Abderramão I

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Abderramão I
Emir de Córdova
Estátua de Abderramão I. Almuñécar, Espanha
Governo
Reinado 756-788
Consorte Hulal
Sucessor Hisham I
Dinastia Omíadas
Vida
Nome completo Abd al-Rahman ibn Mu'awiya ibn Hisham ibn Abd al-Malik ibn Marwan
Nascimento março de 731, perto de Damasco
Morte 30 de setembro de 788, em Córdoba
Filhos Sulayman
Omar
Hisham I
Abdallah
Pai Mu'awiyah ibn Hisham
Mãe um concubina berbere

Abderramão I, (em árabe: عبد الرحمن‎; transl.: ʿAbd ar-Raḥman; Damasco, março de 731Córdoba, 30 de setembro de 788) foi emir de Córdoba entre 756 e 788, fundador do emirado omíada de Córdoba e de uma dinastia muçulmana que governou grande parte da Ibéria durante quase três séculos. Os muçulmanos chamaram a região da Ibéria sob seu domínio de al-Andalus.[1]

O estabelecimento de um governo no al-Andalus por Abderramão (756–788) representou uma ruptura do restante do Império Islâmico, que era governado pelos Abássidas. A situação interna do emirado não permitiu que Abderramão I dirigisse as habituais incursões militares aos territórios cristãos do norte. Seu reinado de trinta e dois anos transcorreu entre lutas internas para sufocar a resistência do emir anterior, Yusuf al-Fihri e de seus filhos, dos partidários sírios e abássidas e dos berberes que viviam na Península.

Abderramão ficou conhecido como o "Falcão de al-Andalus" ou "O Falcão de Quraysh".[2] Note que quando são realizadas pesquisas sobre Abderramão, variações de seu nome serão encontradas tais como: Abderrahman, Abdarramão, Abd ar-Rahman ou ‘Abd al-Rahmán.

Vida[editar | editar código-fonte]

Infância e fuga da Síria[editar | editar código-fonte]

Mesquita dos Omíadas em Damasco, capital dos omíadas destronados em 750 pelos abássidas

Abderramão era neto de Hisham ibn Abd al-Malik, o décimo califa omíada e filho do general Muawiya ibn Hisham. Era um príncipe e fora educado desde os primeiros anos para se tornar um califa.[carece de fontes?] Dizia-se que o jovem príncipe era alto e esbelto. Sua mãe pertencia ao povo berbere, da tribo de Nafza[3] [4] e dela ele herdou o cabelo ruivo. Características curiosas atribuídas a Abderramão são as de que ele não enxergava de um olho, tinha uma verruga no rosto e seu olfato não era muito apurado.[5]

Quando o califa Marwan II foi derrotado e morto em 750 no Egito e instaurou-se a nova dinastia dos Abássidas, o jovem omíada tinha menos de vinte anos de idade. Foi um dos poucos membros da dinastia que conseguiu escapar do massacre de Abú Futrus. Abderramão e uma pequena parte de sua família fugiram de Damasco, que tinha sido até então o centro do poder omíada. Alguns desses membros de sua família eram: seu irmão Yahiya, seu filho de quatro anos Sulayman e algumas de suas irmãs. Também fugiu com Abderramão seu ex-escravo (um liberto) Bedr. A família seguiu ao longo do rio Eufrates em direção ao sul.

Todo o trajeto da fuga foi sempre acompanhado de muito perigo. Os abássidas haviam espalhado cavaleiros por toda a região na tentativa de encontrar e assassinar o príncipe omíada. Os abássidas eram impiedosos com todos os omíadas que eles encontravam. Quando estavam escondidos em uma pequena aldeia, os agentes abássidas cercaram Abderramão e sua família. Ele deixou seu jovem filho com suas irmãs e fugiu com Yahiya. As narrativas variam, contudo ao que tudo indica Bedr também fugiu com eles. Algumas histórias relatam que Bedr acabou encontrando-se com Abderramão posteriormente a esta data.[5] Abderramão, Yahiya e Bedr conseguiram fugir da aldeia, escapando dos assassinos abássidas.

