Victor Brecheret

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Victor Brecheret
Nascimento 15 de dezembro de 1894
Farnese; Itália
Morte 17 de dezembro de 1955 (61 anos)
São Paulo; Brasil
Nacionalidade Ítalo-brasileiro
Ocupação escultor
Magnum opus Monumento às Bandeiras
Movimento estético Modernismo

Victor Brecheret (Farnese, 15 de dezembro de 1894 — São Paulo, 17 de dezembro de 1955)[1] foi um escultor ítalo-brasileiro, considerado um dos mais importantes do Brasil. Foi o responsável pela introdução do modernismo na escultura brasileira.[2][3] Apesar de ser um dos principais artistas da vanguarda, Brecheret nunca abandonou sua formação artística clássica, ligada à arte greco-romana e renascentista.[4]

Victor era uma homem tímido, usualmente quieto. Vivia mais isolado[1][3] e era muito concentrado, fazendo com que passasse muito tempo produzindo.[3] Em sua vida desenvolveu diferentes pesquisas artísticas, inserindo-se em diferentes cenários culturais no Brasil e na Europa.[1]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Primeiros anos[editar | editar código-fonte]

Vittorio Breheret nasceu em 1894 em Farnese, uma pequena cidade próxima a Roma. A Itália, na época, ainda tinha vestígios do Risorgimento, com as disputas entre os nacionalistas favoráveis a unificação política do país e o papado.[5] O pai de Vittorio, Augusto Breheret tinha ascendência francesa[1] e era proprietário de terras e vinhedos provenientes de doação papal, enquanto sua mãe, Paolina Nanni, vinha de uma família de pequenos agricultores e criadores de gado. O casal teve oito filhos, mas seis deles faleceram ainda na infância. Vittorio e Ersília Breheret (nascida em 1897) foram os únicos a chegar à vida adulta.[1][5]

Ainda na infância, antes do escultor completar seis anos de idade, os irmãos ficaram orfãos de mãe. Passaram a ser criados pela tia materna, Antonia Nanni Salini, e com ela foram para o Brasil, desembarcando em 1904.[2] A família se estabeleceu nas proximidades do Largo do Arouche, em uma casa na Rua Jaguaribe.[1] A cidade tinha grande número de migrantes italianos e o garoto, de apenas 9 anos, acabou adotando São Paulo como sua terra natal.[2]

Como de costume nas famílias italianas, Vittorio começou a trabalhar ainda criança, como vendedor em uma loja de calçados. O garoto não parecia se interessar em estudos, mas passava horas brincando com barro e modelando figuras. Sua tia sempre o estimulou, entendendo que sua brincadeira já demonstrava seu interesse pelas artes.[1] Com isso, em 1912, Vittorio iniciou seus estudos na área. Sem parar de trabalhar, tornou-se aluno do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo,[3] onde aprendeu o básico de letras e aritmética[1] e frequentou as aulas de desenho, modelagem, entalhe em madeira[6] e escultura seguindo a ideia do instituto de preparar os jovens para o exercício do ofício.[1] Foi lá que Vittorio começou a modificar seu sobrenome, inicialmente Breheret, mas alterado nas matrículas para Brecheretti e, posteriormente, Brecheret.[2]

Arte pelo mundo[editar | editar código-fonte]

Por incentivo dos professores do Liceu, voltou à Itália em 1913 para estudar escultura em Roma. A cidade, por seu passado ligado à Antiguidade Clássica, ao Renascimento e ao Barroco, era polo da escultura européia.[1] Sem formação na área, Victor não pode entrar na escola de Belas Artes, e acabou dividindo atelier com outro artista. Em 1914, por apoio da Maçonaria, tornou-se aprendiz do escultor Arturo Dazzi, um dos artistas de maior prestígio da região que trabalhava constantemente para o rei Vittorio Emmanuelle III.[1][2] Com Dazzi, Brecheret teve uma formação técnica atrelada à tradição clássica da escultura de Michelangelo e o naturalismo de Auguste Rodin. Nos estudos de anatomia, porém, Victor discordava do mestre, que se aprofundava na técnica dissecando humanos e animais. As experiências traumáticas com dissecação tornaram o jovem um grande opositor da violência e do derramamento de sangue. O artista afastou do mestre, abrindo seu primeiro ateliê (na via Flaminia, 22 - Roma) aos 22 anos[2] e posteriormente passou a mentir sua nacionalidade, dizendo-se sul-americano e refugiando-se em sua cidade natal para evitar a convocação para o front da Primeira Guerra Mundial.[1]

