Boémia (estilo de vida)

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"No verão (A boêmia)", tela de Pierre-Auguste Renoir (1868).

Boêmia, boemia (português brasileiro) ou boémia (português europeu)[1] é a prática de um estilo de vida não convencional, alegre e despreocupado,[2] muitas vezes na companhia de pessoas afins, com poucos laços permanentes, envolvendo atividades musicais, artísticas ou literárias. Neste contexto, boêmios pode ser errantes, aventureiros, ou vagabundos.

Evolução do termo[editar | editar código-fonte]

Amedeo Modigliani, tido como um dos arquétipos do artista boémio.

A palavra deriva do francês bohème, que, originalmente, designa o habitante da Boêmia e do topônimo latino medieval Bohemus (do latim clássico Boihaemum, significando país dos Boii, um povo celta da Europa central).

No século XV, bohème tornou-se um termo comum para os ciganos da França, que, erroneamente, pensava-se terem chegado à França no século XV a partir da Boêmia, naquele tempo uma região protoprotestante e considerada herética por muitos católicos romanos. Já no século XVII, com Gédéon Tallemant des Réaux, bohème passa a designar, também, o indivíduo "que leva uma vida desregrada", num estilo de vida caracterizado pela despreocupação com relação a bens materiais, a grandes projetos, às normas. Trata-se de uma referência ao fato de que muitos artistas e criadores começaram a concentrar-se em regiões de classe baixa e aluguel barato, frequentemente bairros ciganos, bem como à influência dessas regiões no estilo de vida desses artistas, que passam a viver à margem da sociedade, a exibir um comportamento fortemente liberal e polêmico, e a mostrar uma preocupação em usar roupas excêntricas.[3]

O termo passa, por empréstimo, do francês ao português, na acepção do século XVII: "vagabundo, indivíduo de vida desregrada" ou não convencional, eventualmente ligado às artes ou à literatura, ou mero aventureiro que vive de forma despreocupada.[4]

Mais tarde, no século XIX, surge um movimento artístico e literário constituído à margem do movimento romântico, mais "aristocrático" e fora do uso original do termo. Será Balzac que, em 1844, ao escrever Um Príncipe da Boémia, faz rasgados elogios a tal juvenil comportamento:

A palavra Boémia diz tudo. Ela não tem nada e vive de tudo. A esperança é a sua religião, a em si mesma é o código, a caridade o seu orçamento. Todos esses jovens são maiores do que o seu infortúnio, abaixo da sorte, mas acima do destino.

Segundo Jerrold Seigel, trata-se de um fenômeno social e literário que teve lugar em diversos pontos do planeta e em diferentes épocas. O autor considera a boêmia como uma manifestação de jovens burgueses[5] que, no século XIX e sobretudo nas décadas de 1830 e 1840 na França, buscavam um estilo de vida especial e que se tornou popular principalmente a partir dos escritos de Henri Murger,[6] autor de Scènes de la vie de bohème ("Cenas da vida de boemia"). O romance foi escrito a partir das experiências de Mürger como um escritor pobre vivendo na Paris de meados do século XIX. A obra inspirou a famosa ópera La Bohème ("A boêmia"), de Puccini. No sentido dado ao termo por Seigel, portanto, os termos boémia e dândi se aproximam. O movimento boêmio se iniciou em Paris no final do século XVII e alcançou seu auge no início do século XX. Ele notabilizou lugares da cidade como Montmartre, o Moulin Rouge, o café d'Harcourt, a rua de Tour d'Auvergne, a rua dos Mártires e o cais das Flores.

