Guerra Civil de Serra Leoa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Guerra Civil de Serra Leoa
Sierra Leone-Mappa.gif
Período 23 de março de 1991 - 18 de janeiro de 2002
Local Serra Leoa
Resultado Vitória do Governo
Participantes do conflito
Flag of Sierra Leone.svg Serra Leoa
Flag of Sierra Leone.svg Kamajoh (1992-02)
Flag of the United Nations.svg UNAMSIL (1999-02)
Flag of the United Kingdom.svg Reino Unido (2000-02)
Nigéria ECOWAS (1998-00)[1]
(principalmente nigerianos)
Executive Outcomes (1995-96) (mercenários)
Sl RUF.png FRU
Libéria NPFL (Libéria)
Flag of Sierra Leone.svg AFRC (1997-02)
WSB (1998-00)
Líderes
Flag of Sierra Leone.svg Ahmad Tejan Kabbah
Flag of Sierra Leone.svg Valentine Strasser
Flag of Sierra Leone.svg Julius Maada Bio
Flag of Sierra Leone.svg Joseph Saidu Momoh
Flag of Sierra Leone.svg Solomon Musa
Flag of Sierra Leone.svg S. Norman (Kamajoh)
Flag of the United Nations.svg Daudi Mwakawago
Flag of the United Kingdom.svg Gral. David Richards
Flag of the United Kingdom.svg PM Tony Blair
Sl RUF.png Foday Sankoh
Sl RUF.png Sam Bockarie
Libéria Charles Taylor
Flag of Sierra Leone.svg Johnny Paul Koroma
Foday Kallay (WSB)
Forças
Flag of Sierra Leone.svg Forças Armadas:
6.150 (1992)[2]
5.000-6.000 (1995)[3]
12.000-18.000 (1996)[3]
14.000 (1997)[3] [4]
15.000 (1998)[3]
3.000-8.000 (1999)[3]
10.000-15.000 (2000)[3]
13.000-14.000 (2002)[5]
Flag of the United Nations.svg UNAMSIL:
20.000 (2000)[6]
17.000 (2002)[5]
5.000 (2004)[7]
Flag of Sierra Leone.svg Kamajoh:
10.000-37.000 (1997)[3]
20.000 (2002)[8]
Nigéria ECOWAS:
10.000-15.000 (1998)[3]
12.000 (1999)[3]
Flag of the United Kingdom.svg 800 (2000)[3]
EO:
150-200 (1995)[9]
3.500 (1996)[10]
Rebeldes (FRU e AFRC):
15.000 (1998)[3]
45.000 (1999)[3]
Sl RUF.png FRU:
2.000[3] -15.000 (1995)
2.000-4.000 (1996)[3]
3.000-5.000 (1997)[3]
6.000 (1999)[11]
15.000 (2000)[3]
10.000 (2002)[12]
Serra Leoa AFRC:
8.000-14.000 (1997)[3]
2.000-4.000 (1998)[3]
WSB:
400 (2000)[13]
Baixas
Mais de 50 000 cidadãos de Serra Leoa mortos[14]
2,5 milhões de pessoas desalojadas[14]

A Guerra Civil de Serra Leoa começou em 1991, pela Frente Revolucionária Unida (FRU), sob comando de Foday Sankoh, que lutava para derrubar o governo central do país. Dezenas de milhares de pessoas morreram e mais de 2 milhões de pessoas (bem mais de um terço da população) foram deslocadas por causa dos 11 anos de conflito. Os países vizinhos tornaram-se abrigo para os refugiados que tentavam escapar da guerra civil. O conflito tornou-se conhecido por muitos dos massacres, amputações de membros, uso massivo de crianças-soldado e tráfico de diamantes de sangue como um método de financiamento das forças rebeldes. A guerra foi declarada oficialmente como encerrada em 18 de janeiro de 2002.[15]

Guerra[editar | editar código-fonte]

