Sinésio

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Sinésio
Nascimento 373
Ocupação Bispo

Sinésio (grego: Συνέσιος, 373414), foi um bispo grego de Ptolemais[1] na Pentápolis líbia; nasceu em uma família rica, que se dizia descendente de um dos companheiros de Héracles.[2] [3]

Vida[editar | editar código-fonte]

Educado inicialmente na eloquência, bebeu da tradição clássica através de Aristóteles, Homero e Platão, sentindo-se herdeiro de Dion Crisóstomos. Iniciado em ciências, sendo Cirene a terra de Teodoro e Eratóstenes, foi um apaixonado por caça, armas e exércitos equestres, entretenimentos próprios da aristocracia romana tardia.

Antes de 395, Sinésio residiu durante três ou quatro anos em Alexandria. Ali conheceu Hipátia, filósofa neoplatônica, filha do matemático Teão de Alexandria, convertendo-se em seu aluno e discípulo [a] Formou-se em astronomia, matemática, neoplatonismo, abarcando o amplo espectro que separa os extremos da ciências aplicadas e a metafísica.

Concluídos seus estudos, Sinésio viajou para Atenas, porém tanto a própria cidade como sua ativa escola neoplatônica o decepcionaram profundamente.[b] De regresso a Cirene, no ano 399 seus concidadãos o encarregaram de chefiar uma comitiva para solicitar ao imperador que reduzisse os impostos exigidos a Pentápolis. Para cumprir sua tarefa, Sinésio mudou-se para Constantinopla, onde permaneceu por três anos. Em seu discurso Acerca da realeza (latim: De regno), pronunciado diante o imperador Arcádio, criticou o abuso de poder e a corrupção, assim como o fato de as defesas das fronteiras terem sido confiadas a germânicos, que Sinésio considerava bárbaros.[4]

Sua estadia de três anos em Constantinopla, foi cansativa e desagradável; seu lazer foi devotado, em parte, à composição literária. O Aegyptus sive de providentia é uma alegoria em que o bom Osíris e o mau Tifão, que representam Aureliano e o godo Gainas (magister sob Arcádio), lutam pelo domínio; a questão da permissão divina do mal é tratada.

No ano 402, voltou com êxito: havia conseguido uma redução significativa nos impostos. Mudou-se para Alexandria, onde se casou com uma cristã, pertencente a nobreza da cidade.[5] O patriarca Teófilo de Alexandria casou pessoalmente o casal.[6]

De volta a Cirene, empenhou-se pessoalmente na defesa das fronteiras, construindo um novo modelo de catapulta e reforçando as fortificações. No final de 409, ou em 410, em agradecimento por seus serviços prestados, o clero e o povo de Ptolemais o elegeram como seu bispo. Sinésio resistiu em aceitar o cargo, porém acabou assumindo-o em 411 com muita relutância[7] , mas não antes de explicar ao patriarca Teófilo suas condições: não renunciaria ao seu matrimonio nem a suas convicções filosóficas, que o impediam de aceitar algumas crenças populares.[c] A juízo de Quasten, até o final de seus dias, Sinésio seguiu sendo «mais platónico que cristão, como revela em seus escritos».[6] Contudo, a partir de sua nomeação como bispo não voltou a fazer referencia a sua mulher em suas cartas, como alguns investigadores suspeitam que o patriarca o obrigou a renunciar a sua vida conjugal.[8]

Já bispo, Sinésio utilizou sua autoridade para defender seus compatriotas dos ataques das tribos do deserto e dos abusos de Andrônico, um alto funcionário do governo que por vários anos vinha cometendo graves abusos contra a população. Sinésio pronunciou contra ele a primeira excomunhão solene de que se tem notícia.[d]

