Área de Proteção Ambiental Carste de Lagoa Santa

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O Carste de Lagoa Santa está localizado no centro-sul de Minas Gerais, e é uma das regiões brasileiras mais importantes em termos de paisagem cárstica carbonática e da história das ciências naturais do país. Em termos de suas características físicas, apresenta uma geomorfologia cárstica típica e diversificadas: Grande quantidade de dolinas em variedade de tamanhos, formas e padrões genéticos, muitas vezes limitadas por paredões calcários lineares; Grandes maciços rochosos aflorantes ou parcialmente encobertos; Muitos lagos com diferentes comportamentos hídricos, associados às dolinas ou em amplas planícies rebaixadas, e uma complexa trama de condutos subterrâneos, comumente conectados com o relevo superficial e, assim, acessíveis ao homem.[1].

Características[editar | editar código-fonte]

Solo[editar | editar código-fonte]

Os solos desenvolvidos sobre as áreas carbonáticas já se prestavam ao uso e ocupação desde a idade pré-paleolítica, geralmente por sua elevada fertilidade natural e riqueza em mananciais hídricos. Atualmente, nessas áreas, que somam aproximadamente entre 7% a 10% do território mundial, assentam-se 25% da população global, em especial o agricultor. Em território brasileiro, essas áreas possuem uma distribuição geográfica em torno de 7%, salientando-se, no entanto, que a maior parte dos trabalhos realizados está relacionada aos estudos espeleológicos, carecendo, portanto, de pesquisas sob a ótica de outras ciências, como a de solos. No Brasil, apesar de se tratar de um carste, algumas dessas áreas são constituídas de solos altamente intemperizados, com baixa fertilidade natural e de vegetação de cerrados. Além do aspecto paisagístico, as propriedades físicas do carste de Lagoa Santa têm uma importância acadêmica por representarem belos exemplos dos processos dinâmicos integrados de dissolução, transporte, deposição clástica, precipitação química e erosão, no âmbito da superfície do terreno (exocarste), no subterrâneo (endocarste) e na interface rocha-solo (epicarste). Esses processos foram desenvolvidos em calcarenito puro da formação Sete Lagoas (Grupo Bambuí). O relevo cárstico apresenta formas características de fácil identificação. São elas as muralhas abruptas e os rios em vales apertados, longos e profundos, cujas paredes escarpadas são perfuradas por grutas, onde correm ribeiros de água muito límpidas. Nota-se que os cursos d’água subaéreos são raros em virtude da sua penetração através das fendas criadas pela fácil solubilidade da rocha. O termo “carste” é oriundo da região de Karts, na Iugoslávia, onde pela primeira vez foi estudado esse tipo de relevo. Entretanto, esse mesmo fenômeno é encontrado em Carso (Itália), Causes (França), Altamira (Espanha), Kentucky e Flórida (Estados Unidos) e em muitos outros lugares do mundo. No Brasil, o ambiente cárstico pode ser encontrado principalmente nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Bahia, Ceará e outros.[2]

Localização[editar | editar código-fonte]

O carste de Lagoa Santa é uma região a cerca de 30 km ao norte de Belo Horizonte identificada pela ocorrência de um denso conjunto de feições geomorfológicas tipicamente dissolutivas e por uma hidrografia que pode ser caracterizada como mista de componentes fluviais (subaéreos) e cársticos (subterrâneos). Grande parte da área cárstica situa-se no interflúvio do rio das Velhas (a leste) e ribeirão da Mata (a oeste-sudoeste), estando limitada ao sul-sudoeste pela ocorrência das rochas granito-gnáissicas do embasamento cristalino. As principais sub-bacias hidrográficas do carste são definidas pelos córregos Samambaia, Palmeiras-Mocambo, Jaguara e riacho do Gordura, todas elas têm descarga final ou no rio das Velhas a nordeste, ou no ribeirão da Mata a sudoeste, níveis de base regionais. Dois compartimentos fisiográficos maiores descrevem os principais domínios morfogenéticos do carste propriamente dito, os quais foram bem delineados por Auler (1994) para a porção-centro sul da área: Planaltos Cársticos e Depressão de Mocambeiro, com cotas variando entre 900m, junto à Serra dos Ferradores, e 650m, onde se encontram os níveis de base locais, como a planície de Mocambeiro e a região de Sumidouro.[1][3]