Mais tarde, no caminho para o sul, os cavaleiros abássidas alcançaram novamente o trio. Tentando desesperadamente salvarem-se, Abderramão e seus companheiros atiraram-se nas águas do rio Eufrates. Na tentativa de atravessar à nado as águas perigosas do rio, Abderramão acabou separando-se de seu irmão. Yahiya retornou nadando em direção onde se encontravam os cavaleiros, provavelmente com medo de afogar-se. Os cavaleiros pediam para os fugitivos retornassem, e que nada de mau lhes aconteceria. O historiador do século XVII, Ahmed Mohammed al-Maqqari, comoventemente descreve a reação de Abderramão implorando para que seu irmão Yahiya não retornasse: "Oh irmão! Venha para mim, venha para mim"![5] Yahiya retornou para perto da margem do rio e foi logo capturado pelos cavaleiros. Eles cortaram-lhe a cabeça, e deixaram o corpo de Yahiya para apodrecer. Al-Makkari cita que antigos historiadores muçulmanos relatam que Abderramão ficou com tanto medo naquele momento, que assim que chegou à margem oposta ele correu até a exaustão.[5]

O exílio[editar | editar código-fonte]

Partindo de Ceuta, Abderramão desembarca em Almuñécar no al-Andalus, a leste de Málaga, em setembro de 755.

Depois de escaparem da Síria apenas com a roupa do corpo, Abderramão e Bedr continuaram a fuga em direção ao sul passando pela Palestina, Sinai e Egito. Abderramão seguiu em direção ao noroeste da África, onde pretendia refugiar-se entre os berberes da Mauritânia da tribo Nafza de onde era originária sua mãe. Os muçulmanos referiam-se àquela parte do Império Islâmico de "Mahgreb", ou o "oeste". Seus predecessores Omíadas haviam conquistado partes do Magrebe e da Ibéria e agora com a confusão generalizada que se estabeleceu no califado pela mudança da dinastia, aquela região havia ficado nas mãos das autoridades locais, antigos emires ou tenentes dos califas de omíadas, mas agora aspirando pela independência. A travessia do Egito provaria ser muito perigosa. Ibn Habib era o governador da África Oriental e tinha sido um antigo colaborador do Califado Omíada. Porém, com os Abássidas agora no controle Ibn Habib enviou espiões para procurarem pelo príncipe sobrevivente dos Omíadas. Com seu cabelo ruivo, Abderramão não seria difícil de ser identificado. Abderramão e Bedr ficaram no acampamento de um comandante berbere solidário com sua difícil situação. Um dia, os soldados de Ibn Habib entraram no acampamento procurando pelo fugitivo omíada. Tekfah, a esposa do comandante berbere escondeu Abderramão sob os seus pertences pessoais e conseguiu salvá-lo.[5]

Demorou vários anos até que Abderramão conseguisse chegar ao oeste. Em 755, Abderramão e Bedr chegaram à região do atual Marrocos, perto de Ceuta. Foi provavelmente de lá que ele pela primeira vez avistou uma faixa estreita de terra: al-Andalus, onde Abderramão não tinha a certeza se seria bem recebido ou não naquela longínqua província do império. Ele provavelmente enviou Bedr para a Ibéria com uma mensagem; uma mensagem na que ele proclamava-se o herdeiro verdadeiro omíada daquela terra. Al-Andalus havia sido conquistada no governo do avô de Abderramão. Um grande número de sírios vivia na província de Elvira, atual Granada e Abderramão esperava apelar por sua lealdade ao príncipe dos omíadas. Entretanto, a província encontrava-se em um estado de muita confusão causado pela fraca administração do emir de então, Yusuf al-Fihri.

A comunidade muçulmana estava abalada por lutas tribais entre os árabes e tensões raciais entre estes e berberes. Abderramão provavelmente viu então ali um local propício para recuperar seu poder, coisa que ele não havia encontrado na África. Bedr apressou-se em retornar à África. À convite de seguidores leais omíadas e dos yemenies, inimigos do governador, Abderramão foi chamado para conhecer al-Andalus. Logo após isto, Abderramão juntamente com Bedr e um pequeno grupo de seguidores começaram a prepara-se para seguirem para a Europa.