Apesar da prudência e bom critério que demonstrou como bispo, os últimos anos de Sinésio foram muito amargos. Seu irmão se viu forçado a fugir para evitar ser nomeado decurião, cargo que supunha a ruína econômica do interessado, obrigado a responder como garantidor da arrecadação de impostos. No ano 413, após perder três filhos, escreveu a sua mestra Hipátia, que havia sofrido «tantos infortúnios como é capaz de sofrer um homem» e repreendeu que nem ela nem seus amigos de Alexandria tivessem respondido suas cartas.[9] Nesse mesmo ano, faleceu, consumido pelas recordações de seus filhos mortos.[10]

Segundo uma lenda, seria santo[11] , mas os estudiosos não admitem sequer atribuir-lhe o título de Pai da Igreja.[12]

As obras de Sinésio, “bispo filósofo”, testemunham seu esforço para conciliar os dogmas cristãos e a filosofia neoplatônica. Observam-se também, em seus tratados, ideias gnósticas e herméticas. Sinésio enfatiza o caráter transcendente de Deus e sua unidade absoluta, que não resulta em incompatibilidade com a Trindade, por ser esta “interna à unidade”. Dentro da unidade divina, o Pai engendra o Espírito Santo e ambos engendram o Filho. Somente através do mito pode o homem divisar a Deus e compreender a natureza da alma, que se encontra presa na matéria (oposta a Deus) e anseia retornar à patria celeste, de onde procede.[13]

Obras[editar | editar código-fonte]

Suas obras que chegaram aos nossos dias são:

  1. Um discurso perante o imperador Arcádio: De regno;
  2. Dio, sive de suo ipsius instituto, em que ele significa o seu propósito de dedicar-se à verdadeira filosofia;
  3. Elogio à Calvície (Encomium calvitii), uma literatura jeu d'esprit, em resposta a uma obra de Dion Crisóstomos, o Elogio à Cabeleira
  4. Aegyptus sive de providentia, em duas partes, sobre a guerra contra o godo Gainas e o conflito entre os dois irmãos Aureliano e Cesário;
  5. De insomniis, um tratado sobre os sonhos;
  6. Constitutio;
  7. Catastasis, uma descrição do fim da Cirenaica romana;
  8. 159 Epistolae (cartas, incluindo um texto – Carta 57 – que é na verdade um discurso);
  9. 10 Hymni, de caráter contemplativo, característica neoplatônica;
  10. 2 homilies;
  11. Um ensaio sobre como fazer um astrolábio;

Trabalhos perdidos:

  1. Um livro sobre canicultura;
  2. Poemas, mencionados nas cartas de Sinésio.

Edições modernas de suas obras[editar | editar código-fonte]

  • Editio princeps, Turnebus (Paris, 1553);
  • Garzya, Terzaghi, e Lacombrade (eds.), Opere di Sinesio di Cirene, Classici greci, Turin: Unione Tipografico-Editrice Torinese, 1989 (com tradução em italiano);
  • Lacombrade, Garzya, and Lamoureux (eds.), Synésios de Cyrène, Coleção Budé, 6 vols., 1978-2008 (com tradução em francês por Lacombrade, Roques, e Aujoulat).

Notas[editar | editar código-fonte]

[a] ^ As cartas de Sinésio são uma das poucas fontes disponíveis para acesso à figura de Hipátia, a quem Sinésio se dirige com afeto como sua «mãe, irmã e mestra, minha benfeitora em tudo, e tudo o que para mim é valioso em palavras e ações» [14]
[b] ^ Segundo a interpretação de Von Campenhausen [15] , Sinésio defendeu a preexistência da alma, a eternidade do universo e uma interpretação alegórica da ressurreição. Escreveu em sua carta 105, dirigida a seu irmão: «asseguro que eu nunca discutirei a crença de que a origem da alma é posterior a do corpo. Não admitirei que o cosmos e a suas partes estão destinados a uma destruição conjunta. A tão alardeada ressurreição considero algo sagrado e inefável e bem distante estou de coincidir com as opiniões das massas. (...) Se isto me consentem as leis do ministério sagrado que vou desempenhar, poderia exercê-lo da seguinte maneira: em privado, dedicar-me-ia à filosofia, porém, em público, contaria fábulas (μῦθοι) em meus ensinamentos (δυναίμην ἂν ἱερᾶσθαι τὰ μὲν οἴκοι φιλοσοφῶν τὰ δ’ ἔξω φιλομυθῶν)» [16] .
[c] ^ A Atenas de hoje não tem de venerável nada mais que os nomes famosos de seus lugares. E como uma vítima sacrificada da qual só a pele nos diz que uma vez foi uma criatura viva, também a filosofia que saiu desta cidade não deixou nada para seus admiradores além da visão da Academia e do Liceu, e em verdade também a pintada stoa, da qual recebeu seu nome a filosofia de Crisipo (...) Em nossos dias, os egípcios se enriquecem com a colheita que os fez colher Hipátia; a cidade de Atenas, outrora sede da sabedoria, é famosa hoje em dia somente por seu mel. O mesmo serve para a parelha de sábios Plutarcos, que não reúnem a juventude em suas aulas por sua sabedoria, mas pelo mel do Himneto [17] .
[d] ^ O decreto de excomunhão faz parte de sua Carta 42[18]