Hidrografia[editar | editar código-fonte]

As partes dissecadas do planalto cárstico são caracterizadas ou por um relevo fortemente ondulado, em cobertura pedológica, composto por diversas bacias mutuamente articuladas segundo polígonos irregulares (dolinas e uvalas) grosseiramente alinhados, os quais dirigem o escoamento superficial (autogênico) para múltiplos pontos de infiltração, ou ainda segundo áreas onde afloram grandes maciços rochosos lapizeados. Há regiões entalhadas por canyons e vales cegos que caracterizam segmentos fluviocársticos. Diversos condutos subterrâneos são interceptados pela superfície do relevo, tendo sido identificadas centenas de cavernas com diferentes morfologias e dimensões. As áreas mais deprimidas constituem-se em planícies relativamente amplas, de fundo plano e vertentes abruptas recuadas, ocupadas por lagoas temporárias ou canais de drenagem subaérea.[1]

Clima e Vegetação[editar | editar código-fonte]

A temperatura média do ar é da ordem de 23 °C, sendo 11,2 °C a média das mínimas temperaturas num período de 30 anos (mês de julho), e 29,6 °C a média das máximas (outubro a março). A umidade relativa varia de 60 a 77% nos meses mais secos e úmidos, respectivamente, chegando a 96% nos meses mais úmidos. A pluviometria média está em torno de 1380mm. O período seco estende-se por 5 meses, de maio a setembro, com menos de 7% das chuvas anuais, caracterizando um regime pluviométrico tipicamente tropical, havendo uma grande concentração de chuvas no verão e seca no inverno.

As feições cársticas estão desenvolvidas em litótipos neoproterozoicos do Grupo Bambuí, componentes da Formação Sete Lagoas, aflorantes no extremo sudeste da extensa bacia sedimentar pré-cambriana do Bambuí que integra o Cráton do São Francisco.

A região possui formações vegetacionais de cerrado e floresta estacional semidecidual. O cerrado restringe-se a manchas remanescentes, em regeneração ou em transição (mata-cerrado). Nas dolinas e arredores dos afloramentos prevalece a Floresta Estacional Semidecidual. Sobre os afloramentos calcários desenvolve-se Floresta Estacional Decidual (“mata seca”).

O relevo superficial (exocarste) evoluiu a partir da configuração primordial de redes hídricas subterrâneas (endocarste) e de uma dinâminca intensa na interface rocha-solo (epicarste), cuja integração favoreceu o aparecimento de múltiplos pontos de captura de águas superficiais segundo bacias primárias e secundárias (dolinas e uvalas). Em paralelo, tem-se a conformação de um relevo rochoso encoberto fortemente irregular como atestam torres residuais e verrugas aparentes em áreas dissecadas. Outras feições comuns são os grandes paredões lineares - geralmente resultantes da evolução das dolinas - canyons, vales cegos e dolinas de abatimento instalados em segmentos fluviocársticos, bem como grandes planícies rebaixadas alagadas sazonalmente. A trama de condutos subterrâneos, estruturalmente controlados, está hoje em grande parte diretamente conectada à superfície, constituindo centenas de cavernas.

A presença dessas centenas de cavernas faz a região ser considerada o berço da espeleologia brasileira. A este ambiente estão associados sítios paleontológicos de grande valor, com componentes da megafauna pleistocênica extinta, como a preguiça gigante, tigre-dente-de-sabre, lhama, cavalo, tatu gigante, gliptodonte e mastodonte, assim como vestígios muito importantes da ocupação humana pré-histórica no Brasil, entre os quais, ossos de cerca de 12 mil anos descritos por Peter Wilhelm Lund como o “Homem de Lagoa Santa”.[1][2][3].

