Talian

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Talian (Talian)
Falado em: Regiões Sul (principalmente na região das serras gaúchas e no oeste catarinense) e Sudeste (no estado do Espírito Santo)
Região: América do Sul
Total de falantes: Não há número exato
Família: Indo-europeu
 Itálico
  Românico
   Ítalo-ocidental
    Ítalo-brasileiro
     Talian (Talian)
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
A região da Serra Gaúcha está localizada no nordeste do estado do Rio Grande do Sul, região Sul do Brasil; item 4 do mapa

O talian (ou vêneto brasileiro[1] ) é uma variante da língua vêneta (língua do norte da Itália) falada na Região Sul do Brasil, sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina[2] , e no estado do Espirito Santo[3] [4] [5] [6] [7] [8] .

História[editar | editar código-fonte]

Imigrantes italianos começaram a chegar à região no final do século XIX. Na época, ainda não fora estabelecido um idioma italiano oficial na Itália, e o uso de dialetos ainda era predominante. Os italianos que imigraram para o Brasil eram de diferentes partes da Itália, mas no sul do Brasil e no Espírito Santo[9] predominaram os imigrantes do norte da Península Itálica, principalmente das regiões do Vêneto, da Lombardia, do Trentino-Alto Ádige e do Friuli-Venezia Giulia. Destes, cerca de 60% eram de língua e cultura vênetas.[2]

As línguas faladas no Nordeste da Itália, estando o vêneto marcado em verde claro.

Para o Rio Grande do Sul, houve um fluxo majoritariamente vêneto e lombardo e, na primeira fase, que durou de 1875 a 1910, os imigrantes preservaram seus dialetos regionais vênetos e lombardos, além de falares minoritários trentinos e friulanos. O segundo período iniciou-se a partir de 1910, com a construção da estrada de ferro que liga Caxias do Sul a Porto Alegre. O isolamento foi rompido, aliado ao incremento comercial e industrial. Em consequência, os dialetos menos representativos numericamente foram extintos, ao mesmo tempo que os dialetos lombardos e vênetos se interinfluenciaram, com a predominância dos últimos, surgindo uma fala comum, um koiné, chamado de talian.[10]

Em algumas localidades onde houve maior concentração de imigrantes provenientes de uma determinada localidade na Itália, ainda é possível reconhecer especificidades dialetais de alguma região da Itália (como exemplo, a comunidade de Pomeranos, onde o dialeto trentino conseguiu se manter). Mas, de maneira geral, as colônias eram habitadas por pessoas de diferentes partes da Itália, colocando em contato vênetos, lombardos, trentinos e, mais raramente, friulanos. Como havia uma predominância demográfica de vênetos, com o passar do tempo a fala foi evoluindo para um linguajar mais geral, formando um dialeto vêneto brasileiro, compreendido por todos os italianos e descendentes da região.[2]

Nas primeiras décadas de imigração, havia grande resistência da comunidade italiana em se misturar com os brasileiros. O processo de integração foi lento. Esse isolamento durou cerca de cinquenta anos, a contar do início da imigração, em 1875. No sul do Brasil, muitas colônias italianas eram situadas em regiões isoladas ou relativamente independentes da população brasileira. Isso permitiu a manutenção do uso da fala dialetal italiana por gerações. Tal fato não foi possível, por exemplo, no estado de São Paulo onde, desde o início, os imigrantes italianos tiveram contato diário com a população brasileira local, e seus dialetos foram rapidamente suplantados pela língua portuguesa.[10]

Características[editar | editar código-fonte]

O vêneto falado no sul do Brasil e no Espírito Santo é arcaico quando comparado ao vêneto falado atualmente na Itália, pois é semelhante ao usado no século XIX. Ademais, com o advento da rádio e da televisão, começou uma forte interferência da língua portuguesa no vêneto falado pelos imigrantes no Brasil. Em decorrência, o vêneto brasileiro evoluiu de forma diferente da variedade falada na Itália, uma vez que incorporou itens lexicais do português e se manteve ligado à maneira como era falado no século XIX. Assim, usa-se o termo talian para diferenciar o vêneto falado no Brasil do dialeto vêneto hoje usado na Itália.[2]

Contudo, o talian não é considerado um dialeto crioulo italiano, mas sim uma variante brasileira da língua vêneta. Da mesma forma que o Riograndenser Hunsrückisch, um dialeto falado por descendentes de alemães no Sul do Brasil, o talian não é considerado uma língua estrangeira no Brasil, mas sim uma língua nacional brasileira, sem status de língua oficial (com exceção do município de Serafina Corrêa).[11]

O talian falado no Brasil e o vêneto atualmente falado na Itália são a mesma língua e, apesar de ambas as variedades linguísticas terem evoluído de forma diferente e hoje possuírem algumas diferenças, continuam mutuamente inteligíveis.[2] O talian é a segunda língua mais falada do Brasil, após o português.[2]

