Alimento geneticamente modificado

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Ir para: navegação, pesquisa
Mamão geneticamente modificado para resistir ao vírus Potyvirus.

Alimentos geneticamente modificados, ou alimentos transgênicos, são alimentos produzidos com base em organismos que, através das técnicas da engenharia genética, sofreram alterações específicas no DNA. Essa técnicas tem permitido a introdução de culturas agrícolas de traços diferenciados, assim como um controle sobre a estrutura genética bastante superior em relação ao que proporciona a Mutação artificial e a Seleção artificial.[1]

História[editar | editar código-fonte]

Em 1946, os cientistas descobriram pela primeira vez que o DNA pode ser transferido entre organismos.[2] No princípio da década de 1990, a quimosina recombinante foi aprovada para uso em diversos países, substituindo o coalho na fabricação de queijo.[3] Em 1994, o tomate transgênico Flavr Savr foi aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) para comercialização nos EUA - a modificação proporcionou um retardo na maturação do tomate após o seu colhimento.[4] A venda dos alimentos geneticamente modificados começou em 1994, quando a empresa Calgene (hoje posse da Monsanto) comercializou pela primeira vez seu Flavr Savr.[4] Nos Estados Unidos, durante o ano de 1995, as seguintes culturas transgênicas receberam aprovação para serem comercializadas: canola com a composição do óleo modificada (Calgene), Bacillus thuringiensis (Bt), milho (Ciba-Geigy), algodão resistente ao herbicida Bromoxynil (Calgene), algodão Bt (Monsanto), batata Bt (Monsanto), soja resistente ao herbicida glifosato (Monsanto), abóbora resistente a vírus (Monsanto-Asgrow).[4]

Em 2000, com a criação do Arroz-dourado, os cientistas, pela primeira vez, obtiveram êxito em modificar geneticamente um alimento com a finalidade aumentar seu valor nutritivo. Em 2011, os EUA lideraram uma lista, com diversos países, na produção de culturas geneticamente modificadas, e 25 culturas geneticamente modificadas receberam aprovação para cultivação comercial.[5] Em 2013, cerca de 85% do milho, 91% da soja e 88% do algodão produzidos nos Estados Unidos eram geneticamente modificados.[6] Até hoje, a maioria das modificações genéticas nos alimentos tem priorizado as culturas mais lucrativas e que estão em alta demanda por parte dos agriculturas, tais como soja, milho, canola e óleo de algodão. Essas culturas tem sido projetadas para resistirem a agente patogénicos e herbicida e para apresentar melhores perfis nutricionais. Modificações genéticas aplicadas á pecuária(GM livestock) também tem sido desenvolvida, embora, até novembro de 2013, nenhum produto estava disponível no mercado.[7]

Controvérsia[editar | editar código-fonte]

Organismos oficiais, estudos isolados e importantes associações científicas deram pareceres favoráveis sobre culturas geneticamente modificadas, alegando que os mesmos não representam risco à saúde humana maiores do que os próprios alimentos naturais, embora a maioria deles reconhecesse riscos potenciais e recomendasse mais estudos.[8] [9] [10] [11] [12] [13] [14] [15] A Organização Mundial de Saúde listou vários riscos envolvidos no uso desta tecnologia, e embora declare que não houve até o presente relatos de danos comprovados à saúde humana, recomendou que os estudos sejam continuados.[9]

Entretanto, têm crescido o número de estudos que apontam variados e concretos efeitos negativos dos alimentos modificados e a controvérsia de fato tem sido grande. Segundo Maria Alice Garcia, bióloga e professora da Universidade Estadual de Campinas, "a agressividade com que transgênicos têm sido propagandeados está diretamente relacionada ao fato de, no plano mercadológico de bens de consumo, os produtos da biotecnologia compõem um dos ramos mais promissores do capitalismo atual. [...] No Brasil, a mídia tem apresentado matérias sobre transgênicos, mas, na maioria das vezes, essas matérias expressam mais opiniões de grupos de interesse e não prestam esclarecimentos à população".[16]

Os opositores citam questões de segurança, preocupações ambientais, aumento de intoxicações, reações alérgicas e outras doenças nos consumidores, como câncer e esterilidade, aumento na resistência a antibióticos, danos à biodiversidade, necessidade de maior uso de agrotóxicos, risco de surgimento de superpragas resistentes a todos os pesticidas, prejuízo aos pequenos produtores, e receios econômicos sustentados pelo fato de que sementes geneticamente modificadas, que são fontes de alimentação, estão sujeitas a direitos de propriedade intelectual detidos por corporações multinacionais. Desta forma, a antiga confiança nos transgênicos vem sendo cada vez mais abalada.[17] [18] [19] [20] [21] [22]

Protesto nos Estados Unidos contra o uso de sementes transgênicas e contra a Monsanto, uma das maiores empresas de bioengenharia.

