Cernuno

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A figura de tipo cornudo "Cernunnos" no caldeirão Gundestrup.

Cernuno (em latim e nos idiomas celtas, Cernunnos) é o nome convencional dado nos estudos celtas às representações do deus com chifres do politeísmo celta. O próprio nome é apenas atestado uma vez, no Pilar dos Barqueiros, do século I, mas as representações de uma figura com chifres, frequentemente sentada em "posição de lótus", e frequentemente associada a animais e a manter ou vestir torques, são conhecidas de outras instâncias.

Nada é conhecido sobre o deus de fontes literárias, e detalhes sobre seu nome, seu culto ou sua significância na religião céltica são desconhecidos. Interpretações especulativas o identificam como um deus da natureza ou fertilidade.[1]

Nome[editar | editar código-fonte]

O teônimo [C]ernunnos aparece na Pilar dos Barqueiros, um monumento galo-romano datando do 1o. século inicial a.C., para rotular um deus representado com cornos de veado em seu primeiro estágio de crescimento anual.[2] Ambos os chifres têm torques pendurados neles.[3]

O nome tem sido comparado a um epíteto divino Carnonos em uma inscrição céltica escrita em caracteres gregos em Montagnac, Hérault (como καρνονου, karnonou, no caso dativo).[4] Um adjetivo galo-latim carnuātus, "com chifres," também é encontrado.[5]

A forma proto-céltica do teônimo é reconstruída como ou *Cerno-on-os ou *Carno-on-os. O aumentativo -on- é característico do teônimo, como em Maponos, Epona, Matronae e Sirona.[6] Maier (2010) estabelece que a etimologia de Cernunnos é desconhecida, como a palavra céltica para "corno" como um a (tal como em Carnonos).[3]

Karnon do gaulês "corno" é cognato com cornu do latim e com *hurnaz do germãnico, com horn do inglês, basicamente do proto-indo-europeu.[7] O étimo karn- "corno" aparece tanto no gaulês como nos ramos gálatas do celta continental. Hesíquio de Alexandria lustra a palavra gálata karnon (κάρνον) como "trompete gálico", isto é, o corno militar celta listado como o carnyx (κάρνυξ) de Eustátio de Tessalônica, que nota sino com forma animal do instrumento.[8] A raiz também aparece nos nomes de regimes celtas, sendo o mais proeminente entre eles, os Carnutes, significando algo como "os Únicos Com Chifres,"[9] e em vários exemplos de nome civil encontrados nas inscrições.[10]

Evidência epigráfica[editar | editar código-fonte]

O nome Cernunnos ocorre apenas na "Pilar dos Barqueiros" (Pilier des nautes),[11] agora mostrado no Musée National du Moyen Age em Paris. Construído por marinheiros gauleses provavelmente no século 14 D.C.,[12] foi descoberto em 1710 dentro das fundações da catedral de Notre-Dame de Paris, sítio da antiga Lutécia (Paris), a capital da civitas dos Parísios célticos. A coluna de pedra distintiva é um monumento importante da religião galo-romana. Seus baixo relevos retratam e rotulam por nome várias deidades romanas tais como Júpiter, Vulcano e Castor e Pólux, com as deidades gálicas tais como Esus, Smertrios, e Tarvos Trigaranus. O nome Cernunnos pode ser claramente lido nos desenhos das inscrições do século 18, mas a letra inicial foi obscurecida desde então que hoje apenas a leitura [_]ernunnos pode ser verificada[13]

Evidência adicional é dada em uma inscrição sobre uma placa de metal de Steinsel-Rëlent em Luxemburgo, no território dos tréveros célticos. Esta inscrição[14] lida Deo Ceruninco, ao deus Cerunincos", foi assumida ser a mesma deidade.[carece de fontes?] A inscrição gaulesa de Montagnac[15] lida αλλετ[ει]υος καρνονου αλ[ι]σο[ντ]εας (alleteiuos karnonou alisonteas), com a última palavra sendo possivelmente um nome local baseado em alisia, "árvore de serviço" ou "rocha" (compare Alésia, Alisiia gaulesa).[16]

Iconografia[editar | editar código-fonte]

Deus de Etang-sur-Arroux, uma representação possível de Cernuno. Ele veste um torque no pescoço e sobre o peito. Duas cobras com cabeças de carneiro o circundam na cintura. Duas cavidades no topo de sua cabeça estão provavelmente projetadas para receber cornos de veado. Duas pequenas faces humanas nas costas de sua cabeça indicam que ele é tricefálico. Musée d'Archéologie Nationale.
Entalhe de rocha de uma figura com chifres nos Parque nacional de Naquane, Itália.[17]

O deus rotulado [C]ernunnos na Pilar dos Barqueiros é retratado com chifres de veado em seus estágios iniciais de crescimento anual.[2] Ambos os chifres tem torques pendendo deles. A parte mais baixa do seu relevo está perdida, mas as dimensões sugerem que o deus estava sentado na "posição de Buda", provendo um paralelo direto à figura com chifres no caldeirão Gundestrup.

