Acidificação oceânica

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A acidificação oceânica é a designação dada à diminuição do pH nos oceanos causada principalmente pelo aumento do dióxido de carbono (CO2) atmosférico. Estima-se que entre 1752 e 1994 o pH da superfície oceânica tenha diminuído cerca 0,075, de 8,179 para 8,104. Embora essa diferença pareça pequena pelo tipo de escala utilizada, representa um aumento de cerca de 30% na concentração de íons H+, os responsáveis diretos pela acidificação.[1] [2]

A elevação dos níveis de CO2 tem origem nas atividades humanas, como o uso de combustíveis fósseis e o desmatamento. Aquele gás se dissolve nas águas, reage com elas e altera o seu equilíbrio químico, com importantes consequências para a vida marinha e mesmo a sociedade, significando grandes prejuízos potenciais para a biodiversidade dos mares e para a produção de alimentos para consumo humano.

Ciclo do carbono[editar | editar código-fonte]

No planeta Terra o carbono circula através dos oceanos, da atmosfera, da terra e do seu interior, num grande ciclo biogeoquímico. Este ciclo pode ser dividido em dois tipos: o ciclo "lento" ou geológico, e o ciclo "rápido" ou biológico.

Numa escala geológica, existe um ciclo entre a crosta terrestre (litosfera), os oceanos (hidrosfera) e a atmosfera. O Dióxido de Carbono (CO2) da atmosfera, combinado com a água, forma o ácido carbónico, o qual reage lentamente com o cálcio e com o magnésio da crosta terrestre, formando carbonatos. Através dos processos de erosão, estes carbonatos são arrastados para os oceanos, onde se acumulam no seu leito em camadas, ou são assimilados por organismos marinhos que eventualmente, depois de morrerem, também se depositam no fundo do mar. Estes sedimentos vão-se acumulando ao longo de milhares de anos, formando rochas sedimentares como as rochas calcárias.

O ciclo continua quando as rochas sedimentares do leito marinho são arrastadas para o manto da Terra, por um processo de subducção, libertando CO2. O CO2 é devolvido a atmosfera através das erupções vulcânicas e outro tipos de actividades vulcânicas, completando-se assim o ciclo.

O ciclo biológico do Carbono é relativamente rápido: estima-se que a renovação do carbono atmosférico ocorre a cada 20 anos.

Através do processo da fotossíntese, as plantas absorvem a energia solar e CO2 da atmosfera, produzindo oxigénio e hidratos de carbono (açucares como a glicose), que servem de base para o crescimento das plantas. Os animais e as plantas utilizam os hidratos de carbono pelo processo de respiração, utilizando a energia contida nos hidratos de carbono e emitindo CO2. Juntamente com a decomposição orgânica, a respiração devolve o carbono, biologicamente fixado nos stocks terrestres (nos tecidos da biota, na camada de solo e na turfa), para a atmosfera.[3] [4]

Causas[editar | editar código-fonte]

CO2 antropogénico entre 1700 e 1990

A causa principal do aumento da acidificação tem origem antropogénica, sendo a mais importante a absorção do CO2 resultante da actividade humana. Para além disso, o azoto de origem agrícola, industrial e resultante dos transportes e produção de energia, que são igualmente fonte de compostos NH3.[5]

Acidificação[editar | editar código-fonte]

A dissolução de CO2 na água do mar aumenta a concentração do íon H+ na água, reduzindo assim o pH do oceano. Estimativas apontam para que o pH da superfície oceânica tenha diminuído em cerca de 0,1, numa escala logarítmica, enquanto se prevê uma diminuição compreendida entre 0,3 a 0,5 até 2100.[5] [6]

Efeitos[editar | editar código-fonte]

A acidificação constitui um importante desequilíbrio químico dos oceanos, que se complica com a desoxigenação causada pela poluição e com a elevação da temperatura da águas concomitante ao aquecimento global.[7] Como todas as formas de vida marinha dependem de condições estáveis para sobreviver, as mudanças recentes já têm ocasionado problemas para muitas espécies de peixes, dificultando seu crescimento e causado distúrbios de comportamento, ou reduzindo suas populações. A acidificação também interfere no metabolismo de vários grupos de organismos que precisam de carbonato de cálcio para formar suas estruturas corporais rígidas, como corais, esponjas, moluscos de concha, crustáceos, equinodermos e foraminíferos, entre outros. Impactos negativos adicionais podem advir de problemas causados para o plâncton, que está na base da cadeia alimentar marítima. Os efeitos globais da acidificação para a vida marinha ainda precisam de mais estudos, mas potencialmente devem afetar todos os organismos no longo prazo e aumentar o número de "zonas mortas" nos oceanos,[8] [5] [9] [10] [11] [12] [13] que já passam de 400.[14]

