Peças de Lewis

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Peças de xadrez de Lewis
Exposição no Museu Britânico
Material Marfim de morsa e dente de baleia
Criado (a) c. 1150-1200
Descoberto (a) Ilha de Lewis, Escócia
Exposto (a) atualmente Museu Britânico,  Inglaterra (67);
Museu Nacional da Escócia, Escócia (11)

As peças de xadrez de Lewis são um conjunto de setenta e oito peças de xadrez medievais que foi encontrado em 1831 na ilha de Lewis, na Escócia, em circunstâncias misteriosas. Acredita-se que tenham sido feitas no século XII. As peças, em sua grande maioria feitas de marfim de morsa, são esculpidas em detalhes e trazem expressões de espanto nos rostos.

Devido a seu excelente grau de preservação, a quantidade encontrada, a habilidade que sua manufatura demonstra e relevância histórica, as peças de xadrez de Lewis fazem parte dos artefatos mais extraordinários da Idade Média.[1] [2]

Sessenta e sete das peças encontram-se no Museu Britânico em Londres, e as onze restantes estão no Museu Real da Escócia em Edimburgo.

Descobrimento e aquisição[editar | editar código-fonte]

Existem diferentes versões sobre como as peças foram achadas,[3] mas ao que parece, estavam soterradas debaixo dum banco de areia de mais de quatro metros de altura na baía de Uig, na costa [[oeste da ilha de Lewis. Outros relatos indicam que as peças estavam dentro duma câmara de pedra insossa, possivelmente uma oficina. Elas foram exibidas ao público pela primeira vez num encontro da Sociedade dos Antiquários da Escócia, em 11 de abril de 1831.[4] T. A. Forrest as pôs à venda e a Sociedade dos Antiquários logo tentou adquirí-las, porém não conseguiu angariar os fundos necessários para a sua compra. Forrest então vendeu 67 das peças ao Museu Britânico, além de mais 14 peças de damas e uma fivela que completam o achado. As 10 peças de xadrez restantes foram vendidas secretamente para um colecionador escocês. Este colecionador – não se sabe como – conseguiu mais um bispo diretamente da ilha. Em 1888, a Sociedade dos Antiquários finalmente conseguiu comprar as 11 peças que estavam em posse particular, e colocou-as no Museu Nacional da Escócia.[5]

Teoria acerca da origem das peças[editar | editar código-fonte]

É consenso entre os especialistas que as peças de xadrez de Lewis tem origem escandinava. A hipótese atualmente mais aceita é a de que elas provavelmente foram feitas em Trondheim, na Noruega. O fato de as peças terem ido parar na distante ilha de Lewis, nas Hébridas Exteriores, se explica pela história de colonização da ilha. Lewis esteve sob domínio norueguês até 1266. De fato, o bispo local, em Man, era obrigado a pagar dízimo ao arcebispo de Trondheim.[1] Além disso, a cidade, que era a capital do Reino da Noruega na época e portanto muito influente, recebia tributo da Groenlândia na forma de matérias-primas, incluindo marfim de morsa. Porém, o argumento mais forte a favor da cidade como o local de origem das peças é a existência de um desenho de uma rainha de xadrez bastante similar às de Lewis que foi encontrado lá.[6] Ela foi achada durante uma escavação nas ruínas da igreja da paróquia de Trondheim no final do século XIX. Além do material com que foi feita e de suas proporções serem condizentes com as peças de Lewis, a rainha de Trondheim leva uma das mãos ao rosto, exatamente o traço mais peculiar das rainhas de Lewis. Estranhamente, a peça foi perdida dentro do museu local e hoje só resta seu desenho.[5]

Tradição local[editar | editar código-fonte]

Nas Hébridas, surgiram diferentes histórias sobre como objetos tão incomuns teriam ido parar na remota praia da baía de Uig. Uma delas fala de um navio desconhecido estacionado perto da costa de Lewis por causa de uma forte tempestade em fins do século XVII. Enquanto a tripulação se distraía, um garoto prisioneiro teria fugido do navio e nadado até a costa, levando consigo as valiosas peças de xadrez. Porém, ao chegar à praia, foi acossado por um pastor ávido por saber o que ele escondia no saco que trazia. Na luta que se seguiu, o garoto acabou morto e foi enterrado pelo homem. Ao deparar-se com o conteúdo do saco, o pastor temeu que as peças pudessem servir de evidência contra si, e então decidiu enterrá-las nas areias de Uig, bem longe dali. Depois disso, o pastor nunca mais prosperou. Ele veio a ser condenado por estupro em outra cidade anos depois. Antes de ser enforcado, confessando seus pecados, contou também o assassinato que cometera naquela distante noite e falou do tesouro que tinha escondido. No entanto, cento e cinquenta anos se passaram sem que as peças fossem encontradas, até que em 1830, um fazendeiro local caminhando com sua vaca na baía de Uig notou uma pequena estatueta enroscada num dos chifres do animal ao passarem por um banco de areia. Cavando o local, ele encontrou o tesouro há tanto tempo oculto. O fazendeiro, que era um presbiteriano convicto, não se sentia bem na presença de tantos ídolos pequeninos, principalmente porque alguns representavam bispos católicos, e entregou as peças para que um capitão as vendesse para ele. O comprador foi um antiquário de Edimburgo, o sr. Forrest, que venderia as peças ao Museu Britânico.[5] [4]

Descrição das peças[editar | editar código-fonte]

A grande maioria das peças de xadrez de Lewis foram talhadas a partir de marfim de morsa, e umas poucas de dentes baleia. Possuem uma altura aproximada de 10 cm e algumas foram encontradas tingidas de vermelho grená enquanto outras estavam amareladas. Elas se dividem em 8 reis, 8 rainhas, 16 bispos, 15 cavaleiros, 16 guerreiros (no lugar das torres) e 19 peões, perfazendo um total de 78 peças que constituiriam quatro jogos, portanto incompletos.[4]

