Segundo Concílio de Constantinopla

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Segundo Concílio de Constantinopla
Data 553
Aceite por Católicos e Ortodoxos
Concílio anterior Concílio de Calcedônia
Concílio seguinte Terceiro Concílio de Constantinopla
Convocado por Imperador Justiniano I
Presidido por Eutíquio de Constantinopla e o Papa Vigílio
Afluência 152
Tópicos de discussão Monofisismo, Nestorianismo e Origenismo
Documentos Constitutum, de Vigílio; 14 cânones cristológicos e contra os Três Capítulos. 15 cânones condenando os ensinamentos de Orígenes e Evágrio
Todos os Concílios Ecuménicos Católicos
Portal do Cristianismo

O Segundo Concílio de Constantinopla (que acredita-se ter sido o Quinto Concílio Ecuménico da Igreja) foi um concílio ecuménico realizado na cidade de Constantinopla (atual Istambul , Turquia) de 5 de maio a 2 de junho do ano 553. Foi convocado pelo imperador bizantino Justiniano I, com participação majoritária de bispos orientais; apenas dezesseis bispos ocidentais estavam presentes, vindos das províncias romanas da África Proconsular e da Ilíria. O presidente foi o bispo Eutíquio, Patriarca de Constantinopla[1] .

História[editar | editar código-fonte]

O Concílio[editar | editar código-fonte]

Os sete primeiros concílios ecumênicos. (Ícone do século XIX)

O concílio foi a última fase de um conflito longo e tumultuado que começou com um édito do imperador bizantino Justiniano em 543 d.C. contra Orígenes e o chamado origenismo[2] . Justiniano se convenceu que o Nestorianismo continuava a ganhar força por causa dos escritos de Teodoro de Mopsuéstia (m. 428 d.C.), Teodoreto (m. 457 d.C.) e Ibas de Edessa (m. 457 d.C.), sendo que as obras de Teodoro e de Teodoreto eram muito admiradas dentro da Igreja. Por conta da sua recusa inicial em condenar os "Três Capítulos"[a], o Papa Vigílio foi detido em Constantinopla contra sua vontade em 547 d.C.[1] .

Ainda que ele condenasse os Três Capítulos, Vigílio defendeu a autoridade do Concílio de Calcedônia (451 d.C.), no qual Teodoreto e Ibas foram reabilitados após Nestório ter sido condenado. Muitos no Ocidente viram nisto um enfraquecimento da Igreja perante os poderes laicos e uma injustiça para com pessoa há muito falecidas. Além disso, os líderes da Igreja no Ocidente não tinham conhecimentos acurados sobre a situação teológica no oriente. Vigílio persuadiu o imperador Justiniano a proclamar uma trégua até que um concílio ecuménico pudesse ser chamado à decidir sobre estes assuntos. Porém, em 551 d.C., o imperador, com o apoio dos bispos orientais, publicou um édito renovando a condenação dos Três Capítulos.

Vigílio estava virtualmente aprisionado pelas autoridades civis e posteriormente se retirou para Calcedônia, na igreja de Santa Eufêmia, onde o grande concílio tinha se realizado. De lá, ele buscou informar a Igreja de sua precária situação, o que fez com que os bispos orientais o procurassem para se reconciliar. Eles persuadiram-no a retornar para a cidade e retiraram a condenação aos Três Capítulos. O novo Patriarca de Constantinopla, Eutiquio, apresentou, em 6 de janeiro de 553 d.C., sua profissão de fé para Vigílio e, em comunhão com os bispos orientais, solicitou a realização urgente do concílio geral. Vigílio estava tentado a convocá-lo, mas sugeriu que ele se encontrasse numa cidade ou na península Itálica ou na Sicília, de modo a garantir a presença dos bispos ocidentais. Porém, Justiniano não concordou e, em vez disso, propôs uma comissão composta de delegados de cada um dos patriarcados. Vigílio sugeriu que um número igual fosse escolhido do oriente e do ocidente, mas isso não era aceitável para o imperador, que convocou o concílio utilizando sua própria autoridade. Oito sessões foram realizadas, o resultado das quais foi condenação dos Três Capítulos pelos 165 bispos presentes à última delas, em 2 de junho de 553 d.C.[1] .

