Ser

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O conceito de Ser atravessa toda a história da filosofia, desde os seus primórdios. Embora já colocado pela filosofia indiana desde o século IX a.C., foi o eleata Parmênides quem introduziu, no Ocidente, esse longo debate, que percorre os séculos e as diversas culturas até os nossos dias.

O Ser é portanto um dos conceitos fundamentais da tradição filosófica ocidental.

Usualmente, na tradição grega, a palavra SER (einai) assume quatro significados diferentes os quais serão apresentados por Platão no diálogo Sofista de maneira mais detalhada solucionando, dessa forma, os problemas lógicos e semânticos que subjazem a algumas das formulações centrais da República.[1]

1. Existência: para exprimir o fato de que determinada coisa existe. Por exemplo: "a erva é" (= existe)", mas também "o unicórnio é" (ao menos no sentido de existência mental). Lembremos que os gregos não tinham uma palavra específica para a existência.

2. Identidade: para identificar e/ou distinguir algo e/ou alguém em relação a si mesmo e/ou aos outros. Por exemplo "A=A" ou "A beleza é bela"

3. Predicação: para exprimir uma propriedade de determinado objeto. Por exemplo: "y é x" ou a maçã é vermelha. Platão descobriu que é condição da predicação "não haver identidade entre os referentes dos nomes colocados nas posições de sujeito e predicado." [2] . Por exemplo: "Vênus é a estrela da manhã". Gramaticalmente, temos um sujeito e um predicado, mas logicamente temos uma falsa predicação, pois "Vênus" e a "estrela da manhã" são termos cujo objeto é o mesmo, um dos planetas do Sistema Solar.

4. Veritativo: Nos diálogos da velhice, Platão conseguiu separar os valores veritativos da ontologia, ou seja, verdadeiro e falso passaram a ser qualidades do discurso sobre o mundo. Platão desloca a verdade do SER para o discurso. O sentido metalinguístico veridical permite ao verbo SER significar a verdade de uma proposição.

Em filosofia, ser é considerado não só como um verbo (existir) mas também como substantivo ("tudo o que é"). Os termos ser e existência podem ter significados diferentes, embora, na linguagem corrente, possam ser sinônimos ("ser" como "o fato de ser" = existência). As formas identitativa e predicativa são objeto de estudo da lógica.

Parmênides e o Ser[editar | editar código-fonte]

Parmênides

O primeiro filósofo a colocar explicitamente o conceito de SER foi Parmênides de Eleia (século VI a.C. - século V a.C.). Para ele, seria impossível falar ou pensar no Não-Ser, pois o Não-Ser nada refere. Para o pensador de Eleia, O Ser, que existe para além das ilusões do mundo sensível da doxa, é uno, eterno, imóvel, não-gerado e imutável: "O Ser é e o não ser não é".

Platão tenta resolver a questão do Não-Ser nos diálogos Parmênides e Sofista ao passar a entender o Não-Ser como alteridade (diferença) em relação ao Ser em vez de contrariedade. (Por exemplo, "o belo não é feio"). Segundo o discípulo de Sócrates, quando dizemos "o não-ser não deve participar nem da unidade nem da pluralidade" e o não-ser "é impronunciável, inefável e inexprimível" já dizemos o Não-ser uno, pois dizer o já implica unidade, e contradizemos a ideia de que ele não possa ser pronunciado ou expressado, pois lhe aplicamos o é. Platão então, negando Parmênides, defende a comunhão entre Ser e Não-ser. Impondo a introdução do Outro (ou diferença) e do Mesmo chega à acepção predicativa do Ser. Esclarece que podemos designar uma única e mesma coisa por uma pluralidade de nomes porque a acepção identitativa (A=A) não é a única possível ao Ser, o homem pode então também ser chamado de bom e não apenas de homem ("o homem é bom" e não apenas "o homem=homem" e "o bom=bom"). Podemos, com a ideia de predicação, tratar as coisas como capazes de participação mútua. Com a ideia de identidade, podemos supor a todas as coisas como incapazes de união mútua. [3]

Problema com o significado de ser na filosofia de Hegel[editar | editar código-fonte]

Bertrand Russell percebe que a lógica de Hegel foi construída sobre uma confusão a respeito dos significados do verbo ser

"O argumento de Hegel nesta porção de sua 'Lógica' depende completamente de confundir o 'é' da predicação, como em 'Sócrates é mortal', com o 'é' da identidade, como em 'Sócrates é o filósofo que bebeu a cicuta'. Devido a esta confusão, ele pensa que 'Sócrates' e 'mortal' precisam ser idênticos. Vendo que eles são diferentes, ele não infere, como outros fariam, que há um erro em algum lugar, mas que eles exibem 'identidade na diferença*'. Novamente, Sócrates é particular, 'mortal' é universal. Portanto, diz ele, dado que Sócrates é mortal, segue que o particular é o universal—tomando completamente o 'é' como expressivo da identidade. Mas dizer que 'o particular é o universal' é auto-contraditório. De novo, Hegel não suspeita de um erro mas prossegue para sintetizar particular e universal no indivíduo, ou universal concreto. Isto é um exemplo de como, por descuido desde o início, sistemas de filosofia vastos e imponentes são construídos sobre confusões estúpidas e triviais, que, senão pelo fato quase incrível de que não são intencionais, se estaria tentado a caracterizar como trocadilhos." (Our Knowledge of the External World, pp.48-9)

Referências

  1. WILLIANS, B. Platão. São Paulo: Unesp, 2000.
  2. SANTOS, J. Trindade. Platão: a construção do conhecimento. São Paulo: Paulus, 2012.
  3. DIAS, J. R. Barbosa. O Ser no "Sofista" de Platão. Kalagatos, revista de filosofia. Fortaleza. v.7 n. 14, 2010. p. 57

Ver também[editar | editar código-fonte]

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