O talian absorveu, e continua a absorver, diversas influências da língua portuguesa. Hoje, parte significativa do seu vocabulário tem origem no português, se distanciando parcialmente do dialeto vêneto atualmente falado na Itália.[12] Todavia, apesar dos brasileirismos presentes no talian, ele é ainda muito próximo ao dialeto vêneto usado na Itália, sendo ambas as variedades linguísticas inteligíveis.[2]

Exemplos da influência do português no talian [12]
Palavra no talian Palavra no vêneto original Palavra no italiano padrão Palavra em português
Bolo Torta Torta, dolce Bolo
Caro, auto Machina, auto Macchina, auto Carro
Coraçon Cor, core Cuore Coração
Galignero Punaro ou punèr Pollaio Galinheiro
Garafa Butiglia Bottiglia Garrafa
Inton, alora Alora Allora Então
Praia Spiaia Spiaggia Praia
Sapatero, scarpèr Caleghèr ou scaporlin Calzolaio Sapateiro
Sià, scià Chá
Simarón, Scimarón - - Chimarrão
Sorasco, chorasco - - Churrasco
Verón Istá Estate Verão
Como non! Certo! Certamente! Sicuramente! Certo! Certamente! Sicuramente! Como não!

O declínio[editar | editar código-fonte]

O censo de 1950 mostrou que, dos 458 mil falantes de italiano no Brasil, 64,62% viviam no Rio Grande do Sul, 20,87% em Santa Catarina e 9,99% em São Paulo.[10]

Na década de 1930 e durante a Segunda Guerra Mundial, a campanha de nacionalização instituiu o aprendizado obrigatório do português e proibiu o uso da fala dialetal italiana. Os italianos eram considerados a "quinta coluna" e houve grande repressão policial nas colônias contra o uso do dialeto. Pessoas foram presas e até espancadas pela polícia ao serem pegas falando dialeto nas ruas. No mesmo período, formava-se um novo grupo de descendentes de italianos, mais urbanos e enriquecidos, que menosprezavam o dialeto e davam preferência ao português, enxergando o falante de talian como um colono grosso e rural, inferiorizando-o socialmente.[10] Todos esses fatores levaram a criação de um estigma de ser falante de talian e os pais muitas vezes optavam por não transmitir a língua a seus filhos, para evitar que estes fossem estigmatizados ou motivo de chacota nas escolas por não falarem bem o português ou por falá-lo com uma fonética italiana. O êxodo rural também contribuiu para o declínio no uso da fala dialetal, pois nos centros urbanos a língua portuguesa era dominante e as gerações nascidas no meio urbano não adquirem o talian como língua materna.[10]

O uso do dialeto vai-se perdendo ao longo das gerações. A primeira e a segunda gerações nascidas no Brasil costumam falar o dialeto, mas a partir da terceira já começa a haver a perda gradual do uso, por meio do bilinguismo com o português. Na quarta geração o dialeto é apenas uma memória familiar e na quinta desaparece a memória também.[10] Nos últimos anos, os governos regionais tem tentado revitalizar o dialeto. Em 2009, o talian foi reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural do Rio Grande do Sul e o próprio estigma de ser falante dessa língua vem dando lugar a um orgulho.[10]

Pessoas que usavam o italiano no lar, por gerações (censo de 1940)[13]
Gerações Número de falantes
Primeira (imigrantes) 53.000
Segunda (filhos) 120.000
Terceira e seguintes (netos, bisnetos etc) 285.000
Total 458.000

O talian atualmente[editar | editar código-fonte]

Não se sabe ao certo o número de falantes do talian no Brasil, porém estimativas apontam em 500 mil o número de pessoas que usam essa língua,[14] a maioria dos quais são bilíngues e também falam o português. Atualmente, os falantes de talian têm se empenhado para resgatar a língua, principalmente nas regiões povoadas por italianos no sul do Brasil. Diversos livros já foram publicados no idioma talian. Existem estações de rádio que transmitem algumas horas de sua programação em talian em vários municípios do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, e algumas do Espírito Santo[15] [8] , Paraná e Mato Grosso.[16]

O Rio Grande do Sul possui o talian como patrimônio linguístico aprovado oficialmente no estado,[17] [18] [19] assim como o estado de Santa Catarina.[20] [21] O município de Serafina Corrêa também possui esta língua como co-oficial no município, ao lado do português.[11]

Em 2014, o talian foi certificado como patrimônio nacional.[22] [23]

Língua oficial[editar | editar código-fonte]

Além de os estados de Santa Catarina[24] [25] [26] e Rio Grande do Sul[27] terem o talian como patrimônio linguístico aprovado oficialmente no estado, e o município de Serafina Corrêa também ter oficializado o talian no serviço público,[28] [29] outros municípios do país oficializaram o ensino da língua italiana propriamente dita nas escolas.