Por consequência, a acidificação tende a comprometer ainda mais os estoques de peixes, moluscos e crustáceos para consumo humano, que são alimento essencial ou importante para uma vasta população, agravando o sensível declínio que esses estoques já estão sofrendo por causa da pesca excessiva. Os prejuízos para a sociedade ainda não foram bem determinados, mas podem ser muito elevados, chegando a 100 bilhões de dólares anuais, gerando mais fome e pobreza no mundo.[8] [15] [5] Segundo a Royal Society,

"A acidificação é uma razão poderosa, em acréscimo às mudanças climáticas, para a redução global das emissões de CO2. Devem ser estabelecidas imediatamente ações para a redução global das emissões de CO2 para a atmosfera a fim de evitar um dano irreversível aos oceanos. Recomendamos que todas as abordagens possíveis sejam consideradas para impedir que mais CO2 suba à atmosfera. Nenhuma opção que significar uma contribuição importante deve ser desprezada.... Aparentemente não existe maneira de remover este CO2 adicional dos oceanos depois de ele ter sido absorvido, nem parece haver, realisticamente, algum modo de reverter seus efeitos químicos e biológicos generalizados. Levará milhares de anos para que este CO2 adicional seja removido dos mares por processos naturais, devolvendo-os às suas condições pré-industriais. Assim, parece que a única solução prática para minimizar as consequências de longo prazo é reduzir as emissões de CO2".[5]

O relatório The State of the Ocean 2013, elaborado pelo Programa Internacional sobre o Estado do Oceano em parceria com a União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais, indicou que os riscos aos ecossistemas marinhos foram muitos subestimados, que as mudanças estão acontecendo mais rápido e os efeitos da acidificação, combinados a outras agressões que os mares sofrem, devem se revelar dentro de pouco tempo ainda mais graves do que o previsto anteriormente.[16]

Referências

  1. Hall-Spencer, J. M. et al. (julho de 2008). "Volcanic carbon dioxide vents show ecosystem effects of ocean acidification". In: Nature, 454 (7200):96–9
  2. Key, R. M. et al (2004). "A global ocean carbon climatology: Results from GLODAP". In: Global Biogeochemical Cycles, 18:GB4031
  3. Correia, Alexandra Cristina Pires. Floresta, Ciclo do Carbono e Alterações Climáticas. Naturlink.sapo.pt, 6 de Março de 2009
  4. Pereira, Cristina. Alterações Climáticas. Naturlink.sapo.pt, 6 de Março de 2009
  5. a b c d e The Royal Society. [Raven, John, et al.]. "Ocean acidification due to increasing atmospheric carbon dioxide. Policy document 12/05", Junho de 2005.
  6. Caldeira, K. & Wickett, M. E. (2003). "Anthropogenic carbon and ocean pH". In: Nature, 425 (6956):365–365
  7. IPCC. [Solomon, S., D. Qin, M. Manning, Z. Chen, M. Marquis, K.B. Averyt, M. Tignor and H.L. Miller (eds.)]. Climate Change 2007: The Physical Science Basis. Contribution of Working Group I to the Fourth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press, 2007, pp. 403-533
  8. a b United Nations Environment Programme, GRID-Arendal [Nellemann, C. et alii (eds)]. "The environmental food crisis: The environment's role in averting future food crises". UNEP Rapid Response Assessment Series, 2009, pp. 58-59.
  9. Nienhuis, S.; Palmer, A.; Harley, C. (2010). "Elevated CO2 affects shell dissolution rate but not calcification rate in a marine snail". Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 277 (1693): 2553–2558
  10. "Acidification Of Oceans May Contribute To Global Declines Of Shellfish, Study By Stony Brook Scientists Concludes". School of Marine and Atmospheric Sciences at Stony Brook University. 27/09/2010
  11. Raven, J. A. et al. (2005). Ocean acidification due to increasing atmospheric carbon dioxide. Royal Society.
  12. International Council for Science. Scientific Committee on Oceanic Research, Biological Observatories Workshop. Report of the Ocean Acidification and Oxygen Working Group. Veneza, setembro de 2009
  13. Kroeker, Kristy J.; Micheli, Fiorenza & Gambi, Maria Cristina (2013). "Ocean acidification causes ecosystem shifts via altered competitive interactions". In: Nature Climate Change, 3:156–159
  14. Perlman, David. "Scientists alarmed by ocean dead-zone growth". SFGate, 15/08/2008
  15. Lu, Jian; Vechhi, Gabriel A.; Reichler, Thomas (2007). "Expansion of the Hadley cell under global warming". In: Geophysical Research Letters, 34 (6):L06805
  16. IPSO / IUCN. The State of the Ocean 2013: Perils, Prognoses and Proposals.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]