Ticunas

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Ticuna
Índios tikunas em foto de 1865
População total

51.359

Regiões com população significativa
Brasil Amazonas 36.377 FUNASA, 2009[1]
 Colômbia 8.000 J. P. Goulard, 2011[1]
 Peru 6.982 INEI, 2007[1]
Línguas
ticuna
Religiões
Xamanismo

Os Ticuna (Tikuna, Tukuna ou Magüta) são um povo ameríndio que habita, atualmente, a fronteira entre o Peru e o Brasil e o Trapézio amazônico, na Colômbia. Formam uma sociedade de mais de 50 000 indivíduos, divididos entre Brasil (36 mil), Colômbia (oito mil) e Peru (sete mil),[2] sendo o mais numeroso povo indígena da Amazônia brasileira.[3]

História[editar | editar código-fonte]

De acordo com a história oral relatada pelos próprios ticunas, eles eram índios que habitavam a terra firme e as cabeceiras dos igarapés. Viviam em constante guerra com outras tribos e aldeias ticunas, sempre liderados por um tó-i (chefe militar).[4] Durante esse período, seu principal inimigo era o povo omágua (awane na língua ticuna) que dominava boa parte da várzea e possuía uma supremacia militar em relação aos seus vizinhos. Os omáguas dificultavam seu trânsito nas margens dos grandes rios, limitando-os ao centro das matas e impedindo-os de buscar condições mais favoráveis de sobrevivência na região.[5]

Sua história é marcada por contatos violentos com seringueiros, madereiros e pescadores na região do rio Solimões.[3] Os primeiros contatos com os não índios datam do final do século XVII, quando jesuítas espanhóis vindos do Peru, liderados pelo padre Samuel Fritz, começaram a fundar diversos aldeamentos ao longo do rio Solimões, que correspondem aos atuais municípios de São Paulo de Olivença, Amaturá, Fonte Boa e Tefé. Tais aldeamentos eram voltados, principalmente, para os omáguas, que eram muito mais numerosos na época, porém outros povos acabaram sendo incorporados, como os ticunas, miranhas, xumanas, passés e juris (sendo esses três últimos extintos em meados do século XIX). Nesse momento dos aldeamentos, os ticunas puderam ocupar locais da várzea do rio Solimões antes ocupados pelos omáguas.[6] De acordo com registro do padre José de Morais, em 1860, foi somente com a exploração da borracha que os Tikuna, desalojados dos centros das matas pelos caucheiros, passaram a aparecer mais frequentemente nas beiras dos rios.[5]

Na década de 1890, comerciantes vindos do interior do Ceará se estabeleceram na região e criaram diversos seringais, utilizando a mão de obra ticuna. A expropriação fundiária e o controle do trabalho indígena foram realizados por meios violentos, como a caçada aos índios, distribuição das famílias em vários seringais e destruição das malocas.[7] Até meados de 1940, os ticunas ficaram sob o poder dos "patrões" seringalistas, os quais controlavam todas as instituições político-administrativas e religiosas. Tanto os missionários capuchinhos italianos como os delegados do Serviço de Proteção ao Índio eram controlados pelos "patrões" e não tinham nenhum poder para ajudar os ticunas contra a escravização.[8]

Em 1940, o Serviço de Proteção ao Índio começou a agilizar uma ação mais intensiva na região do alto rio Solimões, local onde os ticunas estavam habitando, não só para poder ajudar os grupos indígenas que ali habitavam, mas também para resolver problemas na fronteira com os países vizinhos (como a "Questão de Letícia"). Em 1942, foi construído um posto indígena em Tabatinga coordenado pelo inspetor Carlos Pinto Correia, o que diminuiu parte do poder dos seringalistas sobre os indígenas.

A partir da demarcação das terras ticunas, em 1992, vários grupos que viviam em outras terras indígenas se deslocaram para a terra ticuna, motivados pela aproximação com sua história, com os valores de seu povo, com a floresta e a Natureza. Os ticunas criaram aldeias em regiões de igarapés, e afastaram-se dos não-índios e seus bens mercantis. A volta aos igarapés, mais estreitos do que os rios, permitiu ao povo Tikuna fiscalizar melhor a pesca predatória, comum no Solimões e controlada pelos proprietários de grandes barcos pesqueiros.[5]

Normalmente, as aldeias ribeirinhas se dividem em bairros clânicos sob comando moral de um ancião, um modelo adaptado do ambiente endogâmico tradicional do "pai da casa". Os Ticuna realizam rituais xamânicos e praticam a residência uxorilocal, pela qual os novos casais habitam junto à família da esposa.[2]

Terra do alto[editar | editar código-fonte]

Políticas na terra do alto nos anos 1970 e 1980 estimularam a reunião de comunidades isoladas para obterem benefícios em saúde, educação e alimentação. A maior parte se reuniu em aldeias às margens dos grandes rios. Os Ticuna da terra do alto se distribuem em dois conjuntos territoriais. O primeiro fica às margens esquerda e direita do rio Amazonas, no Peru e na Colômbia. O segundo se situa nas bacias dos rios Cotuhué (Colômbia) e Putumayio (Colômbia e Peru). As vilas e comunidades Ticuna da terra do alto são garantidas por títulos coletivos e se agrupam em resguardos (Colômbia) e terras concedidas (Peru). Cada aldeia é dotada de um posto de saúde sob responsabilidade dos indígenas. Desde os anos 1960, no Peru, e 1980, na Colômbia, a educação é bilíngue e ministrada por professores ticuna formados.[2]