Quando alguns berberes locais souberam que Abderramão estava indo para al-Andalus, eles apressaram-se para encontrá-lo na costa. Os berberes pretendiam fazê-lo refém e forçá-lo a pagar uma taxa para deixar a África. Ele realmente teve que pagar uma importância em dinares mediante a súbita hostilidade dos berberes locais. No mesmo instante em que Abderramão lançava ao mar o seu barco, outro grupo de berberes chegou, também com a intenção de fazer com que Abderramão pagasse uma taxa por partir. Um dos berberes agarrou o barco de Abderramão para impedi-lo de partir e teve a sua mão cortada por um membro da tripulação do barco.[5] Abderramão desembarcou em Almuñécar no al-Andalus, a leste de Málaga, em setembro de 755; contudo, o local do desembarque não é confirmado.

A luta[editar | editar código-fonte]

Rio Guadalquivir em Córdoba, cidade onde Abderramão I fundou o emirado espanhol

Abderramão foi saudado pelos comandantes locais ao desembarcar no al-Andalus. Durante sua curta estadia em Málaga, Abderramão conseguiu rapidamente o apoio local. Caravanas de pessoas dirigiram-se para Málaga a fim de prestarem solidariedade ao príncipe omíada que eles pensavam estar morto. Uma das mais famosas histórias sobre o período em que Abderramão esteve em Málaga diz respeito ao presente que lhe foi ofertado. O presente foi uma bela jovem escrava, mas Abderramão humildemente a devolveu ao seu proprietário dizendo: "Eu não me entregarei a nenhuma distração, seja ela de visão ou de coração, até que a Espanha esteja sobre o meu controle".[5] A notícia sobre a chegada do príncipe espalhou-se pela península.

Durante esse tempo, o emir al-Fihri e o comandante de seu exército, al-Sumayl (que era também o vizir e genro de al-Fihri), ponderaram sobre o que fazer mediante essa nova ameaça ao seu frágil poder. Eles tentariam casar Abderramão com uma das filhas de al-Fihri. Caso isso não desse certo, então Abderramão teria que ser morto: "caso ele não aceite, nós lhe cortaremos a cabeça com nossas espadas".[5] Abderramão aparentemente já esperava tal tipo de hostilidade.[5] Porém, antes que algo pudesse ser feito, surgiram problemas ao norte de al-Andalus. Saragoça, um importante centro de comércio no limite superior de al-Andalus, declarou sua autonomia. Al-Fihri e al-Sumayl dirigiram-se então para o norte a fim de sufocarem a rebelião. Abderramão ganhou com isso um tempo precioso para consolidar a sua base de apoio no al-Andalus.

Em março de 756, Abderramão e seu crescente número de seguidores tomaram Sevilha sem encontrarem resistência. Depois de cumprir sua missão em Saragoça, al-Fihri retornou com seu exército para o sul a fim de enfrentar o "pretendente".[5] Os dois contingentes encontraram-se em lados opostos às margens do rio Guadalquivir, na parte externa da capital de Córdoba na planície de Musarah.[5]

