Palafita

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Chamam-se genericamente de palafitas sistemas construtivos usados em edificações localizadas em regiões alagadiças cuja função é evitar que as casas sejam arrastadas pela correnteza dos rios. As palafitas são comuns em todos os continentes sendo que em áreas tropicais e equatoriais de alto índice pluviométrico é maior. São construções sobre estacas de madeira muito utilizadas nas margens dos rios, na Amazônia, áreas da Baixada Fluminense e do Pantanal (Brasil), em países da África e Ásia. Também são encontradas em bairros como o de alagados (Bahia) e em São Vicente, São Paulo, nas imediações da ponte do mar pequeno.

Origem[editar | editar código-fonte]

Desde o período neolítico, datando os anos 5000 a 1800 a.C.[1], foi descoberto em 1854 o primeiro indicio de palafitas interligadas por pontes e passadiços no lago de Zurique, em Meilen, na Suíça.[2]

Abrangendo-se como uma arquitetura pura, é possível encontra-la em vários continentes, principalmente na Europa nas margens dos lagos e zonas marítimas[2]. Veneza, como exemplo, uma cidade palafítica que se consolidou a partir dos tempos, de estruturas frágeis para edificações solidas fincadas diretamente dentro d´água.[3]

Tendo predominância do seu aparecimento em zonas intertropicais (Trópico de Câncer e Trópico de Capricórnio), as palafitas marcam forte presença também na Ásia, na América e um pouco menos na África, onde existe uma cidade semelhante a Veneza, chamada Ganvié.[3]

Teoria lacustre[editar | editar código-fonte]

Pilotis Pré-Histórico.

Durante o Inverno excepcionalmente seco de 1853-1854, o lago de Zurique baixou a um nível nunca atingido e assim descobriu-se em Obermeilen antigos pilotis, utensílios em pedra, ossos e peças em cerâmica.

O arqueólogo Suíço, Ferdinand Keller identificou os vestígios como sendo da era Pré-histórica e a partir daí desenvolveu a sua célebre teoria lacustre (ou teoria dos lacustres): a densidade das estacas em madeira, a sua posição vertical e a sua situação nas zonas litorais de pouca profundidade levou-o a concluir que as estacas tinham servido para suster plataformas em madeira sobre as quais se levantavam as habitações.

Com as escavações arqueológicas de Emil Vogt no Wauwilermoos de Lucerna nasceu um longo debate sobre as construções palafitas, já que para uns elas eram postas directamente no solo, e para outros elevada (sobre estacas). As pesquisas arqueológicas mais recentes mostraram que existem os dois tipos.[4]

No mundo[editar | editar código-fonte]

Em Portugal[editar | editar código-fonte]

Em Portugal, as palafitas são denominadas, palheiros, que estão presentes no litoral e na margem dos rios.

  • Palheiros no litoral: corresponde as palafitas localizadas, desde Espinho até à Praia de Vieira de Leiria numa extensão com cerca de cem quilômetros. e são construídas principalmente para abrigar os pescadores e suas embarcações. Nessa área costeira, não aparecem acidentes geográficos.[5][6]
  • Palheiros do rio: tinham como objetivo abrigar os avieiros, emigrantes de décadas atrás que migravam,do litoral central do país para o rio Tejo.[5] As famílias que sofriam com uma economia precária viviam nos seus barcos, chamados de bateiras, agrupados em pequenos núcleos mesmo à beira da água. [5][6]

No Brasil[editar | editar código-fonte]

Tipo palafita amazônica[editar | editar código-fonte]

O tipo corresponde as interações da população no uso do espaço, juntamente com os seus valores culturais[7], sempre levando em consideração as qualidades topológicas classificadas como[8]:

  • clausura ou sucessão - condiz com ambientes que fazem a integração entre o interior e o exterior, como varandas e quintais;
  • continuidade ou separação - delimita direções e sentidos (horizontal, vertical, direita, esquerda...);
  • proximidade diz respeito à distância entre uma comunidade e outra.[8]

O tipo palafita amazônica, contempla a resistência de uma cultura interligada a subsistência do uso da corrente fluvial, permanência da paisagem amazônica, laço comunitário e vivência atrelada a adaptação humana ao clima, a floresta densa e ao ciclo da maré[8].

Na cultura indígena, as três qualidades topológicas são bem evidentes, pois a população ribeirinha fazendo o uso da palafita, tira o sustento do rio e transita facilmente com a floresta, fazendo uma extensão entre a casa, floresta e rio.[8]

Já na cultura nordestina, a sucessão aparece com a demarcação do ambiente interno e externo, porém sempre com aberturas que dimensionam e localizam essa interação. E a continuidade também mostra uma planta retangular, com perspectiva linear, raramente com limites físicos.[8]

Da palafita aos loteamentos populacionais[editar | editar código-fonte]

Vila da Barca[editar | editar código-fonte]

A Vila da Barca, existente desde a década de 1920, é uma comunidade tradicional estruturada em palafitas no município de Belém, no Pará. Devido as condições precárias presentes na comunidade, através da Secretaria Municipal de Habitação (SEHAB), a prefeitura apresenta projeto de realocação dos moradores a um novo conjunto habitacional em sobrados, iniciados em 2006, que garantem os direitos humanos antes negligenciados e a suposta eliminação das habitações antigas feitas em palafitas.[8]

Contudo, os moradores não parecem satisfeitos com as novas habitações, reclamando acerca do tamanho, da falta da interatividade do exterior com interior do espaço.

Referências

  1. Summermatter, Stefania. «Povoações lacustres, candidatas à chancela da UNESCO». SWI swissinfo.ch. Consultado em 8 de dezembro de 2019 
  2. a b Summermatter, Stefania. «Palafitas europeias podem virar patrimônio mundial». SWI swissinfo.ch. Consultado em 8 de dezembro de 2019 
  3. a b BAHAMÓN, Alejandro; ÁLVAREZ, Ana Maria (2009). «Palafita: da Arquitectura Vernácula à Contemporânea». Revista Argumentum 
  4. «Lacustres». hls-dhs-dss.ch (em francês). Consultado em 9 de dezembro de 2019 
  5. a b c RIBEIRO, Vanessa. «Construções sobre palafitas: Do Inquérito à Arquitectura Regional à Contemporaneidade». Laboratório de Cultura Arquitectónica Contemporânea 
  6. a b OLIVEIRA, Ernesto; GALHANO, Fernando (1964). «Palheiros do Litoral Central Português». Instituto de Alta Cultura, Centro de Estudos de Etnografia Popular 
  7. «Tipo e tipologia na palafita amazônica». www.nomads.usp.br. Consultado em 8 de dezembro de 2019 
  8. a b c d e f MENEZES, Tainá; PERDIGÃO, Ana; PRATSCHKE, Anja (2015). «O Tipo Palafítico Amazônico: Contribuições ao Processo de Projeto de Arquitetura». Pontifícia Universidade Católica de Campinas