Em 1919 regressa ao Brasil.[3] Na época, Ramos de Azevedo era diretor do Liceu de Artes e Ofícios. Amigos dos tempos em que Victor estudou na instituição,[1] reencontram-se e Azevedo consegue um atelier para o escultor no Palácio das Indústrias. Sem contato com os artistas brasileiros, se fecha em seu trabalho, tendo um ano de enorme produção e sendo descoberto pelos críticos e pelos artistas modernistas, que viam sua arte como algo novo, antiacadêmico e diferente do que era usualmente produzido na cena paulista.[2] Brecheret foi convertido em estandarte do movimento modernista brasileiro[2] e criou relação com Emiliano Di Cavalcanti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Menotti del Picchia, com quem participou da introdução do pensamento vanguardista no Brasil.[6]

Em 27 de julho de 1920 expôs a maquete do Monumento às Bandeiras na Casa Byington e, juntamente com outros artistas, em uma exposição em Santos.[3] A obra, que viria ser seu magnum opus anos depois, foi primeira pensada para o espaço público elaborada pelo artista.[7] Produzida para concorrer como novo memorial da independência, foi negada, gerando alvoroço por parte dos modernistas. Porém, Washington Luís, governador de São Paulo na época, enviou a maquete para o acervo da Pinacoteca do Estado.[2] A decisão foi vista por parte do grupo de artistas como uma vitória, já que a obra — tida como antiacadêmica e modernista — passava a ficar exposta no local símbolo do academicismo.[1] Foi também neste momento que o crítico Monteiro Lobato tornou-se grande admirador do escultor, escrevendo o artigo “As quatro asneiras de Brecheret”, que com ironia e um humor ácido, criticava as obras e a falta de reconhecimento do artista na cena paulista.[2]

Victor percebeu que para aprimorar sua arte era preciso sair do país. Apesar de não ter condições financeiras para ir ao exterior, tinha admiradores da elite intelectual e política, que fizeram com que seus interesses chegassem ao senador José de Freitas Valle, patrono do Pensionato Artístico do Estado de São Paulo, que lhe proporcionou uma bolsa de estudo de 5 anos em Paris. Em 1921, chegou à cidade a bordo do navio Almanzora.[2] Ao chegar na cidade, porém, Victor sentiu-se inadequado, pelo inevitável choque do novo. A cidade francesa reunia artistas de todo mundo, agregando os princípios de diversas vanguardas, diferente da arte de Brecheret e daquilo que ele tinha visto na Itália e no Brasil.[3] Brecheret decidiu que faria daqueles cinco anos, um tempo de estudo intenso[1] e foi nesse momento que começou a manifestar o desânimo com sua bolsa de estudos, que parecia insuficiente para que ele realizasse tudo que desejava.[3]

O artista se estabeleceu em um atelier próximo ao cemitério de Montparnasse — que já era considerado um bairro de artistas —, afastado do movimento e da boemia. O espaço não contava com luz elétrica, aquecimento ou água-corrente; era um cômodo de pé direito alto, cheio de suas esculturas e sem nenhum conforto.[3] Lá, Victor isolou-se mais uma vez. Porém, logo buscou se inserir na Escola de Paris, imergindo na cultura cosmopolita[1] e produzindo uma obra para expôr ainda nos primeiros dois meses. Sua participação foi noticiada pelo Correio Paulistano e a obra, aclamada no Brasil. Entretanto, o artista seguiu insatisfeito, pois não havia recebido nenhuma critica parisiense ao trabalho. Suas obras diferiam daquilo que era feito em na cidade e a inadequação fez com que Brecheret ficasse quase um ano sem produzir. Em 1922, assimila o modernismo, voltando a produzir e expor. No mesmo ano, participou a distância da Semana de Arte Moderna,[3] tendo doze esculturas expostas[6] no saguão do Teatro Municipal de São Paulo.[3][6] A partir deste momento, manteve paralelamente as carreiras no Brasil e na Europa, participando de diversas mostras artísticas.