O rio tinha, pela primeira vez em anos, transbordado; anunciando o fim de um longo período de secas. Entretanto, o alimento ainda estava escasso e o exército de Abderramão estava com fome. Em uma tentativa para desmoralizar as tropas de Abderramão, al-Fihri assegurou que suas tropas não somente estivessem bem alimentadas, como que se servissem de grande quantidade de comida bem às vistas das linhas omíadas. Uma tentativa de negociação logo se seguiu, na qual foi oferecido a Abderramão a filhas de al-Fihri em casamento e uma grande quantidade em riquezas. Abderramão só se interessava pelo controle do emirado e estabeleceu-se um impasse. Mesmo antes da luta iniciar, desentendimentos surgiram entre algumas tropas de Abderramão. Especificamente, os árabes do Iêmen estavam descontentes pelo príncipe estar montando um puro corcel espanhol. Os iemenitas ridicularizavam o príncipe dizendo que ele não tinha experiência em batalhas e que o excelente cavalo só serviria para possibilitar-lhe uma fuga rápida do campo de batalha. Sendo um político cauteloso, Abderramão agiu rapidamente para recuperar o apoio dos iemenitas, e dirigiu-se ao líder iemenita que montava uma mula. Abderramão disse-lhe que seu cavalo era de difícil montaria e que não queria ser lançado ao chão por ele. Abderramão ofereceu trocar seu cavalo pela mula, o que deixou o chefe muito surpreso. Uma possível rebelião iemenita foi evitada com essa troca. O nome da mula era 'Relâmpago'.[5]

Logo os dois exércitos se enfrentaram às margens do Guadalquivir. Abderramão não tinha bandeira e uma foi improvisada desenrolando um turbante verde e amarrando-o ao redor da ponta de uma lança. O turbante e a lança tornaram-se a bandeira dos omíadas andaluzes. Abderramão chefiou o ataque ao exército de al-Fihri. Al-Sumayl, por sua vez, avançou com sua cavalaria para atacar os inimigos omíadas. Depois de uma longa e difícil luta "Abderramão obteve plena vitória e o campo ficou coberto com os corpos do inimigo".[6]

Al-Fihri e al-Sumayl conseguiram escapar com vida da batalha, provavelmente com parte de seus exércitos. Abderramão triunfalmente marchou em direção à capital, Córdoba. Contudo, o perigo não foi afastado, uma vez que al-Fihri planejou um contra-ataque. Ele reorganizou suas forças e dirigiu-se para a capital que lhe haviam tomado. Novamente Abderramão encontrou-se com al-Fihri e seu exército; porém, desta vez as negociações tiveram sucesso. Em troca da vida e riqueza de al-Fihri, ele seria um prisioneiro e não deixaria os limites da cidade de Córdoba. Al-Fihri teria que apresentar-se uma vez por dia a Abderramão, e tornar reféns alguns de seus filhos e filhas. Durante algum tempo al-Fihri cumpriu com as obrigações da trégua unilateral, mas ele ainda tinha muitas pessoas que lhe eram leais; pessoas que ainda queriam vê-lo de volta ao poder.

Al-Fihri fez ainda outra tentativa para recuperar seu poder. Ele deixou Córdoba e rapidamente começou a reunir seus apoiadores. Enquanto esteve em liberdade, al-Fihri conseguiu formar um exército de cerca de 20.000 homens. Porém, é duvidoso que suas tropas fossem formadas por soldados 'regulares', mas sim por uma mistura de homens de diferentes partes de al-Andalus. O governador indicado por Abderramão em Sevilha assumiu a iniciativa da luta, e após uma série de pequenas batalhas, conseguiu derrotar o exército de al-Fihri. Al-Fihri conseguiu mais uma vez escapar e fugiu em direção à antiga capital dos Visigodos, Toledo, na região central de al-Andalus; porém, assim que chegou lá ele foi morto. A cabeça de Al-Fihri foi enviada a Córdoba, onde Abderramão a pregou em uma ponte. Com este ato, Abderramão proclamou-se o emir de al-Andalus. Uma última ação ainda teria que ser realizada: o general de al-Fihri, al-Sumayl, foi colocado na prisão de Córdoba.

Um tênue governo[editar | editar código-fonte]

Alcácer da Porta de Sevilha. Carmona.

Realmente, Abderramão apenas proclamou-se emir e não califa. Isto provavelmente foi devido ao fato de que al-Andalus fosse uma terra formada por diferentes facções e a proclamação como califa teria causado grande inquietação entre elas. Os descendentes de Abderramão, contudo, teriam uma melhor oportunidade para ficarem com o título de califa.