História[editar | editar código-fonte]

Cortinas Gruta da Lapinha

Há muitos registros arqueológicos pré-históricos na região indicando uma ocupação humana que chega a 12.000 anos (Prous et al., 1998). São sítios com ossadas, artefatos indígenas em pedra, ossos e cerâmica, vestígios de fogueiras, gravuras, picoteamentos e pinturas rupestres, a maioria resguardados nas cavernas, abrigos e junto aos paredões rochosos. Populações sucederam-se ocupando de forma mais densa e permanente as cavernas e abrigos, cultivando o solo e fazendo uso das águas de lagoas em dolinamentos. Com a chegada das primeiras bandeiras, que teve Fernão Dias Paes como precursor por volta de 1675, houve rápida desestruturação das sociedades indígenas, especialmente em decorrência das notícias de ouro aluvionar na região. O homem volta a relacionar-se com as cavernas da região, com interesses econômicos sobre a extração de salitre para a fabricação da pólvora. Nessas investidas foram achados ocasionalmente ossos animais e humanos que atraíram a atenção dos pesquisadores naturalistas da época. A partir de 1840, tem-se registros das primeiras explorações e de estudos sistemáticos nas cavernas, realizados pelo dinamarquês Peter W. Lund. Seus trabalhos projetaram a região de Lagoa Santa no mundo científico, especialmente por ter sido suspeita a contemporaneidade entre as populações pré-históricas conhecidas, como “Homem de Lagoa Santa". A equipe de paleontologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) se dedica, há alguns anos, ao estudo do acervo encontrado na região e em outras áreas cársticas do Brasil. Inclusive, no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas existem duas exposições relacionadas a APA Carste de Lagoa Santa, uma sobre Lund e outra sobre a megafauna pleistocênica.[1]

Outras exposições relacionadas se encontram em vários Museus do Brasil e do exterior, alguns deles são o Museu de Zoologia de Copenhague (Dinamarca), Museu do Homem de Paris e o Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como coleção particular, cita-se o Museu Arqueológico da Lapinha. Além do "Homem de Lagoa Santa" também foram encontrados vários ossos de animais pré-históricos, juntamente com descobertas de inúmeros sítios, cavernas e pinturas rupestres.[4]

A maioria das cavernas do Carste de Lagoa Santa sofreu ou vem sofrendo interferências diretas ou indiretas de atividades antrópicas. As mais comuns e notáveis são as de ordem estética: quebra de espeleotemas, pichações e acúmulo de lixo. No entanto, há outras lesões consideradas graves, embora menos evidentes: são as que resultam em transformações lentas ou que incidem sobre componentes menos perceptíveis como a fauna, os depósitos sedimentares que a sustentam, a atividade da água. São exemplos a cobertura ou impregnação de superfícies por fuligem de fogueiras ou outras substâncias corrosivas, crescimento de algas induzido por iluminação artificial, recobrimento de áreas por sedimentos mobilizados, inundação, seca, alteração na composição físico-química e biológica da água e modificações de cursos naturais d'água que alteram o ciclo de atividade dos espeleotemas, a evolução natural das formas e o desenvolvimento da fauna. O ambiente de cavernas é altamente vulnerável à depredação por estar em área populosa e industrial, e já se encontra impactado, com alguns casos críticos. A intensa depredação decorrente da própria visitação aponta a necessidade de um projeto de educação ambiental direcionado à população local. Acredita-se que a forma mais viável e eficiente de conservação seja a fiscalização pelos próprios moradores, uma vez conscientizados do valor do patrimônio natural onde residem. É também saudável a manutenção da vegetação nativa nas proximidades das entradas, ou seja, junto aos maciços, paredões e dolinas, o que significa a conservação da própria paisagem externa.[1].