A despeito do nome Cernunnos não estar atestado em mais nenhum outro lugar, ele é comumente usado na literatura celtológica como descrevendo todas as representações comparáveis de deidades cornudas.

Este tipo "Cernunnos" na iconografia céltica é frequentemente retratado com animais, em particular o veado, e também frequentemente associado com uma serpente com cornos de carneiro, além da associação com outras bestas com menor frequência, incluindo touros (no Rheims), cachorros, e ratos. Por causa de sua associação frequente com criaturas, acadêmicos descrevem Cernunnos frequentemente como o "Senhor dos Animais" ou o "Senhor das Coisas Selvagens", e Miranda Green o descreve como um "deus pacífico da natureza e de frutescência".[18]

O Pilier des nautes o liga aos marinheiros e ao comércio, sugerindo que também era associado ao bem estar material tanto ao fazer uma bolsa de moedas de Cernunnos de Rheims (Marne, Champagne, França)—na antiguidade, Durocortorum, a capital civitas da tribo Remos—quanto o veado vomitando moedas de Niedercorn-Turbelslach (Luxemburgo) nas terras dos tréveros. O deus pode ter simbolizado a fecundidade do floresta habitada por veados.

Outros exemplos das imagens de "Cernunnos" incluem um petroglifo em Val Camonica na Gália Cisalpina. A figura humana com chifres foi datada como pertencendo inicialmente ao século 7 A.C. ou tardiamente no século 4.[19] Uma criança com chifres aparece em um relevo de Vendeuvres, flanqueada por serpentes e segurando uma bolsa feminina e um torque.[20] A melhor imagem conhecida aparece no caldeirão Gundestrup encontrado em Jutlândia, datando do século I a.C., pensado representar um tema céltico embora usualmente visto como de acabamento trácio.

Entre os celtas ibéricos, figuras cornudas ou chifrudas do tipo Cernuno incluem um deus "tipo-Janus" de Candelario (Salamanca) com dois rostos e dois pequenos cornos; um deus cornudo das colinas de Ríotinto (Huelva); e uma representação possível da deidade Vestius Aloniecus próximo ao seu altar em Lourizán (Pontevedra). Os cornos são aceitos representar "força agressiva, vigor genético e fecundidade."[21]

Representações divinas do tipo Cernuno são exceções são a visão frequentemente-expressa de que os celtas apenas começaram a representar seus deuses na forma humana depois da conquista romana da Gália.[22] O "deus com cornos" céltico, enquanto bem atestado na iconografia, não pode ser identificado na descrição da religião céltica na etnografia romana e não parece ter sido dado qualquer interpretatio romana, talvez devido a ser muito distintivo ser traduzível ao panteão romano.[23] Enquanto Cernunnos nunca foi assimilado, acadêmicos têm às vezes comparados a ele funcionalmente às figuras divinas gregas e romanas tais como Mercúrio_(mitologia),[24] Actaeon, formas especializadas de Júpiter, e Dis Pater, o último dos quais Júlio César disse que era considerado o ancestral dos gauleses.[25]

Reflexos possíveis no Céltico insular[editar | editar código-fonte]

Existem tentativas de encontrar a raiz cern no nome de Conall Cernach, o irmão adotivo do herói irlandês Cuchulainn[26] no Ciclo do Ulster. Nesta linha de interpretação, Cernach é tomada como um epíteto de um campo semântico amplo — "angular; vitorioso; conduzindo um crescimento proeminente" — e Conall é visto como "a mesma figura" como o antigo Cernunnos.[27]

Conexão possível a São Ciarán[editar | editar código-fonte]

Alguns vêem as qualidades de Cernuno agrupadas na vida de São Ciarán de Saighir, um dos Doze Apóstolos da Irlanda. Quando estava construindo sua pequenina primeira célula, como seu hagiógrafo se estende, seu primeiro discípulo e monge era um porco do mato que tinha sido representado meigo por Deus. Este foi seguido por uma raposa, um texugo, um lobo e um veado.[28]

Neopaganismo[editar | editar código-fonte]

Na Wicca e outras formas de neopaganismo um deus cornudo é reverenciado; esta divindade sincretiza um número de deuses cornudos e chifrudos de várias culturas, incluindo Cernuno. O deus cornudo reflete as estações do ano em um ciclo anual da vida, morte e renascimento.[29]

Na tradição do Wicca Gardneriana, o deus cornudo é às vezes especificamente referido como Cernunnos, ou às vezes também como Kernunno.[30]