Os verdadeiros efeitos de tais alimentos sobre a saúde dos consumidores provavelmente só serão conhecidos daqui a muitos anos, como alertou o conhecido médico brasileiro Drauzio Varella,[23] mas testes em animais realizados na Itália, França, Canadá e Estados Unidos têm apontado que as cobaias desenvolveram tumores, alergias, esterilidade, malformações fetais e alterações no sistema imunológico, além de terem uma taxa de mortalidade mais elevada, entre outros problemas.[19] [24] Segundo Jeffrey Smith, diretor do Institute for Responsible Technology, "quando permitem que o gado se alimente de plantas de algodão-Bt (algodão transgênico), depois da colheita, milhares de ovelhas, cabras e búfalos morrem. Muitos outros adoecem. Visitei uma aldeia onde durante sete ou oito anos permitiram aos búfalos pastar plantas de algodão natural sem nenhum problema. Porém, em 3 de janeiro de 2008, permitiram aos seus 13 búfalos pastar algodão-Bt pela primeira vez. Depois de um único dia, todos morreram. Essa aldeia perdeu igualmente 26 cabras e ovelhas".[19]

Ao contrário do que diz a propaganda das empresas de biotecnologia, os estudos recentes apontam que os custos de produção não são menores, que o uso de agrotóxicos não é menor, muitas vezes sendo maior, e que na maioria dos casos a produtividade não é maior do que no uso de sementes tradicionais, podendo ser até menor. Também foi apontado que algumas substâncias tóxicas penetram na corrente sanguínea dos consumidores, ao contrário da alegação das empresas de que elas são destruídas no estômago. Quase todos os países da Europa têm rejeitado os produtos transgênicos. Outros países importantes neste cenário, como o Japão e a China, têm imposto medidas de importação e controle mais rigorosas e o uso desses produtos está sendo cada vez mais cerceado e posto em questão.[19] [16] [25] [26] [22] A FAO ultimamente tem recomendado cautela na liberação de alimentos geneticamente modificados, e não recomenda sua liberação sem estudos de impacto ambiental. José Tubino, representante da organização no Brasil, salientou que o problema da fome no mundo não se deve à escassez de alimentos, pois eles existem em quantidade suficiente, e sim à sua má distribuição, o que está ligado diretamente às desigualdades sociais.[27] No Brasil, um dos países que mais cultivam transgênicos, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional alertou para o surgimento de doenças ligadas ao consumo de tais produtos.[28] Uma carta aberta publicada em 2012 por mais de 800 cientistas de 82 países denunciou as exigências legais inconsistentes para a aprovação oficial dos produtos, que se satisfazem com estudos de curto prazo, escassos ou mal dirigidos, a frequente tendenciosidade da mídia na divulgação das supostas vantagens, citaram casos de assédio e censura contra cientistas que tentaram provar impactos negativos,[28] [29] e concluíram dizendo:

"Quando aqueles com algum interesse tentam semear dúvida insensata em torno de resultados inconvenientes, ou quando os governos exploram oportunidades políticas escolhendo ao seu gosto quais evidências científicas vão apresentar, comprometem a confiança pública nos métodos e instituições científicas, e também colocam seus próprios cidadãos em risco. Testes de segurança, regulações baseadas na ciência, e o próprio processo científico, dependem crucialmente de uma confiança amplamente difundida em um corpo de cientistas dedicados ao interesse público e à integridade profissional. Se em vez disso o ponto de partida de uma avaliação do produto é um processo de aprovação manipulado em favor do solicitante, baseado em uma supressão sistemática do trabalho de cientistas independentes atuando em nome do interesse público, então jamais poderá haver um debate honesto, racional ou científico".[30]