Desde a independência do país em 1961, o cenário político da nação foi marcado por corrupção, má administração governamental e violência nos processos eleitorais, que acabavam por enfraquecer a sociedade civil, com o colapso de várias instituições, como o sistema educacional e de saúde, que gerou, no começo dos anos noventa, uma juventude analfabeta tremendamente frustrada, que encontraram voz em grupos extremistas como a Frente Revolucionária Unida (Revolutionary United Front ou RUF).[16] [17] A RUF foi fundada por Foday Sankoh, um ex-militar serra-leonês, que prometia, acima de tudo, igualdade na distribução das rendas provenientes da venda de diamantes. Os diamantes de Serra Leoa eram considerados alguns dos melhores do mundo e o país extraía centenas de pedras por dia. Contudo, os grandes lucros raramente eram repassados para a população, que sofria com a pobreza. As promessas de Sankoh de redistribuir os lucros de diamentes para o povo rapidamente desapareceram quando ele passou a usar esse dinheiro para financiar sua milícia.[18] A RUF nunca deixou claro qual era sua visão politica, mas alegava lutar pela liberdade do povo de Serra Leoa. O grupo recebeu vasto apoio de Charles Taylor, então presidente da Libéria, que também usava diamantes para financiar seu próprio conflito civil em seu país.[18]

Durante os primeiros anos da guerra civil, a RUF assumiu o controle do interior do país, especialmente das zonas rurais nas partes leste e sul da nação, que tinham zonas fluviáis ricas em diamantes. O governo, que controlava os centros urbanos, falhou em derrotar a RUF que, por controlar as jazidas de diamantes, tinha mais renda. A crise financeira se instalou na administração do Estado e sua ineficácia em combater os rebeldes fez com que o governo entrasse em colapso, o que precipitou em um golpe de estado que acabou acontecendo em abril de 1992, organizado pelo Conselho de Governo Provisório Nacional.[19] Ao fim de 1993, o exército do país havia conseguido empurrar os rebeldes da RUF até a fronteira com a Libéria, mas a milícia se reagrupou, contra-atacou e voltou a ganhar terreno. A Frente Revolucionária Unida, liderada por Foday Sankoh, passou a ser acusada de cometer diversos crimes de guerra. Eles foram acusados de brutalizar a população nos territórios que ocupava, uso indiscriminado de crianças soldado, escravização de trabalhadores nas jazidas de diamentes, estupros, saques, etc. Em março de 1995, para combater Sankoh e seu exército rebelde, o governo contratou a empresa mercenária sul-africana Executive Outcomes (EO). Valendo-se de sua superioridade em armamentos, a EO expulsou a RUF das minas do leste do país. Com uma tênue paz instaurada, eleições para estabelecer um novo governo civil no país aconteceram em março de 1996. Por pressão da ONU, o presidente eleito, Ahmad Tejan Kabbah, foi obrigado a encerrar o contrato com a Executive Outcomes e a RUF se aproveitou da situação para reiniciar as hostilidades.[20] O grupo rapidamente retomou as minas diamantíferas, com o objetivo de não só financiar sua guerra, mas também para privar o governo de sua principal fonte renda.[21] O exército nacional, que recebia poucos recursos federais, passou a alimentar uma grande animosidade contra a administração do país. Essa insatisfação entre os militares resultou em um novo golpe de estado, em maio de 1997, que derrubou a administração de Kabbah. A nova junta militar assumiu as rédeas do governo e convocou os rebeldes da RUF para participar da transição política.[22] A Frente Revolucionária Unida então invadiu a capital do país, Freetown, enfrentando pouquíssima resistência armada. No processo, os rebeldes cometeram diversas atrocidades, como assassinatos, estupros, torturas, arrastões, saques e mutilações de civis. Eles justificaram essas ações dizendo que a população civil foi a responsável pela eleição de Kabbah e portanto deveriam pagar pela situação do país.[23] A comunidade internacional decidiu reagir e a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental reuniu uma força de paz, a ECOMOG, para intervir em Serra Leoa e reconquistar Freetown, que estava em mãos rebeldes. Eles conseguiram retomar a capital do país, expulsar os rebeldes e reestabelecer o governo de Kabbah. Contudo, no interior do país, a RUF prosseguia controlando os locais de extração de diamentes.[24] Com essa vantagem financeira, os rebeldes se rearmaram e novamente atacaram Freetown.[24] As forças da ECOMOG resistiram ao avanço da RUF e impediram que a capital de Serra Leoa fosse conquistada. Durante as batalhas, diversas atrocidades foram cometidas por ambos os lados, enquanto o país caia na anarquia.[24]