Foi no começo de sua estadia na França, que conheceu Simone Bordat, jovem que se tornou incentivadora e companheira do artista. Brecheret costumava fazer compras na padaria da qual os pais de Simone eram donos e foi ali que começaram a conversar, trocando algumas palavras em francês e conhecendo pouco um do outro. O escultor ia diariamente fazer compras e quando se ausentou por alguns dias, Simone foi atrás dele, encontrando-o com pneumonia em seu atelier. A jovem cuidou do escultor e aquele foi o início da relação que duraria quinze anos — tempo de estadia de Victor na França. Passou a estar presente em todos os momentos e os amigos do artista se referiam a ela, em suas cartas, como a "noiva de Brecheret".[1][3]

O artista demorou a se adaptar à Paris. Com as temperaturas muito baixas teve dificuldades com as obras — chegando a perder uma, que deixara descoberta a noite, encontrando-a rachada e prestes a quebrar na manhã seguinte. Além de sentir-se muito só na cidade e não se acostumar com o ritmo — inclusive escrevendo a Mário de Andrade que "este turbilhão de Paris só serve para nos embrutecer", revelando também ao amigo a importância das cartas trocadas com os colegas artistas brasileiros.[3] Em 1923, com a chegada de Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade em Paris, seu ciclo de amizades em Paris expandiu, sendo também apresentado a Blaise Cendrars e os cubistas André Lhote e Léger.[1]

Nesses cinco anos com a bolsa do Pensionato Artístico, Brecheret esteve em diferentes ateliers mas nunca tirou o foco de seu estudo sobre escultura. Viveu uma vida modesta e dedicou-se totalmente ao trabalho, distanciando-se do movimento boêmio parisiense, frequentado por alguns de seus amigos brasileiros (Tarsila, Oswald, Antonio Gomide e Vicente do Rego Monteiro). Taciturno, Brecheret preferia caminhar sozinho pela cidade, indo a museus e visitando igrejas. Porém, fazia também algumas viagens curtas pela Europa, muitas das vezes com os amigos italianos, dos tempos que estudou em Roma.[1]

Houve o fim da bolsa do Pensionato Artístico (1926) e o escultor retornou ao Brasil, participando de algumas mostras de arte. Sua tia, Antonia Nanni Salinni, havia falecido em 1924, e Victor adquiriu uma parte do terreno de seu tio (Rua Oscar Freire, 1546), onde estabeleceu seu novo atelier. O escultor fez uma obra em granito, Pietà, em homenagem à tia, e a vendeu para a Família Salini, que a colocou em seu jazigo no Cemitério da Consolação. Em 1927 conseguiu extensão de sua bolsa do Pensionato Artístico e retornou a Paris, mantendo então as carreiras brasileira e europeia paralelamente.[1]

Em 1930, com a quebra da Bolsa de Valores americana, houve um impacto negativo mundial. A situação na França fica difícil para os artistas estrangeiros pela crise xenofóbica na Europa e a diminuição da liberdade de expressão — fazendo com que apenas o movimento futurista italiano, aliado ao fascismo, permanecesse produzindo sem grande rejeição.[1] Brecheret voltou ao Brasil em 1932,[1] quando fundou a Sociedade Pró-Arte Moderna (SPAM) com outros artistas.[3][1] No ano seguinte retornou à França, vivendo uma nova fase artística ao se aproximar do abstrato. Em 1934, retornou ao Brasil para expor algumas obras no Palace Hotel do Rio de Janeiro e em São Paulo no ano seguinte. Nesta ocasião foi convidado a realizar o Monumento às Bandeiras.[1]

O retorno definitivo[editar | editar código-fonte]

Monumento a Duque de Caxias, de Victor Brecheret

Seus amigos Menotti del Picchia e Cassiano Ricardo eram assessores do governador de São Paulo da época (Armando Salles de Oliveira) e haviam apresentado a maquete do monumento ao político, que decidiu então realizar a obra e contratar o artista para a construção da mesma. Em 1936, Brecheret começou a reformular a obra, que além de um retrato histórico dos bandeirantes, seria um símbolo da punjança paulista. Em 1937 passou a se dedicar à peça, trabalhando em seu atelier no Ibirapuera. A obra só foi concluída em 1953, tendo sua inauguração em 25 de janeiro.[1]

Victor voltou a França ainda em 1936 para desativar o atelier de Paris e se despedir da companheira Simone, que foi contra a decisão de voltar ao Brasil — pois ele já era famoso e tinha carreira estabelecida na Europa — e se recusou a acompanhá-lo. Para a execução da obra, Brecheret estabeleceu-se no Brasil definitivamente. No país, inseriu-se novamente no ciclo de artistas locais, o que julgava de extrema importância.[1]

Em 1939 casou-se com Jurandy Helena Brecheret, cuja imagem o artista eternizou em retratos e figuras monumentais. Com ela teve três filhos: a primeira, Alda (1940) faleceu antes de completar um ano; Victor (1942) e Sandra (1945) atingiram a vida adulta.