Enquanto isso, a notícia de que al-Andalus havia tornado-se um território seguro para os amigos da dinastia omíada e para os membros de sua família, que conseguiram escapar da perseguição dos Abássidas, espalhou-se pelo mundo muçulmano. Abderramão finalmente conseguiu obter notícias de seu filho Sulayman, que ele havia deixado com suas irmãs por ocasião de sua fuga às margens do rio Eufrates. As irmãs de Abderramão não podiam fazer essa longa viagem até al-Andalus. Abderramão colocou os membros de sua família nos altos escalões de seu governo por todo o país, sem dúvida ele sentia-se mais confiança neles do que em pessoas fora de sua família. A família Omíada cresceria novamente e prosperaria por sucessivas gerações. Porém, em 763 Abderramão teve que voltar aos assuntos de guerra. Al-Andalus foi invadida por um exército abássida.

Em Bagdá, o então califa abássida, al-Mansur (712–775), já vinha há muito tempo planejando depor aquele omíada que se intitulava emir de al-Andalus. Al-Mansur nomeou al-Ala ibn-Mugith (al-Ala) governador da África (cujo título dava-lhe o domínio sobre a província de al-Andalus). Foi al-Ala quem liderou o exército abássida que desembarcou no al-Andalus, provavelmente perto de Beja (no atual Portugal). Muito das áreas ao redor de Beja foram conquistadas por al-Ala. Abderramão teve que agir logo. O contingente abássida era muito superior ao seu em número, com aproximadamente 7 000 homens. O emir rapidamente reuniu o seu exército em Carmona. O exército abássida aproximou-se rapidamente e sitiou Carmona por aproximadamente dois meses. Com a comida, a água e o moral da tropa diminuindo Abderramão idealizou um plano.[6]

Abderramão escolheu 700 lutadores de seu exército e os posicionou diante do portão principal de Carmona. Lá, ele levantou uma grande fogueira e atirou a bainha de sua espada nas chamas. Abderramão então disse: "Vamos atirar nossas bainhas na chama e prometer que tombaremos como soldados caso a vitória não possa ser nossa. Nós conquistaremos ou nós morreremos"![6] O portão ergueu-se e os homens de Abderramão avançaram contra os abássidas, derrotando-os. A maior parte do exército abássida foi morta. As cabeças dos principais comandantes foram cortadas. Suas cabeças foram preservadas em sal e identificações foram fixadas em suas orelhas. As cabeças foram empacotadas todas juntas e enviadas ao califa abássida que estava em peregrinação a Meca. Assim que recebeu as evidências da derrota de al-Ala no al-Andalus, al-Mansur teria dito: "Deus seja louvado por ter colocado um mar entre nós"! [5] Al-Mansur odiou e respeitou Abderramão a ponto de chamá-lo de "Falcão do Quraysh" (os Omíadas eram um ramo da tribo Quraysh).[5]

Apesar de esta ter sido uma importante vitória, Abderramão teve que sufocar constantes revoltas no al-Andalus.[7] Muitas tribos árabes e berberes lutavam entre si por várias disputas de poder, algumas cidades tentaram obter sua própria independência e até membros da família de Abderramão tentaram tirar-lhe do poder. Durante uma grande revolta, dissidentes marcharam até Córdoba. Porém, Abderramão sempre esteve preparado e esmagou sempre com muito rigor todos os seus opositores no al-Andalus.[8]

Apesar de toda essa agitação no al-Andalus, Abderramão queria levar a sua luta até Bagdá. Sua intenção era devolver o massacre sofrido por sua família nas mãos dos abássidas. Porém, sua guerra contra Bagdá precisou esperar devido a problemas internos. A insurgente cidade de Saragoça, na fronteira norte de al-Andalus, havia proclamado a sua autonomia.