Homem de Lagoa Santa[editar | editar código-fonte]

Nome dado ao crânio descoberto em 1840 por Peter Lund na gruta do Sumidouro em Lagoa Santa. É considerado um dos fósseis mais importantes do mundo e usado por Darwin como uma das provas da Teoria da Evolução.[1][5].

APA[editar | editar código-fonte]

A APA (Área de Proteção Ambiental) Carste de Lagoa Santa foi criada pelo Decreto Federal n. 98881 de 25 de janeiro de 1990[6]. A criação dessa área de proteção ambiental, que tem 35600 ha é justificada pela relevância que as associações cársticas têm em âmbito nacional, em termos paisagísticos, de fauna e flora, de riquezas subterrâneas cênicas, minerais e fossilíferas, em aspectos históricos, pré-históricos, culturais e nas particularidades de seu sistema hídrico.[3] O objetivo da Área de Proteção Ambiental (APA) é garantir a conservação do conjunto paisagístico e da cultura regional, proteger as cavernas e demais formações cársticas, sítios arqueológicos e paleontológicos, a vegetação e a fauna. O Plano de Manejo da APA visa o uso racional dos recursos naturais da região. O zoneamento da região permite uma fiscalização mais eficiente e melhor gerenciamento dos empreendimentos que causam impacto ambiental e cultural. Além disso a implantação da APA tem procurado valorizar e conciliar o patrimônio natural e científico às condições de intenso desenvolvimento urbano e industrial próprias à região.[1]

A Instrução Normativa nº1/97 [7] define o roteiro metodológico para gestão da APA Carste de Lagoa Santa.

Ver Também[editar | editar código-fonte]

Referências

  1. a b c d e f g h Mylène Berbert Born. «Carste de Lagoa Santa, MG» (PDF). Sigep. Consultado em 12 de Janeiro de 2013 
  2. a b Edgar Shinzato. «O CARSTE DA ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL DE LAGOA SANTA (MG) E SUA INFLUÊNCIA NA FORMAÇÃO DOS SOLOS» (PDF). Universidade estadual do Norte Fluminense UENF. Consultado em 13 de Janeiro de 2013 
  3. a b c Serviço geológico do Brasil, Brasil em Ação, IBAMA. «Levantamento Espeleológico» (PDF). CPRM. Consultado em 13 de Janeiro de 2013 
  4. Grupo Viarural. «APA Carste Lagoa Santa MG». Viarural Turismo. Consultado em 12 de Janeiro de 2013 
  5. Granbel. «História de Lagoa Santa, MG». Granbel. Consultado em 12 de Janeiro de 2013 
  6. «Decreto Federal Nº 18.88.1/90». LEXML. Consultado em 13 de Janeiro de 2013 
  7. «Instrução Normativa nº1/97» (PDF). Tribunal de Contas da União. Consultado em 13 de Janeiro de 2013 

Referências Bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  • Auler, A.S. -1994 - Hydrogeological and hydrochemical characterization

of the Matozinhos-Pedro Leopoldo Karst, Brazil. Western Kentucky, 110p. (Master of Science, Faculty of the Department of Geography and Geology).

Belo Horizonte, 1992.

  • Berbert-Born, M., Horta, L.S. e Dutra, G.M. 1998. Levantamento

Espeleológico. In: APA Carste de Lagoa Santa - Patrimônio Espeleológico, Histórico e Cultural. Belo Horizonte, CPRM

  • IBAMA. 71p, anexos e mapas. (Série APA Carste de Lagoa

Santa, volume III).

Belo Horizonte, CETEC. 38p. Relatório técnico.

  • CPRM-Serviço Geológico do Brasil -1994- Caracterização

geomorfológica da região cárstica de Sete Lagoas-Lagoa Santa (MG).

  • IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística -1993- Mapa

de vegetação do Brasil, escala 1:1500.000.

  • IBAMA. (Série APA Carste de Lagoa Santa, volume I).
  • IBAMA. 22 p., anexos e mapas. (Série APA Carste de Lagoa

Santa, volume III). - Livros da CPRM, IBAMA.

Ligações Externas[editar | editar código-fonte]