Ver também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. Green, Miranda. Animals in Celtic Life and Myth. [S.l.]: Routledge, 1992. 227–8 p.
  2. a b A. Kingsley Porter, "A Sculpture at Tandragee," Burlington Magazine 65 (1934), p. 227, apontando a maturação relativa dos chifres.
  3. a b Maier, Bernard. Dictionary of Celtic Religion and Culture (Alfred Kröner, 1994; Boydell, 2000), p. 69 online.
  4. Xavier Delamarre, Dictionnaire de la langue gauloise (Éditions Errance, 2003), pp. 106–107.
  5. Equivalente ao latim cornutus, "com chifres"; Delamarre, citing J. Vendryes, Revue Celtique 42 (1925) 221–222.
  6. Delamarre, citing M. Lejeune, Lepontica (Paris 1971), p. 325.
  7. Pokorny (1959) "k̑er-, k̑erə-; k̑rā-, k̑erei-, k̑ereu"[1]
  8. Delamarre; texto grego e tradução inglesa da passagem de homéricos de Eustátio comentários dado por Edward Wigan, "Account of a Collection of Roman Gold Coins," Numismatic Chronicle 5 (1865), p. 11 online.
  9. Também Carnos e Carnónacas.
  10. Tais como Carnarus, Carnatus, Carneolus, Carnius e Carnicus; Altay Coşkun with Jürgen Zeidler, "'Cover Names' and Nomenclature in Late Roman Gaul: The Evidence of the Bordelaise Poet Ausonius" (2003), p. 33.
  11. Koch, Celtic Culture, p. 396 online.
  12. Baseado na inscrição (CIL XIII. 03026), sobre o acesso do imperador Tibério.
  13. Phyllis Fray Bober, Cernunnos: Origin and Transformation of a Celtic Divinity, American Journal of Archaeology, Vol. 55, No. 1 (Jan., 1951), pp. 13-51 http://www.jstor.org/stable/501179
  14. AE 1987, 0772 = AE 1989, 00542.
  15. RIG 1, number G-224.
  16. Delamarre, Dictionnaire pp. 38–39. Veja também Pierre-Yves Lambert, La langue gauloise (Éditions Errance, 2003), pp. 53 and 58.
  17. Gavaldo, Umberto Sansoni-Silvana. L'arte rupestre del Pià d'Ort: la vicenda di un santuario preistorico alpino, p. 156; Ausilio Priuli, Piancogno su "Itinera" (em italian). Página visitada em 02-04-2009..
  18. Green, Miranda (1992) Animals in Celtic Life and Myth, p. 228.
  19. Webster, "Creolizing the Roman Provinces," p. 221, especialmente nota 103.
  20. Anne Ross, "Chain Symbolism in Pagan Celtic Religion," Speculum 34 (1959), p. 42.
  21. Francisco Marco Simón, "Religion and Religious Practices of the Ancient Celts of the Iberian Peninsula," e-Keltoi: Journal of Interdisciplinary Celtic Studies 6 (2005), p. 310.
  22. Webster, "Creolizing the Roman Provinces," p. 221.
  23. Jane Webster, "Creolizing the Roman Provinces," American Journal of Archaeology 105 (2001), p. 222; a distinção de Cernunnos está também em William Van Andringa, "Religions and the Integration of Cities in the Empire in the Second Century AD: The Creation of a Common Religious Language," in A Companion to Roman Religion (Blackwell, 2007), pp. 87–88.
  24. David M. Robinson and Elizabeth Pierce Belgen, "Archaeological Notes and Discussions," American Journal of Archaeology 41 (1937), p. 132.
  25. Phyllis Fray Bober, “Cernunnos: Origin and Transformation of a Celtic Divinity,” American Journal of Archaeology 55 (1951), p. 15ff.
  26. Porter, "A Sculpture at Tandragee," p. 227.
  27. John Koch, entry on "Cernunnos," Celtic Culture: A Historical Encyclopedia (ABC-Clio, 2006), p. 396.
  28. Mac Cana, Proinsias. Celtic Mythology. Londres: The Hamlyn Publishing Group Limited, 1973. 47–8 p. ISBN 0 600 00647 6
  29. Farrar, Stewart & Janet, Eight Sabbats for Witches
  30. The Rebirth of Witchcraft, Doreen Valiente, page 52-53

Bibliografia[editar | editar código-fonte]

  • Corpus Inscriptionum Latinarum (CIL) volume 13, number 03026
  • Delmarre, Xavier (2003) Dictionnaire de la langue gauloise (2nd ed.) Paris: Editions Errance. ISBN 2-87772-237-6
  • Lejeune, Michel (1995) Recueil des inscriptions gauloises (RIG) volume 1, Textes gallo-grecs. Paris: Editions du CNRS
  • Nussbaum, Alan J. (1986) Head and Horn in Indo-European, Berlin, New York: Walter de Gruyter. ISBN 3-11-010449-0
  • Porkorny, Julius (1959) Indogermanisches etymologisches Wörterbuch Berlin: Franke Verlag


Ligações externas[editar | editar código-fonte]