Flecha

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Ponta de flecha do Neolítico
Tipos de flechas indígenas.

Uma flecha é um projétil disparado com um arco. Ele antecede a história e é comum a maioria das culturas.

Rêmiges de uma flecha.

Uma flecha consiste de uma haste longa e fina, com seção circular, feita originalmente de madeira e agora também de alumínio, fibra de vidro ou de carbono. Ela é afiada na ponta ou armada com uma ponta de flecha em uma extremidade, dispondo na outra de um engaste (nock) para fixação na corda do arco. Pontas de flecha são disponibilizadas em uma variedade de tipos, adequando-se ao uso que será feito da flecha, seja desportivo, caça ou militar. Próximo à extremidade posterior da flecha são colocadas superfícies de estabilização que constituem a empenagem da flecha, a fim de ajudarem na estabilização da trajetória de voo. Geralmente em número de três, as penas são dispostas ao redor da haste formando um ângulo de 120º entre si. Nas flechas modernas as penas são fabricadas em plástico e afixadas com cola especial.

Artesãos que fabricam flechas são conhecidos como "flecheiros", termo relacionado à palavra francesa para flecha, flèche.

Ação da flecha[editar | editar código-fonte]

Conforme a flecha voa em direção ao alvo, sua haste irá entortar-se e flexionar de um lado para o outro, lembrando um peixe debatendo-se fora da água e caracterizando um fenômeno conhecido como paradoxo do arqueiro.

O equipamento, espécie de coldre ou estojo, usado para carregar as flechas usadas pelos arqueiros desde a mais remota antiguidade é chamado de aljava.

Derivações do termo[editar | editar código-fonte]

O termo "flecha" também é usado para o símbolo gráfico utilizado universalmente para apontar ou indicar direção, sendo em sua forma mais sintética um segmento de linha com um triângulo afixado numa ponta, e em formas mais complexas a representação de uma flecha de verdade. Pode ser utilizado para indicar uma posição no mapa, um item na tela do computador (no caso de um cursor), ou em uma lista, por exemplo.

Em aviação, o termo flecha serve para dar a maior distância entre a linha média (linha formada pelos pontos médios entre o intradorso e o extradorso) e a corda de um perfil de uma asa.


Flechas dos nativos do Novo Mundo[editar | editar código-fonte]

Os nativos do Novo Mundo fabricavam suas flechas utilizando os mais diversos tipos de espécies vegetais. As pontas das flechas podiam ser de madeira, osso, ferrão de arraia, dentes de tubarão, obsidiana, ágata, jaspe, madeira petrificada e outros materiais. As pontas podiam ser envenenadas ou não[1]

Flecha com ponta rombuda

Os Uru-Eu-Wau-Wau, ou Boca Negra, de Rondônia, utilizavam para a pescaria flechas com pontas de pupunha e algumas vezes de osso de onça[2] . Os Carijó do Estado de São Paulo faziam as pontas das flechas com nervos e chifres de veados[3] . Os Tapirapé do Mato Grosso usavam osso ou ferrão de arraia para as pontas das flechas. Já os Kaingang, ou Coroado, do Paraná e Santa Catarina empregavam pontas farpadas para o abate de veados, peixes e pequenos mamíferos; pontas lisas e maiores eram para a caça de antas e onças; pontas rombudas eram para macacos e aves[4] .

Os Shasta da Califórnia, quando não queriam danificar pequenos animais atingidos, empregavam flechas com pontas rombudas, formadas por duas pequenas peças de osso ou madeira dura fixadas transversalmente na ponta. O mesmo tipo de flecha era adotado para atingir trutas em águas rasas. A ponta era colocada logo abaixo da superfície da água e a flecha era disparada em direção da cabeça do peixe[5] .

Índios de Pernambuco utilizavam, no início do século XVII, dentes de tubarão como pontas de suas flechas[6] . Várias tribos amazônicas colocavam na ponta de suas flechas, nas suas pescarias, o raio ósseo de mandi que mantinha o peixe fisgado devido à serrilha nele presente[7] . Os Botocudo da Amazônia faziam as pontas de flecha de taquara ou de madeira dura provida de inúmeras farpas, que dificultava sua remoção quando penetrava no alvo[8] . Eles empregavam diferentes pontas de flechas, dependendo da finalidade a que se destinavam. Para o abate de pequenas aves e para não destruí-las, ao invés de flechas eram arremessadas com o arco pequenas bolas de cera ou madeira[9] . Os índios da bacia do rio Uaupés da Amazônia faziam as pontas das flechas de paxiúba, bambu, osso, dente de onça ou de peixe e de espinhos de patauá[10] .Os Maués do Amazonas tinham vários tipos de flechas: dois tipos para pesca, um tipo para caça grande, um para aves e um para guerra[11]

Os Xiriana-Teri do norte do estado do Amazonas fabricavam seus arcos e pontas de flechas de várias palmeiras. Os arcos eram confeccionados principalmente da Oenocarpus bacaba e da Jessenia bataua utilizando como ferramenta de corte a parte inferior do maxilar da queixada. Cerca de 10 espécies de palmeiras eram usadas no fabrico de pontas de flechas. Estas muitas vezes recebiam fendas laterais para que se quebrassem dentro do corpo da caça. Na caça ao macaco a ponta da flecha era impregnada com um veneno derivado da resina de Virola theiodora, que relaxa os músculos. Penas eram fixadas nas flechas com linhas que eram fortalecidas com o emprego de resinas como a obtida da árvore anani (Symphonia globulifera L.F.)[12]

Perfilador de flechas

Flechas incendiárias eram utilizadas pelos índios chilenos do século XVI para queimar malocas dos inimigos e mesmo embarcações dos europeus[13] .