Problemas na fronteira norte[editar | editar código-fonte]

Saragoça provou ser uma cidade muito difícil de ser governada, não apenas por Abderramão, mas também por seus predecessores. Nos anos 777 e 778, vários homens notáveis incluindo Sulayman ibn Yokdan al-Arabi al-Kelbi,[5] o autoproclamado governador de Saragoça, encontrou-se com delegados do líder dos Francos, Carlos Magno. "O exército de Carlos Magno foi chamado para ajudar os governadores muçulmanos de Barcelona e Saragoça para lutar contra o emir omíada em Córdova…".[9] Essencialmente Carlos Magno foi contratado como um mercenário, embora talvez ele tivesse um plano de conquistar a área para o eu próprio império. Depois da chegada do exército de Carlos Magno aos portões de Saragoça, Sulayman mudou de ideia e não autorizou a entrada dos Francos na cidade. É possível que ele tenha percebido que Carlos Magno queria tirar-lhe do poder. As forças de Carlos Magno retornaram então para a França via uma estreita passagem nos Pirenéus, onde este perdeu sua retaguarda, comandada pelo duque da Bretanha, Rolando, que recebeu o ataque de montanheses bascos e rebeldes gascões no desfiladeiro de Roncesvalles (feitos guerreiros celebrados n´A Canção de Rolando). Esses acontecimentos fortaleceram ainda mais o poder de Abderramão, sem ter precisado envolver-se no conflito.[6] Agora Abderramão poderia ocupar-se de Sualyman e a cidade de Saragoça sem ter que enfrentar um numeroso exército cristão.

Em 779 Abderramão ofereceu o cargo de governador de Saragoça a um dos aliados de Sulayman, um homem chamado al-Husayn ibn Yahiya. A tentação foi tão grande para al-Husayn, que ele acabou por assassinar o seu colega Sulayman. Como havia sido prometido, al-Husayn recebeu o cargo de governador de Saragoça com a condição de que ele sempre estaria subordinado a Córdoba. Após dois anos, contudo, al-Husayn quebrou sua promessa e declarou que Saragoça seria uma cidade-estado independente. Mais uma vez Abderramão teve que ocupar-se em tentar manter a importante cidade na fronteira norte dentro do domínio Omíada.

Em 783 o exército de Abderramão avançou em direção a Saragoça. Abderramão queria deixar claro, que estava fora de questão a cidade tornar-se independente. No arsenal do exército de Abderramão encontravam-se trinta e seis armas de ataque (usadas na antigüidade para destruir ou conquistar fortalezas, muralhas, castelos e fortes de maneira eficaz durante um cerco).[10] As famosas muralhas de granito branco de Saragoça (motivo pelo qual, naquele tempo, ela era conhecida por "a Cidade Branca") foram destruídas pelo exército omíada. Os guerreiros de Abderramão espalharam-se pelas ruas da cidade, acabando rapidamente com as pretensões de al-Husayn de torná-la uma cidade livre.

Legado[editar | editar código-fonte]

Interior da Mesquita de Córdoba (hoje catedral)

Depois desse período de conflitos, Abderramão pode voltar-se para a melhoria da infra-estrutura de al-Andalus. Ele ordenou que fossem construídas ou melhoradas estradas, aquedutos e que uma nova mesquita fosse construída em sua capital, Córdoba. A construção da nova mesquita iniciou-se por volta do ano 786 aproveitando a estrutura original de uma basílica visigótica dedicada a São Vicente. Na época ela tornou-se muito conhecida e foi considerada um local santo para muitos muçulmanos. Posteriormente, ela seria chamada de Mesquita de Córdoba (hoje catedral).

Abderramão sabia que um de seus filhos herdaria um dia o governo de al-Andalus, mas a região ainda encontrava-se sendo fonte de constantes revoltas. Abderramão então sentiu que ele não poderia contar sempre com a população local para formar um exército leal e decidiu formar um exército pago e fixo constituído principalmente por berberes do Norte da África.[7] Como era comum durante os anos de expansão islâmica da Arábia, a tolerância religiosa era praticada. Abderramão continuou a permitir que judeus e cristãos mantivessem e praticassem a sua fé. Eles tinham, entretanto, que pagar uma taxa por tal privilégio.