Em 1941, Brecheret participou do Concurso Internacional de Maquetes para o Monumento Duque de Caxias, do qual saiu vencedor.[4] Tinha então dois monumentos para construir, mas os limites financeiros e alguns obstáculos burocráticos dificultaram o momento que lhe trazia tanto entusiasmo. Com a Segunda Gerra Mundial, não pode trazer inovações ao monumento equestre e militar. A obra foi construída a partir de elementos clássicos e de um academicismo tradicional, mas apesar da tentativa de lembrar as esculturas renascentistas, a peça não traz vitalidade, tem problemáticas com os volumes e não é uma das boas realizações do artista. Brecheret, porém, faleceu antes de ver o monumento finalizado.[1]

Apesar de Brecheret não ser um homem muito religioso, sua introversão lhe dava um temperamento místico que transparecia em suas obras, principalmente a partir da segunda metade dos anos 40, quando passou a ter uma vasta produção religiosa e passou a pesquisar as artes e costumes dos indígenas brasileiros.[1]

Brecheret produziu até seus últimos dias de vida — sendo o pequeno gesso São Paulo, último modelado, datado de sete de dezembro de 1955. O artista faleceu em 17 de dezembro de 1955, em São Paulo.[1] Voltando do cinema, ao estacionar o carro, teve uma parada cardíaca.[8]

Obra[editar | editar código-fonte]

Figura feminina (1951), de Victor Brecheret

Ao longo de sua vida, Victor Brecheret passou por diferentes fases artísticas. Começando com a clássica figuração, se encaminhou para a abstração – a partir de processos de simplificação e transfiguração – e posteriormente a uma imagética da cultura indígena brasileira.[3] Sua base artística foi construída entre Europa e Brasil, bem como sua carreira de escultor.[1][2]

Primeiros passos na arte[editar | editar código-fonte]

Quando estudante do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, Brecheret fez sua primeira obra, Pietà, esculpida em madeira e com referências a obra homônima de Michelangelo. O tema religioso passaria a ser uma constante em seus trabalhos.

Por volta de 1913, quando Brecheret foi a Roma, a Itália vivia um momento de resgate e reinvenção da arte nacional, com uma visão épica herdada do Risorgimento.[1] Com isso, o escultor estudou os monumentos, relevos, afrescos e ruínas greco-romanas e foi a Florença ver as obras renascentistas.[2] Suas obras passaram a seguir tais bases clássicas italianas – gregos e renascentistas –, o naturalismo de Auguste Rodin e a linguagem heróica e o imaginário épico do artista croata Ivan Meštrović,[2] além de agregar algumas referências do naturalismo de Aristide Maillol e o romantismo de Antoine Bourdelle – estudados por Victor quando aprendiz de Arturo Dazzi.[3]

Mestrovic seria uma influência marcada em grande parte de seus trabalhos. O artista croata tinha obras grandiosas e nacionalistas que abordavam mitos, heróis e símbolos, que criaram o gosto de Brecheret pela monumentalidade, dramaticidade e intenção alegórica das esculturas. Nessa fase, o artista esculpe majoritariamente em gesso.[1]

Em 1916, ainda na Itália, Brecheret participou de sua primeira exposição, a dos Amatori e Cultori, com a escultura Despertar.[3] A obra foi noticiada no Brasil e na Itália e ele passou a ser reconhecido como um grande artista.[1][2][3] Com as obras Eva, Um estudo para a esfige e Medalha Comemorativa do Centenário da Independência destaca-se na Mostra Degli Stranieri alla Casina del Pincio, na qual expôs com outros artistas estrangeiros antes de retornar ao Brasil (1919).[1]

Eva[editar | editar código-fonte]

Eva (1920), de Victor Brecheret.