Os Panari do Mato Grosso e Pará faziam o tratamento com sucesso de dores fortes e febres com técnica semelhante à acupuntura. Uma miniflecha de vinte centímetros de comprimento era atirada com pequeno arco e a ponta de osso bem fino penetrava dois milímetros na pele do local afetado[14] .

Para endireitar as varetas das quais seriam feitas as flechas, os Hupa as passavam pelo orifício do perfilador de flechas e as flexionavam até não apresentarem nenhuma curvatura[5] .

Índios venezuelanos faziam intenso uso do fogo e água para confeccionar suas armas e embarcações. Com o fogo queimavam a madeira com maior ou menor intensidade, dependendo do que se queria produzir e com conchas davam o acabamento para se tornar um tacape, arco ou ponta de flecha, por exemplo. A ponta da flecha era da própria madeira afiada ou de ferrão de arraia aí preso com auxílio de resina. O curare também era de largo uso entre eles[15] . Os Tupinambá do litoral brasileiro no século XVI também empregavam como ponta de suas flechas, além de ossos e taquaras, o ferrão da arraia[16] .

Flechas dos índios do norte da Califórnia eram feitas de madeira pesada como syringa (Philadelphus lewisii), que embora fossem mais lentas que as flechas do sul feitas de reed (Phragmites spp.), tinham alto poder de impacto. Os Modoc e os Klamath empregavam, na caça às aves aquáticas, flechas sem penas na rabeira e com um pequeno anel de tendão e breu próximo à ponta. Assim, quando atiradas, as flechas defletiam na superfície da água sem afundar, o que aumentava a chance de atingir algum animal[5] Vários outros materiais eram usados na fabricação das pontas de flecha como obsidiana, ágata, jaspe e outras pedras coloridas, além de madeira petrificada[17] .






Referências

  1. CAVALCANTE, Messias S. Comidas dos Nativos do Novo Mundo. Barueri, SP. Sá Editora. 2014, 403p.ISBN 9788582020364
  2. POVOS INDÍGENAS NO BRASIL (S/DATA). Uru-eu-wau-wau. Atividades produtivas. Disponível em http://pib.socioambiental.org/pt/povo/uru-eu-wau-wau/1132 . Consulta em 31/08/2012
  3. CARDIM, Fernão (1540?-1625). Tratados de gente e terras do Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. Da Universidade de São Paulo. 1980, 206 p.
  4. BALDUS, Herbert (1899-1970) Ensaios de etnologia brasileira. São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Cia Editora Nacional. 1937, 346 p.
  5. a b c CAMPBELL, Paul D. Survival skills of native California. Layton, Utah, Gibbs Smith Publisher. 1999, 448 p.
  6. BARLÉU, Gaspar (1584-1648). História dos fatos recentemente praticados durante oito anos no Brasil. Belo Horizonte, Edit. Itatiaia; São Paulo, Edit. da Universidade de São Paulo. 1974, 414 p.
  7. PEREIRA, Nunes (1892-1985). Panorama da alimentação indígena: Comidas, bebidas & tóxicos na amazônia brasileira. Rio de Janeiro, Livraria São José. 1974, 423 p.
  8. AVÉ-LALLEMANT, Roberto (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura; Instituto Nacional do Livro; Coleção de Obras Raras, VII. 1961, Vol. 1 352 p.
  9. JOSÉ, Oiliam. Indígenas de Minas Gerais – Aspectos sociais, políticos e etnológicos. Belo Horizonte, Edições MP. 1965, 217 p.
  10. SILVA, Alcionilio Bruzzi Alves da (1901-1987). A civilização indígena dos Uaupés. São Paulo, Linográfica Editora. 1962, 496 p.
  11. PEREIRA, Nunes (1892-1985). Os índios Maués. Rio de Janeiro, Organização Simões. 1954, 174 p.
  12. PEREIRA, Manuel Nunes (1892-1985). Moronguêtá: um Decameron indígena. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1980, 2ª Ed.; vol. 1. P. 1-434
  13. SAN MARTIN, E. A viagem do pirata Richard Hawkins. Porto Alegre, Artes e Ofícios. 2001, 429 p.
  14. REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Cultura. p. 44-45. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1977, ano I, nº 5, 64p.
  15. GUMILLA, Joseph (1686-1750). El Orinoco ilustrado, y defendido, historia natural, civil y geographica de este gran rio, y sus caudalosas vertientes, govierno, usos y costumes de los índios sus habitadores. Tomo Segundo, Segunda Impression. Madrid, Manuel Fernandez.1745, 428 p.
  16. REVISTA DE ATUALIDADE INDÍGENA. Depoimento de quatro séculos: Bravura e destreza dos Tupinambá impressionam os franceses. p. 11-14. In: Revista de Atualidade Indígena. Brasília, Fundação Nacional do Índio. 1978, ano III, nº 13, 64 p.
  17. TOOLS & WEAPONS OT HE PLAIN INDIANS. Disponível em http://www.kawvalley.k12.ks.us/schools/rjh/marneyg/archived_projects/02_plains-history/02_jmckenzie_weapons.htm Consulta em 22/03/2013.

Ver também[editar | editar código-fonte]

Ligações externas[editar | editar código-fonte]