Municípios em que o ensino da língua italiana é obrigatório[editar | editar código-fonte]

Espírito Santo[editar | editar código-fonte]

Paraná[editar | editar código-fonte]

Rio Grande do Sul[editar | editar código-fonte]

Santa Catarina[editar | editar código-fonte]

São Paulo[editar | editar código-fonte]

Municípios em que o ensino da língua italiana é facultativo em todas as escolas públicas[editar | editar código-fonte]

São Paulo[editar | editar código-fonte]

Municípios brasileiros que possuem língua co-oficial talian (ou dialeto vêneto)[editar | editar código-fonte]

Estados brasileiros em que o talian possui status de patrimônio linguístico[editar | editar código-fonte]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Talian: il dialetto veneto brasiliano, Italiani in Brasile
  2. a b c d e f g Gênese e Evolução dos Dialetos Trentino e Vêneto Erro de citação: Invalid <ref> tag; name "venetian" defined multiple times with different content
  3. Sarah Loriato (2014). "Northern Italian dialects in Santa Teresa, Brazil". 36th LAUD Symposium. University of Koblenz/Landau. 
  4. "Dialeto falado por imigrantes italianos é reconhecido como patrimônio nacional". 
  5. "Brasil Talian documentado em filme". 
  6. "Talian Brasil - Intervista con casal Benjamim Falqueto - Venda Nova del Imigrante - ES". 
  7. "I dessendenti taliani che parla el talian. Venda Nova do Imigrante – Espírito Santo – Brasil". 
  8. a b "Chico Zandonadi, Radialista del talian – Ràdio FMZ, Venda Nova do Imigrante – ES". 
  9. "ESPIRITO SANTO, LO STATO PIU' VENETO DEL BRASILE". 
  10. a b c d e f g Marley Terezinha Pertile (2009). "O Talian entre o italiano-padrão e o português brasileiro:..." (PDF). Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Consult. 19/1/2014. 
  11. a b Vereadores aprovam o talian como língua co-oficial do município, acessado em 21 de agosto de 2011
  12. a b http://www.celsul.org.br/Encontros/09/artigos/Carmen%20Faggion.pdf
  13. http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/monografias/GEBIS%20-%20RJ/CD1940/Censo%20Demografico%201940%20VII_Brasil.pdf
  14. Acredite: Um terço das línguas está sumindo
  15. "Sarah, dal Brasile a Sona per studiare il dialetto veneto". Il Baco da Seta. 25/08/2014. 
  16. Neste final de semana Antônio Prado sedia o 16º Encontro dos divulgadores do Talian
  17. Sancionada lei que declara o Talian dialeto integrante do patrimônio do RS
  18. Aprovado projeto que declara o Talian como patrimônio do RS, acessado em 21 de agosto de 2011
  19. Talian: A língua vêneta de além mar
  20. LEI Nº 14.951, de 11 de novembro de 2009
  21. Rotary apresenta ações na Câmara. FEIBEMO divulga cultura italiana
  22. Dialeto de imigrantes italianos se torna patrimônio brasileiro Portal G1
  23. Brasil tem novo dialeto registrado como patrimônio cultural, Jornal Nacional
  24. a b LEI Nº 14.951, de 11 de novembro de 2009
  25. a b Rotary apresenta ações na Câmara. FEIBEMO divulga cultura italiana
  26. a b Fóruns sobre o Talian - Eventos comemoram os 134 anos da imigração italiana[ligação inativa]
  27. a b Aprovado projeto que declara o Talian como patrimônio do RS, acessado em 21 de agosto de 2011
  28. a b Vereadores aprovam o talian como língua co-oficial do município, acessado em 21 de agosto de 2011
  29. a b Talian em busca de mais reconhecimento[ligação inativa]
  30. Língua italiana na rede municipal de ensino
  31. Aprovado em primeira votação, projeto emendado propõe um ano de caráter experimental em Venda Nova
  32. Convênio para ensino da língua italiana em nível municipal
  33. Oficializa aulas de lingua italiana nas escolas da rede municipal de ensino
  34. Lei 3113/08, Brusque - Institui o ensino da língua italiana no currículo da rede municipal de ensino e dá outras provicências
  35. Lei 3113/08 | Lei nº 3113 de 14 de agosto de 2008 de Brusque
  36. Art. 1 da Lei 3113/08, Brusque
  37. Secretaria de Educação esclarece a situação sobre o Ensino da Língua Italiana
  38. Lei 4159/01 | Lei nº 4159 de 29 de maio de 2001 de Criciuma
  39. Lei nº 4.159 de 29 de Maio de 2001 - Institui a disciplina de língua italiana
  40. Lei 2953/96 | Lei nº 2953 de 30 de setembro de 1996 de Braganca Paulista
  41. Lei municipal Nº 4.947/96
  42. Secretário de educação renova convênio para ensino de italiano nas escolas munipais

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

Wikiquote
O Wikiquote possui citações de ou sobre: Provérbios em Talian