A política de Abderramão de cobrar taxas de não muçulmanos e que continuou a ser praticada pelos governantes após ele, mudou a dinâmica religiosa de al-Andalus. Provavelmente devido aos excessivos impostos, a maioria da população do país tornou-se muçulmana[6] Porém, outros estudiosos têm argumentado que apesar de 80% de al-Andalus ter se convertido ao Islamismo, isso na realidade só ocorreu por volta do século X.[8]

Últimos anos[editar | editar código-fonte]

Próximo ao final de sua vida, Abderramão tornou-se paranóico e isolou-se em seu palácio. O emir tratou muitos de seus antigos amigos, tais como Bedr, com crueldade.[5] Ele mandou matar alguns de seus apoiadores, exilou outros e rebaixou a patente de outros.

A data de morte de Abderramão é incerta, mas geralmente é aceita como tendo ocorrido entre 785 e 788. Abderramão morreu em sua adotada cidade de Córdoba e foi supostamente sepultado no interior da Grande Mesquita da cidade. O filho primogênito de Abderramão foi escolhido como seu sucessor e mais tarde ficou conhecido por Hisham I. Abderramão foi um bom exemplo de um fundador de uma dinastia oriental, e fez tão bem seu trabalho que a dinastia omíada durou no al-Andalus cerca de dois séculos e meio (1031), ocorrendo seu apogeu durante o governo de Abderramão III.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Abderramão I
Nascimento: 731 Morte: 788
Recriado
Último detentor do título:
Marwan II
como Califa em Damasco
Emires de Córdoba
756–788
Sucedido por:
Hisham I

Referências[editar | editar código-fonte]

  1. William Montgomery Watt disse que o nome al-Andalus "foi usado exclusivamente para aquela parte da península sob o controle muçulmano". "Islamic Surveys 4: A History of Islamic Spain". Edinburgh, Scotland; Edinburgh University Press, 1965, página 17
  2. Abd ar-Rahman I
  3. Foundation for Medieval Genealogy: Moorish spain
  4. Paul Lunde, Islamic Seville, January/February 1993 print edition of Saudi Aramco World, p. 20-31
  5. a b c d e f g h i j k l m n o p Ahmed Mohammed al-Maqqari. "The History of the Mohammedan Dynasties in Spain; extracted from the Nafhu-T-Tib Min Ghosni-L-Andalusi-R-Rattib Wa Tarikh Lisanu-D-Din Ibni-L-Khattib". Traduzido por Pascual de Gayangos y Arce, membro do Comitê Oriental de Tradutores, e posteriormente professor de árabe no Athenæum de Madrid. Em dois volumes. VOL. II. Johnson Reprint Corporation, New York, NY. 1964. Páginas 58-94 (Book VI, chapters 1 & 2). Deve-se observar a descrição das características físicas de Abderramão em "Muktabis" do historiador Ibn Hayyan.
  6. a b c d e Philip K. Hitti. "Makers of Arab History". (New York, New York. St Martin’s Press), 1968. Pg 66
  7. a b W. Montgomery Watt. "Islamic Surveys 4: A History of Islamic Spain". (Edinburgh, Scotland; Edinburgh University Press, 1965), pg 32
  8. a b Thomas F. Glick. "Islamic and Christian Spain in the Early Middle Ages". (Princeton, New Jersey. Princeton University Press), pg 38
  9. Jo Ann Hoeppner Moran Cruz. "Western Views of Islam in Medieval and Early Modern Europe: Perception and Other". Edited by David R. Blanks and Michael Frassetto. (New York, New York; Saint Martin's Press, 1999), pg 56
  10. José Luis Corral Lafuente. "Historia de Zaragoza: Zaragoza Musulmana". (Zaragoza, Spain; Ayuntamiento de Zaragoza, 1998), pg 14

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • KENNEDY, Hugh; Os muçulmanos na Península Ibérica, uma história política do Al-Andalus; Europa-América; 1999; ISBN 972-1-04620-5
  • CARR, Raymond; História concisa de Espanha; Europa-América; 2003; ISBN 972-1-05412-7

Ligações externas[editar | editar código-fonte]

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