Percebendo que poderia estar sujeito às ações disciplinares de outros bispos por sua recusa em condenar os Três Capítulos e seus autores, Vigílio repetidamente ignorou convocações para comparecer, a despeito do fato de que ele estava em Constantinopla. Enquanto isso, Vigílio tinha mandado ao imperador, em 14 de maio, um documento conhecido como o primeiro "Constitutum"[3] , assinado por si e dezesseis outros, maioria ocidentais, bispos, no qual as proposições atribuídas à Teodoro de Mopsuéstia foram condenadas como sendo heresia. Porém, Teodoro em pessoa não condenado, assim como também não foram as obras de Teodoreto e de Ibas[1] .

Repercussão[editar | editar código-fonte]

As decisões do concílio foram executadas com severidade, embora a desejada reconciliação com a Ortodoxia Oriental não aconteceu. Vigílio, juntamente com outros oponentes do imperador, parece ter sido banido[4] :p. 905, ou para o Alto Egito ou para uma ilha no Propôntida[1] .

Durante a sétima sessão do concílio, os bispos retiraram Vigílio do díptico por sua recusa em aparecer no concílio e aprovar suas ações, efetivamente excomungando-o pessoalmente (e não toda a Igreja ocidental). Vigílio foi então aprisionado em Constantinopla pelo imperador e seus conselheiros, sendo posteriormente banido. Quando Roma livrou-se do domínio dos godos, os clérigos e o povo requisitaram ao imperador que permitisse o retorno do papa. Após seis meses em cativeiro, em fevereiro de 554, Vigílio concordou em condenar os Três Capítulos e seus autores, alegando que a sua hesitação se devia aos seus próprios conselheiros[5] . A aprovação de Vigílio para o concílio se deu em dois documentos[b], com seu selo e sem mencionar o concílio[1] .

No norte da Itália, as províncias eclesiásticas de Mediolano e Aquileia se separaram de Roma. Mediolano aceitou a condenação apenas no final do século VI d.C., enquanto que Aquileia não o fez até o ano 700 d.C.[4] :p. 911-27[6] .

Atos[editar | editar código-fonte]

Os originais em grego dos atos do concílio se perderam [7] , mas uma versão em latim antigo existe, provavelmente feita para Vigílio, e da qual existe uma edição crítica em Acta Conciliorum Oecumenicorum, Tomo IV, vol. 1 (Berlim, 1971)[c]. No seguinte Concílio de Constantinopla (680), alegou-se - provavelmente falsamente - que os atos originais do Quinto Concílio Ecumênico teriam sido adulterados[4] :p. 855-58 para favorecer o monotelismo. Discutia-se muito de que os atos que chegaram até nós estariam incompletos, uma vez que eles não mencionam o origenismo. Porém, a solução encontrada e geralmente aceita atualmente é que os bispos assinaram os cânones condenando o origenismo antes de o concílio ter sido formalmente aberto. Esta condenação foi confirmada pelo Papa Vigílio e a sua autoridade só foi questionada nos tempos modernos[8]

Os cânones do II Concílio[editar | editar código-fonte]

Constantinopla II - Temas
Maria como Theotokos,Theotokos de Kazan, mosteiro de Pochayiv na Ucrânia.
Maria como Theotokos,
Theotokos de Kazan, mosteiro de Pochayiv na Ucrânia.

O Concílio emitiu 14 cânones cristológicos[9] e contra os Três Capítulos. E mais 15 cânones condenando os ensinamentos de Orígenes e Evágrio.

