Marubos

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Os marubos são um grupo indígena da família pano que habita o Sudoeste do estado brasileiro do Amazonas, mais precisamente a Área Indígena Vale do Javari. Junto com os corubos, os matises e os matsés, são denominados de modo genérico de maiorunas.

Segundo Júlio César Mellati[1] o povo marubo parece resultar da reorganização de sociedades indígenas dizimadas e fragmentadas por caucheiros e seringueiros no auge do período da borracha. Contudo como assinala o autor, que classifica esse grupo indígena na área cultural Juruá–Ucayali, tal movimento étnico de dispersão e reagrupamento pode remontar a tempos mais antigos, como sugerem nomes de seções marúbo em outros povos panos vizinhos. Melatti observa ainda que a referida área cultural delimitada por Eduardo Galvão [2] pode ser melhor compreendida como Javari-Purus abrangendo assim uma maior proporção dos grupos Pano.

No Relatório sobre os índios Marubo apresentado por Melatti à FUNAI por ocasião da construção da rodovia Perimetral (BR-307 [3] ) na região, segundo o qual Marubo não é o nome que corresponde a uma autodenominação e sim um nome que os civilizados lhes atribuem.

Flores do Banisteriopsis caapi um dos componentes da ayahuasca.

Parece não haver um termo específico para essa autodenominação pois o, já cogitado, termo yora não denomina apenas a seu grupo, mas a todos os indígenas contrapondo-se ao termo nawa, com que chamam os civilizados. [4]

Características culturais[editar | editar código-fonte]

Os marubos não diferem essencialmente dos demais povos pano dessa região sendo que, como assinala Dan James Pantone [5] foram os primeiros povos indígenas do vale do Javari a fazer contato com estranhos na virada do século XX sendo por conseguinte, em detrimento de outras tribos do Vale, os primeiros a ter acesso a armas de fogo adquirindo poder e capacidade de dominar todas as outras tribos do Javari.

Galvão (o.c.) descreve essa área cultural típica de florestas com predominância de terras baixas, enfrentando atividade extrativistas desde 1860, como tendo a subsistência na base de roças, pesca, canoas de casca e ubás, remo lanceolado, caça com uso de veneno (provavelmente curare) e zarabatanas. Entre os panos crença num deus supremo. Xamanismo com utilização de paricá, tabaco, chicha. Melatti descreve ainda a utilização da ayahuasca e vacina do sapo ou a "injeção de sapo" (secreção da perereca Philomedusa bicolor) usada para dar ânimo, tirar a preguiça, tirar o panema.

Segundo Júlio César Melatti[6] , entre os marubos, há dois tipos de agentes da magia. Um deles, que entra em transe e recebe em seu corpo espíritos de outras camadas do universo enquanto sua própria alma visita essas camadas, exerce mais do que atividades de cura, uma vez o simples contato com esses seres já é razão suficiente para procurar comunicação com eles. O outro tipo é constituído por aqueles que entoam cânticos de cura sobre os doentes. Ambos os tipos fazem uso da ayahuasca e do rapé de tabaco.

Ainda segundo Melatti, para os marubos o universo é constituído de várias camadas terrestres, das quais a superior é aquela onde vivemos, e várias camadas celestes. Para os seres humanos talvez a camada celeste mais importante seja a segunda, contando-se de baixo par cima, pois é para lá que devem se dirigir suas almas após a morte, através do percurso de um caminho cheio de perigos, a cujos obstáculos aqueles que não seguiram as regras sociais sucumbem. Observe-se a concepção do não cumprimento das regras sociais associado à morte e adoecimento. As doenças na concepção marubo, conforme os cânticos de cura, se formam de partes de outros seres (mítico membros e órgãos e pedaços de animais abatidos por um herói mítico).

Mapa da Bacia Amazônica mostrando o Rio Javari e outros afluentes do Rio Solimões.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Melatti, Julio Cezar. Marubo - Instituto Sócio Ambiental. Enciclopédia Povos Indígenas no Brasil, PIB Socio Ambiental 1998 (Jan. 2011)
  2. Galvão, Eduardo. Índios do Brasil, áreas culturais e de subsistência. Ba Centro Editorial e Didático da UFBA, 1973
  3. Leonel, Mauro. Estradas, índios e ambiente na Amazônia, do Brasil ao oceano Pacífico. São Paulo em Perspectiva, 6 (1-2):134-167, jan./jun 1992 Disponível em pdf Jan. 2011
  4. Melatti, Delvair Montagner; Melatti, Julio Cezar. Relatório sobre os índios Marubo - Série Antropologia nº 13. DF, UnB Universidade Nacional de Brasília / FUNAI - Fundação Nacional do Índio, 1975 Disponível em pdf Jan. 2011
  5. Pantone, Dan James. The Marubo Indians, rebirth of a nation. Amazon Indians Native Tribe Amazon-Indians.org Copyright 2004-2010
  6. Melatti Julio Cezar Índios da América do Sul — Áreas Etnográficas - Juruá–Ucayali Cap. 17, 2006 Jan. 2011

Ligações externas / Leituras[editar | editar código-fonte]

  • CIVAJA – Conselho Indígena do Vale do Javari
  • Native American Indian Cultures Marubo Indians
  • MNTB Missão Novas Tribos do Brasil Tribo Marubo Go Jan. 2011
  • Montagner, D.M. O mundo dos espíritos: estudo etnográfico dos ritos de cura marubo. Tese de doutorado em Antropologia Social. Brasilia, UnB, 1985
  • Costa, Raquel Guimarães Romankevicius Interações entre restrições em Marubo (Pano) Revista da ABRALIN, vol. 1, nº 1, p. 11-34, julho 2002 Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em pdf Jan. 2011