Criada em 1919 em gesso, a obra foi exposta na Mostra Degli Stranieri alla Casina del Pincio. No ano seguinte foi passada para o mármore. Retomando a temática religiosa, presente em Brecheret desde sua primeira obra no Liceu de Artes e Ofícios, a escultura retrata a mãe da humanidade. A figura feminina não é retratada na juventude, mas no corpo de uma mulher madura. A expressão e os músculos tensos se contrapõe às delicadas e trabalhadas tranças – remetendo aos trabalhos de Antoine Bourdelle – e o alisamento da pele da personagem. O corpo foi esculpido torcido, com volumes em direções opostas, dando destaque ao conhecimento anatômico do artista ítalo-brasileiro. As influências de Mestrovic na arte de Brecheret também podem ser percebidas, pela dramaticidade provocada pela torção e tensão exagerada dos músculos de Eva.[1] A obra já esteve exposta no Anhangabaú e no Parque do Ibirapuera, mas desde 1982, encontra-se no Centro Cultural São Paulo, na entrada do Piso Caio Graco.[9]

Movimento Modernista no Brasil[editar | editar código-fonte]

Musa Impassível (1921), de Victor Brecheret

Ao voltar para o Brasil, em 1919, Victor se isolou e tem um tempo de grande produção. Até que os modernistas o descobriram e se entusiasmaram com sua arte. Suas obras causaram impacto pela dramaticidade das figuras, tensas e violentamente deformadas em nome de um caráter épico; além de conterem algumas características primitivas. A musculatura das esculturas, como Eva, traziam volumes orientados em diferentes sentidos, criando jogos de luz e sombra em meio às torções e alongamentos de partes dos corpos criados. Neste momento, o artista assumiu, junto com Anita Malfatti, um papel heróico para o Modernismo, tornando-se um dos estandartes do movimento.[1]

Brecheret gerou movimento em outras áreas da vanguarda artística, inspirando Mário de Andrade a escrever Pauliceia Desvairada, traduzindo para escultura as poesias de Guilherme Almeida e a máscara de Menotti del Picchia – referente ao livro de poemas Máscaras do modernista. O escultor marcou a sensibilidade artística de seus colegas de vanguarda, ao mesmo tempo que eles influenciaram a arte de Brecheret com um cunho nativista.[1]

Musa Impassível[editar | editar código-fonte]

Ainda nessa época, o governo de Washington Luís encomendou a Musa Impassível, escultura para ser o mausoléu da poetisa parnasiana Francisca Júlia. A obra, feita em mármore, é uma figura feminina poderosa. O rosto é sereno e clássico, sem as tensões comuns aos de outras esculturas de Brecheret. O corpo ereto, traz seios desnudos e realistas, que contrastam com a estilização das vestes. Para Menotti del Picchia, a obra era uma produção triunfal de Brecheret, digna da poetisa. Inicialmente esculpida para ficar no Cemitério do Araçá, a peça hoje se encontra na Pinacoteca de São Paulo.[1]

Intercâmbio cultural França-Brasil[editar | editar código-fonte]

Com artistas de todo mundo, a cena artística de Paris cruzava princípios das diversas vanguardas que haviam surgido antes e depois da Primeira Guerra Mundial, tornando-se um ambiente de experimentalismo.[3] Os jovens não se prendiam a nenhum movimento artístico específico, mas aproveitavam a liberdade que a Escola de Paris oferecia, longe das pressões acadêmicas e políticas de seus países.[1] Brecheret, em sua estadia estudou os princípios de grandes artistas europeus da época,[3] como Henry Moore, Constantin Brancusi, Antoine Bourdelle[6] — artista que havia estudado em Roma, de quem admirava a simplicidade e cujo atelier frequentava em Paris[1] — e Aristide Maillol[6] — cujo atelier também frequentou.[1]

Com o tempo, Brecheret foi deixado a tensão trágica dos corpos de suas esculturas e as expressões românticas, ferozes mórbidas. A síntese formal — que era uma tendência contemporânea — aparece em sua nova fase, aproximando seus trabalhos do que era produzido em Montparnasse, assimilando os princípios de outras vanguardas.[3] Um marco para essa mudança é sua viagem para Haute-Savoie, na fronteira suíça, onde passa três meses, meditando, cuidando de si e obcecando-se pelas formas simples e puras. Com o auge do cubismo na Escola de Paris, também agregou os volumes geométricos às suas obras, iniciando uma busca pessoal por grande simplicidade e novas formulações estéticas em seus trabalhos. A reformulação de sua arte se estende para referências dos tipos arcaicos das artes grega, egípcia, chinesa e khmer — componentes da Art Déco — e a relação de suas esculturas com a luz é potencializada — tendo as relações luminosas pensadas para modelar e criar contornos de luz e sombra nas obras, principalmente nas feitas em mármore e bronze.[1]