Em janeiro de 1999, líderes mundiais tentaram estabelecer a paz no país por meio de conversações entre a RUF e o governo.[25] O resultado foi o chamado Acordo de Paz de Lomé, assinado em 27 de março de 1999. O acordou deu ao líder rebelde e chefe da RUF, Foday Sankoh, a vice-presidência de Serra Leoa e também garantiram a ele o controle legal das jazidas de diamentes do país. Uma força de paz da ONU foi enviada para certificar que o acordo estava sendo cumprido e também para desarmar as milícias. Contudo, a RUF se recusou a entregar as armas e prosseguia com uma campanha de violência e brutalização das populações civis em zonas diamantíferas. Em maio de 2000, os rebeldes avançaram sobre Freetown novamente.[26] Então, o governo britânico, liderado pelo primeiro-ministro Tony Blair, decidiu intervir na guerra civil serra-leonesesa e enviou uma força de combate para salvar a missão da ONU e reestabelecer a ordem no país. Com o exército britânico na vanguarda, o governo derrotou a RUF, destruiu a infraestrutura do grupo e capturou seus líderes. Em 22 de janeiro de 2002, o presidente Kabbah declarou oficialmente o fim da guerra civil.[15] Estimasse que entre 50 e 80 mil pessoas foram mortas no conflito.[27]

Representações[editar | editar código-fonte]

A guerra civil serviu de fundo para o filme de 2006 "Diamante de Sangue", estrelado por Leonardo DiCaprio, Djimon Hounsou e Jennifer Connelly.[28]

No final do filme "O Senhor das Armas", Yuri Orlov (interpretado por Nicolas Cage) vende armas às milícias durante a guerra civil da Serra Leoa. As milícias são aliadas com André Baptiste (Eamonn Walker), que é inspirado em Charles Taylor.[29]

A utilização de crianças pelos rebeldes (militares da FRU) e pelas milícias do governo foram marcas desta guerra e continuam sendo até os dias de hoje. Isto é descrito no livro de Ishmael Beah de 2007, A Long Way Gone: Memoirs of a Boy Soldier.[30]

Referências

  1. Economic Community of West African States Monitoring Group (inglés)
  2. Lansana Gberie, Desarrollo africano, 1997, pp. 155; Sierra Leone: Legacies of Authoritarianism and Political Violence in Governing Insecurity, Cawthra & Luckham, ed. Zed Books, 2003, pp. 238.
  3. a b c d e f g h i j k l m n o p q r Uppsala conflict data expansion. Non-state actor information. Codebook pp. 316-318
  4. Ero, Comfort (2003). Sierra Leone: Legacies of Authoritarianism and Political Violence, Chapter 10 (in) Cawthra & Luckham, Governing Insecurity, ed. Zed Books. pp. 238–239.
  5. a b Sierra Leone Overview - tax, import, average, area, system, power, Languages, Armed forces, Animal husbandry
  6. Child soldier tells of Sierra Leone's hope | Metro.co.uk 6 de octubre de 2008.
  7. Global security - Sierra Leone
  8. IRIN Africa | SIERRA LEONE: Election could turn on Kamajor war heroes/criminals 7 de septiembre de 2007.
  9. Global security - Executive Outcomes
  10. Gberie, 2005, p. 93
  11. WorldNetDaily - White mercenaries in black Africa por Anthony C. LoBaido, 16 de octubre de 2004.
  12. En Qué Mundo Vives. Diamantes de sangre.
  13. Westside boys commander, 6 others freed
  14. a b Gberie, p. 6
  15. a b "The Causes of the Sierra Leone Civil War". Página acessada em 12 de maio de 2013.
  16. Abdullah, p. 90
  17. Abdullah, pp. 240–41
  18. a b David M. Crane Indictment proceedings of the special court for Sierra Leone Case No. SCSL - 2004-15-PT., Special Court for Sierra Leone (5 de fevereiro de 2004)
  19. Gberie, p. 103
  20. Keen, p. 111
  21. Abdullah, p. 118
  22. Abdullah, p.180
  23. Gberie, p. 102
  24. a b c "Sierra Leone - civil war". GlobalSecurity.org. Página acessada em 12 de maio de 2013.
  25. Full text of Lomé Peace Accord
  26. Abdullah, pp. 214–17
  27. Hirsch, John L. Sierra Leone: Diamonds and the Struggle for Democracy. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 2001
  28. More at IMDbPro » Blood Diamond (2006). IMDb. Página visitada em 22 de dezembro de 2010.
  29. Burr, Ty. (16 de setembro de 2005). "Provocative 'War' Skillfully Takes Aim". The Boston Globe: D1.
  30. Kamara, 2008, pp. 7–8.