Referências

  1. GM Science Review First Report, Prepared by the UK GM Science Review panel (July 2003). Chairman Professor Sir David King, Chief Scientific Advisor to the UK Government, P 9
  2. Lederberg J, Tatum EL. (1946). "Gene recombination in E. coli". Nature 158 (4016). DOI:10.1038/158558a0. Bibcode1946Natur.158..558L.
  3. Staff, National Centre for Biotechnology Education, 2006. Case Study: Chymosin
  4. a b c James, Clive (1996). Global Review of the Field Testing and Commercialization of Transgenic Plants: 1986 to 1995 The International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications. Visitado em 17 July 2010.
  5. James, C (2011). ISAAA Brief 43, Global Status of Commercialized Biotech/GM Crops: 2011 ISAAA Briefs International Service for the Acquisition of Agri-biotech Applications (ISAAA). Visitado em 2012-06-02.
  6. Center for Food Safety About Genetically Engineered Foods
  7. Consumer Q&A Fda.gov (2009-03-06). Visitado em 2012-12-29.
  8. American Association for the Advancement of Science, Board of Directors. Legally Mandating GM Food Labels Could Mislead and Falsely Alarm Consumers, 2012
  9. a b World Health Organization. Food safety: 20 questions on genetically modified foods, 2012
  10. American Medical Association. Report 2 of the Council on Science and Public Health: Labeling of Bioengineered Foods, 2012
  11. United States Institute of Medicine & United States National Research Council. Free full-text "Safety of Genetically Engineered Foods: Approaches to Assessing Unintended Health Effects". National Academies Press, 2004
  12. Winter, C. K. & Gallegos, L. K. Safety of Genetically Engineered Food. University of California Agriculture and Natural Resources Communications, Publication 8180, 2006.
  13. Ronald, Pamela. "Plant Genetics, Sustainable Agriculture and Global Food Security". In: Genetics, 2011; 188 (1):11–20
  14. Miller, Henry. "A golden opportunity, squandered". In: Trends in biotechnology, 2009; 27 (3):129–130
  15. Preston, Christopher. "Peer Reviewed Publications on the Safety of GM Foods". AgBioWorld, 2011
  16. a b Garcia, Maria Alice. "Alimentos Transgênicos: riscos e questões éticas". In: Revista de Agricultura, 2001; 76 (3)
  17. Mattei, Lauro. "Produtos Transgênicos: problemas e incertezas para a segurança alimentar". In: Revista Economia Ensaios, 2000; 15 (1)
  18. "Publicado novo estudo relacionando o consumo de alimentos transgênicos e a problemas de saúde". FETRAF-Sul, 05/11/2010
  19. a b c d Fiaschitelli, Alberto. "Alimentos transgênicos: um perigo real para a saúde". Epoch Times, 12/11/2014
  20. Instituto Brasileiro de Defesa o Consumidor. "Saiba o que são os alimentos transgênicos e quais os seus riscos".
  21. Almeida, Luciano Mendes de. "O risco dos transgênicos". Rede de Agricultura Sustentável, 28/06/2003
  22. a b Londres, Flavia. "Transgênicos no Brasil: as verdadeiras conseqüências". In: XVII Congreso Brasileiro de Ciência e Tecnologia de Alimentos — A Sustentabilidade na Produção de Aliemntos e a Agenda 21 do Brasil. Fortaleza, 09/08/2000
  23. Varella, Drauzio. "Reflexões transgênicas", 23/04/2011
  24. Thuswohld, Maurício. "Pouca transparência marca estudos sobre riscos dos transgênicos". Repórter Brasil, 12/11/2013
  25. "Transgênicos e agrotóxicos. Tudo a ver? Entrevista especial com Alan Tygel". Instituto Humanitas - UNISINOS, 07/05/2014
  26. "Ao contrário do prometido, transgênicos trouxeram aumento do uso de agrotóxicos". Sul 21, 27/03/2015
  27. Floriani, Adriano. "Problema da fome no mundo não é falta de alimentos". Repórter Terra.
  28. a b Dotta, Rafaella. "Alerta contra alimentos transgênicos". Brasil de Fato, 07/07/2014
  29. "Carta Aberta em Defesa da Ciência e contra os transgênicos". Revista do Terceiro Setor, 10/10/2012
  30. "Seralini and Science: an Open Letter". Independent Science News, 02/10/2012