Morando em Paris, mas participando de um modernismo pulsante no Brasil, o artista desenvolveu paralelamente as carreiras brasileira e européia, participando de diversas mostras de arte.[3]

  • 1923: Salon d'Automne, em Paris, premiado pela escultura Mise au tombeau (O sepultamento)[3]
  • 1924: expõe a obra Porteuse au Parfum (Portadora de Perfumes) no Salon d'Automne.[3]
  • 1925: expõe Danseuse (Dançarina) no Salon d'Automne e participa da mostra no Salon de la Société des Artistes Français, recebendo menção honrosa.[3]
  • 1926: primeira exposição individual em São Paulo – novas mostras individuais aconteceram em 1930, 1934, 1935, 1948 e 1953.
  • 1929: expôs no Salon des Indépendents.[3]

Sepultamento[editar | editar código-fonte]

Sepultamento (1923), de Victor Brecheret

Esculpida na França, em 1923, a obra foi exposta e premiada no Salon d'Autonome em Paris. Posteriormente, a escultura de granito[10] foi vendida à família Guedes Penteado e hoje está no Cemitério da Consolação ornando o túmulo de Olívia Guedes Penteado[11] – admiradora declarada de Brecheret,[4] mecenas de modernistas[1] e cujo salão foi o primeiro a receber obras desses artistas.[4]

Mise au tombeau (nome francês da obra) retrata pietà, cena clássica bíblica e muito retratada pela arte italiana. Na obra de Brecheret, porém, quatro mulheres choram com Virgem Maria, que tem Cristo desfalecido nos braços.[10] As figuras são representadas com corpo torcido e com a síntese formal, que após a estadia na França, tornara-se típica do artista.[1]

Para Mário de Andrade, a obra trazia a ideia fúnebre por sua elegância e simplicidade, contrapondo-se àquelas sentimentais, feitas em mármore, que eram comumente vistas no Cemitério da Consolação, que faziam o gosto da burguesia da época e as quais o modernismo se opunha.[10]

Em sua estada na França recebeu artigos e manifestações de apoio de diversos artistas modernistas brasileiros, entre eles Mário de Andrade, que aconselhou Brecheret a pesquisar os indígenas brasileiros a fim de desenvolver uma escultura única, original e brasileira, uma arte nacionalista.[2]

Brecheret viveu uma segunda fase parisiense. Houve o fim da bolsa do Pensionato Artístico e o escultor parecia ter se afirmado na Escola de Paris e amadurecido em relação à sua arte. Após a crise de 29, o trabalho de Victor viveu um momento de inquietações e buscas. Aproximou-se mais da arte abstrata, com referências a Constantin Brancusi e buscou um efeito maior de vitalidade e emoção nas obras, atentando-se a Henri Laurens e Jacques Lipchitz. Os volumes tornaram-se mais roliços, a simplificação beirava a abstração e as figuras femininas ficaram menos geometrizadas, ganhando sensualidade.[1]

A primeira fase brasileira[editar | editar código-fonte]

Na volta definitiva para o Brasil, Victor começou a se interessar por construir uma iconografia escultória brasileira, envolvendo as três raças. Seu interesse pela arte arcaica grega cresceu e, assim como Maillol — com quem ainda compartilhava ideias —, baseou-se nessa arte para fazer um modernismo clássico. Houve uma quebra da rigidez geométrica e o fim da segunda fase parisiense de sua arte. A naturalização das formas, a preponderância dos nus femininos — agora permeados por vitalidade e alegria de viver — e um novo relacionamento entre as obras e espaços maiores e urbanos são marcos dessa nova fase.[1]

Depois do banho[editar | editar código-fonte]

