clínicos sobre afecções adrenais na The Endocrine Society (em inglês)
- 1 2 3 4 5 Susan Standring (2020). Gray's Anatomy: The Anatomical Basis of Clinical Practice (em inglês) 42.ª ed. [S.l.]: Elsevier. pp. 1278–1285. ISBN 978-0702077050
- 1 2 3 4 Keith L. Moore, Arthur F. Dalley e Anne M. R. Agur (2018). Anatomia Orientada para a Clínica 8.ª ed. [S.l.]: Guanabara Koogan. pp. 620–625. ISBN 978-8527734592
- 1 2 3 4 5 Luiz Carlos Junqueira e José Carneiro (2023). Histologia Básica: Texto e Atlas 14.ª ed. [S.l.]: Guanabara Koogan. pp. 412–418. ISBN 978-8527739030
- 1 2 3 4 5 6 7 John E. Hall e Michael E. Hall (2021). Guyton and Hall Textbook of Medical Physiology (em inglês) 14.ª ed. [S.l.]: Elsevier. pp. 965–980. ISBN 978-0323597128
- 1 2 3 4 5 6 7 Walter F. Boron e Emile L. Boulpaep (2016). Medical Physiology (em inglês) 3.ª ed. [S.l.]: Elsevier. pp. 1018–1035. ISBN 978-1455733286
- 1 2 3 4 Keith L. Moore, T. V. N. Persaud e Mark G. Torchia (2016). Embriologia Clínica 10.ª ed. [S.l.]: Elsevier. pp. 328–331. ISBN 978-8535283808
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- 1 2 3 4 5 Vinay Kumar, Abul K. Abbas e Jon C. Aster (2021). Robbins & Cotran - Patologia: Bases Patológicas das Doenças 10.ª ed. [S.l.]: Elsevier. pp. 1120–1135. ISBN 978-8535292411