No Rio de Janeiro do século XIX, a experiência boêmia carioca vinculava-se imediatamente à experiência da boêmia de Paris, surgida no contexto das revoluções de 1848. "Boêmia" se torna sinônimo da vida que levavam os jovens intelectuais e artistas sem fortuna, num momento histórico que, também nos trópicos, é marcado por grandes transformações sociais, políticas e estéticas.[7]

Localidades boêmias[editar | editar código-fonte]

Ao longo da história, vários bairros e cidades adquiriram a reputação de serem boêmios, no sentido de abrigarem moradores com um estilo de vida alternativo:

Europa
Estados Unidos
Canadá
Brasil
Peru
Chile
Argentina
Austrália
Nova Zelândia

Referências

  1. O Dicionário Houaiss registra a forma 'boemia' como "menos correta e mais usada que boêmia" (no Brasil). Da mesma forma, no Dicionário Aurélio (1ª edição), a forma 'boemia' é citada como sendo muito comum no Brasil, embora não oficial. Atualmente, as duas formas, 'boêmia' e 'boemia' estão incluídas no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL.
  2. FERREIRA, A. B. H. Novo dicionário da língua portuguesa. 2ª edição. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 1986. p. 268.
  3. Harper, Douglas (November 2001). «Bohemian etymology». Online Etymology Dictionary. Consultado em 2008-12-27. 
  4. Luiz Antonio Sacconi, Mini-Dicionário Sacconi, p.108
  5. SEIGEL, Jerrold. Paris boémia: cultura, política e os limites da vida burguesa. 1830-1930. Porto Alegre: L&PM, 1992, p. 19-20
  6. NUNES, Elton; MENDES, Leonardo, p. 2.
  7. NUNES, Elton; MENDES, Leonardo. O Rio de Janeiro no Fim do Século XIX: Modernidade, Boêmia e o Imaginário Republicano no Romance de Coelho Neto, p.1
  8. Melhores destinos. Disponível em http://guia.melhoresdestinos.com.br/vida-noturna-de-barcelona-156-1742-p.html. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  9. O Globo. Disponível em http://oglobo.globo.com/boa-viagem/um-roteiro-noturno-pela-movida-boemia-de-madri-do-mercado-san-miguel-calle-de-las-huertas-2837865. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  10. Gair, Christopher. "The American Counterculture". Edinburgh University Press, 2007, p.25
  11. Goldfield, David. "Encyclopedia of American Urban History". Sage Publications, 2006, p. 85.
  12. Gair, Christopher. "The American Counterculture". Edinburgh University Press, 2007, p.30
  13. Lindsley, Stephen. «Carmel Bohemians». Consultado em August 10, 2012. 
  14. «Tiburon». About Marin County. Marin Convention & Visitors Bureau. Consultado em March 9, 2010. «Main Street is known as "Ark Row" because of the 1890s recreational houseboat lifestyle enjoyed in Belvedere Cove by sea captains, Bohemian artists, and summer residents from San Francisco. In winter, the arks anchored in the lagoon. After 1900, the craze for arks waned.» 
  15. Perry, Douglas (2010). The Girls of Murder City (New York: Penguin Group /Viking Press). pp. 138–141. ISBN 978-0-670-02197-0. 
  16. Rio de Janeiro Aqui. Disponível em http://www.riodejaneiroaqui.com/portugues/lapa.html. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  17. O Globo. Disponível em http://oglobo.globo.com/boa-viagem/na-vila-madalena-bairro-mais-boemio-de-sao-paulo-ate-mercearia-tem-boa-cerveja-3017194. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  18. Cup of Things. Disponível em http://cupofthings.com/barranco-lima/. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  19. Viagens e Diversão. Disponível em http://viagensediversao.com/bairro-bellavista-o-centro-boemio-de-santiago/. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  20. Fabuloso destino. Disponível em http://www.fabulosodestino.com.br/blog/buenos-aires-para-boemios/. Acesso em 10 de dezembro de 2016.
  21. Ashworth, Susie (2004). Western Australia Lonely Planet [S.l.] 
  22. Loudon, Annette (1 January 2007). «Indie Sydney». Rightround. 
  23. Bonner, Raymond (23 September 2007). «Australia’s Bohemian Heart». The New York Times. 

Ligações externas[editar | editar código-fonte]