Depois do banho, de Victor Brecheret

Atualmente, a obra encontra-se no Largo do Arouche, em São Paulo. A figura feminina retratada é muito próxima do real, apesar da ainda presente simplificação formal de Brecheret, dentro de um sentido arcaico. A obra exemplifica a mudança nesta fase do artista, sem caráter abstratizante ou volumes arredondados e cilíndricos como nas obras feitas na França, ela traz calma e vigor.[1]

A arte indígena de Brecheret[editar | editar código-fonte]

Na metade da década de 40, iniciou-se a segunda fase brasileira de Brecheret, de intensa produção religiosa.Os personagens religiosos aproximavam-se de uma arte popular, marcados por uma coesão de elementos — em um núcleo do monumento — e maior agressividade de expressão, obtida pelas incisões na superfície da obra. Em sua pesquisa, aprofundou-se na arte folcórica e religiosa indígena.[1] Ele começou a introduzir aspectos das culturas e artes indígenas brasileiras em suas obras.[3][12][6] Não havia, porém a busca por uma obra etnográfica, mas sim por uma escultura brasileira por excelência. Suas principais referências ligavam-se aos povos que habitaram a Ilha de Marajó séculos antes.[12] Os costumes, tradições e o primitivismo da arte marajoara, eram fundamento para as obras e apareciam, principalmente, no conteúdo formal das mesmas.[3] O escultor ítalo-brasileiro se baseou no primitivismo desses povos, que deixaram vários objetos e obras, para criar um estilo novo, antropofágico e tipicamente nacional. Neste período, Brecheret trabalhou muito em terracota, pedra com incisões e bronze.[6][12] Alguns exemplos de obras dessa fase do artista são Maternidade, Três Graças, Bartira, O Índio e a Suaçuapara[3] — que em 1951 recebeu o primeiro Prêmio de Escultura Nacional da I Bienal de São Paulo.[1]

Além dos temas indígenas, São Francisco também se tornou um tema muito frequente nas obras do artista — que se emocionava com o santo que exaltava a natureza e as criaturas. São realizadas, São Francisco com Bandolin — a primeira —, São Francisco e as Pombas, São Francisco com Boizinho, São Francisco com Jumento, entre outros, até a Cabeça de São Francisco, no ano de sua morte. Todos esses encontram-se hoje em coleções particulares, como grande parte das obras desse período,[1] que em 2007 foram expostas no Caixa Cultural.[12]

Referências

  1. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac ad ae af ag ah ai aj ak al am an ao ap aq ar as at au av aw ax Peccinini, Daisy (2004). Brecheret. A linguagem das formas. São Paulo: Instituto Victor Brecheret 
  2. a b c d e f g h i j k l m n o p Peccinni, Daisy (2011). Brecheret e a escola de Paris. [S.l.]: FM EDITORIAL 
  3. a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab ac Pellegrini, Sandra Brecheret. Brecheret: 60 anos de notícia. [S.l.]: Melhoramentos 
  4. a b c d Ribeiro, Ana Carolina Fróes (31 de outubro de 2006). «Tradição, nacionalismo e modernidade: o monumento Duque de Caxias». doi:10.11606/D.18.2006.tde-16042007-092110 
  5. a b A cidade e a festa: Brecheret e o IV Centenário de São Paulo, tese de doutorado de Irene Barbosa de Moura, PUCSP.
  6. a b c d e f g h Cultural, Instituto Itaú. «Victor Brecheret | Enciclopédia Itaú Cultural». Enciclopédia Itaú Cultural 
  7. Moura, Irene Barbosa de (2011). «O monumento e a cidade. A obra de Brecheret na dinâmica urbana». Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade. 0 (6). ISSN 2176-4174 
  8. Almeida, Rosana Garcete Miranda Fernandes de (15 de setembro de 2015). «A morte no cinzel de Victor Brecheret: Musa Impassível». doi:10.11606/D.93.2016.tde-27012016-125937 
  9. «10 obras de nosso acervo espalhadas pelo CCSP». Centro Cultural São Paulo. 11 de maio de 2018 
  10. a b c Borges, Maria Elizia (1997). «Arte funerária: apropriação da Pietà pelos marmoristas e escultores contemporâneos». Estudos Ibero-Americanos 
  11. «Onde fica a obra 'O Sepultamento', de Victor Brecheret». VEJA SÃO PAULO 
  12. a b c d Brecheret, Maria Aparecida Silva (Org.) (2007). A arte indígena de Victor Brecheret. [S.l.]: Caixa Cultural 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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