Referências

  1. Cfr. M. Barbanti. Sinesio di Cirene, in Enciclopedia filosofica, vol.11. Milano, Bompiani, 2006, pag. 10671 e segg. anche Henry Chadwick Sinesio di Cirene in Dizionario di Antichità classiche, Milano, Paoline, 1995, pag.1949.
  2. Hans von Campenhausen. Los padres de la Iglesia. T. 1: padres griegos. [S.l.]: Ediciones Cristiandad (ed.), 1974. ISBN 978-84-7057-155-8 pág. 158.
  3. Nell Epistola 113 Sinésio reivindica orgulhosamente sua descendência mística
  4. (Campenhausen 1974: 162).
  5. (Campenhausen 1974: 160).
  6. a b Johannes Quasten. Patrología II. La edad de oro de la literatura patrística griega. [S.l.]: BAC (ed.), 1962. ISBN 978-84-7057-155-8
  7. Cfr. Epistola 105
  8. (Campenhausen 1974: 169).
  9. Cartas, carta 10, p. 46.
  10. Carta 16.
  11. H. I. Marrou, Synesius of Cyrene and the Alexandrian Neoplatonism, in «The conflict between Paganism and Christianity in the fourth century», Oxford, Clarendon 1963, pp. 126-150
  12. H. v. Campenhausen, Griechischen Kirchenväter, Stuttgart, Kohlhammer 1967, p. 125
  13. Ferrater Mora, Diccionario de filosofía, s.v. Sinesio.
  14. (Carta 16).
  15. Von Campenhausen, 1974: 168
  16. Cartas, tr. Francisco Antonio García Romero, Madrid: Gredos, pp. 208-9)
  17. carta 136, a seu irmão
  18. (Campenhausen 1974: 170)

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • T.D. Barnes, "Synesius in Constantinople," Greek, Roman, and Byzantine Studies 27 (1986): 93-112.
  • A.J. Bregman, Synesius of Cyrene, Philosopher-Bishop (Berkeley, 1982).
  • A. Cameron and J. Long, Barbarians and Politics at the Court of Arcadius (Berkeley, 1993).
  • Chr. Lacombrade, Synesios de Cyrène. Hellène et Chrétien (1951)
  • J. H. W. G. Liebeschuetz, Barbarians and Bishops: Army, Church and State in the Age of Arcadius and Chrysostom (Oxford 1990).
  • ib., 'Why Did Synesius Become Bishop of Ptolemais?', Byzantion 56 (1986): 180-195.
  • D. Roques, Etudes sur la correspondance de Synesios de Cyrene (Brussels, 1989).
  • T. Schmitt, Die Bekehrung des Synesios von Kyrene (2001)
  • Este artigo incorpora texto da Encyclopædia Britannica (11ª edição), publicação em domínio público.
  • Synesius is portrayed in Ki Longfellow's Flow Down Like Silver, Hypatia of Alexandria[1] in a highly imaginative way.

Ligações externas[editar | editar código-fonte]