Movimentos messiânicos

Algumas aldeias foram constituídas sob promessas religiosas. A aldeia peruana de Cushillo Conca surgiu por influência de um missionário evangélico estadunidense, e as colombianas Macedonia (por um visionário indígena) e de Arara (por um padre católico) também seguiram o mesmo caminho. Práticas rituais, cultos religiosos e esportes coletivos foram condenados pelos líderes messiânicos e substituídos por hábitos "brancos". No século XXI, observa-se uma tendência de reintrodução dos costumes tradicionais por demanda dos Ticuna e dos brancos em busca da autenticidade étnica daquele povo.[2]

Booms econômicos

As políticas sociais dos diferentes Estados, como a oferta de assistência técnica e auxílio material na Colômbia e a seguridade social brasileira aos maiores de 60 anos estimulam a mobilidade dos Ticuna, que conheceram numerosos booms econômicos: o corte de madeiras nobres, a coleta de peles de animais silvestres, o turismo e, desde os anos 1980, a cocaína. Inicialmente envolvidos no transporte ou nos laboratórios clandestinos da terra do alto, na década de 2000 os Ticuna do Peru passaram a cultivar a folha de coca. Tais atividades ilegais causaram um clima de enfrentamento com as autoridades nacionais e a prisão de alguns indivíduos.[2]

Cultura[editar | editar código-fonte]

Colar ticuna

Os Ticuna acreditam que foram pescados por Yo'i (um dos principais heróis culturais) das águas vermelhas do igarapé Eware. Por isso, se denominam Magüta, ou "povo pescado com vara" (de Magü, "pescar com vara" e o sufixo indicativo de coletivo -ta). Depois de pescados, o povo Magüta passou a residir na montanha Taiwegine, nos arredores da casa de Yo'i, lugar sagrado para os atuais Ticuna.[9]

Língua[editar | editar código-fonte]

Os Ticuna têm sua própria língua, de mesmo nome, classificada como língua tonal e geneticamente isolada, de fonologia e sintaxe complexas. Há mais de 30 mil falantes no Brasil, Colômbia e Peru. No lado brasileiro, o Ticuna é falado em mais de cem aldeias e nove municípios, inclusive em aldeias próximas às cidades[10] ou em que há falantes de outras línguas. Os Ticuna em trânsito nas cidades dos municípios onde se situam suas aldeias usam a língua Ticuna entre si e com os que ali se fixaram. Os filhos dos que se fixaram nas cidades usam com frequência a língua Ticuna com seus pais. Em casos raros, a língua cede lugar ao português. Já os que se deslocaram para Manaus sofrem uma imposição muito mais forte do português.[11]

Localização[editar | editar código-fonte]

Os Ticuna são encontrados em mais de vinte terras indígenas. Das 59 aldeias ticunas conhecidas em 2002, 42 delas se situam no trecho entre Tabatinga e São Paulo de Olivença, na região próxima à nascente do igarapé Eware, seu local de origem.[12]

Referências

  1. a b c Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 2011, p. 14
  2. a b c d e Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 2011, p. 356-357
  3. a b Instituto Socioambiental. Ticuna (em português). Povos Indígenas do Brasil. Página visitada em 29 de março de 2014.
  4. Oliveira 1988, p. 119-121
  5. a b c Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 2011, p. 353-355
  6. Oliveira 2002
  7. Oliveira 2002
  8. Nimuendajú 1982
  9. Instituto Socioambiental. Autodenominação (em português). Povos Indígenas do Brasil. Página visitada em 29 de março de 2014.
  10. Soares, Marília Facó. Língua Ticuna (ou Tikuna) (em português). Instituto Socioambiental. Página visitada em 29 de março de 2014.
  11. Instituto Socioambiental. Língua (em português). Povos Indígenas do Brasil. Página visitada em 29 de março de 2014.
  12. Instituto Socioambiental. Localização (em português). Povos Indígenas do Brasil. Página visitada em 29 de março de 2014.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Acuña, Cristóbal de. Novo Descobrimento do Rio Amazonas (em português). Montevidéu: Oltaver, 1994.
  • Nimuendajú, Curt. Os índios tukuna. Textos Indigenistas (em português). São Paulo: Edições Loyola, 1982. (Dados fornecidos à inspetoria do SPI no Amazonas e Acre)
  • Oliveira, João Pacheco de. O nosso governo: os ticunas e o regime tutelar (em português). Rio de Janeiro: Marco Zero, CNPq, 1988. 514 p.
  • Oliveira, João Pacheco de. Ação indigenista e utopia milenarista. Pacificando o branco: Cosmologias do contato no norte-amazônico (em português). São Paulo: UNESP, 2002.
  • In: Beto Ricardo; Fany Ricardo. Povos Indígenas no Brasil: 2006-2010 (em português). São Paulo: Instituto Socioambiental, 2011. 763 p. ISBN 9788585994853 Página visitada em 29 de março de 2014.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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