  • 1. "Se alguém não reconhece a única natureza ou substância (ousia) do Pai, Filho e Espírito Santo, sua única virtude e poder, uma Trindade consubstancial, uma só divindade adorada em três pessoas (hipóstase) ou caráteres (prosopa), seja anátema. Porque existe um só Deus e Pai, do qual procedem todas as coisas, e um só Senhor Jesus Cristo, através do qual são todas as coisas, e um só Espírito Santo, no qual estão todas as coisas."
  • 2. "Se alguém não confessa que há duas concepções do Verbo de Deus, uma antes dos tempos, do Pai, intemporal e incorporal, e a outra nos últimos dias, concepção da mesma pessoa, que desceu do céu e foi feito carne por obra do Espírito Santo e da gloriosa Genitora de Deus (theotokos) e sempre virgem Maria, e que dela nasceu, seja anátema."
  • 3. "Se alguém disser que existiu um Deus-Verbo, que fez os milagres, e um Outro Cristo, que sofreu, ou que Deus, o Verbo, estava com Cristo quando nasceu de uma mulher, ou que estava nele como uma pessoa em outra, e que ele não era um só e o mesmo Senhor Jesus Cristo, encarnado e feito homem, e que os milagres e os sofrimentos que ele suportou voluntariamente na carne não pertenciam à mesma pessoa, seja anátema."
  • 4. Uma condenação aos ensinamentos de Teodoro de Mopsuéstia e Nestório sobre a natureza de Jesus.
  • 5. "Se alguém conceber a única personalidade (hipóstase) de nosso Senhor Jesus Cristo de tal modo que permita ver nela diversas personalidades, tentando introduzir por este meio duas personalidades ou dois caracteres no mistério de Cristo, dizendo que dessas duas personalidades introduzidas por ele provém uma única personalidade quanto à dignidade, à honra e à adoração, como Teodoro e Nestório escreveram em sua loucura, caluniando o santo Concílio de Calcedônia ao alegar que a expressão "uma personalidade" foi por ele usada com essa ímpia intenção; e se não confessar que o Verbo de Deus foi unido à carne quanto à personalidade...".
  • 6. "Se alguém aplicar à gloriosa e sempre virgem Maria o título de "genitora de Deus" (theotokos) num sentido irreal e não verdadeiro, como se um simples homem tivesse nascido dela e não o Deus Verbo feito carne e dela nascido, enquanto o nascimento só deve ser "relacionado" com Deus o Verbo, como dizem, porquanto ele estava com o homem que foi nascido..."
  • 7, 8 e 9. Reafirmam a única natureza de Deus.
  • 10. "Se alguém não confessar que aquele que foi crucificado na carne, Nosso Senhor Jesus Cristo, é o verdadeiro Deus e Senhor da glória, parte da santa Trindade, seja anátema."
  • 11. Condenação a Orígenes
  • 12. Condenação a Teodoro de Mopsuéstia e suas obras
  • 13. Condenação às obras de Teodoreto contra Cirilo de Alexandria e o Primeiro Concílio de Éfeso
  • 14. Condenação à carta de Ibas de Edessa para Maris, bispo de Hardaschir, na Pérsia

Ver também[editar | editar código-fonte]

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ Os Três Capítulos referem-se aos anátemas sobre (1) Teodoro, (2) Teodoreto, suas obras contra Cirilo de Alexandria e o Primeiro Concílio de Éfeso, e também sobre a carta escrita por (3) Ibas de Edessa para Maris, bispo de Hardaschir, na Pérsia.
[b] ^ Uma carta para Eutiquio de Constantinopla em 8 de dezembro de 553 d.C.; Um segundo "Constitutum", em 23 de fevereiro de 554 d.C., provavelmente endereçado ao episcopado ocidental.
[c] ^ E uma tradução para o inglês em Price, Richard. The Acts of the Council of Constantinople of 553 (em ). [S.l.]: Liverpool University Press, 2009. 2 vols.

Referências

  1. a b c d e f Wikisource-logo.svg "Second Council of Constantinople" na edição de 1913 da Catholic Encyclopedia (em inglês)., uma publicação agora em domínio público.
  2. Patrologia Graeca, LXXXVI, 945-90
  3. J. D. Mansi IX, 61-106.
  4. a b c Hefele. Hist. Councils (em ). [S.l.: s.n.]. vol. II.
  5. L. D. Davis. Título não preenchido. Favor adicionar (em ). [S.l.: s.n.]. Capítulo: VI. 242-248 pp.
  6. Dict. de théol. cath.: The judgment of Bois. [S.l.: s.n.]. 1238-39 pp. vol. II.
  7. The Seven Ecumenical Councils (em inglês) Christian Classics Ethereal Library. Visitado em 01/01/2011.
  8. Price, op. cit., vol. 2, 270-86
  9. Texto integral em The Seven Ecumenical Councils (em inglês) Christian Classics Ethereal Library. Visitado em 01/01/2011.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

  • [1] Os Cânones do II Concílio de Constantinopla - (em castelhano)
  • [2] II Concílio de Constantinopla e reencarnação.

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • In: Bettenson, Henry. Documentos da Igreja Cristã (em ). São Paulo: Aste/Simpósio, 1998. 159-160 pp. vol. 129.