Rei e Dama[editar | editar código-fonte]

Drawing of Lewis chessmen King, c.1845.jpg
Drawing of Lewis chessmen Queen, c.1845.jpg

Os reis são retratados como homens de barba, bigode e cabelos longos sobre os ombros. Usam coroas simples porém de formatos diferentes e estão sentados em cadeiras ornamentadas com vários temas diferentes. Estão vestidos com um roupão ou manto, o que está de acordo com a literatura de países europeus na idade média. Todos seguram uma espada larga e curta sobre os joelhos com bainhas simples. As peças não são idênticas entre si apresentando algumas características particulares como, por exemplo, a ausência da barba e bigode em duas peças. Uma peça encontrada em 1772 na Escócia foi identificada e atribuída como sendo parte deste mesmo conjunto.[7]

As damas estão sentadas em cadeiras ornamentadas similares às dos reis. Usam coroas simples e um véu que cai sobre os ombros e é descrito em outras literaturas do período. Vestem um manto com um vestido com mangas curtas por baixo e usam adornos parecidos com faixas nos pulsos. A mão esquerda apoia o braço direito que é usado de apoio e para a cabeça que tem uma feição comtemplativa. As peças apresentam diferenças entre si no ornamentos: uma destas tem na mão esquerda um copo no formato de chifre e outra, um lenço. Duas das peças provavelmente são de um mesmo conjunto que os reis encontrados devido à similaridade das coroas.[8]

Bispo e Cavalo[editar | editar código-fonte]

Drawing of Lewis chessmen Bishop, c.1845.jpg
Drawing of Lewis chessmen Knight, c.1845.jpg

Os bispos utilizam dois tipos de vestes sacerdotais: a capa de asperges ou a casula que é utilizada nas peças consideradas mais antigas. Algumas das peças possuem ornamentos gravados e usam estolas ou túnicas. Cinco das peças estão em sentadas em uma cadeira ornamentadas e as demais em pé. As mitras são baixas e planas com um detalhe característico na parte de trás denominado infulae. Todas as peças seguram um báculo com uma ou as duas mãos. As que seguram o báculo com somente uma das mãos, tem na outra um livro ou a mão erguida como em sinal de benção.[9]

Os cavalos são cavaleiros com barba e bigodes montados que vestem um sobretudo longos que vão até os pulsos e aos pés, que calçam botas sem esporas. Os capacetes são em sua maioria cônicos com um protetor para o nariz e orelhas. Em uma das mãos seguram um escudo longo com algumas inscrições heráldicas. Por baixo do escudo, uma espada que está presa à cintura e na mão direita seguram uma lança. Os cavalos possuem selas ornamentadas com enfeites. As peças apresentam diferenças entre si nos escudos, barbas e capacetes utilizados. [10]

Torre e Peão[editar | editar código-fonte]

Drawing of Lewis chessmen Rook, c.1845.jpg
Drawing of Lewis chessmen Pawn, c.1845.jpg

As torres são representadas por guerreiros denominados warders ou Hrokr. São figuras em pé segurando escudo e espada, que vestem longos cotas de malha até o pé e usam capacetes em forma cônica variada tendo alguns o protetor nasal. Algumas cotas também cobrem a cabeça na forma de um capuz. Os escudos apresentam gravuras diferentes assim como o dos cavalos além do tamanho que também varia. Algumas das peças apresentam o escudo à frente e em outros ao lado esquerdo. As espadas, quanto não à frente do escudo, estão ao lado direito.[11]

Galeria de imagens[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b Shenk (2006), p.53-55
  2. The Lewis Chessmen Museu Britânico. Visitado em 6 de agosto de 2013.
  3. The Lewis Chessmen Museu Britânico. Visitado em 4 de agosto de 2013.
  4. a b c Murray (1913), pp.758-761
  5. a b c Allan Burnett. Stale Mate. The Sunday Herald. Glasgow: 3 de fevereiro de 2008
  6. Morten Lilleøren. Norwegian-Icelandic war over the Lewis Chessmen? ChessBase News. Visitado em 5 de março de 2011.
  7. Madden, Frederic (1832) in Archaeologia, or, Miscellaneous tracts relating to antiquity, pp.213-216
  8. Madden, Frederic (1832) in Archaeologia, or, Miscellaneous tracts relating to antiquity, pp.216-219
  9. Madden, Frederic (1832) in Archaeologia, or, Miscellaneous tracts relating to antiquity, pp.222-228
  10. Madden, Frederic (1832) in Archaeologia, or, Miscellaneous tracts relating to antiquity, pp.229-235
  11. Madden, Frederic (1832) in Archaeologia, or, Miscellaneous tracts relating to antiquity, pp.235-242

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • FILGUTH, Rubens. Xadrez de A a Z: dicionário ilustrado. Porto Alegre : Artmed, 2005. 240 pp.
  • MURRAY, H.J.R.. A History of Chess (em <código de língua não-reconhecido>). 1ª. ed. Oxford: Clarendon Press, 1913. ISBN 0936317019.
  • ROBINSON, J. The Lewis Chessmen. Londres: The British Museum Press, 2004.
  • SHENK, David. The Immortal Game: a History of Chess or, How 32 Carved Pieces on a Board Illuminated our Understanding of War, Science, and the Human Brain. Nova Iorque: Anchor Books, 2006. 328 pp.
  • STRATFORD, N. The Lewis chessmen and the enigma of the hoard. Londres : The British Museum Press, 1997.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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